O fim

Por Alenka Zupančič, via Provocation Books, traduzido por Daniel Alves Teixeira

Uma maneira de abordar algumas das importantes questões importantes em jogo no livro de Frank Ruda “Abolishing Freedom” seria fazer a pergunta da relação entre repetição e fim. A repetição é uma noção filosófica vasta e complexa; é também um dos “quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, como sugere o título do famoso seminário de Lacan. Os tópicos do fim (de muitas coisas, como a arte e a história, bem como as expectativas apocalípticas ainda mais radicais, incluindo a de uma “extinção total”) também têm ressonâncias filosóficas (e psicanalíticas) fortemente carregadas. Tendo isso em vista, nossa pequena tentativa de falar aqui de sua relação – e para falar dela de uma maneira um tanto quanto anedótica – não pode se dar senão como comédia. Que assim seja. O texto que se segue não é um comentário sobre o livro de Ruda. É mais como um leve acompanhamento filosófico ao trabalho de Ruda, conectando e dialogando com algumas de suas conclusões, especialmente concernindo ao fim da repetição e à repetição do fim. É um sinal de um grande texto quando se obtém todos os tipos de (outras) ideias enquanto se lê ele. O que se segue é uma exposição de algumas das ideias que tirei da leitura do livro de Ruda.


Uma relação inerente entre a repetição e o fim existe em muitos fenômenos de repetição, e de fim. O fim não é simplesmente aquilo que termina com a repetição (ou com a perpetuação repetitiva de algo), mas é essencialmente implicado na (ou perpetuado pela) repetição em si. Vamos começar olhando para duas modalidades de uma relação inerente entre repetição e fim. As duas modalidades não são de forma alguma exaustivas dessa relação, mas é provável que sejam as mais comuns. A primeira pode ser colocada sob o seguinte título:

“Eu posso acabar com isso sempre que quiser!”

Provavelmente estamos todos familiarizados com este tipo de configuração onde a possibilidade de terminar o que estamos fazendo é a própria condição de sua repetição. Seja um relacionamento (e suas cenas ou dificuldades recorrentes) ou um (mau) hábito, “não ter a força/vontade de terminá-lo” está estritamente correlacionado com a possibilidade de terminá-lo, interrompê-lo. Possibilidade é o termo crucial aqui. É ele precisamente o que nos permite não agir (não terminar com isso, no nosso caso). Por que incomodar-se agora? Isto pode esperar. A possibilidade é suficiente. Um bom exemplo cômico desta lógica é fornecido em um dos episódios do “Monty Python”, “The Meaning of Life”. O episódio começa com a famosa canção “Cada esperma é sagrado”, interpretada por uma família católica com um número comicamente enorme de crianças. A perspectiva então se desloca para um casal protestante observando-os através da janela e comentando sobre esses “católicos sangrentos”, como o marido coloca. “Mas por que eles têm tantos filhos?” Pergunta a esposa. “Porque cada vez que têm relações sexuais, eles têm que ter um bebê.” A esposa está confusa: “Mas é o mesmo conosco. Nós temos dois filhos, e tivemos relações sexuais duas vezes. ” “Esse não é o ponto”, retruca o marido, “nós poderíamos fazê-lo quando quisermos”. A cena continua e o marido se vangloria de como sua religião lhes permite usar preservativos, mesmo aqueles que aumentam o prazer. “Você tem um?”, pergunta a esposa: “Bem, não, mas eu posso descer a rua a qualquer hora que quiser, entrar no Harris, manter minha cabeça erguida e dizer em uma voz forte e firme: – Henry, quero que me venda um preservativo. Na verdade, hoje eu vou ter um tickler francês, porque eu sou um protestante! “” Bem, por que não então? “, a esposa está curiosa …

Seguindo a mesma lógica, a possibilidade de terminar (parar com) algo pode ser precisamente o que nos faz envolver-se com ela e perpetuá-la. E, é claro, o fato de que o fim está estruturado aqui como uma possibilidade torna essa interrogação parte de uma maior. Nomeadamente e precisamente o que Ruda toma em relação à questão da liberdade: a liberdade como possibilidade, como potencialidade, como capacidade (exemplificada na liberdade de escolha), é o melhor antídoto para a liberdade real. A liberdade (como possibilidade/capacidade) se tornou um significante da opressão, que Ruda propõe combater com “fatalismo cômico”. Ele formula vários slogans desse fatalismo, alguns dos quais evocam diretamente a ideia do fim: eles sugerem que uma saída para essa liberdade-como-opressão é agir como se o fim já tivesse acontecido (“Aja como se o apocalipse já tivesse acontecido!”, ” Aja como se estivesse morto! “, ” Aja como se tudo estivesse sempre-já perdido!”). Então, se você quiser acabar com um relacionamento ruim, aja como se você já terminado com ele. Ou, aqui isso funciona ainda melhor: se você quiser parar de fumar, aja como se já tivesse parado. (E declare, “retroativamente”, que o cigarro que você fumou há meia hora foi de fato o seu último cigarro …) O problema, entretanto, que talvez merecesse mais atenção, diz respeito à modalidade als ob (como se), e suas limitações. Esta famosa modalidade kantiana tem suas próprias armadilhas, razão pela qual, em sua ética, Kant teve que complementá-la com a pura referência tautológica ao dever como provendo o (único) incentivo. Em outras palavras, e colocando-o muito simplesmente: enquanto a fórmula als ob nos diz como agir, ela fica aquém de fornecer o “empurrão” (Triebfeder) que poderia de fato tornar praticamente possível para nós agir desta maneira. Uma vez que eu efetivamente ajo como se eu já tivesse parado (de fumar), o caso está indiscutivelmente ganho, mas a questão permanece: como eu realmente começo a agir como se eu já tivesse parado? Parece haver uma pequena lacuna aqui, mas significativa…

Além disso, ao acentuar o modo de “possibilidade” (potencialidade) como o principal problema neste tipo de configuração, devemos ter o cuidado de acrescentar e enfatizar o seguinte: uma vez que a possibilidade entra no jogo e estrutura-o, deve-se resistir a entender ou apresentar a questão simplesmente nos termos de possibilidade versus realidade (ação real), isto é, em termos da oposição entre uma possibilidade e sua realização. Pois é exatamente assim que a liberdade como a opressão funciona na prática. Ela funciona seguindo a lógica do superego, mais concisamente definida por Žižek como a inversão do kantiano “você deve, portanto você pode” em “você pode, portanto você deve.” As possibilidades estão aqui para serem tomadas, realizadas, por todos os meios e a qualquer preço. Você pode fazê-lo, portanto você deve! A cultura (e a economia) das possibilidades não é sufocante simplesmente porque há tantas possibilidades, mas porque supõe-se que não devemos perder nenhuma delas. Uma pessoa que apenas senta em casa, saboreando a ideia de todas as possibilidades e oportunidades que o capitalismo tem para oferecer e não fazendo nada para realizá-las não é o tipo de pessoa que este sistema precisa. O que se espera que façamos é realizar tantas possibilidades quanto possível (agir), mas nunca questionar o quadro dessas possibilidades como possibilidades. Que é precisamente onde a liberdade “real” tem de ser situada: não apenas na realização real das possibilidades, mas em (“desparafusar”) o próprio quadro baseado na ideia de liberdade como possibilidade a ser realizada. Ruda torna este ponto muito claro.

E para torná-lo ainda mais claro, nós devemos talvez acrescentar que o casal protestante de The Meaning of Life certamente não são consumidores ideais, e eles não estão (ainda) presos no imperativo superegoico de gozo. O que eles expõem, e a nossa reação a eles, é precisamente o risco de uma rápida conclusão que consolida a lógica “capitalista”. A saber, a seguinte conclusão: se eles agissem sobre essas possibilidades que têm, seriam realmente livres. O que naturalmente não é o caso. Em outras palavras, o problema não é que eles não agem, embora pudessem, mas antes que se eles agissem esse ato já teria sido apanhado numa inexorável lógica de liberdade como realização de possibilidades – uma lógica sobre a qual eles (e sua “liberdade”) têm pouquíssima influência. Mas seu exemplo funciona em primeiro lugar para ilustrar a lógica da relação entre repetição e fim com a qual começamos: eles podem seguir praticando seu Puritanismo porque acreditam que que podem acabar com ele sempre que quiserem…

Voltemos então ao início dessa digressão, à economia (economia psicológica, “pequenos arranjos em si mesmo”) que trabalha entre a repetição de algo e a possibilidade de terminar com ela. Porque há claramente uma economia aqui, uma economia que me permite, por exemplo, continuar a fumar, enquanto a possibilidade de parar está aqui somente para me ajudar a fumar. Quantas pessoas começariam a fumar se o estado, em vez de colocar advertências, ameaças e imagens repugnantes em maços de cigarros, passasse uma lei afirmando que se você começar a fumar, você não tem permissão para parar? Nunca. Uma vez que você começa, você se compromete com ele pela vida toda. A estrutura com a qual estamos lidando neste primeiro modo de relação entre repetição e fim poderia então ser definida da seguinte forma: estamos infinitamente aproximando o fim como o limite (adiando-o); contudo esse limite não está simplesmente lá, no fim de tudo isso, como parece ser, mas é também – como possibilidade, potencialidade – a própria pré-condição do movimento de repetição, aquilo que de certa forma a estrutura … É também o que nos compra a liberdade de gozar o que estamos fazendo. Ele também estrutura o prazer de terminar com ele. Pois não devemos esquecer que o gozo aqui não está simplesmente do lado do fumar; é, ao menos um tanto, o gozo no adiamento do fim (como um gozo absoluto). Então, existe uma economia em jogo aqui, mas não é o único tipo. O outro modo de relação entre repetição e o fim é talvez ainda mais interessante, e podemos colocá-lo sob o seguinte título:

“Esse é o fim. Essa é a última vez que eu faço isso”.

Para exemplificar essa lógica (bem como algumas outras coisas, algumas diretamente relacionadas à questão da “abolição da liberdade”), deixe-me introduzir uma referência literária: um romance de Italo Svevo, La conscienza di Zeno (A consciência de Zeno, escrito em 1923). Svevo (o pseudónimo de Aron Ettore Schmitz) era um escritor e um homem de negócios italiano vivendo em Trieste, e também um amigo próximo de James Joyce (que é na verdade responsável pela merecida fama do romance de Svevo, que passou despercebido quando publicado).

A Consciência de Zeno descreve maravilhosamente outro possível tipo de economia em jogo na relação entre repetição e fim. A palavra-chave aqui – para continuar com o exemplo dos cigarros, que também estão no centro do romance – não é “algum dia (somente não agora), vou parar de fumar”, mas “este cigarro aqui e agora é o último cigarro que vou fumar “, the ultima sigaretta. (E, como observa Zeno, para melhor ressaltar a própria determinação interior, prefere-se acabar com o fumo junto com o fim de alguma outra coisa: por exemplo, o mês, o ano. Existe assim uma interessante dimensão de repetição pertencente ao término ou ao fim em si mesmo.)

Obviamente, nada parece tão bom quanto o ultima sigaretta. Aqui estão as reflexões de Zeno sobre isso, onde ele também a compara com o outro modo da relação entre fumar e parar (parar como uma possibilidade futura):

“Eu acredito que o gosto de um cigarro é mais intenso quando ele é o seu último. Os outros, também, têm um gosto especial, mas menos intenso. O último ganha sabor do sentimento de vitória sobre si mesmo e a esperança de um futuro iminente de força e saúde. Os outros têm a sua importância porque, ao acendê-los, você está proclamando a sua liberdade, enquanto o futuro da força e da saúde permanece, apenas se afastando um pouco mais.”[1]

O fato de que é o “último cigarro” acrescenta algo ao seu gosto. Faz dele o melhor cigarro de sempre, e faz você realmente apreciá-lo. Então a ideia (ou ideal) seria pensar em cada cigarro que você fuma como o seu último, e apreciá-lo em conformidade. No entanto, e aqui está o ponto, para que esta estratégia funcione, você realmente tem que acreditar que este é o último, que este É o fim. Em outras palavras, você tem que ser um neurótico (como Zeno, o personagem principal do romance, certamente é), e a economia em jogo aqui não é a de pequenos arranjos em si mesmo. Em termos de economia do gozo, você não pode ajudar a si mesmo aqui agindo como se este fosse o seu último cigarro. Você não pode dizer a si mesmo: “Eu vou agir como se este fosse o meu último cigarro, e desta forma eu vou conseguir apreciá-lo mais.” Você quer parar; você faz tudo em seu poder para parar (e Zeno realmente chega a alguns extremos aqui, incluindo sequestrar a si mesmo e trancar-se em um hospital); mas você acaba acumulando um último cigarro após o outro, isto é, você acaba repetindo infinitamente o fim – e gozando disso, ainda que contra a sua vontade. Estritamente falando, a economia aqui é a economia inconsciente, ou, ainda mais precisamente, é a economia do inconsciente.

Não é de admirar, então, que A consciência de Zeno seja realmente um romance “sobre” psicanálise. O romance consiste nas memórias de Zeno, em que sua obsessão por fumar e estar em análise por isso desempenham um papel proeminente. Como lemos no “Prefácio”, supostamente escrito por seu analista a quem Zeno enviou suas memórias em algum momento, o analista decide publicar as memórias “em vingança”, porque Zeno suspendeu seu tratamento.

Diferentemente da configuração anterior, na qual o fim (como possibilidade) era inerente à repetição, o que está em jogo aqui é, ao em vez disso, que a repetição é inerente ao fim; há algo sobre o próprio fim em si mesmo que impulsiona a repetição, e a repetição é essencialmente repetição do fim.

Então, ao olhar para a repetição a partir dessa perspectiva, nós acabamos com dois tipos de fins: o fim que está se repetindo (e portanto é um com a repetição), e o fim que poderia eventualmente pôr fim a essa repetição (do fim).

Parece que há um fim em ambos os lados da repetição; e que há repetição de ambos os lados do fim, já que pôr um fim à própria repetição (como repetição do fim) não só significaria pôr fim a este (repetido) fim, mas também equivaleria repetir este fim, “alcançá-lo”, por assim dizer.

Por meio de uma pequena digressão, não poderíamos dizer que os enredos da famosa tese hegeliana sobre o “fim da arte” está estruturada precisamente seguindo esse modo de repetição, ou seja, como repetição incessante do fim? Em O homem sem conteúdo, Giorgio Agamben leva a sério a afirmação de Hegel de que a arte esgotou sua vocação espiritual e que já não é através da arte que o Espírito vem principalmente ao conhecimento de si mesmo.[2] Mas isso não quer dizer, ele argumenta, que Hegel proclamou a “morte da arte” (como muitas vezes isso é interpretado). Antes, ele proclamou a continuação indefinida da arte naquilo que Hegel chamou de modo “auto-anulador”. Essa continuação indefinida em um modo de “auto-anulação” na verdade corresponde perfeitamente ao que estamos descrevendo aqui como a repetição do fim. A arte termina, uma e outra vez, com cada (novo) projeto artístico significativo…

Mas vamos voltar para Zeno. Ele é bastante cético quanto a sua análise, sobre o que ela pode conseguir e como, assim como quanto ao seu psicólogo. No entanto este psicólogo parece ter encontrado pelo menos algumas coisas certas. Uma delas é que a doença de Zeno não era o fumo em si mesmo (como Zeno pensa), mas sua obsessão em acabar com ele (ou antes que fumar e parar são na verdade a mesma paixão para ele).

De modo que a verdadeira questão não é por que ele fuma tanto, mas antes: por que ele quer parar, “acabar com isso”, tão intensamente? O núcleo da patologia de Zeno (em toda a sua dimensão cômica) está aqui, e não simplesmente em seu hábito de fumar.

Então, em algum ponto, o psicólogo tenta uma nova estratégia, dizendo para Zeno que não há razão para ele parar.

“Estas são suas palavras: fumar não era ruim para mim, e se eu estivesse convencido de que era inofensivo, realmente seria assim. E ele foi mais longe: agora que o relacionamento com meu pai tinha sido revelado e sujeitado ao meu julgamento adulto, eu poderia perceber que eu tinha contraído esse vício para competir com meu pai; e atribuído um efeito venenoso ao tabaco graças ao meu inconsciente sentimento moral que queria punir-me pela minha rivalidade com ele.

Naquele dia saí da casa do doutor fumando como uma chaminé.”[3]

Assim o psicólogo lhe ofereceu uma explicação completa de porquê Zeno pensa que fumar é tão ruim para ele, mas o ponto que eu gostaria de enfatizar é que a sugestão do psicólogo (que fumar não é ruim para ele) visa perturbar ambas as possíveis economias envolvidas na relação entre repetição e fim que estamos discutindo aqui. Não só a urgência, o imperativo de parar imediatamente, mas também a perspectiva da possibilidade de parar em algum ponto posterior. O que ele impõe a Zeno com a sua intervenção é a absoluta liberdade de fumar que elimina não só o imperativo de parar, mas também a causa que estrutura o quadro do fumo nos termos da possibilidade de parar com ele. Sem fim à vista, sem fim para repetir, nem para se aproximar infinitamente. Porque um fim afinal? Isso muda a configuração radicalmente e, como poderia ser esperado, afeta Zeno de uma maneira ruim. Ele continua fumando como uma chaminé por um tempo, e então conclui: “a liberdade de fumar sempre que eu queria finalmente me deprimiu totalmente. Eu tive uma boa ideia: fui ao Dr. Paoli. “[4] (Dr. Paoli é um doutor “verdadeiro “, um médico, e Zeno quer desesperadamente que ele encontre alguma causa física para seu estado neurótico, uma doença real ao invés de uma imaginária, como ele diz).

O Dr. Paoli não é de muita ajuda. Ele não encontra nenhuma doença física que poderia aliviar Zeno. Mas então – para cortar uma longa história – Zeno finalmente encontra um caminho para sair de sua provação: ele nunca retorna à análise, e portanto efetivamente a termina. Não de nenhuma maneira solene; ele apenas posterga ir para ela. E depois de um tempo, ele percebe que a terminou. Ao fazer isso, ele também para de fumar: “Eu finalmente conseguiu retornar aos meus doces hábitos, e parei de fumar. Eu já estou muito melhor desde que consegui abolir a liberdade que o insensato médico decidiu me conceder”.[5] Aqui a temos literalmente: “abolir a liberdade” pode ter um efeito bastante libertador, e este é realmente um exemplo muito bom que deve-se adicionar à lista de Ruda! O que também é interessante neste ponto do texto de Zeno é a implicação de que só se pode abolir a liberdade que é formulada em relação a uma determinada situação (e situações concretas). Em outras palavras: a liberdade abstrata que nos inibe deve primeiro encontrar uma formulação concreta que efetivamente a realize, e somente essa rejeição de uma forma concreta (encarnada) da liberdade abstrata pode eventualmente nos colocar no caminho de uma liberdade concreta. Não chegamos à liberdade concreta simplesmente rejeitando/abolindo a liberdade abstrata, mas dizendo não à uma existência concreta desta liberdade abstrata. A sugestão do psicólogo (“você é livre para fumar”) expõe de forma eficaz os limites da liberdade abstrata neste caso: a impossibilidade mascarada pela (falsa) alternativa, ou escolha, entre fumar e não fumar. Pois essa escolha claramente não é o que está em jogo para Zeno: ele está repetindo o próprio fracasso dessa alternativa em captar o que está em jogo. O imperativo de fumar e o imperativo de parar de fumar vêm da mesma fonte, do mesmo lugar estrutural, e eles efetivamente protegem um ao outro (e sustentam o núcleo ativo da repressão). De modo semelhante a liberdade abstrata como liberdade de escolha é a própria forma de existência de um imperativo: por exemplo, a liberdade de escolher entre diferentes produtos diferentes é a forma de existência do imperativo de comprar…

No fim das contas, Zeno acredita que não foi a terapia mas o fato de que ele terminou como ela que finalmente o curou. E ele tem toda a razão. No entanto, longe de lançar uma luz dúbia sobre a prática da análise que levou a este fim, o fato de que ele foi milagrosamente curado no momento em que ele parou de ir à análise é talvez antes uma amostra de uma análise bem sucedida. Essa seria, ao menos, uma leitura possível. Pois não poderíamos dizer que a obsessão de Zeno com o fim (a ideia de que ele tem que parar de fumar – que, e não o próprio tabagismo, era o núcleo de sua patologia) foi transformada com sucesso em neurose de transferência? Esta última é definida por Freud como uma doença artificial que ocorre como uma continuação direta da doença “inaugural”, com todas as características da doença inaugural, exceto que – uma vez que ocorre nas condições de transferência e em relação ao analista – é inteiramente acessível às intervenções analíticas.

Em algum momento, Zeno realmente formula o fato de que ele entrou na neurose de transferência. Carregado da dúvida de que, depois de passar muito tempo em análise, ele ainda não está nem um pouco mais perto da saúde, ele escreve: “Para dizer a verdade, acredito que, com a ajuda do psicólogo, ao estudar a minha consciência, eu introduzi algumas doenças novas nela. “[6]

De fato, é bem isso mesmo, mas é exatamente o que se supõe deva acontecer. E é mais fácil livrar-se desta nova doença, porque de fato podemos intervir nela. Ao fazê-lo com eficiência, porém, a doença inaugural também desaparece, ou perde o seu fundamento. Esta – ao menos, e de forma grosseira – é a teoria. E isso parece ser o que acontece com Zeno: ele para/termina sua análise e, como que naturalmente, ele também para de fumar (ou melhor: ele para de terminá-lo, e portanto deixa de fazê-lo). Ao terminar sua análise Zeno literalmente repete o fim (ao repetir seu modelo artificial); ele repete o “outro” fim, o fim que ele continuava repetindo sem repeti-lo, o fim que ele continuava repetindo “em vão”.

Ele para de fumar parando com outra coisa (à qual sua paixão pelo fim passou a estar ligada). Ele não poderia tê-lo terminado diretamente, simplesmente “realizando completamente” sua tentativa original de terminá-lo …

Zeno só foi capaz de “abolir a liberdade que o insensato doutor decidiu lhe conceder” rejeitando, jogando fora o gozo que o vincula ao imperativo (tanto de fumar como para parar). O doutor desassociou com sucesso esse gozo da díade significante (fumar/parar) que a sustentava, e que se tornou a encarnação desse gozo, e portanto de sua recusa.

Colocado dessa forma, isso soa bastante parecido com a bem conhecida comparação de Lacan da posição do analista com a de um santo:

“A ocupação de um santo, para ser claro, não é caritas. Pelo contrário, ele age como lixo [déchet]; Seu negócio é dejeto [il décharite]. Isso de modo a encarnar o que a estrutura implica, ou seja, permitir que o sujeito, o sujeito do inconsciente, tome a si como causa do próprio desejo do sujeito. Na verdade, é através da abjeção desta causa que o sujeito em questão tem uma chance de estar ciente de sua posição, ao menos dentro da estrutura. […] o santo é a recusa do gozo.”[7]

Entretanto.

Entretanto, as memórias de Zeno continuam, e a parte conclusiva (a última entrada) introduz uma nova perspectiva, que nos força a perguntar se esta é realmente a leitura correta, ou se antes a conclusão que Zeno faz de sua análise foi uma amostra de “passagem ao ato”, e não de uma análise bem-sucedida? Nesse caso, o analista estaria muito certo ao insistir que a análise foi apenas interrompida e de nenhuma forma concluída. (Ele está tentando atrair Zeno, um empresário, de volta à análise com uma proposta de negócios: se Zeno retornar à análise, ele está disposto a compartilhar com ele os “lucros pródigos” que ele espera fazer com a publicação das memórias de Zeno …)

A que se refere o conceito de passagem ao ato? Ele se refere à forma pela qual o sujeito encena, performa, o núcleo de seu sintoma de forma flagrante, mas sem perceber isso. Em um de seus ensaios, Lacan dá um ótimo exemplo de passagem ao ato envolvendo um paciente cujo analista está convencido de que ele acabou de curar com sucesso o paciente de sua obsessão por plágio, ou seja, roubar as ideias de outras pessoas, simplesmente oferecendo sua explicação. O paciente reagiu a esta explicação com a seguinte observação:

“Todo meio-dia, quando saio daqui, antes do almoço, e antes de retornar ao meu escritório, caminho pela Rua X (uma rua bem conhecida por seus pequenos mas atraentes restaurantes) e olho para os menus nas janelas. Em um dos restaurantes eu costumo achar meu prato preferido – cérebro fresco. “[8]

O fato de aqui o sujeito não “ouvir” nada do que ele está dizendo claramente indica para Lacan que o núcleo da repressão permanece plenamente operacional. E, de fato, a parte conclusiva das memórias de um agora supostamente curado Zeno contém uma configuração muito semelhante.

Zeno reflete sobre a vida em geral e sobre a direção que está seguindo, e ele prevê que a doença e os doentes irão prosperar e florescer com a ajuda de “dispositivos” (existentes fora do nosso corpo). Os dispositivos, ele escreve, são comprados, vendidos e roubados, e o homem torna-se cada vez mais astuto e mais fraco. Seus primeiros dispositivos pareciam ser extensões de seu braço e não podiam ser eficazes sem sua força; mas, agora, o dispositivo não tem mais nenhuma relação com o membro. E é o dispositivo que cria a doença, abandonando a lei do mais forte, e assim “nós perdemos a seleção saudável”. Zeno continua sugerindo que seria preciso muito mais do que a psicanálise para curar esta doença. Na verdade, seria preciso nada menos que uma catástrofe inaudita, seria necessário nada menos que o fim do mundo. Este é o parágrafo conclusivo do romance:

“Talvez, através de uma catástrofe inaudita produzida por dispositivos, nós voltemos à saúde. Quando os gases venenosos já não são suficientes, um homem comum, no segredo de uma sala neste mundo, inventará um explosivo incomparável, em comparação com o qual os explosivos atualmente existentes serão considerados brinquedos inofensivos. E outro homem, também comum, mas um pouco mais doente do que outros, roubará este explosivo e subirá no centro da terra, para colocá-lo no local onde pode ter o máximo efeito. Haverá uma enorme explosão que ninguém ouvirá, e a terra, mais uma vez uma nebulosa, vagará pelos céus, livre dos parasitas e da doença.”[9]

Isso, de fato, é um exemplo de passagem ao ato em relação à obsessão inaugural de Zeno com cigarros, doenças e saúde. (E o fato de que ele pode estar certo, no plano factual, não muda nada quanto a isso.) A obsessão de Zeno com a saúde, a doença e o fim reaparece aqui em uma escala totalmente nova. O que é particularmente interessante sobre essa conclusão, no entanto, é o quão perfeitamente ela ressoa com muito do que poderíamos chamar de “clima intelectual” de nossos tempos. O tema do fim, da extinção total, ou pelo menos do desaparecimento do que chamamos seres humanos, tem uma presença imponente. O fato de que há causas reais de preocupação aqui (se preocupação é) de modo algum contradiz o caráter fantasmático de muitas dessas representações do fim. O que eu quero dizer com isto é que a ideia de até mesmo o mais radical, definitivo, irreversível Fim serve como um quadro através do qual contemplamos (e interpretamos) a nossa realidade presente; e ele muitas vezes serve como meio de sua consolidação ideológica. Serve, em primeiro lugar, para nos dar uma ideia do quanto é necessário para mudar a nossa realidade presente, ou seja, fornece uma resposta espetacular à pergunta: O que tem de acabar para que nossos problemas atuais acabem? E a partir daí, podemos ter a nossa escolha: podemos decidir tanto que preferimos não mudar nada (uma vez que a mudança e a catástrofe são uma e mesma coisa), ou então podemos encontrar consolo no fato de que “todos serão levados” de qualquer maneira (por esta catástrofe). E então algo novo talvez possa começar – essa é a reviravolta “otimista”, a linha prateada no horizonte dos cenários de catástrofe como possíveis cenários de emancipação.

Na introdução de seu livro, Ruda evoca a sugestão de Fredric Jameson de que as pessoas de hoje podem imaginar mais facilmente a Terra sendo atingida por um cometa do que uma transformação radical das coordenadas fundamentais (sociopolíticas, mas também econômicas) de nossa vida cotidiana. As coisas nunca vão mudar de dentro, apenas uma catástrofe radical pode nos salvar de nós mesmos. E é também por isso que existe uma ambivalência significativa em torno das expectativas de tal fim, e muitos optam por animar a perspectiva de algum tipo de catástrofe, a perspectiva de extinção total.

Talvez seja aqui que devemos aplicar plenamente o princípio e fórmula engenhosa de Ruda e dizer: Mas espere, isso já aconteceu (pelo menos uma vez)! Não precisamos nem mesmo fingir (agir como se) já tivesse acontecido. A Terra foi uma vez uma nebulosa, completamente livre de doenças e de seres humanos e de seus problemas e dispositivos – e veja para onde isso a levou! Em outras palavras, esse cenário apocalíptico, essa perspectiva de “extinção radical”, talvez não seja muito otimista?

E se de fato nada, nem mesmo a perspectiva da extinção total, pode garantir uma saída? Não há garantia de que esse cenário não possa ser repetido ou que, na verdade, o que estamos vivendo hoje já não é uma repetição ….

Dizer que, em muitas vezes, a perspectiva de uma catástrofe é um cenário típico de fantasia, não significa que a catástrofe é uma fantasia. Em outras palavras, temos que distinguir a possibilidade real de que tudo acabará em algum tipo de catástrofe planetária do final de nossos problemas atuais como uma (futura) possibilidade.

De forma muita parecida com Zeno, parece que estamos delegando a mudança, o fim de nossos problemas, a outro Fim (que cuidará de tudo de uma só vez). Com certeza, este tipo de “orientação no pensamento” deve ser levado muito a sério, pois é um sintoma real, um sintoma da impotência absoluta que experimentamos como sujeitos sociais e políticos para intervir no curso dos eventos e na sua estruturação. Esta impotência é bastante real, e certamente não tem a ver com sermos demasiado “preguiçosos” para realmente fazer algo sobre isso, aqui e agora. Mas o fato de que essa impotência é real (e estrutural) não deve deixar-nos confundi-la com o tipo de necessidade estrutural que só poderia ser tratada sob a forma do fim de tudo.

Então talvez possamos concluir acrescentando à lista de Ruda de atitudes “comicamente fatalistas” outra:

O mundo certamente irá acabar, mas isso não será o fim de nossos problemas.


[1] 1 Italo Svevo, Zeno’s Conscience, trans. William Weaver (New York: Vintage Books, 2003), 12

[2] Giorgio Agamben, The Man Without Content, trans. Georgia Albert (Stanford: Stanford University Press, 1999)

[3] Svevo, Zeno’s Conscience, 412.

[4] Svevo, Zeno’s Conscience, 414

[5] Svevo, Zeno’s Conscience, 418.

[6] Svevo, Zeno’s Conscience, 417.

[7] Jacques Lacan, Television, ed. Joan Copjec (New York: Norton, 1990), 16.

[8] Jacques Lacan, “Response to Jean Hyppolite’s Commentary on Freud’s ‘Verneinung’,” in Écrits: The First Complete Edition in English, trans. Bruce Fink (New York: Norton, 2006), 331.

[9] Svevo, Zeno’s Conscience, 437.

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