Alain Badiou: O Estado

Por Andrew Robinson, via Ceasefire, traduzido por Daniel Fabre

Neste exame do trabalho de Alain Badiou, Andrew Robinson explora um importante aspecto da ontologia do autor, central para seus escritos políticos: o Estado, Robinson explica porque o conceito de estado de Badiou é tanto político quanto ontológico, explica porque o estado é inimigo do Evento, e porque Badiou deseja – e algumas vezes se sinta incapaz de – clamar pela destruição do estado.


Badiou, o Estado, e o ‘Estado da Situação’

Como convém a alguém enraizado na política de vanguarda, a relação de Badiou com o estado sempre foi – e ainda é – ambígua. Historicamente, ele viu a destruição do estado como um dos principais objetivos do movimento comunista. Mas ele também apoiou grupos maoístas que buscavam o controle do poder do estado para superá-lo “dialeticamente”. Ele abertamente se opôs aos que desejavam destruir o estado de uma só vez. Quando a Revolução Cultural foi finalmente reprimida pelo exército, com o encorajamento de Mao, a China retornou ao modelo político burocrático que a trouxe atualmente para o neoliberalismo. Mas Badiou não tomou isso como uma evidencia contra sua confiança no estado. Ao invés, ele tomou isso como algo que jogou a questão da própria possibilidade de destruir o estado.

Nos recentes trabalhos mais conhecidos de Badiou, particularmente em Ser e Evento, a ideia do estado é mais complicada em virtude de uma divisão conceitual. A situação é organizada por algo chamado o “estado da situação”. Badiou usualmente o chama simplesmente de “estado”, o que causa alguma confusão. Algumas vezes ele se refere ao estado político, outras não. A concepção de Badiou aqui está em continuidade com o senso expandido do estado de Althusser, como em seu conceito de aparelhos ideológicos de estado.

O estado engloba todos aparelhos e instituições que reproduzem a ordem (ou significado, ou hegemonia). Isso inclui a estrutura dominante do discurso, incluindo também a ideologia dominante e as estruturas sociais que asseguram a ideologia. Dessa forma, mídia privada, escolas privadas, sindicatos, a estrutura familiar, universidades, identidades consumeristas e mais são todas partes do estado. Há também um “estado” nos campos das artes, ciência e amor, que é definido como a organização da situação. Nas artes e ciência, isso seria a dominância acadêmica ou a ortodoxia teorética. Por exemplo, a física newtoniana seria um “estado” corrompido pela física quântica como um ‘Evento’.

A relação entre o ‘estado da situação’ e o estado político na obra de Badiou é ambígua e movediça. Na maioria das vezes, Badiou intercala os dois termos. Ele efetivamente assume que o estado político sempre encena as funções de ordenação do “estado da situação” na esfera política.

De qualquer modo, mais recentemente, em Lógica dos mundos, Badiou substitui amplamente o termo “estado da situação” por “mundo”, como um nome para a ordem dominante de representação. Isso torna mais fácil separar o estado em seu senso usual do conceito que lida com a ordenação das situações. Em Ser e Evento, não há espaço para múltiplos mundos coexistirem. A estrutura singular da realidade é objetiva. Em Lógica dos mundos, há mais espaço para a possibilidade de coexistência de diferentes “mundos” que usam diferentes sistemas de contagem.

O Papel do Estado

Na verdade o “estado da situação” ou “mundo” é apenas uma forma de organizar a situação. É uma forma de preservar a ordem. A ordenação inicial da situação não é controlada pelo estado, em nenhum sentido. Essa ordem é um efeito da ‘conta-por-um’. Em outras palavras, há um princípio de estruturação que determina os elementos em uma situação, e esse princípio é mais profundo que o estado. O valor equivalente no capitalismo pode ser um exemplo de conta-por-um.

A situação em si mesma é uma ‘pura anarquia’. Mas está sobreposta por uma ‘conta-por-um’ que a faz compreensível. Há uma diferença radical entre os elementos em um espaço e o espaço no qual eles se dispõem. O espaço é sempre algo diferente, que funda a ordem dos elementos. O espaço é criado pela conta-por-um. A conta-por-um é como um nó, que fecha a situação em um ponto, e não em uma cadeia, que junta uma série conectada.

De qualquer modo, a ‘conta-por-um’ é instável. Na teoria de Badiou, há sempre pelo menos uma parte excluída (chegaremos a esse ponto mais adiante). E a parte excluída pode sempre irromper em revolta em algum ponto, porque a ordem da situação é arbitrária. Uma ordem social está sempre sob o risco de colapsar em uma falha da multiplicidade inconsistente, ou do caos.

O estado tenta evitar tal colapso através de uma segunda ordem estruturante da situação. Na primeira ordem estruturante, um número de elementos pertence a situação. Na segunda ordem estruturante, o estado tenta estruturar todas as possíveis relações entre os elementos. Isso é uma tentativa de incluir a ordem da situação em sua conta-por-um, ou de contar sua estrutura entre seus elementos. Se todas as relações entre elementos são ordenadas, então é menos provável que o caos ecloda.

Se pensarmos o estado capitalista aqui, a conta-por-um é a imposição do dinheiro como valor equivalente. Na conta de Badiou, isso não era feito pelo estado (‘acumulação primitiva’ aparte). Mas a ordem de valores equivalentes é rompida pela classificação anômala da força de trabalho como uma mercadoria. O trabalho é uma força irruptiva que assombra o capitalismo com o ‘espectro do comunismo’. Além disso, cada objeto em seu ‘valor de uso’ e em sua posição ecológica não é reduzível ao valor capitalista.

Então o capitalismo é rompido por tipos de relação ecológica e valorativa que lhe escapam, ou que o reproduzem em formas de alto controle – tradicional uso da terra, agricultura de subsistência, mercados negros, “direitos” e daí em diante. O estado capitalista tenta prevenir essa ruptura de duas maneiras. Ele classifica a força de trabalho como uma mercadoria normal, e tenta suprimir os Eventos que aparecem. Ele também tenta organizar, classificar e regular as relações entre objetos de forma que se tornem mais sistemáticos e de fácil controle. Por exemplo, ele aprova leis sobre o uso da terra que favorecem a agricultura comercial, ele cerca a terra, ele especifica tempos e espaços para certos tipos de troca, ele regula o sistema bancário, e etc.

Assim, há dois níveis de ordem em uma situação. ‘Apresentação’ ou ‘pertença’ vêm da conta-por-um. ‘Representação’ ou ‘inclusão’ vêm do estado da situação. Elementos normais da situação são tanto ‘apresentados’ quanto ‘representados’. Um banco, por exemplo, é tanto socialmente real quando legalmente reconhecido. Mas algo pode também ser apresentado sem ser representado, ou representado sem ser apresentado.

Badiou teoriza o estado em termos da teoria dos conjuntos. Se a situação é um ‘conjunto’, então o estado da situação é seu ‘conjunto das partes’. Isso significa que ele conta todas as possíveis relações ou combinações de elementos. Suponhamos, por exemplo, que uma sociedade, como um conjunto, contém três classes em que cada uma delas ‘conta por um’: proprietários de terra, camponeses e artesãos; O estado da situação (conjunto das partes) contém o seguinte: proprietários de terra; camponeses; artesãos; proprietários de terra + camponeses; proprietários de terra + artesãos; camponeses + artesãos; proprietários de terra + camponeses + artesãos; e o conjunto vazio (mais sobre o conjunto vazio adiante; ele é a parte excluída, que não contém nenhum dos três elementos contados/reconhecidos).

O estado da situação pode organizar cada uma das relações possíveis em uma ordem sistemática. A combinação de proprietários de terra + camponeses é regulada por leis sobre o aluguel, servidão ou sua abolição, e daí por diante; a combinação camponeses + artesãos é regulada por leis sobre quando camponeses podem se juntar em guildas, sobre preços reconhecidos pelo estado por vendas de grãos e similares. O estado é sempre ‘excessivo’ sobre a situação porque há mais combinações do que elementos. Há sempre muitas maneiras mais de representar elementos no estado da situação do que elementos na situação.

O estado tem o papel de criar uma ordem que classifica e nomeia elementos ou partes, e que os dá um lugar específico. Ele pode fazê-lo até certo nível entre elementos normais. Entretanto, o projeto é frustrado pela parte excluída. Não é possível para a parte excluída aparecer como um elemento na situação (porque ela não pode ser contada). Mas ela pode aparecer como uma parte ou subconjunto ‘inexistente’. Isso é o que ocorre em um Evento. O papel do estado é de assegurar que esta parte permaneça meramente “inexistente” e que não apareça.

De qualquer modo, um Evento é necessariamente oposto ao estado existente. O estado não quer que a parte excluída apareça. O estado organiza a situação normal para criar uma ignorância e inconsciência sobre o ‘vazio’ da situação: a parte excluída e a multiplicidade inconsistente que ela contém. Por extensão, ela também concerne à arbitrariedade da conta-por-um, a natureza decisionista da ordem social e a construtibilidade e contingência da situação.

Badiou usa isso para reforçar a inflexão da visão de Marx de que o estado está sempre a serviço da classe dominante. Para Badiou, o estado reorganiza a situação para reforçar a posição das partes dominantes, através do reforço da exclusão de outras partes.

Badiou distingue diferentes tipos de estado. Alguns – como o estado feudal e o stalinista – explicitamente privilegiam uma parte. Outros, como o estado liberal, incorporam uma perspectiva tendenciosa, elitista, ao invés de um reconhecimento explícito da dominação. O estado liberal assegura a dominação burguesa através do tratamento dos elementos (tais como os trabalhadores) enquanto mercadorias. Como resultado, Badiou diz, o estado liberal conta apenas capital. Trabalhadores são contados apenas como um tipo de capital (vivo, móvel, humano ou social). Por exemplo, o povo tem o direito aos benefícios apenas se o estado crê que eles farão o melhor de si para serem explorados com utilidade. Como nenhum estado, o estado liberal tenta defender a ordem social dominante contra qualquer ataque que atente contra sua forma de organizar as coisas.

Em essência, não há muita diferença entre o estado liberal e um totalitário ou absolutista. A exclusão da parte excluída não pode se desafiada enquanto se permanece em uma situação normal, ou “negócios como sempre”. Ou seja, quão aparentemente inclusiva a ordem existente parece ser.

Graus de Apresentação

Em Ser e Evento, essa conta é muito interessante – algo é representado ou não o é. Em Logica dos Mundos, a regulação dos mundos ocorre parcialmente em termos da mensuração dos graus de identidade e diferença entre os elementos. As coisas ‘existem’ (que significa ser auto-idêntico) em diversos graus, dependendo de como elas se relacionam com a conta-por-um (ou ‘transcendental’) de seu mundo. Os exemplos de Badiou se focam em elementos claros e vagos de pinturas. Grosso modo, quanto mais algo é do tronco do mundo, mais vago e menos bem-definida sua identidade é. Essa posição é um modo de ler situações como as possibilidades de um mapa.

Tomemos o caso de um sistema legal que assume um modelo ideal de um indivíduo racional e consciente. Nesse sistema, o corretor de ações teria um grau elevado de apresentação, porque ele/ela vive em um mundo que produz um sujeito que se conforma a essa presunção. Uma pessoa traumatizada de um bairro pobre, que não tem o mesmo grau de “conformação” com o modelo burguês de sujeito, teria um grau muito menor de apresentação como um indivíduo que tem direitos. Tal pessoa tem dificuldades em ser ouvido – eles não são ouvidos da mesma forma que o corretor de ações, e são tratados de forma mais displicente. Alguém cuja forma de pensar não se conforma à imagem de um indivíduo racional e consciente – como uma pessoa ‘psicótica’, ou alguém de uma cultura que não é reconhecida – teria um grau muito baixo de apresentação e basicamente não seria ouvido.

Então é improvável que o corretor de ações seja condenado, mesmo se ele/ela cause mal a alguém, e as leis nesta área teriam margem de manobra. A pessoa pobre seria julgada de forma muito mais severa, possivelmente fazendo más escolhas ou perdendo o controle (i.e. por ser mal em ser um indivíduo racional e consciente). Enquanto as ‘más escolhas’ do corretor de ações são entendidas de forma mitigada ou com escusa, as ‘más escolhas’ da pessoa pobre não são compreendidas, porque a pessoa pobre não é tão próxima do ideal de sujeito.

De modo similar, à pessoa psicótica podem ser negados direitos completamente, e presa simplesmente por ser psicótica, ou por ser um “risco”. Eles não seriam nem mesmo reconhecidos como sujeitos, mas, quando muito, como um “sujeito em potencial”, que deve ser coagido através de “tratamento” para se aproximar do modelo ideal. O que ocorre aqui é um tipo de injustiça que se ergue de graus de apresentação desiguais. Note-se que essa injustiça pode acontecer mesmo quando há uma ‘conta-por-um’ igual que, em princípio, trata a todos igualmente e que tem suas raízes em um Evento prévio revolucionário (a “revolução burguesa”).

Nos termos de Badiou, essa situação significaria que o corretor de ações tem um grau mais elevado de apresentação, a pessoa pobre tem um grau inferior de apresentação e o psicótico é “inexistente”, ou não é apresentado de forma alguma. Isso se relaciona com o quanto eles são socialmente reconhecidos – nesse caso, como o estado os trata. Mas isso também se relaciona com como eles são “auto-idênticos” no discurso dominante. Nesse discurso, as pessoas devem ser identificadas como indivíduos racionais e conscientes. O corretor de ações é apto a sentir-se uma pessoa plena desse modo. Alguém de um bairro pobre é dividido entre esse ideal que ele é e as realidades de dependência, trauma, reações emocionais com a pobreza, falta de escolhas significativas e daí em diante. Eles podem se tornar um tipo de pessoa “dividida”. A pessoa psicótica é incapaz de se identificar como uma pessoa no modo reconhecido pelo discurso dominante, ou podem fazê-lo somente de forma muito fraca. Isso é o porquê de Badiou ver a ‘apresentação’ como sendo também ‘existência’.

Pensemos também o que ocorre quando um ator com um alto grau de apresentação compete no sistema legal contra um ator com um grau menor de apresentação – um projeto de desenvolvimento de uma empresa contra uma comunidade local; um policial contra alguém que é pobre, negro, ou jovem; uma empresa ou um policial contra um ativista. Pensemos sobre algo como o caso de Trayvon Martin – um sujeito com alto grau de apresentação (Zimmerman) contra alguém com baixo grau (Martin). Pensemos também sobre as dificuldades que as cortes parecem ter em levar a sério certos tipos de estupro – particularmente se o estuprador for de “alta classe”, sujeito socialmente reconhecível e se o sobrevivente estuprado não o for.

Minha resposta emocional a esse tipo de conta é que Badiou está deixando as instituições fora do jogo, que ele está propondo certas estruturas de injustiça essencial a estrutura de qualquer situação – que minimiza o ultraje que a injustiça concreta pode causar. Esse tipo de desigualdade é um abuso do sistema legal, mesmo em relação a seus próprios ideais.

De qualquer modo, badiousianos reconheceriam tudo como injustiça. Mesmo que Badiou veja esse tipo de estrutura como algo necessário de qualquer situação, isso não significa que ele não possa reconhecer suas manifestações concretas como erradas, ou mesmo intoleráveis.

Parte do argumento de Badiou é que a injustiça que surge dos graus de reconhecimento não é simplesmente uma falha do estado em agir consistentemente. Então se minha analise acima está correta, então um argumento badiousiano concluiria que um Evento, ou mudança revolucionária, é necessária. As coisas não ficariam bem apenas se as pessoas pobres tivessem uma representação legal com igualdade, ou se juízes fossem mais permissivos em circunstancias. O problema está enraizado na ‘conta-por-um’. Para localizar a injustiça, seria necessário ter uma ‘conta-por-um’ completamente diferente. Isso, em troca, requereria uma erupção de grupos não representados, que então seriam elaborados em uma nova situação (mais sobre isso adiante).

O Estado e o Evento

Assim como ordena as possíveis combinações de uma situação, o estado também funciona para evitar Eventos através da repressão da parte excluída, mantendo-a invisível, ‘inexistente’ e politicamente ausente.

O estado existe para conter o excesso das partes sobre os elementos (i.e. a existência de uma parte excluída que não pode ser um elemento). Em algumas contas da teoria de Badiou, ele é até mesmo idêntico ao excesso. Isso, de acordo com Badiou, é o porquê do estado parecer incomensuravelmente excessivo em circunstancias normais (não eventais). (Pensemos em frases do tipo “não há alternativa”, “resistência é fútil”, “não há nada que possamos fazer sobre isso”, ou mesmo “a longa manus da lei”).

Em outras palavras, o estado parece ter tanto poder que não pode ser desafiado por nenhuma parte, ou grupo de partes. A apresentação que “não há alternativa”, que nenhum outro mundo é possível, é central para a preservação da estabilidade e normalidade social. Mas na teoria de Badiou, essa apresentação é em última instância falsa.

Uma tarefa central de qualquer revolta política é interromper essa apresentação de poder incomensurável, tornando o poder do estado em algo visível. Isso acontece, por exemplo, quando um movimento age de uma forma que o estado tenta reprimi-lo. Para Badiou, o movimento força o estado a mostrar suas mãos, o que faz seu poder ser calculável, e não incomensurável.

Revoluções e eventos são sempre dirigidos contra o estado existente da situação. Tais revoltas envolvem a organização do excesso da parte excluída em um ‘inconsistente’. O estado tenta reprimir, fechar, ou ocultar a parte excluída, enquanto um Evento a revela. Um Evento envolve a livre associação dos elementos, ao invés de uma ordem social integrada.

Pode o Estado ser Destruído?

Então Eventos são sempre direcionados contra o estado existente. Mas eles derrubam o estado por bem, ou eles apenas fornecem a base para substituir um estado por um outro?

Em seus primeiros trabalhos, Badiou viu a destruição do estado como um objetivo central do processo revolucionário. Hoje em dia, ele vê o estado como algo de certa forma inevitável. Mas Badiou ainda exclui o estado do campo do Evento subjetivo. Subjetividade, em política ou outros campos, tem de ocorrer com cerca distância do estado e podem mesmo criar um ‘contra-estado’. E Badiou ainda insiste que o pensamento deveria ser guiado pelo desejo de se livrar do estado, que ele diz ser um ‘excesso exorbitante’. Ele tenta libertar a política e o pensamento das amarras do estado e da conta-por-um dominante.

Entretanto, Badiou é crítico da visão de que a revolução envolva inventar ou regressar a formas não-estatais. Antes, a revolução desliga (dé-liaison) as conexões entre as partes que mantém a situação junta. Ela é antes decomposição do que composição.

Em Ser e Evento, Badiou ainda é crítico do estado. Mas ele agora escreve como se o estado fosse uma resposta primordial para o caos da falta-de-sentido e falha da estrutura que pertenceria se houvesse somente multiplicidade inconsistente. Em outras palavras, ele trata o estado como estruturalmente necessário e inevitável.

O objetivo da política não pode ser mais a destruição do estado, ou ‘desestatização’. Esse argumento vem parcialmente da rejeição de Badiou a desestatização levada a cabo pelo capital transnacional. E isso vem parcialmente da rejeição de Badiou do sucesso total do procedimento de verdade, que ele agora vê como algo que leva ao terror.

De forma similar, em Teoria do Sujeito, Badiou manteve que a ordem do espaço-lugar (splace) (seu primeiro nome para um estado da situação) deve ser reconstituída. O Evento destrói um espaço-lugar existente mas põe no lugar um novo espaço-lugar com o mesmo tipo de lei. Isso é necessário porque de outra forma, as pessoas estariam submergidas na ansiedade pela falha da ordem simbólica e seriam incapazes de agir. Entretanto, ele também sugeriu nesse ponto que o estado deve ser destruído. Ele vê a falha em destruir o estado como uma lembrança – a falha em última instância da Verdade – do Leninismo e Maoísmo. Como outros marxistas, ele mantém que essa falha é devida à ascensão da burguesia burocrática – não um efeito de um totalitarismo inevitável. De qualquer modo, cada espaço-lugar é também um efeito da destruição de um espaço-lugar anterior.

Então, para tomar o exemplo acima, seria possível destruir o sistema legal existente. O Evento revelaria que algumas pessoas estão sendo tratadas injustamente. Um novo padrão de igualdade seria criado que daria uma maior, ou completa, apresentação ao excluído. Mas teria de ser tanto um outro sistema legal que faz o mesmo tipo de coisa baseado em uma imagem diferente do que as pessoas são, ou um sistema social diferente assume a mesma função.

Como esse sistema pareceria não pode ser adiantado especificamente, porque o Evento inicia uma nova Verdade que depois se desdobra de sua própria maneira. Mas nós podemos imaginar possibilidades hipotéticas. Pode ser, por exemplo, um sistema legal que toma o eu-corpo como ponto de partida, no lugar do sujeito racional consciente. Isso faria a pessoa pobre altamente visível, o psicótico muito mais visível ainda e o corretor de ações um tanto menos visível – talvez os representando com voz e lugar (‘apresentados’), como tipos diferentes de sujeitos em corpos. Cada ‘conta-por-um’ como um sujeito em corpo. Ou pode haver um sistema de reconciliação em cada vida, ao invés de um sistema legal. As pessoas seriam apoiadas por suas famílias ou grupos de afinidade e alguns tipos de renda mutualmente toleráveis seriam negociadas em assembleias comunais ou círculos de arbitragem, talvez usando transformação do conflito e comunicação não-violenta/passional.

Mas Badiou assume que a forma do estado é construída em situações ontológicas. Parece-me que isso significa que alguém teria de sofrer o destino de se tornar uma parte ‘inexistente’. Então no primeiro caso, certos sujeitos viriam a ser menos ‘corporizados’ do que outros. Talvez o corretor de ações seria tratado como uma pessoa pobre hoje, porque el/ela não parece ‘corporizado’ o suficiente. No segundo caso, talvez pessoas com menos afinidades sociais se tornariam invisíveis e sofreriam injustiça. Advogados de cada sistema clamariam que esse resultado poderia ser evitado. Críticos podem sugerir um outro modelo alternativo como uma forma de contornar a exclusão. Mas Badiou parece pensar que o sistema deve degenerar em um novo estado, deve haver menos partes inexistentes e existentes. Qualquer modelo alternativo deve ter algum efeito excludente.

Então enquanto alguém excluído hoje – um imigrante sem documentos por exemplo – pode ter esperança de inclusão da transformação social, a injustiça que afeta essa pessoa poderia terminar mas alguém teria de ser exposto a algum tipo similar de injustiça que tem os mesmos efeitos sobre ele. Isso é uma conclusão bastante pessimista. Parece oferecer aos grupos existentes uma chance de libertação, mas apenas ao custo inevitável de oprimir um outro alguém. E essa conclusão também nos arrisca ao nos tornar complacentes e tolerantes com opressões cometidas por estados ‘pós-revolucionários’, ou cometidas dentro de nossos próprios movimentos.

Entretanto, há algum espaço de manobra para pessoas querendo usar Badiou de modo menos autoritário. O pressuposto de que o ‘estado-da-situação’ é sempre criado por um estado político é problemático. Por exemplo, as funções de nomeação e classificação podem ser realizadas por sistemas de saber local. Há uma ordenação das partes em grupos sociais indígenas, mas sem estado político. Então é possível argumentar que o ‘estado da situação’ poderia existir sem ser um estado político (mas ainda com as exclusões usuais, graus de apresentação e dai por diante).

Não está claro como o Badiou de Ser e Evento lidaria com sociedades atualmente existentes sem estado, que certamente existiram historicamente e algumas que ainda existem hoje em dia. É possível que ele diria que eles têm um ‘estado da situação’, mas sem um estado político. Mas se ele concedesse esse ponto, ele também concederia que o estado político não é necessário. De fato, em seus trabalhos mais recentes, Badiou retornou a visão de que sociedades sem estado são possíveis – inclusive por reconhecer sociedades sem estado do passado. De fato, ele agora define a abolição do estado como um aspecto central do comunismo. Ele quer, entretanto, manter o que ele chama de “liberar a limitação da ação organizada’, exercida por instituições não-estatais ou movimentos de massas. Ele tem, como veremos adiante, quase que medo obsessivo de qualquer coisa que possa parecer individualismo.

Como um crítico de Badiou, eu sugeriria que ele confunde a estrutura da axiomática capitalista com a estrutura de qualquer ‘mundo’ possível ou qualquer ‘situação’. Dessa forma, ele conclui em última instancia que outro mundo não é possível, exceto em termos de uma redistribuição (radical) dos elementos. Badiou permite outro mundo apenas momentaneamente, na experiência do Evento.

Eu diria que toda a estrutura ontológica badiousiana pode ser evitada se nos dispensarmos a necessidade de uma ‘conta-por-um’. Podemos dispensá-la se nos relacionarmos com situações primariamente através do qualitativo (ou temporal), antes do que através da matemática (ou espaço). Há também outras formas de conceber a ordem simbólica. Por exemplo, J. Baudrillard rejeita a associação do Simbólico exclusivamente com uma ordem de ‘conta-por-um’.

Outro problema político também pode surgir aqui. De muitas maneiras, Badiou oferece um tipo de filosofia total (mesmo que a totalidade em última instancia seja minada pela parte excluída). Por isso eu creio que Badiou apresenta a realidade como um todo, integrado em uma forma. Ele assume que estamos sempre em um mundo particular ou ontologia, com uma única conta-por-um e um único estado, que nos subsume com ou sem sobra, ou nos relega a pura negatividade.

Acredito que isso é parte da herança do marxismo estruturalista, e sua visão sincrônica e totalizante do capitalismo. E ela sucumbe aos problemas inerentes desse modelo: a invisibilidade de processos diacrônicos de contestação social, lutas de classe (e outras), ‘bom senso’, ‘transcrições ocultas’, resistência cotidiana e daí por diante. Em outras palavras, tratando o sistema como uma totalidade, se rebaixa a realidade das lutas entre diferentes concepções e princípios estruturantes.

Para se assegurar, Badiou permite a re-entrada de processos diacrônicos na forma do Evento e de seus efeitos. Mas esses processos são ocasionais, raros, drásticos e afetam a tudo. Eles são um tipo de imagem-inversa negativa da totalidade da situação.

É mais preciso falar que pequenos processos diacrônicos estão sempre acontecendo. Na verdade a ordem de apresentação da situação é construída sobre processos de movimento constante. Por causa desses processos diacrônicos, há sempre diversas ‘contas-por-um’ e diferentes ‘estados da situação’ operantes em vários graus em diferentes partes da situação. Alguns deles envolvem descontinuidades entre as partes do sistema dominante em si próprio – diferenças entre ‘contas-por-um’ econômicas e legais, entre logica territorial do estado e a lógica funcional do capital, entre perspectivas clássicas, liberais e neoliberais sobre educação, entre outras. Essa contestação envolve tanto tendências autônomas e transformadoras, e tendências que são opostas mas também reativas, concebendo um possível ‘contra-estado’ autoritário.

A qualquer tempo, há antes um balanço de poder entre as forças de um campo em conflito, do que a integração ontológica. De forma crucial, um ‘elemento’ particular (uma pessoa, grupo, classe, prática, etc.) usualmente tem diferentes graus de visibilidade, é ‘contada’ diferentemente ou não, em diferentes ‘micro-mundos’ na situação. Um ativista, por exemplo, tem uma localização no mundo do estado (talvez como parte excluída, talvez marginalizada e semi-apresentada, talvez ainda como um sujeito incluído de um meio da elite), e outra nas redes de ativistas. Algo que ‘conta’ ou é valorado em um mundo não ‘conta’ no outro.

O mesmo tipo de coisa acontece quando alguém vive entre duas culturas, ou quando economias de subsistência possuem interseções com economias mercantis, ou mesmo quando camponeses articulam transcrições ocultas contra a conta-por-um dominante. Não vivemos em uma única totalidade fechada – ou se vivemos é por razões contingentes, não por razões ontológicas. Isso significa que muitas ações políticas estão disponíveis para alterar a correlação de forças e criar outros mundos diferentes do que os permitidos pelo modelo de Badiou.


*Andrew Robinson é cientista político e estabelecido no Reino Unido. Seu livro Power, Resistance and Conflict in the Contemporary World: Social Movements, Networks and Hierarchies (em coautoria com Athina Karatzogianni) foi publicado em 2009 pela Routledge. Sua coluna é publicada às sextas-feiras na Ceasefire.

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