“They Live”: A violência revolucionária contra a ideologia dominante

Por Heribaldo Maia

Quando foi lançado o filme “O guia pervertido da ideologia” (2012) de Sophie Fiennes, estrelado pelo filósofo esloveno Slavoj Žižek, uma das cenas que mais chamaram a atenção do público, viralizando na internet, foi quando Žižek comenta sobre um desconhecido filme hollywoodiano chamado “They Live” (1988) de John Carpenter. Nesse trecho o pensador esloveno usa “They live” para falar da ideologia em nossa sociedade.


Neste texto, buscarei apontar outros elementos importantes em “They live” em relação à sua perspectiva revolucionária de superação da ideologia vigente. Para isso, terei que passar pelo tema da ideologia, e assim, esse texto dialogará, diretamente, com a interpretação zizekiana em “O guia pevertido da ideologia”.

“They live” é um filme B de 1988, hollywoodiano, muitas vezes trash, do diretor John Carpenter. O filme conta a história de John Nada, um sem-teto vivendo de bicos que, por um acaso, encontra em uma igreja recém abandonada uma caixa de óculos que ao serem colocados revelam a real mensagem contidas nas publicidades, notícias, mercadorias, e até no dinheiro. No filme, os óculos revelam para Nada que apesar da aparente liberdade vivida pelos homens, os aliens já controlam todas as nossas ações.

A analogia entre a história do filme e nossa sociedade parece óbvia ao tratarmos da questão da ideologia, no sentido marxiano. Numa das cenas do filme isso fica claro, quando um padre discursando numa praça diz “Fora dos limites da visão, eles se alimentam de nós”. Observe que a ideologia da propaganda, publicidade, da televisão, etc., é criada para um objetivo claro no filme, para que os aliens possam explorar a raça humana sem que os explorados se deem conta disso. Assim como na vida real, o sistema monta justificações que, por terem força material, já que são fruto de uma dada forma de sociabilidade, visam adequar nossa visão de mundo, a fim de conservar o mundo como é – ou ainda mais além, reproduzi-la, naturalizá-la diretamente.

Žižek no “Guia pervertido da ideologia” acerta em cheio ao afirmar que o filme traz um detalhe importante. Ao contrário da concepção de que a ideologia funcionaria de modo a enturvecer a visão do mundo – como o próprio Marx coloca n’A ideologia alemã, mas, após aprofundar seus estudos, muda sua conceituação de ideologia –, a ideologia é a própria visão de mundo, ou seja: a forma como a sociedade é organizada, como nos relacionamos socialmente, produz ideologias que justificam essa forma de sociabilidade. Dessa forma, a ideologia não é um mecanismo que enturvece a visão, mas a própria sociedade emana ideologias. Como em “They live”, em que Nada só consegue fugir da visão ideológica do seu mundo ao colocar os óculos, e não, como mostra Žižek, ao tirá-los.

Se até agora me restringi a análise da ideologia, que já foi feita por Žižek, e que eu apenas busquei relembrar tal análise, então cabe agora enfatizar o caráter revolucionário do filme. Assim que John Nada descobre o que há por trás da ideologia que é, no filme, uma ditadura alien velada de liberdade humana, o personagem parte para acabar com a causa da ideologia. Durante o filme alguns personagens buscam disputar a consciência das pessoas, fazendo com que elas percebam a essência do mundo em que vivem. Contudo, Nada e seu amigo, John Armitage, partem para a destruição do sinal, que no filme é o que mantém a aparência da realidade.

Observe que é a forma como os homens vivem, junto com os aliens, que produziu um sistema que demandou um sinal para que a aparência escondesse, mais do que revelasse, elementos da essência. Na empreitada, Nada, numa cena digna dos filmes mais trashs hollywoodianos, daqueles em que a bala não acaba nunca, parte para a violência, e após uma invasão ao sistema, o destrói, no momento em que explode a antena de transmissão que mantém todo sistema montado pelos aliens.

O recado dado pelo filme é claro. A destruição da ideologia que visa conservar/justificar o status quo se dará quando tivermos uma sociedade em que tais ideologias justificadoras da exploração não sejam mais necessárias, já que uma sociedade sem exploração emanará ideologias outras, que não a de esconder a essência das coisas, mas de revelar.

A disputa ideológica num mundo de classes é importante, contudo tem limites claros. Se Marx afirma que a ideologia dominante de uma época é a ideologia da classe dominante, tal processo não ocorre de forma mecânica, mas ocorre através de um embate que é perpassado pela luta de classes. Porém, Marx, assim como “They live”, nos mostra que é a destruição de um sistema social que gera ideologias que visam esconder a essência da sociedade que resultará no fim de tais ideologias.

Esse processo de destruição do sistema que mantém as ideologias conservadoras é necessariamente violento por dois motivos: i) como mostra “They live”, o processo de buscar a essência da realidade é dolorido, como demonstra Žižek em uma das cenas mais emblemáticas do filme, quando Nada busca que seu amigo, John Armitage, coloque os óculos. Nessa cena os dois personagens lutam violentamente por 9 minutos do filme até, finalmente, Nada conseguir colocar os óculos em Armitage. Isso porque enxergar além da aparência requer uma análise para além das forças materiais que mantém o sistema enquanto tal. E ii) pois as forças que se beneficiam do sistema como é possuem o arsenal de instituições que visam manter esse domínio, assim como não entregaram de “mãos beijadas” a sociedade para ser mudada, deixando de lado seus privilégios – sendo assim eles mesmos imersos pelas ideologias que produzem.

Nesse sentido, “They live” possui duas qualidades incríveis: uma já apontada por Žižek, que é a crítica a ideologia que é expressa no filme de modo certeiro. Mas também o horizonte revolucionário de que a destruição das ideologias conservadoras só ocorrerá com a destruição do aparato material-sistêmico que dá suporte material para a existência de tais ideologias.

Assim, “They live” é um convite para que a luta contra a ideologia burguesa supere o campo intelectual – não superar no sentido de deixar de lado, mas que a luta intelectual não seja um fim em-si-mesmo, mas que faça parte de uma estratégia de destruição sistêmica – e parta, em conjunto, para a luta prática contra as fontes da força material que mantém o “sinal” das ideologias burguesas funcionando.


*Heribaldo Maia, graduando em História na UFPE, militante da União da Juventude Comunista

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