O ódio teológico e o ódio ao teológico

Por Daniel Santos da Silva

Toda justiça vem de Deus, que é a sua única fonte; se soubéssemos, porém, recebê-la de tão alto, não teríamos necessidade nem de governo, nem de leis. J.- J. Rousseau.


I

As respostas, mesmo que aparentemente ingênuas e espontâneas, a respeito daquilo que nos atrai nas pessoas, sempre nos enviam à experiência; esta, tão variável como as singularidades, pode, sim, ser mais ou menos unívoca, mais ou menos dependente das idades cronológicas e do que delas se espera (experienciar as coisas de “forma infantil”, ou madura, etc., se é bom ou ruim, depende dos contextos de tais experiências). Crê-se com recorrência que, desde que nascemos, tudo ou quase tudo vai se encaixando nos costumes, e que o cotidiano das experiências vai se conformando a memórias mais ou menos profundas criadas com certas finalidades, há muitas gerações; as declinações das opiniões singulares e mesmo seus cambiamentos e cambaleadas deveriam, assim, sem que nada de excepcional advenha, coexistir com aquilo que denominamos caráter, em nossos dias dificilmente apartado de sentidos morais. Por isso remetemos, geralmente, a origem de nossos sentimentos mais visíveis a certos encontros e experiências que, no mais das vezes, justificariam um juízo negativo ou positivo (ou neutro) a respeito de algo ou alguém. Tais relações não são vãs: com efeito, custosamente eu próprio daria crédito a um sentimento meu cuja indumentária não fosse costurada pelos encontros e desencontros que tive.

Porém, essa quase que despretensiosa explicação dos sentimentos pode esconder, a nossos olhos, aquilo que em nós está colado fortemente e não encontra, assim tão imediatamente, explicação na qualidade dos encontros, pelo menos nos mais habituais encontros. Em outras palavras, esquece-se (ou é velado a nós), constantemente, que a carne mesma de nosso corpo é intencional e que não existe experiência nua, que se dê a si mesma em traços claros, e a que seriam anexados valores e práticas decorrentes desses valores. Dificilmente conseguimos enxergar nossa própria vontade de vida como a substância das experiências elas mesmas. Pouco enxergamos as razões de nossos valores e sentimentos, os costumes são insuficientes para explicá-las. Se pensamos no ódio, então, raramente cremos que odiamos porque em nós habita o ódio (e, claro, mais raramente nos cremos como causa justificada do ódio alheio). Esse afeto, talvez mais que o medo – “tão importuno e mais insuportável que a morte”, para Montaigne -, tende a negar sua realidade efetiva, através de nós, nas ações da vida cotidiana; tem-se como exceção e desconfiguração da normalidade, quando, verdadeiramente, tem guiado a quase totalidade da história humana. De tão escorregadio, o ódio oculta até mesmo seu íntimo parentesco com o medo.

Em qualquer caso, não é possível e desejável formular assim de modo reduzido os movimentos históricos em que nos vemos imersos. Apenas o recorte de uma visão específica me faz levantar tais questões, e de forma problematizante mais do que descritiva ou explicativa. Antes disso: uma recorrente pergunta – legítima, ou melhor, urgente – que vemos hoje ser feita diz respeito à dificuldade, cada vez mais dura e disseminada, de desvincular o teológico e o religioso da política. Por mais superficial que pareça, existiria alguma medida de semelhança dessas esferas (religiosa e política) na expectativa de que alguma salvação se apresente do “exterior”? O que do religioso penetra, concreta e perniciosamente, no interior do espaço político? Face a essas indagações, por que o ódio, afeto que remete à irrupção de um modo de agir que não costuma ser, aparece no início dessa reflexão, agora assumidamente política?

Essa aparição faz sentido, primeiramente, pela visão que me levou a encadear esses pensamentos, e é bem circunstancial (vem logo adiante). Mas, sob outro aspecto, pensar o teológico e o religioso incitam a pensar sobre o amor e seu “reverso”, o ódio. O enlace está em uma certa convicção, de que partilho profundamente, de que os mistérios das religiões e os discursos sobre a natureza de Deus não devem ser vinculados à esfera de discussão da coisa pública e das decisões que a partir disso nos afetam enquanto coletividades e indivíduos. Talvez se a solução de todos esses mistérios se desse realmente pelo amor, e como somos tão poucos os sem religião e os ateus no Brasil, a política nem precisasse surgir, a não ser como modo de controlar os descrentes. Mas do amor mal veem-se os rastros deixados por tantas manifestações religiosas e palavras sobre Deus (teologia em geral),[1] e o que chega às vistas é um ódio profundo àquilo que é diferente, àquilo que diverge, àqueles que são indiferentes ou negam o que diz o sacerdote. Assim como a difusão do amor tornaria obsoleta a política, a difusão do ódio exige para esta uma proteção contra a lógica exclusivista das crenças. Como sabemos, é pela política que tais lógicas – exclusivistas também entre si – podem encontrar, num tempo simultâneo, espaços diversos de vida e propagação.

A imagem do ódio, contraposta mas unida à do amor, corresponderia às lógicas das religiões como elas se pretendem em suas originalidades? Mil outros afetos se interpõem entre esses dois, sem dúvida. Cada confissão tem sua história e cada crente sua maneira de enxergar o mundo – ou seja, quando se aceita a clareza disso, mais se aprofunda a consciência de que nenhuma espécie de dogma pode servir de suporte à lei civil. Dogmas religiosos universalizam e excluem, sem que isso pareça contraditório, mesmo que afeto ou perspectiva solitária alguma esgotem o que está envolvido na religiosidade, ou levemos em conta que a fé tem diversas modalidades e quase todas carregam consigo consequências práticas e morais.

Todavia, em algumas dessas modalidades, especialmente em suas práticas, tornou-se difícil dissociar de um certo sentimento de abandono do mundo o de revolta com os “mundanos”, e quem sabe se possa falar aí de adesão a uma fé violenta: persiste um medo de que todos estão contra você (o que é possível quando o “mundo” homogeneizou as pessoas – no “mal”); mas não como uma paranoia esteriotípica, pois é preciso lembrar que é no campo social que agora e sempre se articulam as peças que compõem qualquer ódio religioso e teológico; é no campo social que a exaltação toma as vestes de ódio. Muitas dessas práticas são ancoradas em encontros e desencontros sociais que geram, concretamente, um sentimento de abandono e de hostilidade. Um certo discurso religioso encontra, assim, não espíritos leves e almas entregues – encontra, sim, pessoas tornadas inimigas (ou que assim se sentem), de algum modo, pelo Estado, pela violência do tráfico, da vizinhança, pela opressão de gênero, raça e família, por tantas e diversas coisas. Esse encontro permite não apenas dar vazão ao ódio e à vingança, mas impor uma “lógica”, uma necessidade moral que os desconfigura enquanto ódio e vingança. Aqui devo retomar, rapidamente, minha experiência como guia.

É certo que as coisas não nos aparecem como seriam em realidade, movimentos e relações muitas vezes fluem e mal podem ser percebidos ou contidos pelas visões que temos. Mas algumas mudanças são sensíveis demais para não chamar a atenção. A visão que me motiva aqui a tive retornando à comunidade em que cresci, e, fundamental, passando lá um bom período, dias, tardes e noites – sem o quê, como em ocasiões anteriores, mal poderia perceber detidamente as cores do lugar e as pessoas. Em menos de 15 anos, notei, não apenas ali foi seguido à risca o crescimento geral de denominações neopentecostais, como muito da dinâmica cotidiana, dos encontros, da empatia e da hostilidade estava sobredeterminado pelas vozes – berrantes – de tais confissões. Afora o palavreado já bem conhecido de quem frequenta ou frequentou denominações evangélicas (experiência de que também compartilho, do passado), o que se destacava no quadro geral é que, tornando-se as vozes e os gestos a cada dia mais reconhecíveis, percebi correntes de hostilidade, ódio, depreciação que reiteradamente adentravam os pequenos cômodos cheios de gente de todas as idades –  e de muitas, muitas crianças.

Esses fluxos convergentes de adesão a certas modalidades de fé e de multiplicação dos atos de hostilidade seriam apenas coincidências, fruto imaturo de uma confusão entre os estreitos corredores privados de uma comunidade e o espaço público de convivência entre os indivíduos? Se a convergência, ao contrário, tem uma causa, chamar uma religião, uma fé ou um discurso de violentos a tornaria mais explícita? Enfim, o que essas religiões, que penetram cada vez mais nas comunidades de vários territórios, têm a interessar nas questões sociais e politicas?

II

Prosseguindo, a luta pela política laica tem suas razões e não se prende, com certeza, a considerações estritamente afetivas e muito menos privatistas. Mas passa por elas, à proporção que explodem todos os dias em nossas faces o ressentimento, o ódio, o medo, a ambição e a (falta de) vergonha de si quando políticos profissionais ou bancadas religiosas aglomeram em projetos de lei suas ganâncias, fantasias e aspirações morais – hipócritas ou não, aspirações morais.[2] Para quem considera o momento atual uma onda ou avalanche conservadora em campo político, a coisa não chega a ser menos clara do que para quem sabe que esse conservadorismo está impregnado no projeto hegemônico de Brasil há séculos. Para quem deseja e produz pela liberdade, é igualmente impossível sentir algo em comum com a política quando as personas que “lá” estão desafiam assim descaradamente o bom senso; em outro espectro mas não menos intensamente, para quem nunca se sentiu tocado pela política, ou o foi negativamente, isso que vemos como perversão pode aparecer como o caminho de uma liberdade pouco ou nada experimentada, mas muito prometida.

A promessa maior talvez seja a de prosperidade e o que isso envolve de sentimento de autonomia ou de proteção, também financeira. Mas conjuntamente de proximidade, de comunicação – há uma linguagem, plural, mas reconhecível, que leva algo mais que o voto do fiel para dentro das instâncias políticas, em seus representantes (nesse sentido, estão, com certeza, menos frustrados do que os que se sentem “do outro lado, abandonados e traídos” pela esquerda hoje). Deputados e senadores que querem exercer um mandato baseado na fé e na palavra de Deus prometem levar as ansiedades dos fiéis à praça pública, onde serão ouvidas, pronunciadas por quem, no meio de tanta sujeira, permaneceria “imune” à corrupção. Uma certa hermenêutica comum às vezes nos leva a voltar a atenção mais ao discurso religioso, quase sempre vazio, repetitivo e ritualístico; mas se deve atentar àquilo que, em tais discursos, não se direciona imediatamente a Deus e sim às ansiedades e esperanças dos que creem, coisas que se acabam reproduzindo na comunicação – violenta ou não – destes com os que estão “fora”, descrentes. Trajando a fantasia de um profeta ou de um sacerdote (quanta fantasia teológica não foi dita em um momento que era para ser de caráter eminentemente, senão somente, político: a votação na Câmara para o impedimento de Dilma?), esse obreiro e representante do povo contribui para enrijecer, sim, as estruturas de medo e de ódio que línguas em chamas e braços determinados passam a filhas e filhos que nem tempo tiveram para compreender o que é fé.

O mais complicado não é observar “objetivamente” as linhas gerais desses fenômenos, sim aproximar-se o suficiente para ver as singularidades vivas (ou como elas deixam de ser singularidades vivas) que todos os dias andam a constituí-los e multiplicá-los; um trabalho interdisciplinar e variado em perspectivas, no mínimo. A objetividade, até prova em contrário, pode ser muito parcial, unilateral e sentimental, e nem por isso deve ser simplesmente dispensada. Algumas análises do atropelamento pelas neopentecostais de comunidades precarizadas logram tratar isso de modo formal, distanciado, o que é útil quando, por trás desse distanciamento, não é atiçado um ódio e uma aversão pelas figuras singulares que compõem tais fenômenos (preconceitos que vão da grande mídia “laica” a estabelecimentos científicos e universitários, passando por boa parte da militância de esquerda, também muito sabedora e acima de tudo).

Aproximar-se e vincular-se é o mais difícil, e há vários caminhos para isso (muitos são sempre os caminhos exigidos) – parte dessa minha experiência, enfim, é unilateral e limitadíssima, e se vale algo é porque foi direta e refletida. Pois confesso que dessa visão que tive das mudanças em minha comunidade imediatamente seguiu-se uma espécie de enjoo. De uma vontade de gritar mais alto, em certos momentos, passava a vê-los como inimigos, como pessoas de quem tinha que manter distância ou perante quem devia ser agressivo (mesmo em relação a pessoas que cresceram comigo). Esquecia, facilmente, que por sob o peso dessa odiosa linguagem da religião resistiam corpos em contínuo processo de formação, como o meu – e, muitos mais que o meu, resistiam a seu modo a opressões muito mais profundas. Não obstante todo o machismo incrementado de muitas dessas denominações, notei que as mulheres dali arregimentavam para si uma espécie de fortaleza, com a qual resistiam à dificuldade de criar seus filhos sozinhas e ainda às investidas de seus vizinhos intrometidos. Sem aproximar-se (e não me refiro à simples aproximação espacial), tais contradições perdem o sentido político.

Algumas leituras já insistem há tempos na complexidade do fenômeno.[3] Outras não desprezam, felizmente, as ambiguidades do tema.[4] Sobre pautas delicadas como a da autonomia da mulher, por exemplo, o olhar pode colher dessas ambiguidades e contradições relações fundamentais: o neopentecostalismo acompanha as premissas neoliberais, e todo empoderamento que daí flui é banhado em individualismo pernicioso, em objetificação do outro e, no caso, da própria fé. O ódio que hoje transparece em eventos e falas violentas contra certas visões progressistas de mundo é aprofundado pela teologia da prosperidade e pela simbiose entre graça, ganho material e superação do outro. Para mulheres e homens que se expressam por essa visão ressentida e untada de sentimento de abandono, como poderia o amor ser de fato um princípio? Como a solidariedade encontraria em meio deles um sentido amplo e inclusivo, por mais razoável que possa ser? Como poderia existir, assim, solidariedade política – fundada em interesse do comum – dentro de comunidades tomadas do mais vil egoísmo “teológico”? Se Deus protege um, não pode e não deve cuidar da segurança de todos. Aí opera uma lógica bem elaborada de medo, desconfiança e hostilidade, e ela é apropriada por certos discursos religiosos e suas figuras. Entre Datena e Malafaia, muito em comum: impulso de explorar, tomar conta das forças de bases, dos pobres, de pessoas que não conseguem outra narrativa das coisas senão a de que elas são perigosas. Como não sentir um ranço disso? Mas isso é tudo ou quase nada? São estas pessoas que expulsaram de vez qualquer solidariedade de suas vidas?

III

Sempre será difícil aproximar-se do que já causa ódio só de ser pensado (inclusive porque resistimos a reconhecer esse afeto filtrando nossos olhares). Difícil não se pôr contra quem destila ódio, quanto mais teológico, sem com isso alimentar um círculo vicioso. A dificuldade intrínseca a essa luta é a mesma, entretanto, que leva a esquerda a afastar-se dos pobres em geral (e muitas vezes a aproximar-se de quem detém os meios para essa espécie de coação espiritual e mental)[5] e a não se dar tempo de refletir perspectivamente sobre o que não pode ser totalizado. O caso tem suas linhas e curvas peculiares, que poderei explorar em outros momentos, mas expressa uma apatia familiar. Sem mais, parece claro que a falácia da representação e de sua potência comunicante opera com igual vigor quando se trata de evangelizar a política: à prosperidade que os eleitores esperam, são antecipados interesses bem pessoais de quem “representa”, e o discurso moralizante e imbecilizante que sai de suas bocas também oculta uma série de violências a qualquer moral ou política razoáveis. Querem dinheiro, são entreguistas, tem sede de poder. Não há salto qualitativo entre as operações espúrias de quem crê deter o poder temporal e as de quem inclui a isso certa autoridade espiritual.

Alhear-se dos fundamentos do problema, tratá-los à distância, crer que de cima reformas políticas e eleitorais (puramente institucionais) dão conta do problema, é a postura mais fácil, infelizmente aceitável, atualmente, para considerável parte dos que dizem lutar pela liberdade. Para estes, o verbo salvar ainda tem sentido político. E provavelmente de seu meio saem as críticas mais mordazes a quem faz aderir valores religiosos às escolhas políticas – mais uma vez reduzindo ações políticas a escolhas eleitorais, de uma parte, e a políticas públicas de governo, de outro. Se os salvadores são trocados, a salvação permanece no horizonte.

Por que a ausência (permanente) do Estado de proteção social nas comunidades pobres cada vez mais raramente produz sentimentos de solidariedade baseados no território e na classe e cada vez mais engendra solidariedade de rebanho (menos pela conotação de servilismo – isso a todos nós abrange – e mais pela necessidade de pastoreio)? Por que a dificuldade de que a solidariedade seja aberta, includente, capaz de fazer nascer concepções próprias de desenvolvimento individual e coletivo? Diante da imensa dificuldade em responder, resta que as igrejas sempre criaram vínculos ali onde muitos agentes políticos não pensaram em chegar. Os neopentecostais vêm aperfeiçoando a tecnologia, por assim dizer. Em 1972, Betinho escreveu: “Ao se restringirem as possibilidades de viver direta e amplamente as situações onde as lutas, as reivindicações, a prática social se manifestavam, operou-se um distanciamento, às vezes até um desligamento da sociedade enquanto objeto de conhecimento, daí originando-se situações de refração, de distorção onde aparecem ‘substitutos’ dessa realidade”.[6] Impostas ou não, as restrições a essa vida direta são tão ou mais assíduas hoje do que na ditadura militar, embora nem sempre tão visíveis. O pastoreio neopentecostal, enquanto penetra em casebres com a mesma força que ostenta grandes templos, permite a produção de um hábito que, agora vemos, não poderia desviar-se das vivências políticas dos indvíduos reformados ou que se creem tal. A contradição entre hábito conservador e sentimento de autonomia conhecemos de longa data, a alta classe média brasileira nos legou essa lição (mais perversamente, se comparamos as motivações: enquanto a ignorância política da classe média pode casar em quase todos os aspectos com a ideia da teologia da prosperidade, as massas convertidas, em geral, logram diferenciar melhor aspectos morais e sociais – mesmo que os embaralhem na hora de votar -, pois muitos políticos de esquerda também foram eleitos com esses votos, quando tocaram melhor na experiência concreta desses indivíduos).

Os choques de realidade podem frustrar aos supersticiosos, mas eles sempre encontrarão refúgio em algum fabuloso destino final das coisas (porque Deus tem um plano para sua vida). Mas a frustração com as formas políticas – com a corrupção que aparece cada vez mais como intrínseca ao “fazer política” – não tem esse recurso, suas expressões são campos de batalha prontamente apropriáveis pelas linguagens que comunicam o que pode ser entendido, mesmo que não conhecido, como a dos pastores. Com esse exemplo em mente, que hábitos de autêntica autonomia poderiam ser comunicados às pessoas senão pelo que as toca direta e afetivamente? Que linguagem pode ser política quando é forjada alheia e contrariamente, até, aos anseios das pessoas que são usurpadas cotidianamente em suas mais básicas liberdades? Esse tema é tanto mais interessante porque se presta a desfazer dicotomias, entre os que sabem e os que se deixam levar, entre os que salvam e os que são salvos, entre quem crê e quem não crê, inclusive entre amor e ódio; mas também serve para nos lembrar da potência política que tem os expropriados quando agenciam seus desejos, apesar da servidão que o teológico, a meu ver, necessariamente implica.

Por isso o religioso é tão cobiçado pelo teológico, visado por linguagens que desmembram Deus em vontades tão particulares que podem ser ditas na forma de “conselhos”, distribuídos em vésperas de eleição e em processos de impedimento de presidentes. Em matéria de desejos, os pastores têm sido mais tocantes que todos os preocupados em tutelar sem ferir autonomia de ninguém – o que aqueles já sabem desde sempre não ser possível, pois vivem de submeter desejos. Prova-se com isso como é difícil comunicar autonomia quando não se quer viver autonomamente. Isoladamente, os afetos violentos dessas denominações religiosas persistem modificados nos que se põem (só) a analisar tudo objetivamente, sem preconceitos e à distância. Nessa ânsia baseada em ilusão, perdeu-se também os vínculos. Parte da luta social ainda se nutre de ódio e senso de exclusividade, por mais que resistamos, e assim é fragilizado o contato com o que há de real também nessas manifestações de religiosidade, como são de fato encontros e experiências.

O tema vale ser debatido constantemente à medida que suas fronteiras são disputadas,ou seja, por estarem abertas. Não apenas, mas a vaidade feroz de muitos que são considerados líderes dessas religiões dificulta a sua unidade, mas não podemos saber por quanto tempo e quanto isso é em si um problema.[7] Se os tomamos indiferenciadamente, favorecemos essa movimentação e recorremos ao desprezo para combater o ressentimento. A leitura é bem relativa, sei, mas busca chamar de algum modo a atenção para um potencial destrutivo há tempos já posto e que vem corroendo a liberdade ética, política, econômica e social da maioria da humanidade. O encontro com a religião é corrosivo se se apega ao medo e ao ódio – a vida espoliada é causa de fortalecimento desses sentimentos, muitas são as vias para mantê-la. Por isso também muitas são as vias exigidas para a resistência contra a força desagregadora da comunicação baseada na violência, várias são as possíveis experiências comuns que podem produzir valores de solidariedade e de inclusão, as religiões presentes. Quais forem, as ações diretas e vinculantes a serem exercitadas dependem cada vez menos da objetividade das delimitações cognitivas e práticas dos fenômenos: a opressão econômica é sempre usurpação de desejo, as moralidades vigentes afetam corpos de mulheres negras de uma forma específica e o modo como se compreende a liberdade não se separa da linguagem (por exemplo).

Por isso, a ação política deve ser direta e experienciar a imanência da produção de valores de um determinado meio, agindo sobre (não apenas assimilando) e compreendendo os problemas pela concretude dos fenômenos; e, consequentemente, é vinculante na medida em que toda resposta que se dá (e se pode dar) é produção dos que experimentam o meio, o constituem, e são a base de uma determinada coletividade inevitavelmente conectada com outras. Os vínculos que se produzem – pois não estão dados – implicam esforços de autodeterminação de espacialidades e temporalidades que são plurais e abertas, porque tudo isso é constituído como ação comum, transbordando assim os espaços físicos limitados por fronteiras de uma ou outra comunidade, ou espaços ideais das seitas religiosas ou cognitivas.

Para Rousseau estava enganado aquele que distinguisse a intolerância civil da teológica. Suas razões não poderiam ser mais atuais, experimentamos nas ruas essa mescla em práticas de ódio determinadas. Para algumas concepções políticas que sentem a necessidade mediadora do Estado, uma das funções básicas dele é a formação pedagógica – ainda assim a política se estende além, resulta igualmente do cruzamento entre moral e experiência, sem que a religião intervenha. Essas ideias foram úteis por bom tempo, mas também minaram práticas possíveis de autodeterminação (em sentido amplo). Como sempre se trata de incrementar resistências, os caminhos são abertos e as experiências, imprescindíveis. Ações diretas envolvendo coletividades sempre pressupuseram a firme aliança e lealdade entre solidariedade e liberdade comum – os vínculos efetivos e suas práticas decorrentes têm devires conforme suas temporalidades inúmeras, mas têm elementos totalmente captáveis pela experiência e pela memória ativa e que dão tons de resistência frente à promoção social e política do ódio. Elementos que compatibilizam liberdade, alegria, amor, desejo e criatividade e produzem, com isso, um ato político vinculante em que uma das finalidades é bloquear na nascente fontes de ódio que servem a quem quer dominar corpos e mentes.


[1] As exceções devem ser procuradas em diversos espaços, obviamente, e sem dúvida a intervenção da Teologia da Libertação no debate político é uma das mais marcantes e reconhecidas (ou negadas) tentativas de combater e reverter as perigosas asneiras da religiosidade conservadora tradicional.

[2] Pesquisando sobre o tema, encontrei um texto bem acessível e razoável que destaca a história da intromissão (palavra minha) da IURD na política e aponta, com base na literatura da igreja, principalmente na Folha Universal, a intenção moralizante desse amplo sistema de intervenção, que passa por rádios, tv’s e muito mais. Claro, o texto destaca outros aspectos fundamentais como a necessidade de se proteger politicamente da IURD e interesses outros, mais escusos, que alimentariam essa motivação. O texto se chama “O crescimento das igrejas neopentecostais no Brasil: um olhar sobre a política da igreja universal”, de Tarcílio Divino Nunes, e faz parte dos Cadernos de pesquisa da CDHIS, n.35,ano19,ps.127-132,2006(e está disponível na rede: http://www.seer.ufu.br/index.php/cdhis/article/view/503/473). Aproveito para citar um simples exemplo recolhido de um texto de Daniela Pinheiro para a Piauí: “Desde 2006, quando o Projeto de Lei 122, que criminaliza a homofobia no país, entrou na pauta dos parlamentares, Malafaia se tornou uma das principais vozes contrárias à causa. Foi ele quem, em junho, conseguiu reunir 50 mil pessoas em frente ao Congresso Nacional para protestar contra a votação. Também pediu a seus 180 mil seguidores no Twitter para entupir a caixa postal e congestionar os telefones de parlamentares favoráveis à proposta – no que obteve sucesso. Dias depois, na Marcha para Jesus, em São Paulo, ganhou espaço em jornais e televisões ao dizer que o Supremo Tribunal Federal havia ‘rasgado a Constituição’ no momento em que aprovou a união homossexual” (http://piaui.folha.uol.com.br/materia/vitoria-em-cristo/). Também vale muito ler a matéria de Andrea Dip e Anna Beatriz Anjos, “A fogueira está armada para nós”: “Ana Rita chama atenção, também, para o fato de que o texto original, elaborado em conjunto com profissionais e movimento de mulheres, continha a palavra ‘gênero’, englobando também as transexuais, mas na hora da aprovação da lei o termo foi trocado: ‘O texto final fala em sexo feminino. Essa foi uma exigência dos parlamentares evangélicos para aprovar o texto. Segundo a lei aprovada, feminicídio então é o homicídio contra a pessoa do sexo feminino. Mas são crimes de ódio e se enquadrariam perfeitamente no caso das travestis e transexuais. Nós lamentamos muito essa perda’, diz a defensora” (http://apublica.org/2016/03/a-fogueira-esta-armada-pra-nos/). Para as articulações entre a Bancada da bala e a da Bíblia e para uma dimensão de suas identificações: http://apublica.org/2016/02/truco-as-bancadas-da-camara/.

[3] Tudo que posso fornecer, obviamente, são pouquíssimos exemplos. Destaco aqui um texto que problematiza a questão da relação com os pobres e a pobreza, escrito por Frei Betto, no ano passado, e que propõe saídas em termos de diálogo. Antecipo um pequeno trecho: “A que se deve tal fenômeno? Há várias hipóteses. Uma delas é explicada pela coincidência entre a urbanização brasileira, na virada do século XIX para o XX, e a disseminação de Igrejas evangélicas. O êxodo rural, a urbanização desordenada, a quebra de vínculos familiares tradicionais, o inchamento das periferias e a massificação dos meios de comunicação são fatores que estão na origem da explosão evangélica.” Também: ” Embora haja, hoje em dia, segmentos evangélicos abertos ao ecumenismo e, inclusive, à Teologia da Libertação, o que ainda predomina é o conservadorismo teológico e político. Neste início de século XXI, o alvo do fundamentalismo evangélico são as políticas de direitos humanos e gênero.” Cf. o link: http://diplomatique.org.br/por-que-fizemos-opcao-pelos-pobres-e-eles-pelo-neopentecostalismo. Gostaria de destacar ainda um texto de Rafael Viana: “Não há nenhuma preocupação, com honrosas exceções, de criar um pólo (mesmo que minoritário) de contra-domínio de meios de comunicação alternativo. Olhem para o movimento vigoroso das rádios comunitárias no passado e veja em que mãos caíram esses instrumentos. Ou façam melhor: comparem um jornal sindical com um jornal de qualquer denominação religiosa. As pautas jornalísticas desses meios de comunicação neopentecostais dialogam e são muito menos dogmáticas do que as pautas herméticas da esquerda. Além disso, conseguiram ocupar canais de tv, rádios e instrumentos comunitários de comunicação. (…) Ao conseguirem ‘ler’ de maneira difusa e traduzir de modo necessariamente mais amplo uma ‘cultura popular’ (ao seu modo), conseguem estabelecer canais de diálogo com os significados das tradições de classe. É quase como retraduzir uma experiência de classe num sistema de significados, valores e ideias estável (e organizado pela instituição religiosa)”. Ir ao link: http://www.huffpostbrasil.com/rafael-viana/por-que-o-neopentecostalismo-avanca-na-periferia-e-a-esquerda-se_a_21699941/. Rafael toca em outros pontos essenciais, mas não toca na violência precipitada por afetos que ganham expressão pelo encontro dessas religiões com estrtuturas existentes de preconceitos e de poder local, expressões que vêm se multiplicando e sendo sentidas fortemente por mulheres, crianças e demonstrações de fé afro-brasileiras. Sobre este último ponto, retrato de intolerância civil e religiosa, muitos meios de comunicação já informaram, indico um texto que mostra até como o samba e o jongo estão sofrendo as consequências:https://www.vice.com/pt_br/article/ex3837/despejos-e-violencia-por-dentro-da-guerra-evangelica-contra-as-religioes-de-matriz-africana-no-rj .

[4] Do link que acabei de passar na nota acima, do frei Betto, gostaria de ressaltar outra parte: “Católicos das periferias urbanas e rurais que não se sentiam mais acolhidos em Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pastorais populares trataram de migrar para os espaços evangélicos. E o fizeram por duas razões básicas: a ânsia de encontrar possíveis soluções para seus problemas crônicos (enfermidades, desemprego, carência de identidade nos grandes centros metropolitanos etc.) e o mal-estar quando chamados a frequentar os templos católicos, predominantemente ocupados pela classe média, e nos quais reina o clericalismo.” Algumas razões subjetivas também ajudam a melhor vislumbrar o alcance da questão; deixo um link aqui de um texto que não se direciona ao tema, mas que, por trazer depoimentos de mulheres negras de suas experiências das opressões estruturais pela cor, resvala na ambiguidade de sentimentos que tanto alimenta as religiões:  “Assim como Daniele, ela dá crédito à igreja por melhorar de certa forma sua autoestima – e também ao cansaço de desejar inutilmente uma pele mais clara”.  Cf. https://www.theglobeandmail.com/news/world/o-brasil-por-tras-da-aquarela/article25830183/. Outro texto, na verdade uma entrevista de Roberto Dutra Torres Junior, toca diretamente no assunto (ir a ele com cautela, embora muita coisa desta entrevista seja pertinente): “Esta participação em organizações e comunidades religiosas é a maior experiência de empoderamento individual e coletivo que as classes populares das periferias de médias e grandes cidades tiveram nas últimas três décadas no Brasil”. (http://www.ihu.unisinos.br/562634-a-esquerda-esta-sustentada-numa-visao-equivocada-sobre-as-classes-populares-entrevista-especial-com-roberto-dutra-torres-junior).

[5] Sobre esse interesse em aproximar-se dos mercadores de almas, indico para introdução um texto de 2014: “As igrejas evangélicas a caminho de Brasília”, de Lamia Oualalou, pelo link http://diplomatique.org.br/as-igrejas-evangelicas-a-caminho-de-brasilia/. Tamém para a professora Maria das Dores Campos Machado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a aproximação do PT fez a igreja passar das páginas policiais dos jornais – por denúncias de charlatanismo e lavagem de dinheiro – para as políticas: http://piaui.folha.uol.com.br/materia/rebanho-dividido/. Dar uma olhada também em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/534148-o-poder-dos-evangelicos-na-politica.

[6] A situação da clandestinidade e os processos de formação dos partidos-seitas, Santiago do Chile, 1972 Mimeo. Betinho falava da/a partir da clandestinidade, o que me faz pensar que ela é agora permanente e disseminada como é permanente e disseminado o estado de exceção. De fato, é cada vez mais raro hoje que ideias progressitas não fiquem no vácuo ou sejam atacadas com violência – mas devemos, sim, levar em conta duas coisas: não estamos mais na ditadura militar e as tecnologias de poder são outras; e tanto lá como cá existem resistências reais, por mais difícil que seja exercê-las, também levando em conta as heranças desastrosas da própria ditadura, com destaque para a tragédia na educação. Destaco um período de uma reportagem da Le monde diplomatique Brasil, agosto de 2015, Henri Acselrad, p. 37 (“O lugar e as possibilidades da política: da ditadura à ‘governança’ neoliberal”): “Mas restou tb (da ditadura), sob novas formas, a degradação da política, mergulhada em um tipo de realismo que parece negar a possibilidade de o povo mobilizar sua inteligência coletiva para pensar sua prória condição, seu devir e os meios de construí-lo”. Se não me falha a memória, esse artigo também menciona o livro de Betinho.

[7] “O campo evangélico não é um campo hegemônico, as fissuras são notórias. E há uma resistência bastante relevante e cada vez mais organizada. O embate é muito intenso. O grupo influenciado por essa ideologia e por essa teologia do poder é forte, com influência sobre a comunidade. Mas o grupo resistente também tem influência. Em sua maioria, os que resistem são proponentes de uma teologia conhecida como Missão Integral, uma teologia latina que surgiu na década de 1960 do pressuposto de que o governo de Deus, que é a ascendência espiritual e ética do Cristo sobre os que se confessam seu povo, é um governo para o bem dos empobrecidos, dos injustiçados, dos despossuídos, dos marginalizados. Portanto, uma teologia que busca a justiça social. (…) Hoje o que há é uma disputa no campo do ideário, no campo teológico. Diversos segmentos disputam a ascendência sobre o grupo independente. Esse é o patamar em que se encontra agora a batalha dentro do campo evangélico”; a citação a retirei de http://diplomatique.org.br/neopentecostais-e-o-projeto-de-poder/.

 

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