Sobre as eleições presidenciais de 20 de maio na Venezuela

Por Sonia Boueiri, traduzido por Daniel Fabre

Professora venezuelana analisa as eleições presidenciais passadas e aponta as inconsistências do discurso “abstencionista” da oposição. O pleito foi, na verdade, uma grande manifestação por mudanças econômicas e demonstrou que a direita venezuelana perdeu seu “melhor momento eleitoral”.


Antecedentes

Desde 2016 a oposição exigia o adiantamento das eleições presidenciais. Continuaram sendo insistentes nos dialogos realizados entre oposição e governo na República Dominicana em 2017 e começos de 2018. O chavismo aceitou adiantá-las e a Assembleia Nacional Constituinte as designou para o primeiro quadrimestre do ano (ainda que estivessem marcadas para dezembro de 2018.). De forma paradoxal, os dirigentes da Mesa da Unidade Democrática (MUD), declaravam agora “que não estavam dadas as condições”, aludindo a questões vagas, agindo como se quisessem mudanças radicais na CNE (o mesma que lhes deu o triunfo parlamentar em 2015 e a vários governadores e 2017), que viesse a OEA, etc. O certo é que suas fraturas internas dificultava a designação de um candidato único, além de jogar com a aliança estrangeira que orientava a evitar ou, em todo caso, deslegimitá-las. Decidem assim dar o salto no vazio abstencionista (questão difícil de entender se afirmam possuir 80% do eleitorado). Agrave-se então a guerra econômica (hiperinflação acumulada em mais de 10 mil%, dólar paralelo a quase 1 milhão de bolívares), que, por si só, poderia produzir um desajuste de tal nível que a faria inviável. A nível internacional, se faz o mesmo com o bloqueio financeiro criminoso e as sanções ao país, coadjuvando com a tremenda crise da qual padecemos pela escassez de mediamentos, alimentos, provisões e outros insumos fundamentais.

Mas, um setor opositor decidiu participar e sob a coordenação do CNE se firmou um Acordo de Garantias Eleitorais em primeiro de março que, finalmente, viabiliza as eleições presidenciais e de Conselhos Legislativos (vencidas), para 20 de maio. Inscreveram-se 15 dos 18 partidos existentes.

Resultados

Segundo o boletim oficial dado no dia 21/05/18, com um índice de transmissão de 98,78% das atas estruturadas, se depreende que votaram 9.132.655 pessoas, o equivalente a uma participação de 46,02% distribuídos assim:

  1. Nicolás Maduro (PSUV e vários partidos mais): obtém 67,76% do total de votos válidos (6.190.612).
  2. Henry Falcón (Avanzada Progresista, Movimiento al Socialismo e COPEI): obteve 21,01% (1.917.036)
  3. Javier Bertucci (Esperanza para el cambio): 10,82% (988.761)
  4. Outros…

Reações

O principal candidato da oposição, Henry Falcón, antes de que se publicasse o primeiro boletim, anuncia que “não reconhece as eleições”, bom, “na verdade não houve, são uma farsa”, mas que, em todo caso, “venceu o abstencionismo”, e que pedirá que se repitam “por volta de outubro”. Seus argumentos tinham a ver com a suposta compra de votos, com a existência de alguns pontos de verificação partidária chamados “pontos vermelhos” a menos de 200 metros dos centros eleitorais, e ao fato de que alguns centros de votação fecharam depois das 18h00. Por sua parte, o pastor evangélico Javier Bertucci, fala da vantagem governamental, mas, em todo caso, reconhece o triunfo de Maduro e achaca a derrota da oposição pela falta de unidade e pela política abstencionista equivocada.

Os observadores internacionais (uns 150 aprox..) manifestaram a normalidade dos comícios, que transcorreram “com total garantia a eleitores e candidatos”. Assim assinalou, por exemplo, o Comitê de Especialistas Eleitorais da América Latina, Por sua parte, o ex-presidente Rodríguez Zapatero destacou o exemplar processo, ainda que tenha dito que sempre se podem melhorar as garantias já que “o poder” sempre tem vantagens. O integrante do Europarlamento, Javier Couso, ressaltou o comportamento cívico dos venezuelanos e sublinhou o fato de que o povo da Venezuela tem que decidir através do voto o destino de sua nação. Por outro lado, a presidenta do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela, Tibisay Lucena, disse que os observadores internacionais frisaram que “é impossível a fraude no sistema eleitoral venezuelano”.

Os países do Grupo de Lima questionaram a vitória do mandatário venezuelano e declararam que “não reconhecem a legitimidade do processo eleitoral” que a seu juízo não cumpriu “com os padrões internacionais de um processo democrático, livre, justo e transparente”, chamando para consulta seus embaixadores em Caracas como sinal de “protesto” porque a Venezuela não suspendeu as eleições (é dizer, não acatou suas ordens) Trump, também protesta nos apertando o torniquete com uma ordem de proibição a seus cidadãos de comprar dívida pública venezuelana. Rajoy anuncia que fará o mesmo ante a União Européia.

Algumas análises rápidas

Nesta ocasião o padrão eleitoral foi de 20,5 milhões. Se ficamos com a abstenção histórica (esses que nunca participam sob nenhuma circunstancia), que é entre 20 e 25%, temos um teto real de aproximadamente 16 milhões de votantes, dos quais o chavismo teria, ao menos, 35%. Se comparamos com o triunfo de Maduro em 2013 (7,6 milhões), se haveria perdido aproximadamente 20% da base política. Pois bem, teve isso a ver com a terrível situação econômica que atravessamos? É possível, mas parece estar mudando a lógica tradicional do “voto castigo” passando-se a um voto consciente e maduro. Mas, mais difícil ainda é entender a situação de uma oposição fragmentada e desorientada que perdeu, desde as ultimas eleições, 62% de seu piso eleitoral (somando os votos atuais de Falcón e Bertucci). Perderam seu “melhor momento eleitoral” sustentado na fome e na penúria do povo.

Um amigo meu disse que “ganhamos uma prova eliminatória para passar a lutas superiores”. De fato, o que vem por ai será muito duro. Estamos esperando mais sanções, bloqueios e assédio internacional. Com salário pulverizado pela hiperinflação bestial e pela caotização de quase todos os serviços públicos. No institucional, estamos esperando um comportamento que retome e fortaleça os postulados primogênitos do chavismo: que ataque ferozmente a corrupção, a ineficiência, que permita às forças populares ter um rol mais ativo e decisivo. O povo saiu apenas com o que lhe deixaram, sua moral, enviando uma mensagem: quer e exige medidas urgentes e definitivas na economia. Este será o verdadeiro e contundente “triunfo eleitoral”. Mãos a obra então!


*Sonia Boueiri é professora de sociologia jurídica na Universidade de Los Andes, em Mérida, Venezuela.

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