A ascensão do autoritarismo: o gozo do sujeito instrumentalizado

Por Camila Koenigstein

Em seu texto “A sedução totalitária”, Contardo Calligaris se propõe percorrer o caminho outrora feito por Hannah Arendt, Jaspers e outros intelectuais que tentaram compreender a ascensão do nazismo e a aceitação do mesmo por parcela considerável da população alemã.

Apoiado em conceitos psicanalíticos, o autor elege o caso de Speer, arquiteto de Hilter, para exemplificar o processo de mudanças sociais profundas no qual um homem, aparentemente normal, capacitado e inteligente, passou a colaborar e ser peça do regime nazista.

De certa forma (e partindo de uma análise histórica fica evidente que o nazismo só foi possível graças a junção de elementos culturais, políticos e sociais), Primeira Guerra Mundial, Tratado de Versalles, crise econômica e um sistema político frágil (República de Weimar) auxiliaram de forma única para a formação de uma ideologia voltada ao extermínio do outro. Outro, esse, responsável pelo meu mal estar social. Assim, a saída seria trabalhar, ser produtivo, rumo à construção de uma sociedade mais forte e unida, uma Alemanha idealizada no imaginário coletivo.

“O que significa ganhar ou perder uma guerra? Nas duas palavras, chama a atenção o sentido duplo. O primeiro, o sentido manifesto, significa decerto o desfecho, o segundo, porém, que dá a concavidade, a ressonância especial a ambas as palavras, significa a guerra em sua totalidade, indica como o seu desfecho para nós, altera o seu modo de existência para nós. Ele diz: O vencedor conserva a guerra, o derrotado deixa de possuí-la […]. Perdemos uma das maiores guerras da História mundial, uma guerra a qual se vinculava toda a substância material e espiritual do povo. (BENJAMIN, 2012, p.68)

Assim, percebemos que o desamparo social fora um dos aspectos necessários para a consolidação da ideologia nazista. Desta forma, as neuroses emergiram facilmente dentro dessa configuração social convidativa. O que seria mais ideal a um neurótico do que ser instrumento do outro, estar a serviço de uma propósito maior que possa ressignificar toda a sua existência de sofrimento? Conforme o autor afirma, uma das saídas dentro desse cenário é a perversão, visto que os fantasmas infantis, outrora pertencentes ao individuo de forma isolada, agora podem ser compartilhados em esfera coletiva, por meio da construção de um suposto semblante paterno compartilhado, ou seja, o sentimento de pertencimento passa a ser um significante fundamental para a existência do individuo.

Exemplo dessa montagem é vista na autobiografia de Rodolf Hoss ( Comandante do campo de concentração Auschwitz-Birkenau), em que ele deixa evidente a satisfação de servir como peça, instrumento dessa engrenagem maior que foi o Terceiro Reich:

“Por la vonluntad del Reichsfuhrer de las SS (Himmler), Auschwitz se convirtió en el mayor centro de extermínio humano de todos os tempos […] las camaras de gas de su campo tenían una capacidad 10 veces mayor que las de Treblinka” (GRANOVSKY, 2016, p. 116)

Percebemos claramente o quanto a finalidade deixa de ser pensada: a morte é só consequência da eficiência do funcionário. Com isso percebemos o triunfo da banalidade.

Nesse sentido, captamos facilmente a ausência de culpa em determinados membros da SS, como Eichmann, Gobells e Hoess – esse último citado por Calligaris:

“[…] Mas como você podia gozar esse gozo matando assim, como esse gozo foi possível? A resposta de Hoess se resume numa frase: “ eu era um funcionário exemplar” […] Ele está dizendo: a pergunta de vocês está mal formulada, pois meu gozo não era matar pessoas, o meu gozo era ser um funcionário exemplar e, eventualmente, para ser um funcionário exemplar, eu estava disposto a matar pessoas” (CALLIGARIS,1991, p.110)

Tal fenômeno visto e relatado por Hannah Arendt em Eichmannn em Jerusalém causou espanto justamente pelo fato da autora perceber que a intenção primária era o cumprimento de dever e não a morte generalizada. Assim, o sentimento de culpa não recaia sobre a função a que se era destinado a cumprir (essa, feita de forma exímia), mas sobre a consequência desse cumprimento, ou seja: a morte banal.

Contardo aponta que essas engrenagens psíquicas não isentam o criminoso, que na tentativa de aplacar seu sofrimento infantil, faz com que elas tornem-se instrumento para infligir sofrimento ao outro.

Analisando tais casos percebemos como a figura de Hitler foi facilmente aceita, pois ele personificou o semblante paterno, o representante da Lei, detentor da linguagem, sujeito do significante e da ordem. O sujeito do suposto saber, nas palavras de Lacan, “objeto de uma fé que não é senão a fé que se tem na linguagem”.

A linguagem passa a ser então um instrumento de dominação, pois o discurso é uma forma de unificação dos sujeitos. A identificação passa a ser a coletiva, ou seja, o sujeito se sente pertencente a algo maior, e nesse caso não importa o que seja pedido: o importante é ser parte da construção de uma saída para o sofrimento neurótico, agora compartilhado na esfera social.

Nesse caso, é evidente que a II Guerra Mundial e seus símbolos inauguraram uma era de neuroses e perversões nunca antes vista.

A modernidade e a instrumentalização dos indivíduos.

As repressões dos comportamentos impostos pela Modernidade geraram uma era voltada para o controle cada vez maior das ações pulsionais. No entanto, é evidente que o controle imposto pela cultura sobre os indivíduos continua sendo insuficiente quando pensamos em respostas que possam esclarecer o aumento significativo de doenças como depressão e ansiedade. A chave para tal questão talvez esteja justamente no que se busca como ideal de felicidade. Vivemos uma era voltada para o ter, ao acúmulo de mercadorias, que a priori traria a satisfação e a plenitude do sujeito. Desta forma, ser instrumento de acumulação de capital para o outro, o funcionário exemplar, aplacaria a falta, e traria o sentimento de unidade, pertencimento. No entanto, a busca por esse modelo de vida tem se mostrado um fator de angústia permanente. A crença de que os bens materiais são responsáveis pelo reconhecimento social está criando uma geração amargurada e desesperançosa em relação ao futuro. Vemos com cada vez mais frequência que uma vida abastada não garante satisfação, o que é evidenciado pelo vazio existencial, ou um narcisismo que se faz presente na ostentação de símbolos de poder, de prestígio, e também na violência que se manifesta através do medo do “outro” que pode ameaçar o status quo.

Esses conflitos criados no seio do capitalismo desencadearam processos complexos de insegurança, angústia, desespero, drogadição, ansiedade, depressão e, principalmente, violência.

Contraditório à razão, mas bastante esclarecedor quando pensamos que estabelecemos um contrato de abandono do princípio do prazer em nome da segurança social, o momento atual é de grande reflexão sobre a modernidade e seus desdobramentos. O sentimento de desamparo, fruto da individualização excessiva das sociedades capitalistas, fez com que cada vez mais os indivíduos procurassem as redes sociais como forma de inserção, identificação com aqueles que compartilham dos mesmos ideais, ainda que isso ocorra dentro de uma dimensão extremamente solitária e fantasiosa. Com isso percebemos o quanto é sintomático a exposição da vida, o compartilhamento da intimidade, que em certa medida evidencia a necessidade de obter, nas palavras de Caligaris “um saber comum”.

Assim, não é espantoso esse retorno de políticos conservadores, que evocam mais do que nunca essa instrumentalidade, esse indivíduo apto ao mundo do trabalho e disposto a sacrificar algumas conquistas em detrimento da construção de um futuro coletivo idealizado. Ao mesmo tempo, na busca de consolidação desse processo percebemos o quanto o narcisismo das pequenas diferenças se faz necessário. Dessa forma o outro se mostra cada vez mais responsável pelo momento de instabilidade (pobres, imigrantes, negros, nordestinos, homossexuais, mulheres) e torna-se o alvo em potencial a ser culpabilizado pelo momento atual, evidenciando o fascismo latente que pulsa no seio da sociedade moderna. Eis o perigo que ecoa na atualidade: o retorno de indivíduos neuróticos que buscam saída do sofrimento pela perversão, que o evidencia o aumento significativo de violência e mortes com traços de nítidos de perversidade.

Novos questionamentos surgem: quais são os rumos da sociedade atual? Freud tentou responder, mas deixou o benefício da dúvida para cada um de nós:

“Os seres humanos conseguiram levar tão longe a dominação das forças da natureza que seria fácil, com o auxílio delas, exterminarem-se mutuamente até o último homem. Eles sabem disso; daí uma boa parte de sua inquietação atual, de sua infelicidade, de sua disposição angustiada. E agora cabe esperar que o outro dos dois “poderes celestes” o eterno Eros, faça um esforço para se impor na luta contra o seu adversário igualmente imortal. Mas quem pode prever o desfecho”? (FREUD, 2013, p. 185)

  • Historiadora pela PUC/SP; mestranda em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires/UBA.

Bibliografia

André, Jacques. (2015). Vocabulário Básico da Psicanálise. São Paulo, Brasil: Ed. WMF Martins Fontes. 2015.

Calligaris, Contardo. A sedução totalitária, in: Clinica do Social. Ensaios. São Paulo: Escuta, 1991.

Granovsky, Súlim. Los otros genocídios de Hitler: Terstigos de Jeová, homosexuales, gitanos, débiles mentales, discapacitados físicos, cristianos, políticos, intelectuales. 1ed- Ciudad Autonoma de Buenos Aires. Argentina, Ed, Continente. 2016.

Freud, Sigmund. Mal estar da Cultura. Porto Alegre, RS: L&PM. 2013.

Freud, Sigmund. As pulsões e seus destinos. São Paulo, Brasil: Ed. Autêntica.

Freud, Sigmund et al Einstein, Albert (1932). Por que a guerra? Paris Instituto internacional para cooperação intelectual (Liga das nações).

Levi, Primo. Os afogados e os sobreviventes – Os delitos, os castigos, as penas, as impunidades. São Paulo, Brasil: Ed. Paz e Terra. 2004

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