O voto útil e a economia política dos afetos

Heribaldo Maia, graduando em História pela UFPE

Havia a sensação, já confirmada, de que a eleição presidencial de 2018 seria conturbada. A todo momento surgem novos fatos. A cada pesquisa explodem análises e projeções por todos os lados. O grande assunto do momento entre os progressistas é: (com Bolsonaro se consolidando na liderança do primeiro turno, mas devido sua forte rejeição, e com um cenário cheio de empates em quase todos os cenários no segundo turno) a estratégia do voto útil em um candidato que, por mais que não seja a encarnação de um projeto de esquerda radical, mas que tenha capital eleitoral suficiente para barrar o candidato fascista. Mas, melhor do que debater se esse tipo de voto é estrategicamente correto ou não, seria necessário nos perguntar: o que leva considerarmos tal estratégia?


Poderíamos abordar essa questão de muitas perspectivas, porém acredito que entender a circulação dos afetos que a política mobiliza, especialmente nessa eleição 2018, é um elemento central que nos ajudará a compreender parte desse fenômeno do voto útil.

Em 2015 o filósofo Vladimir Safatle lançou um livro intitulado “O circuito dos afetos”. Sem tratar das questões teóricas do livro, o texto nos traz uma importante reflexão: de compreender a política não apenas como organização da circulação de bens e riquezas, mas também como modelos de gerência da circulação social de afetos. Essa concepção não é nova na história do pensamento político. Toda uma tradição da filosofia política, por exemplo, entendia a centralidade dos afetos na organização política. Hobbes, por exemplo, percebia que o medo possui uma força coercitiva fundamental nas sociedades modernas. Mas a questão é ainda mais profunda, é partindo da forma como a política constitui certos circuitos de afetos que o poder do sistema rege o que vemos e o que fica invisível – pois afeto é, no sentido mais estrito da palavra, o que nos toca e nos mobiliza para algo.

Se trouxermos para o tempo do agora essa ideia fundamental de Safatle, podemos perceber nitidamente que essa eleição de 2018 possui um forte elemento afetivo em circulação, com apelo ao medo como afeto político central. Observe que o grande argumento dos apoiadores do voto útil, ainda no primeiro turno, não se baseiam no programa do candidato escolhido, Fernando Haddad ou Ciro Gomes, mas na sensação de que há um perigo real de vitória de Bolsonaro, e por isso o voto deve ser dado no candidato com mais capital eleitoral – baseado, em pesquisas que, em um passado recente, já se mostraram pouco confiáveis – e não no projeto político em si ou numa estratégia consolidada de enfrentamento político. Veja: mesmo o fato de Ciro Gomes ter Kátia Abreu (que no seu caso vem acompanhando, em seu programa, de projetos que não choca os interesses do agronegócio), apoiadora fiel do latifúndio, contra a legalização do aborto e a favor do porte de armas no campo, como vice; e Haddad que já indica claramente um Ministro da Fazendo neoliberal (Marcos Lisboa)[1], dando sinais evidentes de uma guinada à direita, além de já ter feito aliança com largos setores golpistas, como em Pernambuco com Jarbas e o PSB – mesmo isso deve ser momentaneamente deixado de lado, pois há uma chance real de Bolsonaro vencer. A lógica não está num debate em torno de um projeto de nação, de um programa político-econômico ou até em pautas identitárias, mas o voto é pensado ex-negativo ao candidato Bolsonaro. Cria-se um debate político sem política.

Cabe um breve esclarecimento. Não se trata de atacar quem vota programaticamente nesses candidatos (Ciro ou Haddad), e nem se trata de afirmar que o voto útil é certo ou errado (já que essa estratégia possui, em nosso modelo eleitoral, um lugar, que é o segundo turno). A questão é entender porque nas últimas duas eleições (2014-2018) esse debate surgiu precocemente, em especial na atual eleição, 2018.

Voltando ao nosso raciocínio. Parece, nesse debate precoce de voto útil, que não há projeto político mais representativo e avançado para o campo progressista e de esquerda a ser considerado – e caso não houvesse, realmente o voto útil tão cedo faria mais sentido. A questão é que há alternativa a ser construída e pensada: Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, da chapa PSOL/PCB/Movimentos Sociais. É fato que essa aliança ainda é recente, e como tudo que é novo, ainda está amadurecendo e se construindo politicamente entre erros e acertos, porém o líder dos sem-teto e a líder indígena, aliados a um programa construído coletivamente por pensamentos plurais e pela base, é algo importante e inédito no país, ainda que muito novo. Porém, é exatamente a juventude dessa aliança, que ainda não teve a oportunidade de construir sua imagem de forma concisa que reverbere em capital eleitoral imediato, ainda levando em conta o conturbado cenário, faz com que essa candidatura tenha percentuais baixos nas pesquisas, porém uma rejeição baixíssima. Isso termina por reforçar ainda mais o argumento do voto útil, pois num cenário de medo, votar num candidato que claramente não vencerá é jogar fora o voto num momento arriscado demais. Paradoxalmente, o voto útil surge num momento em que temos ainda temos opção, I) seja porque ainda é o primeiro turno e o jogo não acabou, II) porque as pesquisas apontam claramente que Haddad ou Ciro irão para o segundo turno, não havendo o risco de termos que escolher entre Bolsonaro e Alkimin. Ou seja, por momento, ainda é hora de alimentar as alternativas ao futuro e construir projetos. O único argumento sólido para o voto útil, e que é alimentado principalmente pela campanha de Haddad, é o argumento do medo do grande mal por vir.

Mas de onde vem esse medo. Slavoj Zizek afirma que cada vez mais situações como essa serão frequentes na política. O caso paradigmático citado pelo esloveno foi a última eleição presidencial francesa, onde por medo de uma vitória da neofascista Le Pen, diversos setores da esquerda deixaram de lado o apoio ao candidato mais à esquerda, ainda no primeiro turno, para apoiar Macron, um neoliberal “com rosto humano”. Veja, o voto dos franceses não foi num programa, num projeto, mas num anti-candidato. Zizek chama essa sinuca de bico, péssima para as pessoas, ótima para o capital, de “a chantagem liberal”[2]. Do mesmo jeito que o fascismo mobiliza o medo diante da alteridade para criar coesão social, o esloveno afirma que o sistema neoliberal contemporâneo vem utilizando a ascensão da extrema-direita para, a partir do medo de um retorno ao fascismo, criar coesão política e manter as políticas econômicas pró-capital, e ainda não serem contestadas, já que elas seriam as consequências de evitar um mal maior. Cria-se assim um circuito dos afetos onde o medo possui um lugar central na manutenção do status quo.

O sistema cria uma ilusão de opções, em que age ao mesmo tempo como o bombeiro e o piromaníaco de si mesmo. Ele cria uma imagem do medo, em que ele próprio pode acabar, mas é esse mesmo medo que o sustenta, já que sem o medo outras alternativas ganhariam visibilidade e o novo poderia surgir. Observe que o medo serve como bloqueador da criatividade política e como essa lógica se aplica com precisão no Brasil atual.

Não foi por falta de oportunidades que o sistema político-institucional brasileiro, que tanto Ciro como Haddad confiam e defendem veementemente (Ciro ainda assume uma postura mais combativa que a de Haddad, nesse caso), parou Bolsonaro: crimes de racismo explícitos, apologia à tortura, lavagem de dinheiro, emprego funcionário fantasma, ameaça de estupro, etc, etc, etc. O sistema precisa de Jair Bolsonaro, e Bolsonaro é o filho do sistema. O status quo o protege na mesma medida em que o ataca, seja como o medo necessário para emplacar um candidato que não enfrente consequentemente o sistema atual, seja como a pessoa que vencerá caso a coisa fuja do controle, não à toa diversos setores do mercado já acenam para o candidato do PSL[3], indicando que o fascismo pode ser, como já foi em outras situações históricas, instrumentalizado pelo capitalismo para pôr em prática sua agenda antipopular.

Mas é óbvio que, apesar da análise teórica e dos exemplos recentes, a ação (ou inação) movida pelo medo é compreensível, ainda mais se pensarmos o quanto grupos socialmente vulneráveis sofrerão no caso de vitória do ex-militar protofascista. O medo tem base real, pois todo afeto mobiliza fatos concretos, ainda que criando fantasmagorias de um futuro que nos atormenta como um pesadelo, como um filme de terror de Jason. O medo do que pode acontecer caso Jason apareça faz com que as personagens, vítimas do vilão, de seus filmes ajam de forma a encontrarem Jason e consumarem o mal que tanto temiam.

Se voltarmos a Espinosa, o medo é a projeção de que um mal ocorra. Assim, não cabe combater o medo com esperança, pois ela é a expectativa de que um bem ocorra. A lógica temporal é a mesma: quem tem medo de que algo ruim ocorra, também tem esperança que esse fato ruim não ocorra – medo e esperança se retroalimentam. Um exemplo didático: no documentário sobre os eleitores de Bolsonaro feito pelo Vice Brasil[4], um dos jovens disse que a figura de Bolsonaro se alimenta da reação da esquerda diante de seus atos. Perceba que há num circuito de afetos que alimenta a imagem de Bolsonaro (o grande mal), que constrói uma temporalidade específica: o tempo da expectativa, da projeção. Esse tempo da expectativa tem fortes consequências políticas.

Agora podemos partir para entender quais as consequências políticas de uma estratégia política baseada no medo como afeto central. Uma ação política baseada numa temporalidade da expectativa é, na verdade, uma inação, já que o medo é um afeto paralisante. Pois a expectativa se funda na espera pela confirmação ou negação de uma imagem projetada no futuro, e é essa imagem que nos afeta, causando medo e esperança, sincronicamente.

Nessa eleição, por exemplo, a imagem construída é da vitória de Bolsonaro, e toda estratégia política consiste em torno dela, seja para sua confirmação (por parte dos Bolsonaristas) ou de sua negação (por parte dos anti-bolsonaristas) – e essas forças que polarizam o debate. Perceba que essa forma de fazer política é extremamente conservadora e facilmente manipulável, pois não se trata de pensar o novo, mas de evitar uma imagem previamente construída. O novo, a transformação social efetiva, precisa ficar de lado, pois o medo do pior impede de arriscar um caminho da alteridade, da mudança radical e da radicalidade política, pois isso requer pensar a política sem imagens projetadas. Com isso, não há vitória possível independente de qual for o resultado.

Observe rapidamente. Enquanto Bolsonaro constrói sua campanha encarnando um desejo, quase que infantil, no sentido psicanalítico, por segurança, força, ordem, hierarquia, simbolizado por uma promessa de um retorno ao modus operandi dos militares na política. Haddad também opera sua campanha de forma similar, construindo a ideia de um retorno a um Brasil que já foi feliz, e que pode voltar a ser feliz novamente[5]. Qualquer semelhança com o lema de Donald Trump de “Make a great amercian again” não é coincidência, ainda que a situação e o espectro político seja diferente. Apesar de serem polos opostos, eles se retroalimentam. A título de exemplo, ainda essa semana, em sua rede social, o ideólogo do PT, Breno Altman, afirmou que: “Mas por que iríamos querer tirar o Bolsonaro do segundo turno? Para perdermos as eleições? ” Ao menos Altman me poupou explicações teóricas. Ele, e seu partido, o PT, brincam com o perigo do fascismo. Mas não à toa, porque o PT busca aparecer como o pacificador, como o mal menor na qual as pessoas, no auge do medo, irão recorrer.

Por vezes contamos as histórias das grandes Revoluções como se a todo momento suas personagens estivessem com tudo sob controle, onde todos agiam na certeza de que o grande momento redentor estava agendado, bastava caminhar um pouco. Clio tem forte inclinação para as tragédias, por isso mesmo não é, e nem foi, assim.

Vamos voltar nossos olhos para o passado. Se formos à História, percebemos que todo acontecimento, no sentido mais profundo do termo, que marca uma mudança radical, ocorreu em situações onde o medo não estava presente como afeto central. Isso não significa que não existia medo, ele só não pautava as ações. No livro “As portas da revolução”, em que Zizek organiza cartas de Lenin às vésperas da Revolução Russa de Novembro de 1917, podemos perceber que havia um forte clima de incerteza (por mais que Lenin e outros revolucionários tivessem planos, estudos, leituras, etc), muitas coisas podiam dar errado, e eles tinham ciência disso. A incerteza fazia parte do plano, a contingência do inesperado também, já que um acontecimento se desdobra de forma incontrolável.

A Rússia revolucionária era um país colapsado, pobre, atrasado e destroçado pela Primeira Guerra Mundial, cercado por potências imperialistas prontas para sufocar um possível levante popular. Tinha tudo para dar errado, tinha tudo para o medo impedir qualquer ação dos bolcheviques (que por certo tempo foram minoria) e seguir uma via mais segura, que existia (os mencheviques). Mas não foi isso que aconteceu. Lenin soube bem livrar os bolcheviques das expectativas, das imagens que aprisionam e os inseriu num ambiente de ação, ainda que tudo pudesse dar errado e ciente que o pior podia acontecer. Lenin, como diz Zizek, teve a coragem de sujar às mãos e mergulhar um acontecimento até as últimas consequências. O medo não os paralisou, e a Revolução Russa levou o socialismo à vitória. Essa vitória só ocorreu porque os revolucionários não temeram o mal, mas o encararam sem alimentar a cadela no cio. Venceu porque ousou construir o futuro, e não esperar por ele. E as consequências desse ato de coragem foram enormes, abrindo um horizonte de possibilidades histórico do qual até hoje vemos esses frutos.

A temporalidade dos acontecimentos é, portanto, pura abertura, e traz consigo um horizonte novo de possibilidades. É somente uma abertura, que escape de imagens paralisantes, que permitem que um horizonte de ação seja possível. Como sabia Lacan, viver medo, é viver sem esperança. Transformar uma sociedade como o Brasil, marcada pela violência, pela dor, pela morte sistemática, etc., requer largar as esperanças em imagens infundadas e se lançar num circuito de afetos que nos mova para ação. Nesse momento de medo, devemos parar um pouco e nos perguntar: por que em determinados momentos as pessoas olham e acham que não são mais capazes de produzir algo novo?

Produzir algo novo é mergulhar num acontecimento, e esse não possui imagem futura nítida, há no máximo um horizonte turvo. Lenin venceu, Fidel venceu, mas imagina se Marx, pelo medo do exílio, da guerra civil, das perseguições, da morte, da prisão, da restrição financeira, não tivesse tentado? Existiria Lenin, Fidel, Che? Cuba, existiria? Mariguella morreu, Martin Luther King Jr. morreu. Mas imagina se o medo paralisasse Mariguella, Prestes, King, Soledad Barrett? O que seria do nosso hoje? Imagina se esses que perderam não houvessem tentado? Ou abrissem mão em prol da segurança de um mal menor? Um acontecimento é permeado pela incerteza do futuro[6]. A história nos traz exemplos de que mesmo quando atos de ousadia de transformação não ocorrem imediatamente, eles nunca morrem, pois como diz Walter Benjamin: o passado carrega consigo um índice misterioso que impele a redenção. Um acontecimento não morre, ele deixa marcas na história que não podem ser apagadas, e elas possuem vida.

Nossa situação no Brasil é dificílima. É inevitável o medo. Porém, não deve ser o medo a guiar nossa estratégia política, pois se nós pretendemos transformar nosso país é preciso, como na foto de Yves Klein, saltar no vazio. É preciso produzir o que não sabemos, como diz Adorno. Porque toda construção de um futuro é permeada por contingências que não temos controle. A função da esquerda não é a de desconfiar da sua capacidade de fazer (como propõe alguns ao comentar alianças esdrúxulas e nos empurrando Ministros Neoliberais), pois quando desconfiamos da nossa potência de mudar, não mudamos. E não mudando só sobra o que já existe. A função da esquerda é produzir o acontecimento, é pensar o impensável e o impossível. Como Mariguella, Che, Soledad, Marx, Lenin, Angela Davis, tentaram, pensaram e fizeram o impossível se transformar num horizonte de ação política.

Se vamos vencer hoje ou amanhã, não sabemos. Se vai piorar ou melhorar não sabemos. Mas transformar requer a força de encarar o desconhecido como quem salta no vazio, e finalmente chamar os demais e dizer ao mundo: vamos sem medo de mudar!

 


 

[1]O próprio mercado já considera que Haddad, caso eleito, não será um um presidente anti-status quo: https://exame.abril.com.br/brasil/fernando-haddad-pode-nao-ser-o-bicho-papao-que-o-mercado-teme/

[2]http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/567374-a-chantagem-liberal

[3]https://brasilianismo.blogosfera.uol.com.br/2018/05/17/sem-candidato-forte-mercado-se-preocupa-com-eleicao-e-flerta-com-bolsonaro/

[4]https://www.facebook.com/vicebrasil/videos/1064763587028047/UzpfSTEwMDAxMDA0Njk4MjAzMzo3MDA3NTMzNzY5MzYyMjI/?id=100010046982033

[5]Nisso, Ciro Gomes parece se distanciar um pouco, buscando se colcar, cada vez mais, como uma terceira via, mesmo que moderada.

[6]Lembro numa conversa de mesa de bar, com colegas da UJC, e chegamos a seguinte pergunta: vale a pena ser comunista mesmo que você tivesse certeza que vai morrer e não vai ver a revolução? Por mais que a gente construa uma imagem de futuro, essa imagem é incerta, ela depende de não nos apegarmos a ela, e arriscar construir um novo que não sabemos o que é exatamente. Talvez por isso Marx tenha escrito tão pouco sobre o Comunismo, porque ele sabia que a ação não depende de imagens, mas de ação.

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