O Império do Gênero

Por Movimento Juventude Connolly, traduzido por Ohana Meira

Para a maioria das pessoas, é raro que as discussões modernas de gênero se estendam para além das capturas de tela de postagens em tumblr e dos argumentos menos educados sobre gênero, sexo e suas diferenças – mas debater as identidades humanas está longe de ser algo novo. Como todas as normas sociais ocidentais, o “gênero” deriva de relações econômicas com terra, riqueza e privilégio.

Seu youtuber favorito pode ter ajudado a lembrá-lo de colocar a compaixão diante da tradição, mas sem a compreensão das razões pelas quais as normas de gênero existem, nós, como espécie, nunca poderemos derrotar as centenas de anos de opressão de gênero. O século XV trouxe a “Era dos Descobrimentos” para alguns e a “Era da Colonização” para a maioria. Os países europeus embarcaram em grandes expedições para reivindicar terras para si próprios, embora a maioria já estivesse habitada, o que resultou em conflitos. A forma como os europeus desestabilizaram as sociedades já estabelecidas deixou um impacto duradouro hoje, especialmente na destruição das estruturas sociais e sua relação com a terra.

Embora muitas dessas nações europeias já não estivessem há muito tempo livres das mitologias greco-romanas de múltiplos gêneros, como Hermafrodito (filho de Afrodite e Hermes) e Tirésias (que se transformava em mulher), elas infligiam a dualidade de gênero a outros nações como uma forma de controle. Eles retrataram suas próprias crenças de gênero como sendo a marca de uma civilização, a marca de um ser humano – postulando, portanto, os nativos das áreas descobertas como sub-humanos.

A filósofa feminista Maria Lugones argumenta que a violência sexualizada foi justificada por serem sujeitos colonizados desumanizados e que o “controle dos corpos colonizados institucionalizou a internalização dos sistemas coloniais”. A doutrinação religiosa, com divisões entre o bem e o mal equiparando as fêmeas colonizadas a Satanás, estabelecia sem dúvida não apenas uma colonização de corpos, mas de memória… abrindo caminho para a reapropriação de terras para a implementação de projetos capitalistas. Essa tática também desestabilizou com sucesso as comunidades indígenas que eram mais matrilineares e atribuíam aos homens total responsabilidade pela tomada de decisões e pela propriedade da terra em todo o mundo. À medida que as ideologias coloniais se consolidaram, “homens” dessas sociedades muitas vezes conspiravam com colonizadores para desvalorizar “mulheres”.

Enquanto a maior parte da Europa começa a se autoeducar lentamente a partir das normas de gênero, nos voltamos para o julgamento de ex-colônias e sua história sexista / homofóbica – como se não fosse algo que os tivéssemos ensinado.

Muitos registros de cosmologias indígenas foram há muito perdidos para a história e, portanto, nosso verdadeiro entendimento de nossa espécie é limitado. O que sabemos, no entanto, é que o gênero como uma forma de subordinação não tem lugar em nossa sociedade e a suposição de que “mulheres” sempre existiram em todas as culturas como uma classe subordinada aos homens não tem base na realidade.

• O povo Bugi da Sulawesi do Sul reconhece três sexos (masculino, feminino, intersex) e cinco gêneros: homens, mulheres, calabai, calalai e bissu.

• Mashoga é um termo suaíli que remete a uma gama de identidades de gêneros contínuas. Enquanto é usado vagamente para indicar homens gays, uma grande proporção de mashogas são homens biológicos que se adaptaram ao gênero feminino desde muito cedo.

• O Reino de Daomé (hoje Benim) tinha um regimento feminino para as guerreiras mulheres chamado de mino (nossas mães). Elas eram mulheres solteiras, sem filhos que foram ensinadas a terem traços masculinos e agressivos.

• Hijra (Sul da Ásia) são homens que adotam psicologicamente a identidade de gênero feminina, roupas de mulher e papeis de gênero femininos. Durante a era do Raj Britânico, autoridades tentaram erradicar os hijras, que eles viam como “uma violação na decência pública”.

• Na cultura maori, wakawahine são homens que assumem ocupações tradicionalmente femininas, como a tecelagem. Wakatane denota uma mulher biológica que se ocupam das atividades tradicionalmente masculinas, como se tornar guerreiro ou se engajar em trabalhos manuais pesados.

• Khanith (Oman) é considerada uma terceira categoria de gênero específica na Península Árabe.

• Muxe (México) são geralmente homens que se vestem ou de mulher ou de homens com maquiagem. Eles podem adotar papeis sociais “femininos” como trabalhar com bordados, mas muitos também têm carreiras executivas no México.

• Two-Spirit é um termo guarda-chuva pan-indígena usado por alguns povos da América do Norte para descrever algumas pessoas em suas comunidades que cumprem o papel do tradicional terceiro gênero em suas culturas.

• Femminiello (Itália) refere-se a homens biológicos que se vestem como mulheres e assumem os papeis de gênero feminino na sociedade napolitana. Têm uma posição privilegiada socialmente e os seus rituais (incluindo casarem-se uns com os outros) foram baseados na mitologia grega, associados a Hermafrodito e Tirésias (que foi transformado em mulher por sete anos).

• A genética parece haver criado um terceiro gênero na República Dominicana. Um traço hereditário pseudo-hemafrodita com genitálias indiferenciadas. Eles geralmente são criados como meninas, mas começam a desenvolver traços masculinos na puberdade.

• Fa’afafinc (Samoa) são homens biológicos que tem uma forte orientação pro gênero feminino, cujos pais samoanos reconhecem bem cedo na infância e então os criam como mulheres ou até mesmo crianças do terceiro gênero.

• Uma travesti (Brasil) é uma pessoa que nasceu homem, se identifica com o gênero feminino e é prioritariamente atraída sexualmente por homens não femininos. No entanto, diferente da mulher transexual, elas geralmente não veem a si mesmas como mulheres.

• Os koçck (império Otomano) eram um fenômeno cultural em que homens jovens se vestiam em trajes de mulheres e formavam trupes itinerantes de dança em que apresentavam danças sexualmente sugestivas. Embora eles não fossem necessariamente gays, eles tradicionalmente ficavam disponíveis para o homem que pagasse melhor.

• Geralmente os xamãs Chuckchi são biologicamente homens que casaram com outros homens mas também não se sujeitam às limitações sociais impostas às mulheres.

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