A fabricação do louco

Por Anielson Ribeiro

Se você parar e observar os teus amigos, talvez não seja difícil de perceber essa presença imensa arranhando as portas dos seus crânios, devorando sua desejabilidade, suas noites e seus finais de semana. Esse manto mofado recobre um número cada vez maior de pessoas, no nosso convívio, que experienciam um tipo de sofrimento sem transcendência. Como uma sombra que aprofunda a culpa, que interrompe o beijo para respirar e tomar um comprimido de sertralina. Há ansiedade solta no ar e você pode vê-la, você pode tocá-la até.


No chão das ruas, as cartelas vazias de clonazepam tomam a cidade. Mas a ansiedade não é, como insistem em dizer, um “distúrbio contemporâneo“, que nossos pais não a conheceram. As novas e inumeráveis nomenclaturas do DSM-5 são uma inútil metonímia, pois troca o todo pela parte, universaliza um fragmento e nega a singularidade do evento sofrido em cada indivíduo. Mas esse medo de perigo iminente já foi descrito por Freud mais de uma vez: as neuroses de guerra de 1914, a agorafobia do pequeno Hans. Em suma, depressão, bulimia, ansiedade nada mais são que os sintomas de uma psiconeurose. É tanto que quase sempre um vem acompanhado do outro:

  • ansiedade & depressão;
  • depressão & bulimia;
  • ansiedade & anorexia & depressão etc.

O sofrimento é inerente à condição humana, em qualquer sociedade, antiga ou moderna, sempre existiu e sempre existirá. Mas as formas de sofrer são moduladas conforme o fluxo histórico, bem como o estigma do louco foi inserido na modernidade. Portanto, o que amedronta realmente não é tanto a ansiedade generalizada, mas a generalização da ansiedade.

O capitalismo tardio formalizou esses contratos afetivos, institucionalizou as psicopatologias e neutralizou a subjetividade dos indivíduos para lidar com essas angústias. Desta forma, o que resta é explorá-las e reproduzi-las: não faltam textos, manuais, livros, vídeos e imagens romantizando ou vendendo tentativas de re-conforto. É interessante notar a emergência da necessidade de resiliência, de voltar a um estágio em que as coisas se encontravam estáveis em nossa vida, de administrar nossos sofrimentos como empreendedor de si. Aos que fracassam com isso, sobra a figura do coach.

É interessante notar também como a resiliência faz parte das narrativas de uma nova esquerda, que, p. ex., compartilha textos sobre a luta antimanicomial, ao mesmo tempo em que, por falta de uma avaliação política séria e, por consequinte, de um projeto conciso, taxa o atual presidente e seus ministros de “um bando de doidos”, portanto, incapazes de governar. É o que mais me preocupa, porque é um tiro no próprio pé. Quantos desses que tentam desbancar o péssimo governo com memes também não têm alguém próximo que sofre de algum distúrbio e, ainda assim, é um bom líder/intelectual? Quantos não são eles mesmos os loucos? Então a questão é: a tragédia política do Bolsonaro é responsabilidade de sua saúde mental ou de sua total incompetência técnica no poder executivo perante a atual crise nacional? Portanto, seria mais pertinente para a esquerda uma análise política precisa do atual desgoverno da direita, sem psicologismos rasos nem crítica moralista.

[atravessamento]

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Essa breve digressão nos deslocou a um ponto essencial para o entendimento da crescente patologização da vida social. Esse ponto é a crise. A crise nunca é somente econômica, mas também política e psicológica. Basta lembrarmos o número de suicídios durante o crash de 1929 e como ele alavancou a ascensão do nazifascismo na Alemanha. Por isso esse incômodo, esse estalo que urge circular. De onde vem esse colapso nervoso coletivo, na nossa época? Ora, dessa nova vida digital. É a primeira coisa que vem às bocas. Como se a tecnologia em si fosse um problema. Assombrados pelo reflexo de Black Mirror, que, por sinal, é muito mais sobre nossos comportamentos virtuais não-tecnológicos do que sobre uma futura sociedade automatizada.

Na verdade, essa epidemia de transtornos mentais se origina na ascendência do neoliberalismo, pois junto com nossas relações de trabalho e de consumo, acompanhou-se também uma mudança em nossas relações pessoais com o Outro e com o mundo. A ideologia dita a nossa individualidade enquanto é produzida por nós, coletivamente.

Ao contrário do que podem pensar, liberal-conservador é pleonasmo, não contradição. E mais: o conservadorismo neoliberal é tão autoritário quanto permissivo. Somos bombardeados com a exigência de prazer, com a obrigação de gozar: “não pense, trabalhe; mas não só trabalhe, se divirta trabalhando“. Enquanto isso, devemos aceitar um produtivismo exacerbado, seja no emprego ou na faculdade, devemos estar 24/7 de prontidão ao chamado do Whatsapp, sempre ocupados com alguma atividade além dos 2 ou 3 empregos de horários flexíveis e salários baixíssimos. Quem não produz ou não produz bem nesse meio de vida, é lançado ao destino dos incapazes, e assim a culpa degenera: não estamos à margem, somos o centro ausente da economia política, produzimos o excremento da necessidade econômica numa autoimagem doente: as ansiedades, as depressões, a anorexia, a bulimia, tudo isso é como uma exposição punitiva, pois servimos de exemplo aos que estão por vir.

Chegamos ao ponto em que todas relações humanas são baseadas em cálculos e estatísticas de mercado. A educação é investimento. O amor é uma relação de troca, em que se exige reciprocidade. E, antes de entrar num relacionamento, temos de avaliar as taxas e os controles de risco. Assim, criamos um tipo fictício de bolsa de valores afetivos, a financeirização emocional em forma de investimento na realidade, que logo se esgota na economia psíquica. Quando, na verdade, recalcamos esses afetos para o patológico, esgotando nossa própria realidade, nossa experiência de si.

Todos os espelhos estão quebrados. Estamos falidos. Eis a Grande Depressão!

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