Ética e história nos escritos de Maria Lacerda de Moura

Por Daniel Santos da Silva

Os movimentos de Maria Lacerda de Moura seguiam-se rapidamente – de seu livro publicado em 1918, Em torno da educação, já se veem ressalvas na obra seguinte, um ano após, chamada Renovação. Se os dias então corriam depressa, não é qualquer olhar que captaria sutilezas de seus trajetos em consonância com a experiência própria, a qual desde cedo fora engajada com a prática e a reflexão da educação. 

Na sequência, a princípio, do espanhol Ferrer, suas ideias ao redor do educar impunham-se a todos os âmbitos de vida e reflexão e mostravam o incômodo com a facilidade de tudo compartimentar em utilidades isoladas. Maria Lacerda tinha um alvo claro e reconhecia simultaneamente sua distância quase que intransponível, pois o tempo pode ser um fardo.


Poderíamos ir mais longe: a que chamam inferioridade? A diferença?!.

                                                                                                         Maria L. de Moura

É quase inevitável que um texto remeta, de alguma forma, ao mundo vivo que o circunda, que o define e que medirá o quanto teoria e prática podem se envolver; discuti-lo causa vertigem se tentamos abstratamente solidificar, em caracteres, o que é fluido, ou, quem sabe, tentar transformar o que não tem forma – quem escreve o faz com pés no chão, mesmo que não queira formar práticas. Na literatura política brasileira, sem precisar uma métrica específica, a obra de Maria Lacerda de Moura (1887-1945) é dos mais transparentes sintomas de conturbações e desejos que logravam entrever o novo – mesmo que parecesse absurdo – e destrinchar o seu presente com as argúcias de quem tem a história como centro de exercícios para confrontar as hegemonias de ideias e imagens então padronizadas.

Poucas tintas deram tanta cor aos desamparos invisibilizados por camadas de mentira e sede de domínio dos homens seus contemporâneos; suas performances escritas, faladas e seus devires afetivos e intelectuais expressam a marcante busca das mulheres em compreender-se; por outro lado, recusando fantasiar-se de vítima, a escritora perspectiva essa autocompreensão em necessária refundação, reinvenção, tomada de responsabilidade. Com suas palavras, estirava a quem ouvisse as linhas inauditas de fuga e estratégias de emancipação radicais que denunciavam também o conformismo feminino – sugando do fato, na medida do possível, suas causas reais. Seus processos têm sido reativados hoje, já que sua obra e vida têm devidamente, aos poucos, servido de alimento a estudiosas e estudiosos em variadas áreas de pesquisa.

Os movimentos de Maria Lacerda de Moura seguiam-se rapidamente – de seu livro publicado em 1918, Em torno da educação, já se veem ressalvas na obra seguinte, um ano após, chamada Renovação. Se os dias então corriam depressa, não é qualquer olhar que captaria sutilezas de seus trajetos em consonância com a experiência própria, a qual desde cedo fora engajada com a prática e a reflexão da educação. Na sequência, a princípio, do espanhol Ferrer, suas ideias ao redor do educar impunham-se a todos os âmbitos de vida e reflexão e mostravam o incômodo com a facilidade de tudo compartimentar em utilidades isoladas. Maria Lacerda tinha um alvo claro e reconhecia simultaneamente sua distância quase que intransponível, pois o tempo pode ser um fardo.[1]

Interpreto, pois, o uso da história por Maria Lacerda como um confronto com o tempo acumulado em mentira, em dominação, de transmutação em rotina de violências às quais nos tornamos insensíveis. Vejo assim sua luta pela criação de uma cadeira sobre História da mulher, com sua consciência de que “o homem não está em condições de pensar a educação feminina”,[2] com sua convicção de que a potência que poderá gerar o novo tem de ser fenomenal, capaz de fazer frente aos preconceitos mais sanguíneos de nossas vidas. É uma abordagem geral, sem dúvida – Maria Lacerda tampouco brincou com a sorte produzindo uma teoria da história; é um entrelaçamento específico que me chamou a atenção, e por duas razões: primeiramente, pela maleabilidade dos termos envolvidos, e, enfim, pela coerência constantemente incrementada que tal maleabilidade engendrou.

Na minha fraca imaginação, certos traços se destacaram quando percebi que o uso da história por Maria Lacerda é minuciosamente articulado pela tensão ética entre desespero e convicção, liberdade e responsabilidade, saber e dominação; não há identidade entre essa tensão e algum conceito filosófico universal que empurra a autora a aplicá-lo a acontecimentos particulares da história – pelo contrário, a maleabilidade das ideias históricas e éticas de seus escritos se identifica com a possibilidade de notar a crueza do real, talvez até desesperar dele, alimentando com a outra mão o desejo do novo, da revolução, do porvir, da concreção da “moral do futuro” (A mulher é uma degenerada?, p. 72).

É o entrelaçamento entre ética e história, pois, um foco, sem ser guia de leitura. A escritora não enlaçou definitivamente as duas ideias, antes as construiu num processo de décadas de experimentação e estudo. O que me resta é apenas refazer alguns pontos dessa malha  – não traduzir Maria Lacerda para públicos contemporâneos (há quem o faça magistralmente), mas jogar, com ela, sob o signo justamente da experimentação e do estudo.

***

O aguçamento perceptivo que levou Maria Lacerda a separar-se das que lutavam pelo sufrágio feminino, momento reavivado em vários escritos sobre a autora, é escoltado por uma rede de ideias visivelmente conectadas a literaturas e práticas anarquistas – proximidade amenizada pela dificuldade de enquadrar a escritora em qualquer demarcação ideária; de todo modo, antes dessa ruptura – cristalizada por seu distanciamento de Berta Lutz – ícone -, Maria lacerda preconiza o corpo da mulher como centro de autoconhecimento feminino e de tomada de força, de responsabilidade sobre si e de amor a si e aos seres. Esse é um motivo, creio, que nos permite reconhecer sua pena nas diversas perspectivas que assume – pena que, aliás, parecia esconder seu “sexo” aos olhos pobres e preconceituosos da “reação masculina”.[3]

Acompanha essa constância temática da autoeducação da mulher a denúncia do aguilhão histórico da violência traduzida em inferioridade econômico-social (Degenerada, ps. 75-77), fomentada por sua “deseducação” enviesada pelos homens e que a afasta da vida e da atividade reflexiva que a torna verdadeira, plena e com “clarividência moral”. É ingênuo pensar que haja, aqui, prioridade do pensamento abstrato: ao contrário, e não por outra razão menciono os anarquismos, a educação do gênero humano exercita mãos e cérebros, é integral, concilia a oficina e o livro, o prazer dos despertares empíricos e o rigor das ciências.

Por muito tempo, sua inspiração na prática educacional foi Francesc Ferrer (1859-1909), que conscientemente rejeitava a redução de suas ideias a qualquer corrente formada; mas é igualmente constante que a literatura dele e a Escola Moderna sejam lidas em caracteres próprios à “educação libertária”, sempre apoiadas que eram nos pilares da ciência, da liberdade e da solidariedade – essa ancoragem também serve para desarticular valores venerados na sociedade e que são sintomas de seu cinismo, como proteção e caridade. Esse tríptico atiçava a crítica em pelo menos dois sentidos: fundava a relação com a criança pela vivência aberta e crítica da pluralidade de ideias; além disso, quando concretizado na Escola Moderna, fundava a crítica à escola e seus usos correntes, sempre conduzidos por ambições de capitalistas, sacerdotes, militares e afins. Paralelamente, esse duplo caminho de construção crítica exigia, não menos, a incorporação do saber libertário – não restrito à corrente libertária – na singularidade que educa, já que o topos vulgar de quem ensina é hierárquico e pode ser violento.[4]

A experimentação racional de Ferrer despertou a ira das grandes reações, e, em 1909, sua vida foi aniquilada. Não importa para onde miremos, à época os contrafluxos às ideias revolucionárias cresciam à proporção da influência dessas ideias entre as classes operárias e campesinas. O pacifismo presente no educador espanhol e em Maria Lacerda os posicionava em um embate mais amplo em meios libertários, em que divisões ocorriam por distâncias a respeito da ação direta, da violência como propaganda e chamamento à luta. O pacifismo de Maria Lacerda contrastava com certa realidade que se impunha, mas sua leitura, lúcida, via no indivíduo a centelha da mudança possível – na nossa semelhança reside a peculiaridade de cada desenvolvimento, não como seres isolados, mas por que o que afeta apenas afeta individualmente.[5]

Assim, individualidade e pacifismo complementam-se, ou melhor, têm o mesmo núcleo conceitual e prático. Tanto que a questão, para ela, não era repisar o pensamento, como se isso fosse inculcar liberdade em quem escuta; a insistência de verbo e do pensamento masculinos aproxima-se demais de um repisamento, em que é intrínseca a força sobre – interessa mais intensamente a Maria Lacerda revolver a terra pobre dos preconceitos, despedaçá-los conceitual e vivamente ao extremar a liberdade de pensamento e palavra na prática de abertura mental priorizada por sua ideia de educação, que foge à programação e organização de verdades.

Não é casual que em seu livro, Fascismo, filho dileto da igreja e do capital (1934), a organização de verdades seja uma operação medular dos totalitarismos que conhece, e que as etapas da vida humana, a seu ver, seguissem em constante absorção, cada vez mais elaborada, de medo e superstição. Revolver a terra dos preconceitos equivale, pois, a mexer na história, destruí-la e reconstruí-la – simultaneamente -, praticando a revolução desde o ensino à vida ética, que é a vida bem utilizada também na compreensão de si própria.[6] A história, em sintonia, é um agir atrás das causas e, simultaneamente, o preparar de nossa percepção total para o que o momento oferece de abertura – ao novo: sem compreender o alcance da força individual e sua natureza ético-política, facilmente se reproduzem os esquemas postos de dominação.

Em cima desse enlace filosófico – que busca as causas – entre ética e história, a velha tensão entre o que é o que deve ser ganha sua dimensão própria nos escritos de Maria Lacerda. Os problemas mais localizados erguem-se sobre lógicas primárias mais duras, ou melhor estabelecidas, porém é o interesse momentâneo da obra quem dita as configurações que distribuem os problemas. Focar uma questão desloca diversas outras em conjunto, e pode ser repetitivo ler Maria Lacerda acerca – por exemplo – da proximidade entre Igreja e Estado fascista em muitos de seus escritos, em afirmações bem semelhantes. Poderíamos, por outro lado, perder as sutilezas dos movimentos efetuados por cada deslocar de ponto de vista: causas que aparentam ser expostas como suficientes para explicar tal fenômeno são, entretanto, perspectivas que o definem parcialmente e que perdem sentido se isoladas em um dos polos do eixo ser/dever-ser.

O que a ela permite iluminar alguma via de emancipação para as mulheres se abastece exatamente da compreensão da natureza artificiosa do que é o feminino – não se trata somente de desmanchar os biologismos e cientificismos berrantes em seu tempo, o que fez com frequência, Maria Lacerda igualmente retira da suspensão cética quem acredita ser impossível desfazer tão antigo e profundo enraizamento da mulher na servidão.[7] Isso pode gerar – e gera – ambiguidades a respeito do conceito de educação, tanto mais se nos detemos aí, na existência de um conceito estritamente teórico, possível guia de práticas e análises.

A complexidade do conceito de educação remonta a múltiplas críticas que, em geral, têm em comum uma lógica “radicalmente contrária à dogmatização e à organização das ideias através de programas autoritárias” (Nabylla Fiori de Lima, Maria Lacerda de Moura na Revista Estudios, 1930-1936: anarquismo individualista e filosofia da natureza, p. 14). Maria Lacerda recorrentemente menciona experiências educacionais modernas em uso na Europa e nos Estados Unidos, mas sabe que poucas levam à radicalidade a proposta de cultivar sem distorções atrozes a singularidade dos seres; em certa medida, a experiência da Escola Moderna foi, com seus limites, insuperável nesse sentido. Consoante aos trágicos horizontes da educação burguesa e aos limites intrínsecos das experiências existentes, a formulação contínua da ideia de educação, nos escritos dela, é par das propostas que aquiescem em não invadir o que há de singular nos seres humanos, nos indivíduos – de modo ativo: não se trata de deixar ao indivíduo o que seria só dele (um aceite de premissas liberais), sim de, positivamente, engendrar espaços de conhecimento e ação individuais pela determinação mesma da tarefa da educação.

A formação da ideia de educação – que anima a afirmá-la como meio de libertação -, consequentemente, opera em momentos diversificados conforme perspectivas que se impõem a pensar, é busca interseccional de causas, e se mantém coesa ao penetrar em todas as esferas portando a consciência de que são as individualidades que geram as energias que podem ser bem usadas coletivamente e de que, como está dada, a constituição dos caracteres individuais é marcada pela violência homogeneizante de instituições e poderes históricos que submetem as complexidades das relações a estruturas normativas tendenciosas e hierárquicas.

***

Com coerência, constituir uma nova educação passa por produzir novos modelos de conhecimento, ou, em todo caso, eliminar os que nos entravam. Maria Lacerda adianta um ponto fundamental a epistemologias feministas contemporâneas, que pervertem os princípios de conhecimento e prática da capa de entendimento patriarcal, provocando a tomada em mãos da narrativa histórica – nas ciências, por exemplo, não se quer negar a realidade de certos fenômenos, mas a idealidade que conforma as pesquisas a concepções parciais de realidade. Muitas vezes, Maria Lacerda não queria negar a relevância de certas descobertas científicas, questionava e/ou negava o porquê chegou-se à descoberta, de quem ela efetivamente avança a vida.[8]

Essa discussão é o cerne do livro Civilização – tronco de escravos (1931), mas é inseparável de todas as preocupações da autora. Na página 9, escreve: “a civilização sufoca o instinto animal de defesa”; essa afirmação não significa somente que a alvorada civilizatória se deu pelo silenciamento de impulsos inerentes à nossa luta ancestral pela sobrevivência – significa que a ideia de civilização é construída com a morte intencional e a escravização de muitos corpos e muitas mentes que aprendem a desejar a morte e a escravidão, sob o nome de patriotismo, de religião, de educação e outras formas. Nessas batalhas, as mulheres são triplamente constrangidas; todo o controle e a formação premeditada que o capitalismo impõe a corpos e mentes não atua simetricamente em relação aos “sexos”, pois no caso feminino a estruturação dos poderes incide sobre sua capacidade produtiva e, também diretamente, reprodutiva. A dinâmica ímpar envolvida no controle do corpo feminino é capaz de transformar a vivência bela e natural da maternidade em uma prisão e um contrato de união em submissão legitimada. [9]

Essas agressões especialmente forjadas para as mulheres já vinham sendo denunciadas há tempo. No Brasil, mas não apenas, isso ainda não trazia consigo todo o trabalho de reperspectivação histórica da luta das mulheres – um projeto como este respira sozinho apenas nos anos 70. Maria Lacerda, particularmente, conviveu e trocou cartas com nomes que tocaram na ferida da dominação masculina em seu tempo (Berta Lutz, Raquel de Queiroz, Ana Castro Osório…), e antecipava-se criticamente às teorias científicas e morais que veiculavam a debilidade inata ao feminino, e o fazia decompondo as ideias reacionárias ditas científicas e mostrando os elementos morais e doutrinários indissolúveis que eram camuflados por trás da “objetividade” (“nosso programa se baseia na ciência e na ética, na filosofia e no amor”, Degenerada, p. 183).

Dentre as mulheres com quem se correspondeu, Raquel de Queiroz, mesmo com dificuldades de compreender o que queria positivamente Maria Lacerda, soube que “sua reflexão é fundamentalmente orientada por uma noção de natureza”;[10] uma intuição que muito diz da sensibilidade da jovem escritora cearense e também retrata o continuado exercício lacerdiano de instigar o autoconhecimento – trilha em que a individualidade se concretiza em ações práticas de solidariedade – e enfatizar a congruência dessa mirada de si com a experiência da natureza e da sociedade, enfim, da ciência e da história – que, enquanto disciplinas, não podem ser modificadas senão em conjunto com as mudanças do que está arraigado em nós sobre nossa própria natureza.

Não há, portanto, um itinerário revolucionário traduzido pela obra de Maria Lacerda, mas quer-se reconhecer os instrumentos sem os quais todo trabalho será inútil e até traiçoeiro. O vetor individual aponta a mútua implicação entre autoconhecimento e comunicação, entre natureza e civilidade. Discernir o que significam essas implicações em atos como gerar, educar, comunicar, aprender, escrever, amar, e tantos outros, serve a treinar o olhar em direção às demais individualidades – a meu ver, esses laços que prendem a atenção, em sua obra, expressam a preocupação em ressaltar a complexidade alheia, fácil e erroneamente simplificada naquilo que aparenta, no que interessa aparentar. Pela moralidade assimétrica, os atos não são julgados, mas quem o faz – para as mulheres, observa-se, é visto como inato o que nos homens é tranquilamente camuflado, em que se transforma vício em virtude.

Assim é com o egoísmo masculino, cujas dimensões catastróficas quase que preenchem as páginas da historiografia androcêntrica ocidental (Degenerada…,p. 112); a maternidade, por esse prisma, deve ser a antítese dessa vital qualidade masculina, arma de sobrevivência, mas vetada às mulheres, as quais devem ser devotadas exclusivamente à benevolência e à caridade – por que não, à renegação quase que completa de si? Não é universal e natural que todas e todos nos esforcemos motivados pelo autointeresse?[11] Benevolência e caridade são, perspectivadas pela história que vê profundamente, as marcas de ferro quente da mulher mortificada pelos hábitos burgueses, cujo maior valor, nem sempre latente, é a hipocrisia.

“Como nos sentimos humilhadas deante dessas transmutações de valores éticos” (Civilização – tronco de escravos, p.63), porque há um cotidiano tão ensopado de violência que é interpretado como natural – não apenas pelo senso comum, mas pelas ciências e outras produções ideárias quando a serviço da ganância. Entre elas, a história, dos primeiros campos a serem tomados de assalto por quem objeta conscientemente essa ordem maliciosamente tida por natural. Mas também os espaços se modificam quando o olhar atenta a tais aspectos, e nesse sentido a luta cotidiana se enxerga como necessariamente internacionalista – como em um princípio de plenitude, não pode haver recantos esquecidos pela revolução (Degenerada, p.190: “somos internacionalistas porque o coração feminino deve estar em toda parte”).

Assim ampliada, a luta rompe a película estetizante que encobre as fraquezas masculinas e os conformismos femininos – mais ainda, denuncia o embelezamento proposital das mazelas sociais, frequentemente encapotadas de fatalismo (Degenerada p. 157), a ponto de quem sofre agradecer pela dor, desculpar-se por sua presença “incômoda”, não esquentar o sangue e continuar na vida como quem espera a morte (Cf. Margareth Rago, “Maria Lacerda de Moura e luce fabbri”, p. 66). Essa situação de acobertamento do vigor e da energia que todo indivíduo tem é armada por diversas estruturas de dominação física e afetiva, Maria Lacerda o sabe, e quer mostrar em que recantos está a real alegria de viver, e para isso descaracteriza a falseada harmonia que justifica o dominismo. Nessa linha, escreve em Han Ryner e o amor plural: “Homens e mulheres encontrarão nas leis biológicas e nas necessidades afetivas e espirituais, o seu caminho, a sua verdade e a sua vida. A solução só poder ser individual. Cada qual ama como pode…”.

Maria Lacerda compreendeu a mazela generalizada do sistema sócio-político do capitalismo e, como lembra Margareth Rago, sua percepção alcança complexidades da vida humana que pouco eram relevadas na época – já que não assumia em seu horizonte nenhuma organização partidária como meio de liberação, já que sua ideia de revolução não se servia de formatar nossas capacidades afetivas, sua obra então sofre permanente ataque da esquerda organizada e oficiosa; os ritmos impostos de cima por tais organizações da luta e dos afetos são contraditórios com o tempo necessário para reatar nossa vida à natureza, instância inescapável à elaboração ética:

Qualquer que seja a classe social a que pertença o indivíduo, ele precisa aprender a amar a natureza, a respeitar os outros indivíduos, a só dizer a verdade, a reprimir paixões grosseiras, as más tendências, a cultivar os sentimentos nobres, a vislumbrar preceitos morais a serem observados numa sociedade futura, sempre melhor que a atual: não explorar o próximo, ser útil, solidário com os outros homens, ser uma fonte de amor, de heroísmo, de abnegação, de paciência em vez de respirar irritabilidade e mau-humor e ódio: fazer crescer dentro da alma um nobre ideal de equidade em vez de constituir-se em fonte perene de egoísmo individual. Lições de pedagogia, 1925.

“Sempre melhor que a atual” – Maria Lacerda recusa aliar-se idealmente à crença de que a história avança por si, de que a liberdade espera a humanidade ao fim de todo processo evolutivo do espírito humano e universal. São besteiras de quem é cego ao presente, sem dúvida; mas para quem descortina a potência individual e coletiva de revolucionar cotidianamente a sexualidade, a aprendizagem e o ensino, as relações pessoais e institucionais – para quem descortina tal potência seria exercer violência não comunicar a visão do futuro aos contemporâneos, a quem, enfim, há de concretizar efetivamente os ideais de solidariedade, liberdade e conhecimento.

O primor de estilo na escrita de Maria Lacerda já seduz, já nos desvia da normalidade conformada e da monotonia que reclama; a tentação de crer que nossa época é mais sadia e avançada que as anteriores me fez, a princípio, querer adaptar certas ideias da escritora a atuais reivindicações – o melhor de tudo foi verificar com ela que nada há de anacrônico em seus ditos e escritos, que seus movimentos na história já firmam um sentido ético que nada deve à investigação contemporânea mais profunda – e para assegurar isso, nem por um segundo preciso menosprezar o contemporâneo.


Notas:

[1] Vale ler o ensaio de Miriam L. Moreira Leite, “Maria Lacerda de Moura e o anarquismo” (Coleção Remate de Males, 1985). Um dos momentos em que Maria Lacerda define de modo mais direto sua concepção de educação nos traz as seguinte palavras, em A mulher é uma degenerada?, p. 71: “A educação pôde então ser definida: o aperfeiçoamento de todas as qualidades e faculdades tendentes a um fim social sempre melhor em vista do futuro; o complexo desenvolvimento da individualidade para a expansão, para a plenitude de toda a nossa vocação”; já na p. 159: “A arte, a literatura, a sociedade, o cinematografo, o professor – todos, tudo é fator educativo, tudo deve servir ao mais sério dos problemas: SANEAR!”; cf. também Civilização – tronco de escravos, p. 9. Em algumas citações, reproduzirei o português da época.

[2] Sobre a “missão complexa da mulher”, cf. A mulher é uma degenerada?, ps. 80, 86 e 89, em que afirma: “só as mulheres conscientes entendem que a liberdade não se pede, se conquista…”; sobre a disciplina de História da Mulher desejada por Maria Lacerda, vários comentários foram feitos – indico poucos: além do supramencionado texto de Miriam Moreira leite (p.7), cf. “Movimento feminista e educação: cartas de Maria Lacerda de Moura a Berta Lutz” (p.3), de Ângela Maria Souza Martins e Nailda Marinho Costa; também a dissertação de Jussara Valéria de Miranda – pela qual temos acesso a muitos textos de Maria Lacerda, fora a ótima interpretação -, “Recuso-me”! Ditos e escritos de Maria Lacerda de Moura, p. 13. Sobre a acumulação da mentira, Maria Lacerda escreve em Ferrer e o clero romano: “A primeira providência de Ferrer foi preservar o cérebro infantil e adolescente da sugestão e da rotina, determinadas pela influência ancestral, impressa no ativismo e na ignorância, ou na malícia, com que são feitos os livros escolares”.

[3] Cf. o artigo mencionado acima, “Movimento feminista e educação”, p. 222, sobre a mulher consciente de si e do seu corpo; na página seguinte, reproduz-se a citação: “(…) quando escrevo meus panfletos e nas entrelinhas não vêem a minha alma essencialmente feminina a maneira de sentir e de viver – batizam-se com todos os adjetivos capazes de mudar o meu sexo …. muita gente precisa me conhecer pessoalmente para se capacitar de que sou mulher, de que tenho a natureza delicada de meu sexo. Dois pesos e duas medidas. É a reção masculina procurando impedir a evolução feminina”.  Outra figura de destaque a defender o sufrágio feminino foi Leolinda Figueiredo Daltro (1858-1935), defensora da participação feminina na guerra; vale conferir o texto “Apontamentos sobre campos de guerra”, de Norma Telles, na Revista do Centro de Pesquisa e Formação (2016), disponível na rede. Sobre a anarquia, Margareth Rago situa Maria Lacerda – e nesse aspecto a aproxima da ítalo-uruguaia Luce Fabbri – de modo especial, pois é grande responsável pela “renovação do anarquismo na América do Sul”, em “Entre o anarquismo e o feminismo: Maria Lacerda de Moura e Luce Fabbri”, da Revista Verve, 21 (2012), p.54; Rago esclarece um pouco a natureza da proximidade entre anarquismo e feminismo, proximidade essa que impregna Maria Lacerda e Luce Fabbri, e escreve, p. 70: “Com todas as críticas que os opositores lançam aos anarquistas, não há como negar que o anarquismo foi a doutrina política e o movimento social que mais avançaram na formulação e na exigência do respeito à diferença e à liberdade individual, inclusive para as mulheres”; complementa, na página seguinte (depois de ampliar o leque de mulheres de destaque na luta feminista): “É interessante observar que nem sempre a dimensão anarquista ganha prioridade em relação ao feminismo no discurso dessas revolucionárias que, ao mesmo tempo, consideravam negativamente como ‘feministas’ as mulheres burguesas ou das camadas médias”. Rago enfatiza o anarquismo de Maria Lacerda, e pontua o encontro com José Oiticica, em outro texto, “Ética, anarquia e revolução em Maria Lacerda de Moura”, p. 3.

[4] Ferrer e o clero romano: p.9: “… o educador não tem o direito de violar a razão humana através da escola e nem lhe assiste o direito de impor as suas ideias ou as suas predileções políticas ou sociológicas”. Nesse texto, Maria Lacerda chega a nomear o conjunto dessas ideias de Ferrer  – “e de todo educador que se preza” – “educação puramente antissocial”; também sente-se tranquila de sublinhar os limites das ideias do espanhol: “Ferrer tinha confiança demais na educação racional. Não chegou a compreender que cada qual de nós só pode iluminar a si mesmo (…) Seu engano está em acreditar na ‘organização’ do amor e da bondade (…) Se há uma aparência ou nesga de Verdade nas suas convicções sinceras, os fatos vão demonstrando o contrário”. Maria Lacerda, por suas experimentações, chegou a ser comparada com “inimigos da educação”, cf. o texto de Paula Cristina David Guimarães, “Maria Lacerda de Moura e a inserção da psicologia experimental aplicada à pedagogia em Minas Gerais”, p. 7.

[5] Em Degenerada, p. 189, lemos: “Os homens são mais ou menos os mesmos. (…) E voltamos ao desenvolvimento individual, á necessidade de tocar no intimo de cada criatura (sic)”. Na p. 142, lemos: “A nova civilização tem como caracteristica a UNIÃO e o respeito à individualidade. Temos que trabalhar por essa união si queremos velar por nós mesmos (sic).” Em Civilização – Tronco de escravos, p. 63: “Idolos novos dentro de nichos antiquissimos. O homem é o mesmo troglodita sanguinario (sic)”. A maternidade consciente integra o individualismo lacerdiano, e cito Nabylla Fiori de Lima, em “Maria Lacerda de Moura e a ciência da felicidade: bases para uma ciência feminista e libertária”, p.4: “A defesa da ‘greve dos ventes’ e da maternidade consciente se apresentava como resistência pacífica e não-violenta a fim de libertar as mulheres individualmente mas também de cumprirem uma tarefa revolucionária”.

[6] Nisso reside a força da coeducação como a pensa Maria Lacerda; cf. A mulher é uma degenerada?, ps. 94 – 104 – nesta, escreve: “Finalmente, si a mulher nasceu para perpetuar a especie, deve elevar-se á altura da beleza interior a que possa atingir. Deve instruir-se até poder conceber a finalidade da vida, realizando seu mundo interior, conhecer-se – ‘para aprender a amar’. Socialmente falando é fator da civilização moral: deve caminhar e fazer caminhar a Humanidade em busca da Beleza e da Verdade, que o seu cerebro ainda lhe não deixou entrever”. Itálico dela.

[7] Degenerada, p. 92: “natureza feminina: criação artificial de séculos de servidão…”; o texto de Juliana Salles de Siqueira, “Aspectos de uma enunciação em movimento: Maria Lacerda de Moura e suas reflexões sobre o feminismo, educação e eugenia na década de 1920”, enfatiza o uso de Lacerda de conhecimentos científicos para seus combates.

[8] Em texto intitulado “A sciencia a serviço da degenerescencia humana”, no jornal O combate (e citado em Jussara Valéria de Miranda, Recuso-me”! Ditos e escritos de Maria Lacerda de Moura, p. 48), Maria Lacerda escreve: “Descobertas, investigações, os methodos scientificos attestam o esforço genial da élite para uma evolução mais alta. O resultado não se faz esperar: o capitalismo industrializado apodera-se do esforço scientifico, ainda em embryão, de maneira a canalisar todas as energias humanas, em uma direção única – a lucta de competições, a concorencia economica, o assalto ás posições já occupadas, o nacionalismo, e, consequentemente, as guerras.”; Margareth Rago,em “Ética, anarquia e revolução”. (op.cit), p. 9, cita Maria Lacerda: “A ciência costuma afirmar que a mulher é uma doente periódica, que a mulher é útero. Afirma que o amor para o homem, é apenas um acidente na vida e que o amor, para a mulher, é toda a razão de ser da sua vida, e ela põe nessa dor o melhor de todas as suas energias e esgota o cálice de todas as suas amarguras, pois que o amor é a consequência lógica, inevitável de sua fisiologia uterina. Há engano no exagero de tais afirmações. Ambos nasceram pelo amor e para o amor”.

[9] Degenerada, p. 164: “a mulher é 3 vezes escrava: pela subserviência, pela domesticidade, ao homem mais autoritário e superior”; cf, também a dissertação de Jussara, mencionada na nota acima e a de Joice Oliveira Pacheco, O pensamento de Maria Lacerda de Moura sobre a emancipação feminina: contribuições e desafios para a educação contemporânea (2010), e o texto de  Paloma Raquel de Almeida, “Maria Lacerda de Moura: uma feminista brasileira e sua concepção de educação da mulher”. Sobre o casamento, Maria Lacerda escreve em Religião do amor e da beleza, p.184: “Esse ‘contrato’ é a partilha do leão: o homem é forte, instrui-se, vai até onde sua capacidade o leva, e a mulher é ‘do lar’, não cursa estudos superiores, obedece, serve, abdica do direito de pensar para ‘ser do lar’, para defender a instituição da família (…)”.

[10] Natália de Santana Guerellus, “Feminismo e anarquismo nos anos 1920: uma diálogo entre Raquel de Queiroz e Maria Lacerda de Moura”, 2013, p.6; na p. 9, cita Raquel de Queiroz: “aprenas compreendi o que ela não quer.”

[11] O livro de Edgar Rodrigues, Mulheres e anarquia, reproduz texto de Maria Lacerda, em que toca na prisão da operária Geny Gleiser pela polícia paulista, endereçado às mães, e ela escreve (ps. 21-22): “O mundo está às vésperas de notáveis transformações de valores. Não apelamos nem mesmo para a emotividade proverbial ou para a generosidade tão decantada, em prosa e verso, da mulher brasileira, mas apelamos para vosso egoísmo de mães: se quereis a liberdade de vossos filhos, defendei a liberdade dos filhos das outras mães. Se quereis a felicidade do vosso lar, lembrai também dos lares desgraçados, onde a dor se alojou na tortura de um pai que viu suicidar-se a mulher, vencida pela miséria, e vê, hoje, a filha martirizada pelo crime inominável de buscar, por toda a parte, a solução para o problema da solidariedade humana de fraternidade universal”.

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