Sobre os sujeitos emergentes: A validade do caráter revolucionário da classe trabalhadora e de seu partido de vanguarda

Por Diego Torres, via ICCR, traduzido por Fernando Savella

O autor, membro do Partido Comunista do México, faz um importante balanço sobre a atualidade do marxismo e do proletariado em ensaio de 2014. Aborda a grande contrarrevolução que se iniciou nos anos oitenta, faz a crítica dos supostos novos sujeitos emergentes, e defende a atualidade do Partido Comunista enquanto vanguarda da luta contra o capitalismo.


O papel da classe trabalhadora

Desde sua criação, o socialismo científico se distingue de outras teorias ao identificar na sociedade existente uma força social destinada a destruir o capitalismo e edificar uma nova sociedade. Essa força social é a classe trabalhadora. Desde os primeiros trabalhos marxistas, desde os primeiros manuscritos, como por exemplo, A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, O Manifesto Comunista ou Os Princípios do Comunismo, “o principal elemento da doutrina de Marx e Engels foi a clarificação do papel histórico do proletariado como o criador da sociedade socialista” [1].

Marx e Engels basearam suas proposições em uma profunda análise da economia capitalista. Quais são as condições, características e qualidades da classe trabalhadora para ser destinada a cumprir esse papel?

Em primeiro lugar, é a classe mais explorada na sociedade capitalista. Suas condições de vida são determinadas pelo fato de que sua existência, prazeres e pesares, vida e morte, dependem exclusivamente da venda de sua força de trabalho a um capitalista e das condições desta venda, dadas por flutuações de mercado. Essas condições de vida, esse interesse vital, os levam a lutar constantemente até a morte contra a classe capitalista, e torna o proletariado o adversário mais consequente e firme do sistema capitalista.

Isso não é puramente uma observação empírica; é baseada na descoberta da teoria do mais-valor, que permanece completamente válida. A presente crise capitalista de superprodução e superacumulação vieram para destruir as últimas ilusões daqueles que pensam que na economia a esfera da circulação poderia se desenvolver independentemente da esfera da produção e das leis que a governam.

Em segundo lugar, a classe trabalhadora está ligada ao desenvolvimento das forças produtivas. Enquanto trabalhadores, não estão ligados ao passado da produção, com os remanescentes de antigos sistemas de produção, mas sim com o desenvolvimento e o futuro da produção.

Isso significa, contra muitas avaliações, que o desenvolvimento material do capitalismo, a grande indústria, não ameaça a existência do proletariado enquanto uma classe, não destrói suas posições na sociedade; na verdade, esse desenvolvimento impele o crescimento numérico dos trabalhadores e aumenta seu papel na vida social.

É metodologicamente inconsistente tomar um período curto de tempo para avaliar o desaparecimento do proletariado. A lei da proletarização da população mostra seu impressionante alcance quando nós analisamos o capitalismo como um todo. Por exemplo, em meados do século XIX nos EUA, a classe trabalhadora, trabalhadores e suas famílias, constituíam menos de 6% da população. Na Alemanha, não passavam de 3%. Em meados do século XX, essa cifra havia crescido para metade da população em ambos os casos. Hoje em dia, de acordo com a OIT, em escala global, a classe dos trabalhadores que não possuem meios de produção e que vendem sua força de trabalho em troca de um salário tem oscilado em torno de 65% da população desde os anos 1980.

Isso significa que os interesses e aspirações da classe trabalhadora coincidem com a orientação geral do desenvolvimento das forças produtivas. O nível de desenvolvimento atingido pelas forças produtivas requer a supressão da propriedade privada dos meios de produção. Na verdade, isso é anunciado pela supressão relativa da propriedade privada sobre meios concentrados e centralizados, mesmo sob o capitalismo, com o crescimento das sociedades anônimas e monopólios [2]. Desprovida de toda a propriedade privada sobre os meios de produção, a classe trabalhadora não pode ter grande estima por ela. Na verdade, a propriedade privada dos meios de produção é a base para a exploração do trabalhador pelo capitalista, motivo pelo qual a sua supressão e substituição pela propriedade social é a única forma que a classe trabalhadora tem para se emancipar.

O fato de que, apesar disso tudo, a classe trabalhadora conta com qualidades, derivadas de sua posição na produção, consideradas indispensáveis para o trabalho revolucionário, não escapou aos mestres do socialismo científico.

Por exemplo, nós já falamos sobre seu crescimento numérico constante, “o movimento proletário” – disseram Marx e Engels no Manifesto Comunista – “é o movimento independente da grande maioria pelo interesse da grande maioria”.

Não se trata, no entanto, apenas do aspecto quantitativo, mas também da agência da própria burguesia que ao concentrar os meios de produção, junta milhares de trabalhadores sob os tetos das fábricas, normalmente situadas em polos da concentração de capital, ou seja, nas grandes cidades. Assim, o proletariado supera a dispersão e a isolação. Conforme problemas de ordem subjetiva são superados e o nível de consciência de classe aumenta, os trabalhadores podem se unir e se organizar melhor do que qualquer outra classe.

Essa concentração da classe trabalhadora é independente de certos processos temporais. Pode haver períodos de tempo e países em que uma seção dos capitalistas opta por descentralizar ou seccionar o processo produtivo. Essa opção obedece, geralmente às condições em que é conveniente para capturar mais mais-valor ou dispersar temporariamente a classe trabalhadora e dificultar sua organização, quando o sacrifício é considerado necessário. De toda forma, essa opção é revertida após algum tempo, e o processo geral mostra que a tendência do capital aponta para a concentração. Isso é comprovado pelo crescimento ininterrupto dos monopólios, pelo fato que uma grande porcentagem da classe trabalhadora trabalha diretamente para eles e o seu reflexo no crescimento ininterrupto das concentrações urbanas.

Além disso, a classe trabalhadora é a classe mais capaz, por meio de suas próprias condições, de se organizar. O trabalho nas grandes empresas acostuma o trabalhador ao espírito do coletivismo, de disciplina severa, a ações conjuntas e à solidariedade. Por exemplo, Engels fala sobre sua rigorosa disciplina, adjetivada como militar, em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, e Lenin sublinha em seus Cadernos sobre o Imperialismo como o capitalista acostuma a classe trabalhadora a uma extraordinária precisão em cada movimento. E tudo isso antes da vigilância e controle que as novas tecnologias de informação e telecomunicações permitiram!

De todas as classes oprimidas, a classe trabalhadora é a mais capaz de desenvolver sua consciência e aceitar uma ideologia científica. O avanço da indústria demandou mais e mais trabalhadores educados. A manipulação de máquinas complexas e valiosas que sustentam a produção hoje demanda um alto grau de preparação científica e um nível cultural muito maior do que formações econômicas precedentes.

Essa é a soma de todas as condições históricas e econômicas que tornam a classe trabalhadora a classe mais militante e revolucionária da sociedade. Essas condições históricas e econômicas mantém sua força nos dias de hoje.

Teorias que questionam o papel da classe trabalhadora

Vladimir Ilyich Lenin escreveu em 1913 que “o principal fundamento na doutrina de Marx é ter esclarecido o papel histórico e universal do proletariado enquanto o criador da sociedade socialista” [3]. Não é estranho que muitas teorias anticomunistas, independentemente do fato de estarem envolvidas com aspectos parciais do marxismo, centram sua crítica exatamente nessa questão.

O marxismo-leninismo enquanto a teoria científica da classe trabalhadora tem três fontes e três partes constituintes; reivindicar apenas uma delas seria incompleto. Nesse sentido, há aqueles, por exemplo, que dizem que a crítica ao capital é válida, mas que negam o papel da classe trabalhadora, da revolução e da ditadura do proletariado; passou-se mais de um século desde que o revisionismo tentou dissecar isso, mas eles estavam acima de tudo focados em negar a importante questão da ação política, da prática transformadora, em reduzir o marxismo a uma “teoria crítica”, sob o fundamento de que a classe trabalhadora, o proletariado, perdeu força, que não se manifestou enquanto uma força revolucionária, que foi integrada ao sistema.

Nas décadas de 1960, 1970 e 1980, H. Marcuse, A. Gorz e outros aludiram ao envelhecimento do marxismo e cantaram um “adeus ao proletariado”. Enquanto sociólogos de ideologia burguesa e pequeno-burguesa, eles construíram seus argumentos em contraste com as tendências do momento, ou seja, eles não realizaram seus estudos com uma concepção materialista da história, mas com base em aspectos parciais da realidade.

Um primeiro aspecto de seus argumentos consiste em que a classe trabalhadora nos países de capitalismo mais desenvolvido, dos centros imperialistas, atingiu boas condições de vida e que, consequentemente, sua consciência se tornou conservadora, defensora do status quo e sem interesse em revoluções, e que o papel de vanguarda veio a ser ocupada por estudantes e por movimentos de libertação africana e asiática.

É conveniente dizer que com o fim da Segunda Guerra Mundial, o papel da URSS e dos comunistas – a construção do campo socialista e as possibilidades de avanço em direção da França e da Itália – forçaram o capitalismo à adoção temporária do Welfare State com o propósito de restringir o crescimento das lutas da classe trabalhadora e seus partidos comunistas. Não negamos o fato de que nas nações localizadas no topo da pirâmide imperialista, mas também em países intermediários, como um resultado do excedente de mais-valor obtido da exploração do trabalho internacional, a assim chamada aristocracia operária, contra a qual lutamos, é reforçada, mas esse é um fato incapaz de caracterizar a classe trabalhadora inteira como integrada ao sistema baseado em sua exploração.

Tais posições mostraram o seu caráter temporário em primeiro lugar porque o welfare state na reestruturação capitalista deu lugar à destruição das conquistas da classe trabalhadora, e porque em todos os países, sem exceção, o epicentro da luta anticapitalista e anti-imperialista é a luta da classe trabalhadora.

Outro aspecto é confrontar os interesses dos trabalhadores, com teorias sobre sua divisão em colarinhos brancos, azuis e cinzas; ou seja, a questão das categorias no mundo do trabalho, a especialização ou o que chamamos de divisão do trabalho. O papel específico na produção e mesmo diferenças salariais sob o capitalismo não colocam em questão o papel da classe trabalhadora como produtora de mais-valor. O que é verdade é que o papel do Partido Comunista, o agente exterior que introduz a consciência na classe tem uma maior responsabilidade na frente ideológica em mostrar ao trabalhador, independentemente da posição que ele ocupa no processo produtivo, suas responsabilidades em face da dominação e da extração de mais-valor pela burguesia.

Mudanças no mundo do trabalho

Na sequência, e baseados na revolução técnico-científica, os ideólogos burgueses e pequeno-burgueses equivalem a automação e robotização do processo produtivo ao decréscimo numérico da classe trabalhadora e até ao “fim do trabalho”. É acima de tudo na conformação de forças que se segue à contrarrevolução na URSS e no campo socialista que essa teoria é criada diretamente dos centros ideológicos do capital, através de porta-vozes como J. Rifkin, aludindo, por exemplo, que o setor de serviços não forma parte da classe trabalhadora e levando a automação da produção ao seu extremo utópico e à extinção do proletariado, mesmo que tenha sido provado n’O Capital que máquinas não produzem valor adicional, apenas o trabalho não pago gera mais-valor, que é o meio pelo qual a burguesia e o capitalismo se sustentam. É importante precisar que essa posição foi difundida ao mesmo tempo em que ataques ao Partido eram necessários.

As mudanças observadas no mundo do trabalho têm sido discutidas nesse mesmo sentido. Essas mudanças incluem, mas não são limitadas às assim chamadas terceirização, off shoring [o deslocamento da produção], o return of piecework [o pagamento por peça produzida], etc. Cada mudança na organização do mundo trabalho, cada nova tendência, sempre suscitou os mesmos argumentos do gênero, já o fordismo, taylorismo, toyotismo, just in time, sweatshops, apenas para citar alguns, trouxeram não apenas o fortalecimento da centralidade da classe trabalhadora no processo produtivo, mas também o ataque ideológico por parte do pensamento burguês.

Muitas dessas observações são unilaterais. Por exemplo, o deslocamento da produção efetivamente parece deixar um estado de desolação social em certas regiões, mas tem seu processo contrário e uma maior concentração e um maior desenvolvimento industrial em outra região, mais atrativa para o capital, o que está de acordo com a lei cardinal do máximo lucro. Para um observador local a indústria desaparece, mas quando observado em escala global o contrário se mostra, há um aumento do número de pessoas trabalhando por um salário e qualquer atividade relacionada à indústria, mesmo que sob novas formas.

No tocante à terceirização e a relativa diminuição dos trabalhadores industriais em relação a outros setores e camadas de trabalhadores em geral, seria conveniente em primeiro lugar revisar as estatísticas. As estatísticas burguesas a categorizam sem base em critérios de classe científicos, e misturam tudo. O que é mais óbvio é a insistência dos centros estatísticos burgueses em incluir, por exemplo, telecomunicações, transporte, armazenamento e energia no assim chamado setor de serviços.

Sobre os serviços, é também conveniente lembrar a figura do trabalhador coletivo conceituada por Marx n’O Capital, desde que com o advento da manufatura, basta participar em uma fração do trabalho requerido para criar mercadorias para ter um lugar no processo produtivo. Muitos dos trabalhos incluídos como serviços são providos para indústrias sob a figura da subcontratação, por exemplo, no caso da zeladoria ou limpeza, reparos, cantinas industriais, etc. Eles não podem ser incluídos dessa forma na área dos “serviços” colocando-os artificialmente na esfera do trabalho realizado no comércio, do trabalho improdutivo, etc.

Lembrando-se das estatísticas da OIT já mencionadas, não parece que o crescimento do setor de serviços aconteça em detrimento da classe trabalhadora industrial; o crescimento desse setor em geral obedece à contínua destruição de classes ligadas ao campo, a destruição de pequenos proprietários e das camadas médias da sociedade. Isso não supõe uma diminuição da classe trabalhadora industrial dado o seu menor número em comparação ao desses trabalhadores, isso supõe uma proletarização e reaproximação destes à classe trabalhadora, uma maior capacidade de influência e mobilização.

Essas e outras mudanças no mundo do trabalho não alteram o papel da classe trabalhadora. Elas supõem, no entanto, problemas especiais e desafios para a organização sindical e para o trabalho partidário, etc.

O centro dessa questão é que enquanto o capital existir, ele não pode destruir a força social da qual depende para se reproduzir. Mais-valor não pode ser gerado ou extraído sem o trabalho produtivo, sem a classe trabalhadora. Uma coisa é dizer corretamente que a burguesia desenvolve forças produtivas para produzir mais com menos trabalhadores, e completamente diferente é falar sobre o desaparecimento ou perda do papel da classe trabalhadora na luta de classes.

Os assim chamados “sujeitos emergentes”

Apesar de ser importante confrontar teorias burguesas e pequeno-burguesas, não podemos ignorar certas teorias que emergiram no bojo da contrarrevolução, que tiveram seu pico na década de 1990 e que foram a base do altermundialismo e expressão do Fórum Social Mundial.

Estamos lidando com posições estimuladas na Europa por grupos associados à socialdemocracia e na América Latina por uma esquerda pós-socialista. Uma saída à crise ideológica das forças revolucionárias é encontrada por uma suposta visão de esquerda, com as seguintes abordagens: assumindo as teses da burguesia acerca da substituição da classe trabalhadora como o sujeito histórico, eles reivindicam os assim chamados sujeitos emergentes: indígenas, mulheres, ecologistas e minorias sexuais. Evidentemente, ajustando-se a tais noções, o partido político da classe trabalhadora, a organização de vanguarda, não é mais precisa e seu lugar – de acordo com eles – é tomado pelos movimentos sociais, pela horizontalidade, por ONGs. Em sua lógica, a luta pela derrubada do capitalismo e pelo poder não é apenas desnecessária, mas também repreensível.  Têm dois elementos em comum com outras teorias abertamente burguesas: a negação do papel da classe trabalhadora e o ataque contra o partido da classe, o Partido Comunista e outros instrumentos de luta como os sindicatos e outras formas de associação classistas.

É necessário nos determos em uma ideia que reforça o ecletismo ideológico e permite que posições anti-classe trabalhadora sejam acomodadas. Intelectuais “criativos” que chamam a si mesmos marxistas acusaram o marxismo de euro-centrismo e colocam a atenção nas assim chamadas especificidades, acima das generalidades.

Eles apontam que a classe trabalhadora vista como uma força crescente por Marx era algo específico da Inglaterra ao final do século XIX e que isso não era aplicável à América Latina, muito menos no século XXI. Eles superestimam a pobreza como um fator criador de condições subjetivas, “pobrismo” é a sua bandeira.

Eles clamam por uma mistura do marxismo com outras ideias políticas e desqualificam o partido de classe como um instrumento obsoleto. Por trás está uma visão em que a generalidade é substituída pela particularidade, pela especificidade, pela “originalidade”; no caso a atenção posta na “especificidade latino-americana” que dá lugar a propostas utópicas e místicas que tornam, por exemplo, a questão indígena e a luta pelos recursos naturais em um assunto de “pensamento mágico” ou conexão com forças ancestrais.

Movimentos sociais, derivações e limites. A pequena-burguesia toma à dianteira.

As teorias que revisam o papel da classe trabalhadora acumularam força com o triunfo da contrarrevolução na União Soviética e no campo socialista. A contrarrevolução, a perda do poder de Estado pela classe trabalhadora, forçou um recuo geral em todo o mundo e em muitos casos a uma desorganização temporária ou a completa liquidação de suas organizações de vanguarda. Deve ser notado, no entanto, que haviam Partidos Comunistas e seções da classe trabalhadora que resistiram e lutaram, o que criou dificuldades para um avanço ainda maior dos planos do grande capital. Por exemplo, a Federação Sindical Mundial e outras frentes anti-imperialistas reagruparam-se graças à ação comunista.

Seguindo a tendência geral do capitalismo à centralização e concentração, os monopólios passaram a ocupar com força total os novos mercados abertos pelas camadas da pequena-burguesia, especialmente o mercado da tecnologia informática, de vendas self-service, certos setores da produção agrícola, de preparação de comida, etc. Naturalmente a pequena-burguesia se sentiu ameaçada, se radicalizou politicamente e se mobilizou. Apesar de ter iniciado um processo de proletarização de um ponto de vista social, ideologicamente, se envolveu com as posições mencionadas mais acima.

Por um lado, observamos um aumento nas campanhas anticomunistas, a desorganização de largos contingentes de trabalhadores, a liquidação de partidos de vanguarda, criando-se dificuldades para o posicionamento da classe trabalhadora. Pelo outro lado, vemos uma difusão massiva de elaborações teóricas que promovem confusão, o redobramento do ativismo dos estratos médios, etc. resumidamente, o fortalecimento de posições da pequena-burguesia. O resultado da confluência desses fatores levou em muitos países à hegemonia da pequena-burguesia na direção dos movimentos sociais e populares no período imediato após a contrarrevolução.

Com o abandono de posições científicas, a crítica e o ataque contra o capitalismo foram tidos como uma questão de vontade. Por exemplo, propôs-se transformar o capitalismo através de mudanças na esfera do consumo ou na esfera da circulação. A concepção científica de luta de classes foi abandonada em favor de uma luta contra a globalização, etc.

A pequena-burguesia, na direção dos movimentos populares, não tem objetivos revolucionários, não vê na situação econômica que atua como base para a sua mobilização as possibilidades revolucionárias, e prefere dar um passo atrás na história para um estado anterior das coisas.

Massas verdadeiramente infelizes foram atraídas por essas lideranças que falharam, no entanto, em ligar os aspectos econômicos e sociais ao aspecto político, à questão da tomada do poder.

A pequena-burguesia é uma camada da população cujo destino, vida e morte, dependem em muitos casos de seus esforços individuais, um pequeno aspecto do mundo que não os leva a considerar a realidade social como um todo. No nível organizacional o assunto não é criar organizações poderosas capazes de derrubar seu inimigo, mas um movimento solto, fraco e com relações informais entre seus membros, grandes organizações são “monstros” que “constrangem a personalidade”. No nível do discurso eles não são regidos por orientações baseadas nas leis da formação socioeconômica capitalista, mas em modas como a altermundialização, contra-globalização, pós-capitalismo, os “indignados”, etc.

A tudo isso devemos adicionar uma superestima pelos aspectos técnicos dos problemas políticos. A tese da revolução 2.0, por exemplo, toma como decisiva a tecnologia usada nos meios de comunicação. O que importa não é o núcleo organizado que emite as mensagens, que decide os slogans, e nem a classe que busca influenciar, o que determina o sucesso de uma ação é o uso per se do telefone móvel, twitter, facebook, etc. As ferramentas se tornaram fetiches.

Uma avaliação do sucesso ou derrota de tais políticas não foi feito, o movimento era tudo. Trazer qualquer coisa que questionasse esse consenso recebia como resposta o isolamento do movimento em geral.

Não é surpresa que as lutas lideradas pela pequena-burguesia durante esse período eram escassas e de alcance limitado. São a própria prática e falha das teorias dos “sujeitos emergentes”.

Mesmo as lutas mais sérias desse período não poderiam triunfar sem o engajamento da força social decisiva, a classe trabalhadora. Por conta da falta de interesse ou capacidade de organizar e agitar a classe trabalhadora, as mais sérias lutas desse período tentaram desestabilizar violentamente a circulação de mercadorias, para impedir a realização do ciclo do capital através de manobras convergentes. Sendo atacado em várias frentes, o Estado burguês pode sempre arrebatar tais iniciativas, contanto que seu exército industrial, o proletariado, continuasse a produzir mais-valor. Tornou-se uma imagem comum ver em qualquer parte do mundo a polícia militarizada lançando bombas de gás para dispersar as massas populares dos centros nevrálgicos dos canais de comunicação e transporte.

A pequena-burguesia é uma camada altamente instável e volátil. Desapontada pela derrota, retira-se para o campo da fantasia ou indiferença. Ao período de mobilização, segue-se um refluxo dramático.

Quando as massas atendem ao chamado desses ativistas, eles veem a si mesmos apreendidos pelo espontaneísmo. As massas populares são imensamente criativas, e essa criatividade não é inibida, mas sim propalada quando são dadas orientações claras e precisas, exatamente o que a liderança não faz. A limitação é apresentada no discurso como uma virtude do movimento, da horizontalidade, etc.

A liderança pequeno-burguesa das lutas populares nesse período falhou o que não significa que não persista, levada por um declínio de suas condições de vida, tentando arrebanhar pessoas sob suas bandeiras. Os monopólios puderam, na maioria absoluta dos casos, alcançar seus objetivos.

O povo do México conta com exemplos dolorosos desses limites e suas derivações. A continuação e prática dessas posições levaram centenas de grupos e numerosas organizações que se reivindicavam como revolucionárias à adoração do espontaneísmo. Eles não traçam como um objetivo a introdução da teoria ao movimento, eles não levantam questões de organização da classe trabalhadora nos centros produtivos, e nem da organização da contraofensiva nesses centros, etc. Eles não podem oferecer aos movimentos populares a aliança com a classe trabalhadora, a mudança na correlação de forças para a derrubada do inimigo, etc., na verdade, eles não podem oferecer muito mais do que uma torcida. Um exemplo de como o Estado mexicano esmagou os movimentos populares desvinculados do movimento da classe trabalhadora é a APPO (Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca).

Se essas posições subsistem em nosso país é porque a alternativa foi mostrada de maneira deficiente. O Partido Comunista assume essa responsabilidade e dobra a sua insistência na frente ideológica. Deve haver o acompanhamento dos movimentos que se opõem ao capital, ao monopólio e ao imperialismo, mas não deve haver concessões ideológicas. Somente com força na teoria e persistência ao trabalhar pelo levante do movimento sindical da classe trabalhadora no México é que nós podemos oferecer uma aliança benéfica para o povo e um caminho para fora da crise que irá apontar para a derrubada do inimigo.

Felizmente, nós assistimos ao reagrupamento da classe trabalhadora e seus partidos, processo que de toda forma deve ser vigiado por conta de sua possível reversão.

A necessidade do partido revolucionário da classe trabalhadora, o Partido Comunista.

Resumindo, nós poderíamos dizer que, na frente ideológica, as teorias sociológicas burguesas sobre o fim da classe trabalhadora são associadas à indisponibilidade do partido da classe, ou seja, do Partido Comunista.

Na luta de classes, já nos terrenos ideológico, político e econômico, para que o proletariado se constitua como uma classe é necessária a sua vanguarda, que com a teoria do marxismo-leninismo orienta cada passo, cada ação concreta no quebra-cabeça de uma estratégia pela derrubada do capitalismo e que tenha clareza no programa do socialismo-comunismo, que somente é possível reivindicando e extraindo conclusões das experiências de construção socialista do século XX.

Os trabalhos clássicos do marxismo-leninismo mostram que é por conta de seu papel na produção que os trabalhadores são a força revolucionária capaz de enterrar o capitalismo, dadas às condições em que eles se tornam uma classe, ou seja, que eles adquirem consciência. Lenin em Que Fazer? explica as formas de consciência e baseia, desta forma, um partido de novo tipo. Em nome da modernidade, os novos reformistas emergiram das fileiras do movimento comunista e renunciaram totalmente às características da teoria da organização leninista, e à essência do programa comunista, a ditadura do proletariado.

Sem o centralismo democrático, o partido de novo tipo é impossível, e é justamente contra ele que as críticas são dirigidas.

O substituto sugerido é o movimento, sem estrutura, amorfo, sem coerência estratégica, sem disciplina, sem programa, “atualizada”, revivendo as teses de Bernstein.

O Partido Comunista é o partido da classe trabalhadora, o destacamento de vanguarda que nos conflitos sociais de classe aponta o caminho, que mostra quando é necessário passar para a ofensiva, quando é necessário passar para a defensiva, que está um passo à frente dos desvios na luta, equipado pela concepção materialista da história, levantando as palavras de ordem necessários para cada situação concreta e sem perder de vista a plano estratégico que é a ruptura das relações capitalistas, derrubando a burguesia, construindo o poder da classe trabalhadora e o socialismo-comunismo.

O Partido Comunista é capaz de levantar seus objetivos na condição de unidade ideológica, programática e orgânica, lutando por sua coesão interna e expurgando qualquer coisa que ameace a unidade. O Partido Comunista, vanguarda da classe trabalhadora, não pode perder de vista a luta contra o oportunismo e pela preservação, independentemente da situação, do critério de classe.

O partido e a aliança anti-monopolista, anti-imperialista e anti-capitalista.

A classe trabalhadora é a única classe realmente revolucionária, mas também é verdade que o imperialismo leva grandes estratos e setores da sociedade à dinâmica da contradição entre capital e trabalho. “A alta das taxas, a mercadorização dos serviços públicos, o avanço da agressão imperialista, a política de subsunção do campo ao monopólio, a defesa política da taxa de mais-valor extraordinário dos monopólios, os tratados inter-imperialistas e suas consequências, as manifestações da barbárie capitalista, a degradação acelerada do ecossistema, o cancelamento das conquistas sociais e democráticas, etc., são questões que afetam outras camadas do povo” [4].

 Nós demonstramos desde o começo que outras camadas que entram em conflito com os interesses do grande capital não são capazes de derrubá-lo sem a aliança da classe trabalhadora e que sua liderança sobre as lutas em geral deve ser questionada. Por sua vez, o proletariado dificilmente conseguiria triunfar ou mesmo manter o poder se estivesse isolado do resto dos trabalhadores e estratos populares, se não alcançar a adesão ou a neutralidade de muitas camadas, se não impedir a tentativa da burguesia de mobilizá-las. O que estamos tentando estabelecer é que a base objetiva para a aliança entre esses estratos e a classe trabalhadora existe, uma aliança anti-monopolista, anti-imperialista e anticapitalista.

Trabalhar sobre essa base adquire maior relevância em momentos de crise, quando as contradições se afiam, quando o interesse de cada classe é revelado e onde as colisões da luta de classe permitem uma rápida compreensão política.

De toda forma, não é factível que a espontaneidade forme uma aliança dessa natureza, ela não pode ser produzida sem preparação. É uma aliança para esmagar o poder de uma classe dominante e tomar o poder para outra, para a classe trabalhadora. O partido revolucionário da classe trabalhadora é a única formação política que pode forjar tal aliança, uma vez que tem tanto a capacidade de analisar em cada momento os deslocamentos e viradas abruptas em toda a luta de classes quanto tem também a habilidade de traduzir essas análises em orientações adequadas para a classe trabalhadora. Orientações que acabam por mostrar aos demais estratos populares a conveniência e necessidade dessa liderança, que os organiza em intervenções efetivas nas lutas populares em geral. Qualquer que seja a forma organizativa que essa aliança contra o capitalismo adote, ela só pode ser levada até o final, a derrubada do inimigo, com a existência de um Partido Comunista forte.

Qualquer um que queira ver em breve o funeral do capitalismo deve reconhecer a necessidade urgente de reagrupar os coveiros, deve saber que lutar pelo fortalecimento do Partido Comunista é a melhor garantia de que tal dia chegue.


  • Diego Torres é membro do Buro Político do Partido Comunista do México, Secretário de Relações Internacionais.

Notas:

[1] V.I. Lenin, Collected Works, Soviet Edition, Tome XVIII, pg. 544

[2] K. Marx, Capital, Tome 3, 5th Section, Chapter 27, Mexican Edition – Fondo de Cultura Económica.

[3] Lenin, Vladimir Ilich; Historic vicissitudes in the doctrine of Karl Marx; in Selected Works in 12 Tomes, Tome V; Soviet Edition, 1976

[4] Theses for the 4th Congress of the Communist Party of Mexico, 2.8 F), “Imperialism, Capitalist International Restructuring, the so called globalization, the crisis of the system”.


 

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