Contra o corporativismo dos produtores – Redes de apoio ou mercado?

Por Arthur Moura

O que são redes de apoio mútuo? Qual objetivo em forjar relações de rede entre produtores? De uma forma geral, as redes se formam como única via capaz de disseminar uma determinada informação ou produção, furando o bloqueio imposto pelo mercado.


Não devemos confundir, por isso, redes de apoio mútuo como algo que anteceda as relações mercantis, até porque os métodos para se lograr um lugar no mercado são outros, passando, inclusive, pela negação do produtor e daquilo que se produz como expressão artística como forma prévia de inclusão. Nesse sentido, o mercado é aquele que aliena, ou seja, é pautado nessas relações que a arte e a produção é negada a partir do fetiche da mercadoria e da alienação do produtor que passa a adequar-se a um determinado conjunto normativo ao invés de inovar avançando no desenvolvimento da arte, na busca por outras conexões e formas de fazer independentes da indústria cultural. As relações mercantis funcionam a partir da lógica da competitividade, portanto, da exclusão de boa parte dos produtores que não visam ou não conseguiram lograr um lugar no mercado o que acaba por produzir o seu esquecimento dando lugar e protagonismo aos que reproduzem em suas relações o espetáculo integrando-se ao sócio-metabolismo das relações capitalistas.

As redes de apoio mútuo são na verdade a negação e superação das relações de mercado atestando na prática a possibilidade e viabilidade em dar vazão de forma proporcional a uma enorme gama de produtores (artistas, músicos ou profissionais que trabalham em algum campo da arte) sem que haja competitividade ou anulação de um em detrimento de outro ao mesmo tempo em que qualifica a rede de forma prática, teórica e material ou simplesmente financeira. A questão financeira, no entanto, tem um papel absolutamente distinto das relações mercantis. Enquanto esta visa em última instância a obtenção do lucro por meio não outro que a exploração direta sobre o trabalho alheio como condição sine qua non à sua existência (o que acaba por viciar os produtores a obedecer às regras do capital e seus valores), àquele cabe utilizar dos meios materiais para cada vez mais ampliar e dar acesso a produtores que para o mercado não possuem qualquer valor. Ademais, os recursos materiais garante a expansão e sobrevivência dos produtores não mais como indivíduos isolados, mas como um corpo coletivo de livres-produtores, que buscam outras necessidades e parâmetros para a sua arte. O objetivo das redes de apoio, portanto, é antagônico ao mercado. Vejamos isso explicitado num simples esquema:

            REDES DE APOIO MÚTUO                         MERCADO

* Horizontalidade                                         * Competição/verticalidade/corporativismo

* Coletividade                                                * Individualismo

* Emancipação/conscientização                * Alienação

* Acesso                                                          * Exclusão

* Inovação                                                      * Clichê

* Renda/expansão                                        * Lucro

As redes de apoio, como podemos perceber, parte da compreensão de que de uma forma geral as relações sociais estão historicamente estabelecidas na defesa e garantia de interesses privados, o que faz com que passemos a ter uma relação de sacralizar os poucos produtores ou artistas que se solidificaram como ícones transformando-os praticamente em semi-deuses excluindo qualquer possibilidade de crítica radical, pois a crítica passa a ser mal vista ou vista simplesmente como um desejo oculto daquele que critica em querer ocupar também o lugar de destaque imortalizando-se no Olimpo dos grandes astros ou das sub-celebridades. Em outras palavras, para o mercado e para os produtores e artistas competitivos, a crítica não passa de mero recalque. Na verdade, este é um mecanismo básico de anular qualquer reflexão de mercado, onde a prática mais reiterada é a da compra e da venda.

Por isso, o que se observa é que os artistas independentes por não terem construído um modelo de produção e distribuição antagônico ao mercado, construíram pouco a pouco os seus corporativismos, ainda que com um aparente discurso crítico, enquanto outros nem se esforçam mais em professar qualquer criticidade limitando-se apenas na defesa intransigente da sua conquista e lugar de sucesso ao passo que estimula os outros a seguir pelo mesmo caminho, que parece o único frente às adversidades. A crítica então passa a ser mera formalidade ou tão-somente uma farsa. A condição sine qua non, portanto, para a construção de redes de apoio é a consciência crítica e o entendimento do que vem a ser na prática histórica o mercado e a natureza da mercadoria.

E como crescer e dar corpo às redes de apoio mútuo? Ora, se num primeiro momento parece haver a completa hegemonia da lógica obtusa e competitiva de mercado é no corpo de produtores excluídos que ele cria que se deve buscar reverter este estado de coisas antes mesmo da desaparição dos mesmos produtores que ainda sobrevivem e construíram algo, ainda que pequeno, para além do mercado. Esse banco de excluídos pode ser o lugar onde o mercado vai buscar oxigenar suas relações promovendo um ou outro a uma ascensão social como forma de justificar sua lógica excludente a partir do mérito individual ou pode ser também onde se fundará com propriedade novas relações de produção onde os produtores sejam donos dos seus próprios meios. Os rejeitados foram rejeitados não só pelo mercado, mas pelo conjunto de produtores independentes ainda ligados ao corporativismo mercantil como forma de associação. Isso acontece em qualquer âmbito da produção artística.

Há corporativismo, por exemplo, no teatro, na produção literária, na música ou no cinema. Podemos perceber isso quando antes de “estourar”, um determinado artista já é uma espécie de “promessa” da nova leva que vem aí, quando na verdade este artista está na esteira esterelizando-se para o mercado buscando formas de ser aceito desejando cegamente ser incorporado custe o que custar. O que se percebe comumente é que boa parte desses artistas por mais que disponham de enorme talento, são inversamente capazes de pensar longe do limitado léxico das relações de mercado. Em outras palavras, são limitados em suas exposições e assertivas públicas restringindo-se apenas em ocupar o lugar de artista (fetichizado pelo público), não de crítico ou daquele que pensa sua própria condição ou processos de ruptura e emancipação do gênero humano. Isso, obviamente, não é de inteira responsabilidade do artista talentoso alienado. Ora, se o seu meio nada oferece além da virtuose técnica ou da sua aparência ou estética transgressora e seduzente, onde ele encontrará o arsenal necessário a se alcançar o verdadeiro sentido da arte como ferramenta de transformação social?! Pois bem, a consciência crítica não nasce do nada ou da curvatura do vento. A consciência é parte de todo um processo histórico, portanto, teórico precisando ser estudado e decodificado. A consciência crítica é a base que dará perenidade e suporte às relações antagônicas à de mercado na busca pela sua superação.

Vencer este corporativismo entre os próprios produtores é, claro, muito mais viável que buscar algum tipo de transformação das relações mercantis. Estas jamais negarão a si própria por óbvios motivos. Já os produtores por estar numa eterna busca de superar as miseráveis condições materiais em que se encontram, estão suscetíveis a experienciar e estabelecer relações mais próximas e quem sabe horizontal. Como não há vácuo nas relações de poder, o convencimento deve ser feito de não outra forma além da prática coletiva de apoio entre as partes envolvidas. Os artistas independentes geralmente se apoiam, do contrário dificilmente concretizariam algum projeto pretendido. Essas relações são o que conhecemos por “parcerias”, que pode envolver remuneração ou não, mas sempre envolve recursos materiais, imateriais e trabalho. As parcerias são formas de estabelecer relações temporárias e que quase sempre acaba por beneficiar mais uma parte do que outra, o que passa a dissimular a exploração envolto num discurso de horizontalidade.

Isso ocorre ou por um aproveitamento da condição de fragilidade de uma das partes que passa a servir o outro ao invés de ligar-se a ele como igual ou simplesmente pela própria condição de precariedade dos produtores que não têm outra alternativa a não ser desdobrar-se para viabilizar determinada produção o que acaba certamente resultando em sobretrabalho. As redes de apoio mutuo não são, portanto, parcerias, mas sim parte de um projeto social que engloba a arte como importante ferramenta de interação entre os sujeitos sociais conscientes de uma transformação dialética entre o meio social e livres-produtores também na construção de uma nova sociedade, ou se quiser, de uma sociedade sem classes sociais.

As redes de apoio são relações sociais e não dutos que escoam determinada mercadoria. Isso quer dizer que a internet limita-se a ser uma importante ferramenta de difusão de produções ou financiamentos colaborativos, agenciamentos ou comunicação, mas cabe à organização concreta dos sujeitos sociais envolvidos em sua materialidade coletiva estabelecer os objetivos centrais de tal organização o que só é possível se feito de forma presencial. Esse contato ao passo que desmistifica certos pressupostos anteriormente estabelecidos, coloca aos produtores o instigante desafio de superar todo o conjunto de contradições e limites já mencionados. Pensemos o quanto pode ser estimulante estar numa roda de conversa com algum artista ou referencia que antes compunha apenas o campo do imaginário onde este agora passa a ser também peça importante para a emancipação coletiva não mais sendo o velho ídolo intocável ou a pretensa sub-celebridade transgressora seletiva em suas parcerias e relações. O sucesso, portanto, só é possível ou só é uma realidade se compartilhado coletivamente sem corporativismo entre os produtores. Os ganhos não são acumulados para a glória de um único beneficiado que deixará de cristalizar-se em seus privilégios caindo por terra a lógica competitiva neoliberal.

Em linhas gerais, o que podemos afirmar sobre a necessidade de criação e a natureza das redes de apoio diz respeito às necessidades vitais da própria arte e do artista que a produz. Pois se o artista não quer ser apenas um aventureiro (e tudo bem também se assim o desejar ser), este deve inteirar-se completamente não só do conjunto das adversidades sociais a que está submetido, mas em como pode superar tal condição sem que ou morra no esquecimento ou caia na esteira das limitantes relações de mercado que tudo degenera e esvazia de sentido.


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