Olavo de Carvalho: o inimigo do conhecimento ou o verdadeiro imbecil

Por Heribaldo Maia

Peço desculpas a todos e todas que estão começando a ler esse texto. Não há nada que já não seja do conhecimento de muitos de vocês, mas, infelizmente, vivemos em tempos em que temos que dizer e defender o óbvio. Portanto, me desculpem.


Amigo da sabedoria. Para os gregos antigos a amizade era uma forma de amor muito nobre, pois simbolizava o amor entre iguais. O amigo possui um vínculo bastante forte e enraizado. Um amigo é capaz de se sacrificar pelo outro, já que o amor possuía essa visão nos antigos gregos. Esse é o significado da palavra “filosofia”, é ser amigo do conhecimento, amá-lo. É se entregar a um pathos que levou e ainda leva várias pessoas a sacrificar horas de suas vidas ao estudo em prol do conhecer o mundo e os humanos em toda sua complexidade.

Esse conhecer não é, no entanto aleatório. O conhecimento é um amigo exigente que demanda rigor e disciplina para assim florescer uma bela amizade, se não, ambos trilharão caminhos opostos. O que geralmente ocorre quando uma amizade não acontece, por um dos amigos ser por demais exigente, é o ressentimento, e além de seguirem caminhos opostos, nesse caso, um deles tomará o outro como inimigo.

Apesar de o conhecimento ser um amigo bastante difícil de agradar, ele não é tão fechado como parece, talvez seja tímido e só precise de um pouco (ou bastante) de paciência e persistência. Isso significa que qualquer um pode ser filósofo. E como toda a amizade não se precisa de uma universidade para construir vínculos fortes com quem quer que seja – mesmo que o amigo em questão seja o conhecimento, no caso da filosofia. Na história do pensamento, se observar, grande parte da história da filosofia se deu em períodos históricos em que a universidade não existia ou existia com muita fragilidade e restrição. Mesmo após a consolidação da academia enquanto espaço especializado de produção de conhecimento, diversos intelectuais destacados se “formaram” ou se estabeleceram no debate público à margem da universidade – Jacob Gorender e Sartre são dois exemplos, atualmente no Brasil ainda temos intelectuais que estão fora da academia como Juliano Garcia Pessanha. Todos eles, mesmo não estando nos círculos acadêmicos possuem o respeito e o reconhecimento da universidade.

Mas isso não significa que a universidade é inútil ou completamente dispensável, significa apenas que o conhecimento rigoroso e racional da realidade não é exclusividade do mundo acadêmico. Então, se não é necessário frequentar a universidade para ser um intelectual, ou mais especificamente um filósofo, qual o objetivo das faculdades de filosofia?

Bem, nas escolas básicas é necessário que hajam profissionais capacitados e referendados para ensinar aos mais jovens diversas formas do conhecimento humano, entre elas a filosofia. Nesse caso, cabe às universidades garantir que sejam formados esses profissionais. Mas vejam, não é somente isso (que já é muita coisa e muito importante), a universidade também forma pesquisadores da história da filosofia e comentadores capacitados para debater com profundidade um texto e autor. Eles, que em geral são os professores universitários, que podem ou não produzir filosofia com originalidade, possuem a competência de analisar, interpretar, comentar os textos, de tal forma que muitos se aprofundam exaustivamente em textos específicos e autores, buscando o máximo rigor na leitura dos conceitos e na articulação lógica dos argumentos usados. Eles são fundamentais, pois eles garantem um sistema de avaliação em que circulam as ideias em debates intensos. Voltando a Sartre, apesar de não ter sido um acadêmico, seus textos circularam no ambiente universitário e obteve grande reconhecimento entre os acadêmicos, mesmo enfrentando grandes debatedores como Merleau-Ponty.

Esse sistema de pares regido pela universidade possui uma importante função, portanto: formar profissionais capazes de transmitir o conhecimento para que se garanta o processo de formação de novos profissionais e de regulamentar a produção de conhecimento produzida pela sociedade em geral. Qualquer pessoa pode ser filósofo, basta estudar bastante, se dedicar a uma disciplina de leituras intensas e se sua produção for válida, mesmo que haja enormes divergências, haverá uma repercussão nos círculos especializados. Do mesmo jeito que qualquer pessoa pode, de alguma forma, produzir uma substância que cure ou trate alguma doença, mas o remédio só será validado ao passar por uma avaliação dos especialistas, os pesquisadores da área. Assim como uma técnica cirúrgica só passa a ser praticada depois de validada pela comunidade médica. Isso não significa que não há problemas com esse sistema de avaliação, de formação e na universidade, ainda mais se tratando de uma sociedade capitalista, mas agora essa não é a questão.

Na filosofia, mesmo nos tempos em que a universidade ainda não existia algo similar ocorreu. Por exemplo: Platão só foi Platão porque os demais pensadores de sua época debateram, criticaram e discutiram exaustivamente seus pensamentos. Assim como Tales de Mileto, Tomás de Aquino, etc., etc.

Grandes pensadores liberais, conservadores e direitistas, como Karl Popper, Adam Smith, Isaiah Berlin, Richard Rorty, Merquior, etc., são muito respeitados no ambiente acadêmico, mesmo que muitas vezes sob fortes críticas, e tais críticas só são fortes justamente por serem respeitados, pois quanto maior o rigor da crítica na qual um autor é submetido isso significa que seu pensamento é mais relevante. Assim como autores do que se chama idiotamente de “marxismo cultural” também passam por fortes críticas, basta acompanhar os debates que ocorrem entre lukacsianos x althusserianos ou entre marxistas x pós-modernos. Ou seja: crítica em filosofia significa relevância e qualidade, mesmo quando é uma crítica de um espectro intelectual oposto que busca divergir bruscamente. E é somente assim, nesse complexo e incessante debate que lembra quase uma “guerra” intelectual que o conhecimento se aprofunda.

Marx, tão criticado e tão pouco lido, só produziu o que produziu por ter analisado com muito rigor, inclusive elogiando e muito, diversos pensadores liberais, como Smith e Ricardo, que foram fundamentais para o seu desenvolvimento teórico. Assim como o liberal Isaiah Berlin, para consolidar seu pensamento sobre o conceito de liberdade dentro do liberalismo contemporâneo precisou estudar com respeito e profundidade o pensamento de Marx para entender até onde os liberais foram, até onde havia críticas que ele enquanto liberal entendia coerente e onde ele podia ultrapassar o argumento marxiano – o resultado é que Berlin tem um dos mais respeitados livros sobre Marx, mesmo entre os marxistas.

Assim, para ser filósofo não precisa ter saído necessariamente da Universidade, mas precisa necessariamente passar pelo crivo crítico dos pares, que são os comentadores e professores. Mas o que qualifica um comentador? O estudo sistemático. E isso a universidade proporciona com alto grau de exigência. É assim, durante um curso de filosofia alunos e professores são obrigados a ler autores de modo sistemático. Como um quebra-cabeça eles vão desmontando o texto frase por frase, palavra por palavra, no intuito de entender como o autor montou cada argumento que fundamenta sua tese, seu método de análise e seu diálogo com os demais autores. Ou seja: a Universidade capacita uma pessoa a analisar de forma rigorosa um texto filosófico e por isso o impacto de uma obra na academia é fundamental para entender sua relevância.

Além do impacto da obra as posições do filósofo são levadas em conta, por mais que vida e obra não sejam a mesma coisa, mas elas se determinam de alguma forma. Não à toa os comentadores, além dos textos “oficiais”, sempre buscam ler os manuscritos, cartas e os debates mais pessoais (afinal não havia Facebook nem twitter em outras épocas). Heidegger, por exemplo, mesmo com sua grande obra e o prestígio que adquiriu em sua época, após a Segunda Guerra Mundial quase caiu no ostracismo e foi desqualificado por sua filiação ao nazismo – inclusive se os documentos que só recentemente vieram ao conhecimento público sobre a vida política de Heidegger tivessem sido revelados enquanto ele ainda era vivo, creio que dificilmente teria recuperado seu prestígio.

Dado todo esse “arrodeio”, como falamos aqui em Pernambuco, para dizer: Olavo de Carvalho poderia ser um filósofo, e acusar que ele não é por não possuir o ensino fundamental completo é um argumento bastante elitista que só favorece a ele, pois corrobora a visão de que a universidade é uma cúpula afastada da realidade e das pessoas “reais” (que em sua maioria não acessam o ensino superior). Do ponto de vista dele e de seus fanáticos seguidores talvez Olavo até seja mesmo, afinal um louco pode se afirmar Napoleão; mas do mesmo jeito que o autoproclamado Napoleão passa despercebido ante o mundo, Olavo de Carvalho e sua “obra” também são completamente irrelevantes. Isso porque suas ideias não possuem absolutamente impacto nenhum no debate filosófico, e não é porque há uma conspiração marxista, esquerdista ou qualquer outro “ista” que queira, mas porque seus textos possuem uma retórica e argumentos insignificantes, fora de realidade e permeados de um completo desconhecimento sobre a filosofia.

Como o amigo ressentido que falei no início, restou a Olavo alegar que não há ninguém capaz de rebater sua “filosofia”, pois todo o conhecimento produzido é falso, apenas ele e seus fanáticos seguidores, quando não o contradizem, acessam a verdade universal. Do mesmo jeito que o louco que se diz Napoleão ao ser questionado grita, berra e puxa sua “espada” feita de cabo de vassoura para garantir que é o Imperador francês; Olavo xinga, grita, esperneia mil palavrões e puxa seu irrelevante livro na certeza de que o mundo real é que é um delírio.

Mesmo assim pacientes pessoas de diversas áreas, de diversas formas e jeitos que trataram de rebater as ideias de Olavo de Carvalho, e uma pesquisa no Google e no youtube comprova facilmente: meu amigo Jones Manoel tem um vídeo falando da psicodelia que é a teoria da conspiração chamada “marxismo cultural”, Henry Bugalho possui inúmeros vídeos mostrando frases e ideias absurdas defendidas pelo astrólogo de Bolsonaro, o professor Christian Dunker fez dois vídeos indo a trechos do livro “O imbecil coletivo” de Olavo e mostra enfaticamente que ele não soube debater com os autores que se propôs (não sabem absolutamente nada de Ortega y Gassett e Christopher Lasch) e o teólogo protestante e conservador Yago Martins fez um vídeo rebatendo os argumentos teológicos de Olavo de Carvalho mostrou erros básicos destruindo a retórica olavista. Também houve os que chamaram Olavo para debater pessoalmente, mas ele – assim como o louco-Napoleão, finge não ouvir a realidade e insiste que ninguém aceita debater com ele, pois não há pessoa no Brasil capaz de contra-argumentá-lo, afinal o louco possui um forte medo de ser atravessado pelo real – nunca aceitou os convites feitos pelos professores Paulo Giraldelli e Débora Diniz.

No entanto, apesar da irrelevância das ideias de Olavo de Carvalho, a história é aberta e cheia de idas e vindas. Ao contrário do mito positivista, as coisas não caminham necessariamente para o progresso, muito menos o hoje é melhor que o ontem e pior que o amanhã. O obscurantismo olavista ganha relevância não por sua obra ou pensamento, mas por vivermos uma grave crise, mundial inclusive, que coloca a humanidade em paradoxos complexos, aonde a tecnologia vem contribuindo bastante para o avanço de ideias retrógradas, conservadoras, neofascistas e obscurantistas, ameaçando a já limitada democracia liberal – basta acompanhar as ações organizadas no mundo inteiro por Steven Bannon.

Olavo de Carvalho se arroga filósofo, mas odeia o conhecimento; não sabe o que significa consenso acadêmico (que é diferente de unanimidade, mas ele não entende a diferença; há “estudiosos” que afirmam que as pirâmides egípcias foram trazidas por alienígenas, então, segundo Olavo, não temos como afirmar que as pirâmides são construções humanas?), nem entende o que é uma obra e não sabe o que é um debate com argumentos fortes porém respeitosos; não sabe diferenciar um livro de impacto filosófico de impacto mercadológico (algo, inclusive, que dificilmente coincide) e não reconhece a universidade apenas por ressentimento – pois assim como o louco-Napoleão grita para não ouvir a verdade do enfermeiro, Olavo tenta destruir a universidade e a esfera pública de debate para transformar sua fantasia em realidade.

Este senhor erradicado na Virgínia é, na realidade, um líder de seita que apesar de louco tem uma retórica bastante apelativa (como todo líder de seita maluco) que captura espíritos desorientados e perdidos em um momento tão confuso da sociedade humana. Ele possui um projeto político claro. Ele tem ambições de implantar sua forma de vida conservadora, retrógrada, neofascista e obscurantista no Brasil e ele realmente possui muita influência sob o atual governo – não é por um acaso que a educação é inimiga de Estado atualmente. Tudo isso apenas para destruir a realidade e tornar sua ilusão real: que é ser um filósofo. Mas assim como eu que sonhei em ser tão bom jogador quanto Paolo Maldini e nunca consegui nem sequer ser escolhido nos times de interclasse; Olavo de Carvalho jamais foi, é ou será um filósofo, pois ele é justo o que tanto acusa aos outro (como uma criança que ao pegar o brinquedo do colega chora como se fosse ela quem perdeu um brinquedo): um imbecil.

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