Marx contra Keynes

Por John Eaton

Não foi revisto o texto da presente edição de Marx contra Keynes escrito em 1950. Por isso, acolho esta oportunidade para focalizar alguns pontos do original que exigem certo reexame, segundo creio agora. Em particular, há tendência para tratar toda a questão da teoria da crise de uma forma que lembra a teoria do subconsumo, e, em segundo lugar, há em certos lugares inclinação para falar como se a teoria keynesiana fosse tão só uma apologética do capitalismo monopólico e não tivesse senão reduzido valor prático para os capitalistas monopólicos na execução de suas diretrizes econômicas.


Embora a maneira de abordar a teoria da crise, na parte intitulada “Keynes e o Giro do Capital”, Capítulo IV, pareça-me obedecer a um pensamento correto, alhures, e em particular nas páginas imediatamente anteriores, se semelha muito à da teoria do subconsumo. Creio ter dado ênfase excessiva à contradição entre a capacidade produtiva e o poder aquisitivo; desejaria, por isso, chamar atenção ao leitor para Uma caracterização do romantismo econômico, onde, comparando a teoria do subconsumo com a doutrina marxista da crise, escreveu Lenin: “… a primeira atribui a crise ao subconsumo (unterkonsumtion), ao passo que a última a atribui à anarquia da produção. Assim, embora ambas teorias atribuam as crises à contradição inerente ao próprio sistema econômico, diferem inteiramente quanto à natureza dessa contradição. A questão é, pois, esta: a segunda teoria nega a contradição entre a produção e o consumo, ou nega a existência do subconsumo? Nada disso, com efeito. Reconhece plenamente este fato, mas coloca-o em seu devido lugar, de importância secundária, relacionado como está a um dos setores da produção capitalista tomada em conjunto. Ensina que este fato não pode explicar as crises, que são provocadas por outra contradição, mais profunda, a contradição fundamental entre o caráter social da produção e o caráter privado de apropriação”.

Creio que essa debilidade no manejo da teoria marxista tende, também, a enfraquecer a crítica da teoria keynesiana. Os métodos keynesianos se destinam a corrigir a falta de equilíbrio entre o poder aquisitivo e a capacidade produtiva e, sob certas circunstâncias, como, por exemplo, numa economia de guerra, podem produzir resultados quando orientados para esse fim. Contudo, os ajustamentos em geral imperfeitos que se possam alcançar mediante a política econômica do Estado não removem de maneira alguma a tendência inerente ao sistema para desembocar na crise econômica. Essa tendência inerente é resultado anarquia da produção capitalista, onde as diretrizes de várias firmas e de vários setores da indústria são ditadas por interesses privados dos capitalistas que possuem as várias empresas ou controlam as suas operações. Tais interesses privados tornam inevitáveis os atritos constantes, os repetidos conflitos de interesses diferentes, as desproporções e contradições diversas entre os objetivos dos capitalistas, isolados, e as necessidades da sociedade considerada em conjunto. Em suma, as contradições entre o caráter social da produção e o caráter privado da apropriação não podem ser eliminadas dentro de uma economia capitalista.

Os pontos fundamentais para a crítica da teoria keynesiana são, creio, os seguintes: primeiro, a sua atitude incorreta em face da questão do poder de classe e o modo de encarar o Estado como se estivesse acima das classes; segundo, o seu completo desprezo de toda a questão do imperialismo. Este segundo defeito se relaciona muito estreitamente ao primeiro, de vez que o fato de não tratar do imperialismo deveria não reconhecer que a base econômica do imperialismo é o capitalismo monopólico, que, por meio do poder econômico, veio a dominar a vida social e política nos principais países capitalistas. Em terceiro lugar, a teoria keynesiana despreza a anarquia da produção capitalista, exceto apenas no que diz respeito ao equilíbrio geral entre os gastos em inversões e os gastos em consumo, relacionados aos recursos produtivos globais.

Esses defeitos da teoria keynesiana são comuns à teoria econômica capitalista em geral. Na realidade, embora o lançamento das ideias keynesianas tenha perturbado muito os círculos econômicos capitalistas, na década de 30, Keynes só pôs em dúvida a teoria capitalista aceita na mínima extensão necessária. A sua preocupação maior era capacitar a teoria econômica capitalista a ver o funcionamento do sistema econômico em conjunto. Mas, ao fazê-lo, Keynes evitou o exame profundo das implicações contidas em suas inovações. É por esse motivo que, creio, se pode atribuir, sem receio de erro, à teoria keynesiana, o propósito de fazer “jogo político” no campo da investigação científica. Se a verdade científica fosse o único objeto das investigações, as consequências teóricas daquilo que era novo na teoria deveriam ser exploradas devidamente. Mas, na verdade, Keynes parecia inclinado a evitar o desafio aberto à posição teórica fundamental da teoria econômica capitalista. Keynes era eclético; creio que boa parte da oposição que as suas teorias encontraram, de início, resultou do fato de que os economistas menos ecléticos, ao adotarem essa atitude, supunham que as inovações keynesianas eram portadoras de implicações que abalariam toda a posição teórica da economia capitalista.

Keynes apresentou um quadro do funcionamento do sistema econômico capitalista que refletia mais a realidade que as doutrinas capitalistas aceitas. O que trouxe de novo, entretanto, se conservou em limite prático mínimo, ditado, de um lado, pela necessidade de uma explicação mais plausível dos problemas econômicos e, de outro, pelas necessidades práticas dos administradores do Estado capitalista que não mais podiam deixar de envolver-se a fundo na direção dos assuntos econômicos. Daí surge o fato paradoxal de que Keynes “é mais fraco onde é mais forte”. Com isso quero significar que a crítica principal de Keynes precisa concentrar-se nos elementos novos que ele introduziu para, desse modo, por em contraste os seus reflexos, cerceados e inibidos, da realidade (e as razões dessas limitações) com o quadro mais completo e profundo que a análise marxista torna possível.

Por exemplo, Keynes deu certo passo na direção de maior objetividade apresentando um modelo do sistema como um todo e examinando o equilíbrio entre os gastos em consumo mais os gastos em inversões, de um lado, e o produto global, de outro. Mas tudo isso é reflexo pálido em comparação com a meticulosa análise que Marx apresenta no volume II de O Capital. Keynes observou também que o principal fator na determinação do nível da atividade econômica eram os gastos em inversões, mas como é débil a construção da sua teoria em comparação com a teoria marxista da acumulação e das contradições que envolve todo o processo de desenvolvimento da economia capitalista! Keynes mais uma vez acertou na crítica de Say, mas a sua crítica não foi tão penetrante quanto a que fez Marx muito antes. Keynes percebeu também que o moderno sistema monetário e financeiro aumentou grandemente a possibilidade entre a receita de vendas e os gastos em novas compras – destacando-se um processo de conversão de mercadorias em dinheiro (M – D) e de conversão de dinheiro em mercadorias (D – M), que Marx analisou de maneira exaustiva. Também isso fora previsto no III vol. de O Capital, de Marx, muito antes que o sistema monetário moderno tivesse chegado à forma plenamente desenvolvida que ora apresenta. Contudo, é talvez neste campo que a teoria keynesiana teve a maior significação prática, pois forneceu aos administradores dos modernos sistemas financeiros centralizados alguns princípios que os ajudaram a evitar os erros crassos cometidos nas décadas de 1920 e 1930. Mesmo assim, o sistema keynesiano de ideias não tornou possível ao capitalista evitar as consequências das contradições subjacentes do seu sistema, em que a “socialização das finanças” entra continuamente em conflito com os interesses, objetivos e perspectivas dos homens da propriedade privada, os capitalistas monopólicos que controlam o aparelho do Estado. As repetidas crises financeiras dos anos recentes deram prova ampla dessa contradição inerente e de que não se pode escapar.

O moderno sistema monetário do mundo capitalista exige análise mais completa do que a feita até hoje pelos economistas marxistas; a falta de tal análise conduziu, creio, a certas debilidades em Marx contra Keynes. Por exemplo, o exame de preços e salários foi por demais simplificado. A argumentação de Marx em Salário, preço e lucro precisa de qualificação, levando em conta o moderno sistema monetário e, creio, dando maior atenção ao fato de que é possível que o capitalista espere capacitar-se a aumentar os seus lucros quando as autoridades monetárias seguem uma política inflacionária, mesmo moderada. Sob tais circunstâncias, são mais prontamente concedidos aumentos de salário.

A fim de criar um modelo do sistema em conjunto, Keynes teve de usar conceitos de procura global, inversões globais, consumo global, etc. Esses conceitos, baseados nas teorias capitalistas do valor, que de uma forma ou de outra se resumem na teoria da utilidade marginal, são mais ou menos sem sentido. Para dar sentido aos seus globais, Keynes teve de introduzir o conceito de uma unidade de trabalho-padrão como instrumento de medida. Agindo assim, estava ele, com efeito, tomando um aspecto muito limitado da teoria do valor baseada no trabalho. Novamente aqui se exemplifica o seu ecletismo. Se as implicações do que estava fazendo fossem seguidas até as últimas consequências, Keynes haveria de encontrar-se mais uma vez no ponto de onde partiram Adam Smith, Ricardo e Marx em suas tentativas de analisar o sistema econômico em conjunto. Mas toda tentativa dessa ordem, para dar consistência científica às suas bases teóricas, abalaria os fundamentos da moderna teoria econômica capitalista. Keynes estava ansioso por evitar tais conflitos e neste sentido fazia ”jogo político”, em vez de desenvolver a ciência. Na verdade Keynes foi, do ponto de vista teórico, um oportunista. Em seu espírito achava-se bem definida a posição que ocupava na guerra entre as classes. “É possível que me influencie aquilo que me parece ser a justiça ou o bom senso, mas a guerra de classes me encontrará ao lado da burguesia educada”, escreveu Keynes (Essays in persuation, 1931). Não se deve permitir que o avanço feito por Keynes na tradição capitalista de teoria econômica obscureça o caráter básico do seu sistema teórico e a sua inadequação como fundamento científico do pensamento econômico que se torna necessário, se é que se deve encontrar uma vida no sentido do progresso humano.


* Prefácio de John Eaton à edição brasileira de seu livro Marx contra Keynes (Fundo Cultural, 1958)


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