As cores do muro: de Stonewall a Wall Street

Por Edson Mendes[1]

“Sem compreender a realidade concreta que sustenta a necessidade de manutenção da opressão a LGBTs no próprio capitalismo, sem permanecer críticos aos direitos adquiridos no Estado Burguês que só valem para LGBTs enquanto figuras exploradas pela classe dominante, podemos acabar perdendo de perspectiva a base material de nossa opressão.”


São 50 anos desde os ocorridos no bar Stonewall Inn, em Nova York, que ficaram conhecidos como um marco[2] para os movimentos LGBT no Ocidente. Contra as batidas policiais em locais receptivos a LGBTs (especialmente a pessoas marginalizadas e em maior vulnerabilidade, como drag queens, travestis e trans, negras, sem teto, etc.), um movimento ascendeu.

Nesse momento veio à tona, de vez, que um ‘stonewall’, ou seja, um muro de pedra, separava a realidade de pessoas LGBT – escondidas em guetos, segregadas ou no armário – da realidade de pessoas não-LGBT, que podiam viver e afirmar sua libido, em princípio, sem questionamentos. O muro não foi quebrado, mas rachou.

Enquanto LGBTs percebiam as diferenças do tamanho do muro para cada um, com suas diferentes experiências de vida, uma verdadeira muralha ganhava ainda mais forças um pouco mais ao sul da ilha de Manhattan. As vozes de Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson[3], pedindo por revolução, abolicionismo penal e afronta ao capital logo foram transformadas nas cores que pintariam, esteticamente, a verdadeira rua do muro. Falo, é claro, de Wall Street.

Se as revoltas do Maio de 1968 na França transformaram-se em discurso para legitimar o novo espírito do capitalismo, como apontam Luc Boltanski e Ève Chiapello (2009), o Stonewall de 1969 também foi absorvido para tornar-se mais um tijolo do muro que separa as classes. Um tijolo colorido, alguns gays brancos do outro lado do muro, uma mulher trans milionária que apoia a eleição de Donald Trump: vale de tudo pra legitimar a exploração de classe.

Wall Street não perde tempo. E se a maré vira, eles viram junto. Apesar de não importar para quem lucra se quem é motorista da Uber superexplorado, por exemplo, é gay, lésbica, bissexual ou trans, o capital financeiro não vê problemas em patrocinar movimentos conservadores e reacionários nos países periféricos, reafirmando de vez a divisão internacional do trabalho.

Sem compreender a realidade concreta que sustenta a necessidade de manutenção da opressão a LGBTs no próprio capitalismo, sem permanecer críticos aos direitos adquiridos no Estado Burguês que só valem para LGBTs enquanto figuras exploradas pela classe dominante, podemos acabar perdendo de perspectiva a base material de nossa opressão.

O discurso de “um levanta o outro” ou da representatividade estética acaba servindo para dar continuidade a própria estrutura, permitindo que continuem existindo os de ‘baixo’ e os de ‘cima’. Da mesma forma, iniciativas que tentam isolar ações e debates em movimentos ou partidos somente para LGBTs enfrentam, ao menos, três problemas: a pulverização iniciada pelo identitarismo que atomiza o movimento (com setoriais para identidades cada vez mais específicas e individualizantes); a iniciativa autocentrada de um movimento que só fala de si para os que já fazem parte desse movimento; a perda de uma perspectiva total de exploração na qual a questão LGBT coexiste com e por conta da luta de classes.

Ao abordar a questão LGBT em um discurso, Huey P. Newton (1970), liderança do Partido dos Panteras Negras, aponta para a necessidade do encontro entre as questões de sexualidade, gênero e raça com a luta anticapitalista:

” Temos que nós mesmos nos garantir segurança e, portanto, ter respeito e empatia por todos os povos oprimidos. Não devemos usar da atitude racista que os brancos racistas usam contra nosso povo, porque são negros e pobres. Muitas vezes o branco mais pobre é o mais racista porque tem medo de que possa perder algo ou descobrir algo que ele não tem. Então você se torna como uma ameaça para ele. Esse tipo de psicologia está estabelecido quando vemos os povos oprimidos e ficamos com raiva deles por causa de seu tipo particular de comportamento ou seu tipo específico de desvio da norma estabelecida.

Lembrem-se, nós não estabelecemos um sistema de valores revolucionários; estamos apenas no processo de estabelecê-lo. Não me lembro de alguma vez termos constituído qualquer valor que dissesse que um revolucionário deve dizer coisas ofensivas contra os homossexuais ou que um revolucionário deve se certificar de que as mulheres não falem sobre sua própria particularidade de opressão. Na verdade, é justamente o contrário: pontuamos que reconhecemos o direito das mulheres de serem livres. Não temos falado muito dos homossexuais de qualquer modo, mas devemos nos relacionar com o movimento gay porque é uma coisa real. E eu tenho conhecimento através de leitura, e através de minha experiência empírica e de observações que aos homossexuais não são dadas nenhuma liberdade por ninguém na sociedade. Existe a possibilidade de serem os povos mais oprimidos da sociedade”.

Infelizmente, a história socialista e comunista está fortemente marcada por estereótipos e visões negativas com relação a LGBTs (principalmente com lésbicas e pessoas trans). No entanto, não podemos esquecer que também o capitalismo desenvolveu-se e expandiu-se a partir dessa mesma perspectiva sobre LGBTs. Se, por um lado, éramos vistos como parte da ‘perversão burguesa’, do outro fomos agentes de um complô contra a família tradicional e os valores morais do sistema de mercado.

Ainda assim, é importante ressaltar que o início da Revolução Russa de 1917 permitiu o avanço em estudos sobre a homossexualidade, por exemplo, presentes no livro A Revolução Sexual na Rússia escrito por Grigory Batkis[4] na Rússia, em 1923. Como retoma Wilhelm Reich (1981, p. 122), Batkis escreve que: “o amor livre na União Soviética não é um ‘desabafo’ selvagem, irrefreado, mas a união ideal de duas pessoas livres e independentes que se amam mutuamente”. A descriminalização do ato homossexual na Rússia pós revolução durou pouco, mas adquire um significado enorme quando refletimos sobre a possibilidade dada, naquele momento, de adentrar o debate e garantir dignidade para a diversidade.

Sendo candidata do Partido Socialista dos Trabalhadores ao Senado dos EUA pelo estado de Nova York, em 1970, – ou seja, um ano após Stonewall – Kipp Dawson (1975), escreve que:

“O cerne do movimento de libertação gay é a luta pela dignidade plena para todos os seres humanos, independentemente de sua orientação sexual. A história e a experiência da nossa própria geração têm demonstrado que essa forma de dignidade humana, livre de todo preconceito, não é possível sem que se elimine o capitalismo – sem uma revolução socialista.”

A aproximação entre o enfrentamento ao capitalismo e a discussão sobre LGBTs também é feita pela travesti argentina Lohana Berkins (2000), em uma entrevista, quando questionada se pensa ser possível fazer mudanças dentro do capitalismo. Na resposta, Berkins diz: “Não. Eu creio que é necessário desmantelar as estruturas”.

No Brasil, a proteção e o apoio a LGBTs são ainda dominados pelo discurso liberal (geralmente, da esquerda liberal) que em sua manutenção do antagonismo de classe, perpetua a exploração e a opressão a LGBTs do proletariado. Além disso, utilizam a presença de poucas figuras LGBTs dentro da grande mídia para inflar o discurso meritocratico, romantizar as dificuldades e sustentar uma sociedade marcada pela extração de mais-valor.

Grandes empresas e suas marcas, ao redor do mundo, se utilizam da luta LGBT para comercializá-la, retirando sua potencialidade emancipatória e anticapitalista. Muitas, ao mesmo tempo em que expõem-se em ‘paradas LGBT’ e realizam ações publicitárias apoiando a causa, repetem práticas preconceituosas em sua cultura organizacional e colocam-se ao lado de governos que atuam contra políticas públicas voltadas para LGBTs e contra a classe trabalhadora (da qual, é claro, fazem parte LGBTs).

Se Stonewall – inicialmente contrário à máfia, à forças repressoras do Estado burguês, aos valores que sustentam a marginalização de LGBTs (especialmente em relação a pessoas trans) – caminha cada vez mais para as sombras do muro de Wall Street, cabe a nós, LGBTs marxistas, recordar a luta revolucionária que foram os alicerces da construção do movimento LGBT e elaborar teórica e praticamente, de forma organizada, as táticas e estratégias emancipatórias onde a luta pela liberdade possa ser econômica, política, social e libidinal. Não há porque ter medo de dizer: é preciso derrubar as bases que sustentam o muro, e não pintá-lo de arco-íris.


Notas:

[1] Edson Mendes Nunes Júnior – Mestrando e Graduado em Ciência Política pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Graduado em Relações Internacionais pelo IBMR. Contato: mendesjr.edson@gmail.com

[2] Vale a pena ressaltar que Stonewall foi precedida por diversas revoltas e motins de LGBTs que ocorreram também nos Estados Unidos. Destacamos, por exemplo, a revolta no café Cooper Do-nuts em Los Angeles, no ano de 1959, e o levante contra a prisão de drag queens e pessoas trans na cafeteria Compton’s, em 1966. Além disso, existiram organizações voltadas para discutir ativismo de pessoas LGBT, como a Sociedade Mattachine, formulada e fundada pelo comunista Harry Hay.

[3] Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson foram duas pessoas trans revolucionárias e militantes fundamentais para o desenvolvimento do movimento LGBT e da revolta em Stonewall. Dentre seus diversos feitos, as duas fundaram a Street Transvestite Action Revolutionaries (STAR) em 1970, que, com uma perspectiva socialista, acolheu e lutou por pessoas LGBTs periféricas, presas, negras e sem teto. Retomar a história das duas, e de outras pessoas e lideranças tão apagadas ao longo dos anos, é fundamental.

[4] Grigory Batkis era dirigente do Instituto de Higiene Social de Moscou. Apesar de uma visão progressista acerca da homossexualidade e aborto, Batkis, alguns anos depois, voltará a repetir estereótipos negativos sobre gays (REICH, 1981).


Referências Bibliográficas

BERKINS, Lohana. Travestida para transgredir [Entrevista de Clarisa Palapot]. 2000. Disponível em: < https://www.marxists.org/portugues/berkins/2000/10/transgredir.htm&gt;

BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

DAWSON, Kipp. Libertação Gay: Uma Perspectiva Socialista. 1975. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/tematica/1975/06/libertacao.htm&gt;.

NEWTON, Huey P. Discurso Sobre a Libertação Gay e Feminina. 1970. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/newton/1970/08/15.htm&gt;.

REICH, Wilhelm. A revolução sexual. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.


*Créditos da Imagem: The Stonewall Inn, por Diana Davies (New York Public Library)

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