Fraturas vindo à tona

Por Frederico Lyra de Carvalho

É sabido que desde mais ou menos o dia 30 de agosto há sinais visíveis de óleo que foram encontradas em praias de estados do nordeste. Este óleo devastador já atingiu a presente todos os nove estados e dezenas de praias dessa região.


Imaginem agora se o óleo derramado tivesse atingido as praias do Rio de Janeiro ou de São Paulo? Ou até mesmo se tivesse chegado nos estados da  região sul do país.

O cinismo dos cada vez mais dispensáveis veículos de comunicação hegemônicos dão a nota. A ínfima e atrasada repercussão, discussão e reflexão sobre o que está acontecendo na parte de cima do Brasil só mostra mais uma vez que Bolsonaro, apesar de tudo, representa algumas verdades que ainda vamos demorar a admitir completamente. Do ponto de vista institucional e enquanto comunidade imaginada : (1) não tem mais país e (2) não tem mais volta.

O cada-um-por-si da concorrência generalizada não parece ter mais volta. A solidariedade vinda de outras regiões ainda existe, mas ela é cada vez menos coletiva, ela se reduz mais e mais a alguns indivíduos; e pronto. Longe de desprezar os camaradas, esta constatação meramente objetiva me parece ser um ponto fundamental que ainda é pouco pensado. Este silêncio em relação às praias mostra também que os criminosos incêndios na Amazônia só foram discutidos daquele jeito pois naquela região há muita grana em jogo. Para (quase) todo lado que olhávamos era dos interesses econômicos os mais diversos que de fato se tratava. Vários são os negócios da natureza na fronteira da acumulação. A cada vez mais complexa geopolítica não deixou de também dar as caras por lá. Difícil imaginar que Macron e cia tem alguma preocupação ambiental. Bastaria lembrarmos que no último verão francês – possivelmente o mais quente já registrado nesse país – várias foram as florestas que andaram queimando[1]. Admitamos, no fundo, a maioria dos que se expressaram estava pouco se lixando para a natureza e para os índios.

Os negócios danosos das praias são bem mais modestos do que os negócios da mata e se veem agora ameaçados pelo óleo. Várias dessas praias no entanto são cada vez mais privadas e tem se transformado em resorts que muitas vezes são frutos de desapropriação de antigas comunidades de pescadores locais e excluem a maior parte da população das praias. Mas, assim como não é por um suposto “valor da natureza” que a luta pela Amazônia deve ser feita, a luta pelas praias não deve ser pelo dinheiro que elas movimentam. A luta é apenas por elas serem o que são e pela possibilidade de um dia, quem sabe, deixarem definitivamente de serem negócios e voltarem a ser apenas praias. Re-apropriadas pela população que fará uso comum delas.

Talvez haja cada dia menos coisas que não sejam nada além de pura abstrações que unam esse gigantesco território da madeira vermelha. As divisões internas só fazem se agravar, e não é de hoje. Fraturas muitas vezes recalcadas estão rapidamente vindo à tona. Com a generalização e aprimoramento da indústria cultural através das tais mídias digitais, mesmo a ideia de se falar em uma cultura popular brasileira – que de fato existia e, devido às suas diversas particularidades e capacidade milagrosa de ser o que foi, era a principal responsável pela liga mais forte que segurava isso aqui e era capaz de alimentar uma imaginação comum e que apareceu por alguns momentos como uma inesgotável utopia concreta – parece definitivamente comprometida. O que está aí lhe substituindo de forma muitas vezes cruel se parece cada vez mais com uma anti-cultura popular.

Se tentarmos pensar a decomposição em curso levando plenamente em conta a dimensão nacional vamos perceber de que ela é ainda muito pior do que tem aparecido. Vista de (muito) longe a velocidade que a coisa vem tomando parece está sendo mais acelerada até mesmo do que nos anúncios que o nosso profeta e pensador maior Paulo Arantes tem feito há tantos anos.

A famosa cena de Bacurau que escancara e alimenta o nosso muitas vezes justificado ressentimento se revela cada dia mais como o principal momento do filme. Talvez seja um outro sinal do futuro sombrio que já está por aí invadindo rapidamente o presente.


[1]O mês de julho de 2019 francês foi aproximadamente três vezes mais incendiário do que o de 2018 : https://feuxdeforet.fr/2019/08/01/feux-de-foret-en-france-un-bilan-alarmant-au-31-juillet/

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