A esquerda global permitirá que os nacionalistas de direita assumam o controle do descontentamento da sociedade?

Por Slavoj Zizek, via RT, traduzido por Daniel Alves Teixeira

Três décadas após o colapso do comunismo na Europa Oriental, existe agora um desconforto com o capitalismo liberal. E ele está beneficiando mais a direita global do que os esquerdistas.


Hoje, é comum enfatizar a natureza “milagrosa” da queda do Muro de Berlim, há 30 anos, neste mesmo mês. Naquela época, era como se um sonho tivesse se tornado realidade, algo inimaginável mesmo alguns meses antes. Logo depois, os regimes comunistas entraram em colapso como um castelo de cartas.

Quem, antes disso, na Polônia poderia ter imaginado eleições livres com Lech Walesa como presidente? No entanto, deve-se acrescentar que um “milagre” ainda maior aconteceu apenas alguns anos depois: o retorno dos ex-comunistas ao poder através de eleições democráticas livres. Walesa foi logo totalmente marginalizada e se tornou muito menos popular do que o general Wojciech Jaruzelski que, uma década e meia antes, esmagou o Solidariedade com um golpe de Estado militar.

Nesse ponto, geralmente se menciona o “realismo capitalista”: Os Europeus do Leste simplesmente não possuíam uma imagem realista do capitalismo. Eles estavam cheios de expectativas utópicas imaturas. Na manhã seguinte ao entusiasmo dos dias bêbados da vitória, as pessoas tiveram que ficar sóbrias e passar por um doloroso processo de aprender as regras da nova realidade, ou seja, o preço a pagar pela liberdade política e econômica. Foi, efetivamente, como se a esquerda européia tivesse que morrer duas vezes: primeiro como esquerda comunista “totalitária”, depois como esquerda democrática moderada que, desde os anos 90, vem gradualmente perdendo terreno.

No entanto, as coisas são um pouco mais complexas. Quando as pessoas protestaram contra os regimes comunistas na Europa Oriental, o que a grande maioria tinha em mente não era o capitalismo. Eles queriam segurança social, solidariedade e justiça. Eles queriam a liberdade de viver suas próprias vidas fora do controle do Estado e de se reunir e conversar como quisessem. Eles queriam uma vida de simples honestidade e sinceridade, livre da primitiva doutrinação ideológica e da hipocrisia cínica predominante.

Em suma, os vagos ideais que inspiraram os manifestantes foram em grande parte retirados da própria ideologia socialista. E, como aprendemos com Freud, o que é reprimido geralmente retorna de uma forma distorcida – no nosso caso, o que foi reprimido do imaginário dissidente retornou sob o disfarce do populismo de direita.

Não é à toa que, depois de muito tempo pregando a abertura e  globalização, os países desenvolvidos agora estão construindo novos muros, porque a nova fórmula é a livre circulação de mercadorias em vez da livre circulação de pessoas.

Em sua interpretação da queda do comunismo da Europa Oriental, Jurgen Habermas provou ser o último Fukuyamaista de Esquerda, aceitando silenciosamente que a ordem liberal-democrática existente é a melhor possível, e que, embora devamos nos esforçar para torná-la mais justa, etc., não devemos desafiar suas premissas básicas.

Foi por isso que ele acolheu com entusiasmo precisamente aquilo que muitos esquerdistas viam como a grande deficiência dos protestos anticomunistas na Europa Oriental: o fato que esses protestos não foram motivados por nenhuma nova visão do futuro pós-comunista – como ele disse, as revoluções da Europa Central e Oriental eram somente o que ele chamou de revoluções “retificadoras” ou de “recuperação”: seu objetivo era permitir que as sociedades da Europa Central e Oriental ganhassem o que os europeus ocidentais já possuíam. Em outras palavras, retornar à “normalidade” europeia.

No entanto, movimentos como os coletes amarelos, e outros protestos semelhantes, definitivamente NÃO são movimentos de recuperação. Eles incorporam a estranha reversão que caracteriza a situação global de hoje. O antigo antagonismo entre “pessoas comuns” e as elites capitalista-financeira está de volta em vingança, com as “pessoas comuns” explodindo em protesto contra as elites acusadas de serem cegas a seus sofrimentos e demandas.

Porém, o que é novo é que a direita populista provou ser muito mais hábil em canalizar essas explosões em sua direção do que a esquerda. Alain Badiou foi, portanto, plenamente justificado em dizer a respeito dos Coletes Amarelos: “Tudo o que se move (cria inquietação) não é vermelho”.

A direita populista de hoje participa da longa tradição de protestos populares predominantemente esquerdistas. Algumas revoltas de hoje (Catalunha, Hong Kong) podem até ser consideradas um caso do que às vezes é chamado de revolta dos ricos – lembre-se de que a Catalunha é, juntamente com o país basco, a parte mais rica da Espanha e que Hong Kong é per capita muito mais rica do que a China. Não há solidariedade com os explorados e pobres da China em Hong Kong, não há demanda por liberdades para todos na China, apenas a demanda para manter a sua posição privilegiada.

Aqui está, então, o paradoxo que temos de enfrentar: a decepção populista com a democracia liberal é a prova de que 1989 e 1990 não foram apenas revoluções de recuperação. Em vez disso, tratava-se de algo mais do que alcançar a “normalidade” liberal-capitalista. Freud falou sobre o Das Unbehagen in der Kultur (o descontentamento/desconforto na cultura); hoje, 30 anos após a queda do Muro, a nova onda de protestos em andamento testemunha uma espécie de Unbehagen no capitalismo liberal, e a pergunta-chave é: quem articulará esse descontentamento? Será deixado aos populistas nacionalistas explorá-lo? Aí reside o grande enigma com que se depara a esquerda.

Um comentário em “A esquerda global permitirá que os nacionalistas de direita assumam o controle do descontentamento da sociedade?

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  1. A capacidade de articulação não viria, no dizer de Rosa Luxemburg, “espontaneamente” das manifestações autenticamente populares, das massas revoltadas? As lideranças brotariam “espontaneamente” à revelia das “articulações” dos leninistas?

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