Teses para um Prometeísmo Vermelho

Por Isidoro Duquebra

“Como fazer as massas amarem a Emancipação? Em tempos de refluxo da política avançada, milhares e milhares se voltam para o misticismo, a fé arrebatada, ou para o fundamentalismo extremo, ultrassangrento (como o Estado Islâmico, ou os neofascismos tupiniquins, de espancar travesti ou clamar pelos militares-torturadores de ontem-hoje). Todos querem uma dose violenta de qualquer coisa.”


1. Os jovens combatentes sandinistas, em sua maioria, não eram militantes orgânicos, quadros téoricos, leitores de bons livros. Sabiam unicamente “que sua bandeira vermelha e preta era a de Sandino, que Carlos Fonseca fora seu dirigente máximo, que seu compromisso com a tomada do poder era para valer e que lutava do lado dos operários e camponeses. E isso bastava.” [1] A Revolução não se faz com firulas relativistas, mas com simplificações libertárias. Agir politicamente é simplificar o complexo (à força, por vezes), decidir e agir. O central da luta deve, sim, se tornar preto no branco.

2. A História é aberta. Radicalmente aberta. A Sorte – sob o cabresto da Luta – sempre está lançada. A Emancipação não é o quinhão destinado desde sempre à Humanidade, como uma dádiva de um Direito Natural – o longo braço de Deus, ou da Razão, na Terra. Os seres humanos não nasceram para a Liberdade – assim como não nasceram para a opressão, a escravidão, a exploração tornada morte em vida. E como hoje massas e massas clamam por servidão, como se fosse o mais doce néctar (eis a hegemonia dominante em toda a sua glória), essas mesmas massas devem aprender, ainda mais uma vez, a se verem como dignas de vida, de ar puro, do mais profundo amor. Devem voltar a se enfurecer com sua própria miséria, e a temê-la mais do que a morte, como cantavam os communards de Brecht. [2] O ódio organizado, potente, claro como o sol de primavera, deve voltar à ordem do dia. Pois os Direitos Humanos, sempre, é o que se arranca das entranhas de um fascista recém-fuzilado.

3. Mas as massas, no seu justo ódio, se não são (ou mesmo não devam ser, para o seu próprio bem psíquico) subjetivamente revolucionárias, devem ser objetivamente revolucionárias. Portanto, o grosso do povo deve se tornar, no mínimo, progressista e insurreto. Tal se dá no concreto do cotidiano, e por via afetiva. A Razão, instrumento de combate, é secundária na sublevação das massas. E aí a pergunta é: como fazer as massas amarem a Emancipação? Em tempos de refluxo da política avançada, milhares e milhares se voltam para o misticismo, a fé arrebatada, ou para o fundamentalismo extremo, ultrassangrento (como o Estado Islâmico, ou os neofascismos tupiniquins, de espancar travesti ou clamar pelos militares-torturadores de ontem-hoje). Todos querem uma dose violenta de qualquer coisa. Para buscarem um Sentido Forte para a sua existência, fragmentada e mortificada pelo neoliberalismo tornado, na prática afetiva, o verdadeiro fim da História. É preciso que, após matarmos Deus, sejamos nós mesmos o nosso Deus, ainda que precário e um tanto decrépito. Quando o Sade de Peter Weiss interpela Jean-Paul Marat, dizendo da opacidade e falta de sentido da Natureza, assassina, estupradora, indiferente, Marat diz: “se não há Sentido na Natureza, EU crio o Sentido!” [3]. É preciso forjar – por quaisquer meios necessários – uma nova Narrativa Emancipatória. E, sim, é preciso forçar as massas à Liberdade.

4. A docência do ódio. Do ódio de classe, ambidestro, com a fúria antipatriarcal num braço, a ira antirracista no outro. Mas quem “ensinará” as massas? A militância vermelha, miserável e alquebrada, entupida de livros até à náusea? Seriam cegos guiando cegos. Contudo, eis aí a saída. Se pensarmos/agirmos dialeticamente, temos que entender que A) a luta até a morte pela Emancipação é uma aspiração de loucos semissuicidas, e B) As massas, mais interessadas em suas dificuldades concretas e imediatas do que em ideias mirabolantes de jovens (e velhos) desocupados, são mais razoáveis e ponderadas do que qualquer intelectual. Não à toa as organizações revolucionárias estão apinhadas de gente desequilibrada, portadores de sofrimento mental: o combate, perigosíssimo, contra a Reação, só é afeito àqueles que, diferentemente das pessoas normais, sofrem em insônia, angústia, depressão com coisas tão comuns, hoje, aqui, como uma criança nas ruas, como um cadáver negro numa viela de favela. A disfuncionalidade social tornada sintoma/patologia é o elemento essencial para um militante revolucionário. Daí se pensar uma revalidação do conceito de Vanguarda: ela não seria composta dos melhores, mas sim dos mais doentios.

5. Como se dá o “ensino” da Revolução? Como “aprender” a desejar ser livre? Alguns elementos surgem quando olhamos a questão da Vanguarda com outros olhos. Não são os melhores, nem os que puxam a carroça da Emancipação. São sim, “marcos de estrada”, como dizia Ho Chi Minh [4]: as pessoas passam, você indica a direção (a princípio) certa. Você pode estar errado. Ou certo. Ou ambos. O ponto é que você se digna a estar, sob sol e sob chuva, ao lado da estrada, apontando. Pensemos também a Vanguarda como ligações, articulações. O militante produz a liga, a pega. Maoisticamente, sua função é reapresentar o velho sob nova forma: o militante deve ouvir/viver as massas, trabalhar e retrabalhar o escutado/vivido sob microscópio, o bisturi e o martelo – sim, o martelo! – da teoria revolucionária, e devolver a mesmíssima coisa às massas, sob outra e mais qualificada forma. [5] A função da militância, em suma, é fazer com que os oprimidos vejam exatamente o que vivem de outro ponto, de outra visada, sob outra perspectiva. A função do revolucionário é gerar paralaxes em massa.

6. É preciso aumentar, intensificar a opressão das massas, com a consciência da opressão que elas sofrem cotidianamente. [6] O desvelamento cru das violências múltiplas sofridas dia após dia (e entorpecidas dia após dia pelo ópio da religião, do entretenimento de massa, do hiperconsumo) mostra a pertinência, de alguma forma, do maldito dístico “quanto pior, melhor.” As rupturas surgem quando as vãs esperanças, de certa maneira, deixam de existir. Ou seja: o desespero pode sim ser revolucionário.

b


Notas:

[1] ZIMMERMANN, Matilde. Carlos Fonseca e a Revolução nicaraguense. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

[2] https://urlprotection-mia.global.sonicwall.com/click?PV=1&MSGID=202008041041020206076&URLID=19&ESV=10.0.6.3445&IV=B43109450C3AD2ED67D7431C26BF0983&TT=1596537664683&ESN=1zOYWNU%2F7vHXzjKH7det1ruAEKyAwnb660TmqWbmvs0%3D&KV=1536961729279&ENCODED_URL=https%3A%2F%2Fvermelho.org.br%2F2011%2F03%2F18%2Fos-dias-da-comuna-a-poesia-na-luta-pelo-futuro&HK=5EAE368682BBA95B566445A2F63E8FFF7270F689F7BC8D5C738BF3C4FD12983F/

[3] WEISS, Peter. Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat representados pelo grupo teatral do hospício de Charenton sob a direção do senhor de Sade. São Paulo: Peixoto Neto, 2004. https://urlprotection-mia.global.sonicwall.com/click?PV=1&MSGID=202008041041020206076&URLID=17&ESV=10.0.6.3445&IV=C60D4C059B4263280B85AA3DDE900C9D&TT=1596537664682&ESN=fwrRkbQ9fAOsf9q%2BE9laHaALMEnXcp%2B5FzN003oH2ZM%3D&KV=1536961729279&ENCODED_URL=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DRJc4I6pivqg&HK=159D77E4BFA5A1EB33A559F87B6C2C81378A940F29DDFCA643EFA9E370CB082E

[4] https://urlprotection-mia.global.sonicwall.com/click?PV=1&MSGID=202008041041020206076&URLID=15&ESV=10.0.6.3445&IV=74CF2F692CD048BE719A2E70660BB6EC&TT=1596537664682&ESN=PhrtKJ0WbdjC8gNCv%2FufBTWxAAJw%2FfguiG497mcXhS4%3D&KV=1536961729279&ENCODED_URL=https%3A%2F%2Foutubrorubro.blogspot.com%2F2011%2F02%2Fmarco-de-estrada-ho-chi-minh.html&HK=7060E597E7BE3B80F50C10A9CCBCB29C71D42181B3B92A46D71030B258C14760

[5] https://urlprotection-mia.global.sonicwall.com/click?PV=1&MSGID=202008041041020206076&URLID=13&ESV=10.0.6.3445&IV=1560295B2599E36450214B5C3897CC0F&TT=1596537664682&ESN=XEFaDc5oAjMmmDOxPiUu6Muj96DAcW%2F1s9ZO2IoMCxE%3D&KV=1536961729279&ENCODED_URL=https%3A%2F%2Fwww.marxists.org%2Fportugues%2Fmao%2F1957%2F02%2F27.htm&HK=6D55C60C122B1DE40CDCBDB310C91BC547E834CE67B72259E2F13E7651F2917B

[6] “Há que tornar a opressão real ainda mais opressiva, acrescentando àquela a consciência da opressão; há que tornar a infâmia ainda mais infamante, ao proclamá-la (…).”

https://urlprotection-mia.global.sonicwall.com/click?PV=1&MSGID=202008041041020206076&URLID=11&ESV=10.0.6.3445&IV=7C39D5C49F131C12B2AAEF67F4F18DEC&TT=1596537664682&ESN=ATPzbDZrgyOA8RAQ6CSu%2FrMBTqFQibwGu0eoXp5EE6U%3D&KV=1536961729279&ENCODED_URL=https%3A%2F%2Fwww.marxists.org%2Fportugues%2Fmarx%2F1844%2Fcritica%2Fintroducao.htm&HK=E9C63F7FED96AED8085E131B33EB52DC8B04BD3C88164982FE0FE46958FAEB6C

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