Dualismo ético-moral e miséria teórica: resposta ao artigo do El País

Por Jones Manoel

Em um debate teórico-político, quando se insinua simpatias não declaradas e objetivos ocultos ao interlocutor ou adversário, é importante aceitar com tranquilidade o mesmo pensamento de volta. Aliado a isso, todo escrito que se propõe a ser uma baliza moral precisa usar a moral e ética defendida para si próprio. Essa introdução é muito importante para comentar o escrito publicado hoje no El País, “O caso Stálin e o espantalho Arendt no Brasil de Bolsonaro” de Yara Frateschi.

Yara se propõe a responder o artigo escrito por mim e Breno Altman. O argumento do nosso artigo, “Caso Stálin: o papel da vilania na História”, é que devemos abordar o fenômeno de Stálin e do stalinismo por uma ótica materialista, dispensando o moralismo primário e a-histórico construído durante a Guerra Fria com participação fundamental de espadachins do capital – como Marx chamava os intelectuais da burguesia. Para quem não quiser ler todo artigo que eu e Breno lançamos, segue um trecho do dirigente comunista Palmiro Togliatti que sintetiza bem o que defendemos:

“Antes, todo o bem era devido às sobre humanas qualidades positivas de um homem; agora, todo o mal é atribuído a seus defeitos, também excepcionais e assombrosos. Num como no outro caso, estamos fora dos critérios de julgamento que são característicos do marxismo. Omitem-se os verdadeiros problemas, tais os de como e por que a sociedade soviética pôde chegar a certas formas de afastamento do caminho democrático e da legalidade que ela havia traçado” (citado por Alberto Guerreiro Ramos em “Mito e verdade da revolução brasileira”, Editora Insular, p. 154).

O nome e sobrenome disso é materialismo-histórico. E eu nunca defendi que fazer uma análise materialista de Stálin ou do stalinismo significa elogiar esse processo histórico. Por exemplo, considero os livros Mulher, Estado e revolução, de Wendy Goldman e Um Stálin desconhecido, de Zhores A. Medvedev e Roy A. Medvedev, belos exemplos de uma análise histórica de qualidade e quem conhece um pouco esses livros sabe que não têm nada de elogiosos à Stálin.

Mas na visão de Yara, defender uma visão materialista da crítica do stalinismo guarda objetivos ocultos, não declarados. Ela busca explicitar esses objetivos, numa leitura sintomal que daria inveja a Louis Althusser. Vejamos. Primeiro diz que o argumento usado por mim e Breno no escrito utiliza “o mesmo argumento que temos ouvido de bocas neonazistas, como foi um dia o de Adolf Eichmann”. Em seguida, diz fala “Hitler diria o mesmo” dos nossos argumentos. Um pouco mais a frente, afirma que “o argumento central de Breno Altman e Jones Manoel em ‘Caso Stálin’ pode servir em um artigo sobre o ‘Caso Costa e Silva’ ou sobre o ‘Caso Bolsonaro’” e, por fim, insinua que temos “baixíssima densidade democrática”.

Então note, segundo o argumento de Yara, eu e Breno Altman temos afinidades não declaradas com neonazistas, baixa densidade democrática, usamos um expediente teórico que serve para absorver todos os ditadores da terra e, claro, só conhecemos Hannah Arendt por “manual”.

O procedimento básico é simples: Yara não responde ao argumento central do escrito, mas faz uma censura moral. Dessa censura moral alega objetivos ocultos, não declarados, e sai sustentando sua abordagem por analogias – tipo com neonazistas.

Gostei tanto do procedimento de Yara que vou usar para analisar seu próprio escrito. A professora Yara tem como um dos seus objetivos, no escrito, defender o legado da filósofa Hannah Arendt, mas não cita em nenhum momento o racismo da autora e suas abordagens para lá de problemáticas sobre o movimento negro, escravidão, colonialismo, regime de supremacia racial no Sul dos EUA. Não condena o racismo e os flertes, muitas vezes explícitos, de simpatias com o colonialismo presentes na obra de Hannah Arendt.

Vejamos, por exemplo, o que Hannah Arendt escreveu sobre o movimento negro no auge dos protestos pelos direitos civis e contra o apartheid nos EUA:

“A violência séria só entrou em cena com o aparecimento do movimento Poder Negro nos recintos universitários. Estudantes negros, a maioria dos quais admitidos sem qualificação acadêmica, se consideravam e se organizavam como um grupo de interesses — os representantes da comunidade negra. Seu interesse era rebaixar os padrões acadêmicos […] parece que a instituição acadêmica, na sua curiosa tendência de ceder mais às exigências dos negros, ainda que sejam abertamente ultrajantes e tolas, do que às reivindicações desinteressadas e por vezes altamente morais dos rebeldes brancos” (ARENDT, p. 106 – Crises da República. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2015).

Imagino que não preciso lembrar, também, as “reflexões” racistas de Hannah Arendt contidas no seu “Reflexões sobre Little Rock” ou então os comentários sobre a obra de Frantz Fanon no famoso ensaio sobre a violência. Nesses dois exemplos o que vemos é uma às vezes sutil, às vezes aberta, conciliação com o racismo e o colonialismo.

Hannah Arendt, no seu clássico livro “Sobre a Revolução” também realiza uma história da Revolução Americana semelhante – na conclusão e não no procedimento, é claro – à dos membros da Ku Klux Klan e supremacistas apoiadores de Trump. Hannah Arendt simplesmente não considera no seu balanço histórico a manutenção e ampliação da escravidão após a Revolução Americana, o aceleramento do extermínio dos povos originários, o bloqueio econômico contra a Revolução Haitiana e a introdução da escravidão em territórios anexados ou tomados pelos Estados Unidos (muitos deles, onde a escravidão já tinha sido abolida). Hannah cita a escravidão? É claro, mas ela não tem peso teórico, estatuto de reflexão, na sua apologia da Revolução Americana e condenado da Revolução Francesa e Russa.

Para Hannah Arendt, George Bush, Trump, um membro da Ku Klux Klan e um neonazista dos EUA, o país é um exemplo de democracia e liberdade, talvez o melhor de toda história, e tudo que citamos acima não muda isso. Esse argumento foi detalhado no livro “Raça, classe e revolução: a luta pelo poder popular nos Estados Unidos” (Autonomia Literária, 2020).

Considerando sua defesa acrítica de Hannah Arendt, e como nenhum desses temas citados foi debatido, antes o contrário, pintando a filósofa alemã como grande democrata, vou usar o método de Yara e supor que ela é uma supremacista branca, racista e simpática às práticas históricas do colonialismo.

E note, ainda seguindo o procedimento de Yara, se ela pode elogiar Hannah Arendt sem precisar citar e condenar seu racismo, por que um militante conservador ou neonazista não pode fazer o mesmo com os responsáveis (e teóricos) pelos massacres coloniais na Argélia, Vietnã, Líbia, Síria? Não eram os generais que comandaram as tropas francesas no assassinato de 1 milhão de argelinos homens de um governo democrático e republicano, tementes a Deus Pai e a santa constituição da França?

Por que vamos tirar as estátuas e monumentos de nomes históricos do colonialismo e dos massacres coloniais, ou fazer como esses bárbaros países africanos que cobram reparações pelo colonialismo? Afinal, não podemos esquecer dos aspectos democráticos e civilizatórios dos países europeus, não é?!

Devo imaginar, considerando o método de leitura sintomal adotado por Yara, que ela é uma grande admiradora de Lothrop Stoddard e uma guerreira em defesa da raça branca e tal qual os Pais Fundadores dos EUA, considerados por Hannah Arendt campões da liberdade, não vê problemas em conciliar liberdade com escravidão dos negros.

Poderia insinuar também, ainda seguido o método de Yara, que ela vibra de felicidade quando assiste um filme ou documentário com vietnamitas destroçados, considerando a posição de Hannah Arendt sobre a guerra do Vietnã, e a ausência no seu escrito de comentários sobre o tema.

Bem, se de acordo com a regra ético-moral e a leitura de objetivos ocultos adotada pela professora Yara eu termino com simpatias neonazistas e baixo apreço pela democracia, ela termina como uma racista, supremacista branca e forte candidata a membro da escola de formação da Ku Klux Klan.

Perceberam o quanto é frutífero esse debate? Ele não leva a lugar nenhum. Mas se Yara sustenta sua metodologia, eu sustento a aplicação da sua metodologia para ela mesma. Aliás, o argumento base, central, do meu escrito com Breno é que existe uma abordagem moralista, filo-liberal e baseada no paradigma do vilão de Stálin e do stalinismo. Yara, em momento nenhum, buscou o básico e central, se queria refutar o escrito, que é mostrar que essa abordagem não existe ou que não tem força ou ainda que não fazemos uma abordagem melhor do que a que estamos criticando. Ou seja, não tocou, nem de leve, no argumento central do texto.

A professora buscou apenas estigmas morais, insinuações e “argumentos” toscos, como esse de ler Hannah Arendt por “manual”. De novo, rogo que aplique para si sua metodologia; no final acharemos Yara com um capuz e uma cruz pegando fogo. Acha esse caminho frutífero? Eu não acho e recurso.

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1 comentário em “Dualismo ético-moral e miséria teórica: resposta ao artigo do El País”

  1. O contraponto à santificação de Hitler, uma das atrofias ideológicas da experiência nazista, não está em simplificadamente considerá-lo um vilão, um carniceiro da própria revolução que ajudou a realizar. Seu devido lugar na história somente poderá ser encontrado se investigarmos os fatores objetivos e subjetivos que determinaram sua época, interpretando suas ações, acertos e erros, vitórias e derrotas, façanhas e vilanias como partes integradas do complexo processo de consolidação do primeiro Estado nazista, frente a inimigos poderosos e dispostos a destruir, por quaisquer meios, a nação fundada sob a liderança dos nacional-socialistas.

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