O Nascimento e a Vida Curta do Marxismo Gay: O capitalismo e a identidade gay contextualizado

Por Rosemary Hennessy*, traduzido por Gustavo Guimarães

A rebelião de Stonewall na cidade de Nova York em junho de 1969 foi o catalisador mais imediato para a formação do movimento de libertação gay. Antes do final do verão de 1969, a Frente de Libertação Gay [Gay Liberation Front] tinha sido formada nos Estados Unidos, e ao longo do próximo ano, uma série de grupos pela libertação gay brotaram pelo país (D’Emilio, 1983, pp. 232-233). O próprio movimento pela libertação gay apareceu como um resultado das transformações e ajustes do capitalismo tardio que geraram a insurgência internacional generalizada por volta de 1968. Em uma esfera mais imediata, ele era inspirado pelo movimento Black Power [Poder Negro] e pela ascensão do feminismo — ambos os movimentos incluíam frações que objetivavam articular a relação histórica entre cultura e classe, forças locais e globais. Como na maior parte da Nova Esquerda [New Left], havia uma concordância geral dentro do pensamento de libertação gay de que o capitalismo era opressivo. Muitos manifestos pela libertação gay — ao menos retoricamente — traçavam conexões entre capitalismo, repressão da sexualidade, racismo e imperialismo. Mas o movimento pela libertação gay não era, de forma alguma, inteiramente influenciado pelo marxismo ou pela ideia de uma frente socialista unificada, e seus debates internos percorreram caminhos que parecem, em retrospectiva, previsíveis. Haviam aqueles e aquelas que, apesar das referências ao capitalismo, basicamente se focavam em, e militavam por, mudança cultural; e haviam aqueles grupos mais declaradamente marxistas que enfatizavam que as pautas e preocupações políticas e culturais precisavam estar conectadas a estruturas econômicas mais globais, de alguma forma1.


Um conjunto de textos que demonstra sucintamente essas diferentes inclinações se encontra no “Manifesto Gay” [Gay Manifesto] de Carl Whitman e a resposta a ele escrita pelo grupo gay socialista Red Butterfly [“Borboleta Vermelha”] (Blasius e Phelan, pp. 380–390). Embora o Red Butterfly apoie Whitman por conectar genericamente os efeitos individuais da opressão gay aos “fatos sociais e econômicos que são ao mesmo tempo a causa e os efeitos dessa situação”, eles percebem a tensão presente no seu manifesto entre a liberdade pessoal e a necessidade da ação coletiva, e criticam a promoção que Whitman faz da ideia de “saída do armário” como instrumento político, a qual entendem como uma estratégia em si mesma inadequada para a mudança social, porque pode muito facilmente separar a libertação pessoal da mudança das condições sociais que fomentam a opressão gay. Composta de uma rede frouxa de coletivos, diários, revistas, jornais, grupos de estudos, conferências e ações, cuja atividade mais intensa durou apenas até a metade dos anos 1970, a Esquerda Gay representou uma breve mas vital disposição a fazer uso do marxismo como uma perspectiva crítica para relacionar a opressão sexual ao capitalismo global. Na verdade, entretanto, havia mais gestos nesta direção do que explicações teóricas desenvolvidas capazes de forjar uma política militante fundamentalmente anticapitalista. Apesar de tudo, o fato de que uma ampla parte do discurso de libertação gay era, ao menos em espírito, direcionada rumo a conectar a opressão sexual à história do capitalismo fez deste movimento um dos pontos mais entusiasmantes no desenvolvimento histórico de um entendimento crítico e materialista da sexualidade.

Entre os coletivos que, de forma muito incisiva, de fato se ocuparam com o desenvolvimento de uma análise marxista ou socialista da sexualidade como base para a ação prática estavam o Grupo de Pesquisa de Los Angeles [Los Angeles Research Group], o Lavender and Red Union (algo como “União Lavanda-Vermelha”), o Gay Left Collective (em tradução livre, Coletivo da Esquerda Gay), do Reino Unido; e o Projeto de Ação Gay Socialista [Gay Socialist Action Project], de Nova York. Conforme a Declaração Coletiva do jornal socialista britânico Gay Left (Esquerda Gay) anunciou em 1975, os objetivos da Esquerda Gay eram “contribuir rumo a uma análise marxista da opressão homossexual […] e encorajar um entendimento das conexões entre a luta contra a opressão sexual e a luta pelo socialismo no interior do movimento gay”. Assim como muitas das organizações gays socialistas em formação na época, o Gay Left Collective britânico reuniu homens que se beneficiam e estavam envolvidos na interrupção dramática do valor negativo associado à homossexualidade promovida pelo movimento de libertação gay. Eles se esforçaram para expandir a cultura e a comunidade gay, mas também buscaram outra base para a organização social e política que não a transformação pessoal. O marxismo oferecia uma política, uma teoria e uma prática que se distanciava do espontaneísmo e da ênfase na resistência contracultural localizada que prevalecia no movimento de libertação gay. Mas a aceitação de um ponto de vista marxista não impedia a crítica a essa mesma tradição. Eles reconheciam que “não havia ainda […] um entendimento propriamente marxista da opressão sexual”, um entendimento que, como sugeriram, dependeria da “compreensão da relação entre a economia, a ideologia e a cultura, e dos insights fornecidos pelos desenvolvimentos recentes no estudo da sexualidade” (Gay Left Collective, v. 9). Eles rejeitavam um marxismo que enfatizava o sistema econômico como o motor da mudança ou via a luta social apenas em termos econômicos. Invés disso, eles argumentavam que as relações econômicas eram mediadas por formas políticas e ideológicas complexas (idem, v. 10). Ao argumentar que a luta dos trabalhadores não era apenas sobre melhores salários e condições de trabalho mas também sobre as relações sociais introjetadas na família e reforçadas através da ideologia burguesa, eles esperavam expandir a discussão sobre sexualidade que aconteceu nos trabalhos pré-1914 de Engels e Kollontai (idem, v. 9). Eles se alinhavam com os esforços dos marxistas britânicos em tratar o papel da ideologia na reprodução social. Mas ao defender que é no nível ideológico que a maior parte de nossa opressão como gays e lésbicas se expressa (idem, v. 10), eles correram o perigo de separar a ideologia da base material do capitalismo e abrir as portas para um foco exclusivo nas práticas ideológicas e políticas que posteriormente dominaria a Nova Esquerda de forma definitiva.

O Projeto de Ação Gay Socialista, sediado em Nova York (que incluía entre seus membros Jonathan Katz e John D’Emilio) foi formado em 14 de setembro de 1975, como um grupo de estudo marxista de homens gays, cuja uma das atividades contínuas eram leituras e discussões semanais regulares. Depois de começar com a obra de Marx — (incluindo seis meses dedicados à leitura do volume 1 de Capital) — eles leram Capitalism, the Family, and Personal Life (O Capitalismo, a Família e a Vida Pessoal) de Eli Zaretsky, O Tráfico de Mulheres de Gayle Rubin, Trabalho e Capital Monopolista de Harry Braverman e os escritos de Trotsky, Lenin e Mao. O grupo também convocou convenções socialistas gays e fez palestras na Conferência da União Acadêmica Gay Americana [Gay Academic Union Conference] (1976), publicou um boletim informativo e trabalhou em várias ações políticas. Como o Gay Left Collective no Reino Unido, eles ligaram a opressão gay sob o capitalismo ao papel da família e à sujeição das mulheres no sistema capitalista de produção. Ambos os grupos entendiam que a sexualidade está inextricavelmente ligada ao gênero e que a ideologia de gênero, em última análise, serve para reproduzir a divisão sexual do trabalho. Eles argumentaram que, por estar ligada à divisão de generificada do trabalho, a opressão sexual provavelmente não seria eliminada sob o capitalismo; consequentemente, é essencial que os gays relacionem sua opressão ao sistema mais amplo de exploração e opressão que o capitalismo opera (Gay Left Collective, v. 2).

Os esforços organizativos da Esquerda Gay pressionaram as organizações socialistas a abordar questões de sexualidade e identidade sexual, e algumas delas — como a Liga Espartaquista [Spartacist League, seção estadunidense da Quarta Internacional, não confundir com o grupo de comunistas alemães de Rosa Luxemburgo, Zetkin e Liebknecht] — abordaram, embora nem todas tenham desenvolvido ou mesmo promovido as análises sistemáticas da sexualidade do tipo exigido pela Esquerda Gay2 . O Partido dos Trabalhadores Americanos [American Workers Party], por exemplo, apoiava “direitos iguais para gays”, mas enfatizava que os direitos democráticos não melhorariam completamente a vida de muitos gays da classe trabalhadora. Suas publicações e panfletos enfatizavam que a opressão gay sancionada pelo Estado afetava a qualidade de vida de muitas pessoas gays e lésbicas e limitava seu acesso a recursos humanos básicos3.

Apesar de estar aqui enfatizando o valor de uma análise que investigaria as maneiras pelas quais as histórias locais de sexualidade foram moldadas pelas mudanças nas relações de produção no capitalismo global, eu também não quero minimizar as conquistas do movimento de libertação gay. Em termos muito corajosos e ousados, eles exigiam mudanças na sociedade civil que acabariam com a discriminação contra qualquer pessoa que fosse nomeada, ou conhecida, ou reivindicasse uma identidade como “homossexual”. É importante lembrar que mesmo em meados da década de 1970 a homossexualidade era ilegal em mais da metade dos cinquenta Estados Unidos e em estados onde era legal não havia qualquer tipo de provisões para famílias gays; privilégios de parentesco próximo eram recusados ​​a homossexuais em hospitais; custódia e direitos de adoção eram rotineiramente retidos de pais gays; empregos públicos no governo federal eram negados para gays e lésbicas; não havia leis que tornassem ilegal a discriminação em empregos não governamentais; e aos proprietários [de apartamentos, casas, imóveis ou comércios] também era legalmente permitido a discriminação contra pessoas gays e lésbicas. Diante dessas condições opressivas, as reformas alcançadas pelo movimento de libertação gay alteraram permanentemente a qualidade de vida das lésbicas e gays nos Estados Unidos. No final dos anos setenta a Associação Americana de Psiquiatria [American Psychiatric Association] havia removido a homossexualidade de sua lista de transtornos; cerca de metade dos estados havia removido suas leis de sodomia; a Comissão para o Serviço Civil [Civil Service Commission] eliminou sua proibição à contratação de lésbicas e gays; e dezenas de municípios aprovaram estatutos antidiscriminação. Lésbicas e gays se transformaram em uma presença pública na academia, na mídia e nas igrejas e uma subcultura gay estava crescendo (D’Emilio, 1983, p. 239).

Um dos problemas gritantes desde o início, tanto no movimento de libertação gay quanto dentro da esquerda marxista gay estava na incapacidade de desenvolver uma política e teorias que abordassem adequadamente a particularidade da opressão lésbica e as contribuições políticas das mulheres para o movimento. Em meados dos anos setenta nos Estados Unidos, coletivos autônomos lésbico-feministas estavam se formando, muitas mulheres que estiveram envolvidas em círculos de libertação gay ficaram insatisfeitas com o sexismo dos homens gays. Embora houvesse vários grupos e coletivos feministas socialistas nos EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha, poucas organizações feministas lésbicas se voltaram para o marxismo para desenvolver uma explicação materialista da sexualidade. A maioria dos coletivos e grupos lésbicos tendia a ser feminista radical em seu pensamento; ou seja, elas identificavam as estruturas patriarcais como a primeira e principal causa da opressão das mulheres. O coletivo The Furies [‘As Fúrias’], com sede em Washington, D.C., são um exemplo interessante das sobreposições e diferenças substantivas entre os dois pontos de vista. Os tópicos abordados em artigos que aparecem em seu jornal de mesmo nome são um indicativo das preocupações do coletivo. Elas leram Engels, focaram sua atenção ao privilégio de classe dentro do movimento, confrontaram o capitalismo corporativo e exigiram um nível de análise que ultrapassaria a maior parte da discussão contemporânea da lesbiandade como algo pessoal, cultural ou uma questão de direitos civis. Porém, finalmente, a análise que produziram não ofereceu a explicação mais sistêmica que elas exigiam.

Uma das características significativas dos escritos que saíram do coletivo The Furies, e um aspecto de seu pensamento que o distinguia de muito do discurso do movimento de libertação gay, foi sua atenção à heterossexualidade como uma instituição. Este foi um foco substancialmente diferente da política feminista que promovia a libertação das mulheres, das preocupações feministas-lésbicas com a cultura identificada com a mulher, ou da demanda por direitos homossexuais pelo movimento de libertação gay. Infelizmente, porém, seu trabalho não chegou a desenvolver como esta instituição está conectada ao capitalismo. Às vezes, até parecia que a heterossexualidade em si era o problema. Além disso, embora ligassem a sexualidade à classe, elas não entendiam classe como relações sociais de trabalho, mas sim como “classicismo”. A concepção de ‘classicismo’ enfatiza a expressão cultural das hierarquias de classe — na renda, nas escolhas de consumo, e no estilo de vida — e entende as diferenças de classe em termos de status. Como resultado, ela redireciona o foco da análise de classe, da exploração à opressão cultural.

Desta forma, as lésbicas do coletivo The Furies eram muito diferentes das feministas socialistas e marxistas. Apesar de o grupo ter tido uma vida curta, a noção feminista radical de ‘opressões que se intersectam’ que desenvolveram continua a definir os estudos sobre mulheres nos Estados Unidos. No início da década de 1980, os princípios fundamentais da esquerda marxista gay, sempre uma pequena fração do movimento de libertação gay, foram desmontados ou abandonados até mesmo por seus principais promotores. Grande parte do motivo de sua morte reside na recusa incurável de muitos dos grupos socialistas em abordar significativamente a sexualidade, e a homossexualidade em particular. Muitos socialistas gays finalmente se viram exaustos e isolados por causa das lutas longas e infrutíferas nas organizações partidárias; alguns redirecionaram suas energias para trabalhar com grupos gays autônomos e concentraram seus estudos e pesquisas em um materialismo cultural, em vez de histórico (Weeks, 1979, p. 235). O legado deste recuo na análise de classe para a política sexual [política cultural-simbólica e particularista, que mantém os debates sobre sexualidade presos em si mesmos] se faz evidente quando analisamos a compreensão de cultura e materialismo que moldaram a teoria queer. Enquanto a ascensão da direita nos anos oitenta foi uma época de crise para o marxismo e de fragmentação política na esquerda, foi também a década em que os estudos culturais (no sentido de culturalistas) começaram a florescer na academia. No final da década, os estudos culturais já estavam se tornando uma entidade acadêmica estabelecida; cujo afastamento do marxismo e cuja conversão apressada ao materialismo foucaultiano como alternativa praticamente dominaram a análise da sexualidade.


*Excerto do livro “Profit and Pleasure: Sexual Identities in Late Capitalism” (traduzindo livremente, “Lucro e Prazer: as Identidades Sexuais no Capitalismo Tardio”).


NOTAS DA INTRODUÇÃO [Hennessy]

  1. Ver Toby Marotta, citado em Blasius e Phelan, p. 377. Também vale a pena notar aqui que o grupo que desencadeou o movimento homófilo nos Estados Unidos foi a Sociedade de Mattachine [Mattachine Society], cujo fundador, Henry Hay (conhecido como ‘Harry Hay’), era membro do Partido Comunista e dedicou suas energias ao partido desde 1933 até 1948. No entanto, a análise marxista teve pouco lugar na Sociedade. A Sociedade de Mattachine não se propôs a tratar a opressão sexual como uma característica da história do capitalismo. Seu objetivo era simplesmente abordar a situação dos homossexuais como uma minoria culturalmente oprimida.
  2. Outros (entre eles o Partido Comunista dos EUA [Communist Party USA], a União Revolucionária [Revolutionary Union] e o Partido Socialista dos Trabalhadores [Socialist Workers Party]) se agarraram à linha anti-homossexual oficial do Partido Comunista e foram fundo nela.
  3. Para uma descrição e um tratamento anti-marxista de algumas das práticas homofóbicas de grupos marxistas e de grupos ligados ao Partido Comunista, entre eles o Partido Socialista dos Trabalhadores, consultar Edge.

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