Queremos ser desenvolvidos? Uma visão sobre o desenvolvimento sustentável a partir da ecologia marxista

Por Lívia Maria Vieira

Se o desenvolvimento fosse um ser vivo, diríamos que ele nasceu em 20 de janeiro de 1949. Foi neste dia que o então presidente dos Estados Unidos Harry Truman, no seu discurso de posse, criou os termos desenvolvido e subdesenvolvido, se referindo aos países do Sul global como o segundo caso, e afirmando a importância de levar tecnologias e ciências aos pobres vizinhos tomados pela fome, doenças e miséria. Em seu discurso, Truman ainda negava as velhas relações imperialistas, propondo trocas “limpas e democráticas”.


Raízes históricas do desenvolvimento

“O subdesenvolvimento começou em 20 de janeiro de 1949. Nesse dia, 2 bilhões de pessoas tornaram-se subdesenvolvidas. Na verdade, desde então deixaram de ser o que eram, em toda sua diversidade, e se converteram em um espelho invertido da realidade de outros: um espelho que os despreza e os envia ao fim da fila, um espelho que reduz a definição de sua identidade, a de uma maioria heterogênea e diversa, aos termos de uma minoria pequena e homogeneizante.” (Descolonizar o imaginário: debates sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento, p. 25)

O fantasma do desenvolvimento assombra o ideário de progresso individual e coletivo da população desde os fins do século XVIII e início do XIX, mesmo que não se manifeste diretamente. O desenvolvimento é entendido como um processo constante, linear, associado à dominação da natureza e acúmulo incessante de mercadorias. Ocorre a ideia de fetichização da técnica, colocada como lei para a racionalidade capitalista.

Se o desenvolvimento fosse um ser vivo, diríamos que ele nasceu em 20 de janeiro de 1949. Foi neste dia que o então presidente dos Estados Unidos Harry Truman, no seu discurso de posse, criou os termos desenvolvido e subdesenvolvido, se referindo aos países do Sul global como o segundo caso, e afirmando a importância de levar tecnologias e ciências aos pobres vizinhos tomados pela fome, doenças e miséria. Em seu discurso, Truman ainda negava as velhas relações imperialistas, propondo trocas “limpas e democráticas”.

Nas Ciências Naturais entendemos o desenvolvimento como um processo de amadurecimento natural aos seres vivos: o desenvolvimento da planta desde a semente até a vida adulta, do girino até o sapo, do embrião até o humano adulto. Mas a criação do termo na política gera uma dualidade entre desenvolvimento versus subdesenvolvimento, que não existe nas Ciências Naturais.

Vamos olhar com mais atenção para a ideia de produção ilimitada. O conceito de metabolismo da natureza, apresentado por Karl Marx em Manuscritos econômico-filosóficos, e trabalhada particularmente por Friedrich Engels em Dialética da Natureza, fala da relação íntima entre o ser humano e a natureza. Em Manuscritos econômico-filosóficos Marx mostra seu entendimento sobre o significado da natureza para o ser humano

“O homem vive da natureza significa: a natureza é o seu corpo, com o qual ele tem de permanecer em constante processo para não morrer. Que a vida física e espiritual do homem esteja em conexão com a natureza, não tem outro sentido senão que a natureza está em conexão com ela própria, pois o homem é uma parte da natureza.” (Marx, Manuscritos econômico-filosóficos)

Aqui, quando Marx fala da relação física e espiritual do ser humano com a natureza, ele descreve como o ser humano realiza seu metabolismo transformando a natureza, mas sem deixar de pertencer à mesma. O conceito se apresenta em vários outros momentos  das obras de Marx e Engels, amadurecendo até em O Capital, quando se mostra uma integração aprofundada entre o conceito materialista de natureza e o conceito materialista de história.

Ao longo do século XIX, a grande preocupação da Europa e América do Norte era com a fertilidade do solo para atender às necessidades de produtividade capitalistas. Para superar esses problemas, temos entre os anos de 1820 e 1840 grandes cargas de guano peruano expropriadas pela Grã-Bretanha. Muito se desenvolveu em estudos sobre ciência agrícola, que levaram à segunda revolução verde. Aqui vamos destacar o cientista alemão Justus von Liebig, que trouxe importantes explicações sobre o papel dos nutrientes no solo.

No decorrer de seus estudos, Liebig faz importantes críticas ao método capitalista de fertilização do solo, falando sobre o processo de ciclagem dos nutrientes. Marx se baseia profundamente nos trabalhos do cientista e escreve ainda em 1850 em O Capital sobre a insustentabilidade da agricultura capitalista e como o desenvolvimento histórico do capitalismo condicionará a uma ruptura do metabolismo social com a natureza.

A falha da ruptura metabólica representa limites na exploração capitalista. Esta falha se dá pela especificidade da forma de trabalho e produção dentro do sistema capitalista, gerando a alienação entre o homem e a Natureza, como explicitado por Marx nos Gründrisse. A grande exportação do guano do Peru para países da Europa e Estados Unidos levou essas reservas a começarem a se esgotar já nos anos 1860, quando precisaram ser substituídas por nitratos do Chile. Percebe-se a exploração colonial nas raízes históricas do desenvolvimento, como veremos adiante.

Este exemplo da exploração do guano mostra como foram colocados os países do Sul no contexto da luta por desenvolvimento. É preciso situá-los na história da dominação capitalista. Essa exploração se baseou em escravidão, extermínio de povos, subjugação cultural, e pilhagem de riquezas naturais.

Tudo isso levou a um estado de bem-estar social para os países do Norte que foi, na verdade, uma exceção histórica, ocorrendo apenas durante a Guerra Fria. Ele só foi possível pelo patamar geopolítico imperialista/colonial, pela extrema desigualdade e exploração inesgotável de energia e mão de obra muito baratas. Seria realista pensar, para países latino-americanos, em um estado de bem estar como dos Estados Unidos nos anos 1945 a 1975, os chamados trinta anos gloriosos?

Para o geógrafo brasileiro Carlos Walter Porto-Gonçalves, o desenvolver envolve tirar o envolver (ou seja, a autonomia) de diferentes povos e culturas nas suas relações com seus territórios. Por isso, historicamente e concretamente, o desenvolvimento tem como suas bases  o colonialismo e destruição de cosmovisões pluriculturais, com a sua substituição pela cultura hegemônica ocidental e eurocêntrica.

Implicações do desenvolvimento

O desenvolvimento é visto como uma prática positiva, numa associação destituída de criticidade sobre as condições materiais e relações de exploração que condiciona. Não é possível falar em desenvolvimento sem falar em subdesenvolvimento como uma dicotomia: para haver um país desenvolvido este deve necessariamente se servir de um país subdesenvolvido. À medida que este processo se intensifica as relações de desigualdade se aprofundam.

Desta forma, desenvolvimento, nesta acepção, ignora as diferenças de classes e aprofunda as desigualdades. Historicamente, as populações racializadas e marginalizadas (negros, indígenas, quilombolas, ciganos) não tem o mesmo acesso aos recursos naturais e sofrem mais gravemente os impactos da destruição ambiental causada pelo sistema capitalista. Este conceito na ecologia marxista é chamado de racismo ambiental, e é premente para nossa discussão neste momento.

Então Truman, além de propor medidas produtivas e tecnológicas que buscassem levar paz – “paz” essa acompanhada de subjugação cultural e ideológica – aos países considerados como inferiores, propunha um modelo unitário que levaria todos os países ao desenvolvimento. Assim, o modelo estadunidense, considerado mais “evoluído”, se tornou método e meta para todos os outros países. O imperialismo trocou de roupa, mas não de corpo.

Foi no contexto da Guerra Fria e da ameaça de guerra nuclear que se consolidou tal discurso a partir da relação desenvolvido/subdesenvolvido, rico/pobre, avançado/atrasado.

A experiência socialista soviética foi marcada por contradições internas no campo das Ciências Naturais e preservação ambiental e vale uma leve dissertação sobre. Com Vladimir Lênin temos a fomentação das zapovedniks (unidades de conservação ambiental), criação da VOOP (no português, Sociedade Russa de Conservação) e a participação massiva de vários cientistas introduzindo o materialismo histórico dialético nas Ciências Naturais. O período seguinte, de Joseph Stálin, é marcado por burocratismo, expurgos e a figura dominante de Trofim Lysenko nas ciências agrárias.

Um dos maiores opositores de Lysenko e grande cientista da época foi Vladimir Sukachev. Ele lutava contra as políticas consideradas até pseudocientíficas de Lysenko e suas medidas de perseguição a cientistas que discordassem dele. No período de Stálin as zapovedniks haviam diminuído muito em tamanho e as medidas adotadas por Lysenko para florestamento se mostraram desastrosas. Após a morte de Stálin, o prestígio de Lysenko caiu e o de Sukachev, que nunca parou de rivalizar com ele, sobe bastante. Isso incentiva o aumento do número de cientistas e ambientalistas dentro da VOOP, chegando esta a se tornar a maior organização ambientalista mundial em 1985.

Particularmente na primeira década após a morte de Stálin, seu sucessor Nikita Kruschev absorve o conceito de desenvolvimento e implementa uma política de destruição de florestas nativas e assoreamento de rios, para benefícios agrícolas e de produtividade. No entanto, o movimento ambientalista renascido consegue grandes feitos, derrubando essas práticas nas décadas seguintes. A ecologia soviética se destaca por ser a primeira a nível mundial a levantar o problema das mudanças climáticas (ainda nos anos 1960) e desenvolver o conceito de ecologia global.

Ainda assim, vemos os grandes estragos que o desenvolvimento, com seus vínculos profundos com o tecnicismo e positivismo, gerou e continua causando.

No contexto da disputa ideológica e geopolítica entre as potências capitalistas e comunistas originou-se o conceito de Terceiro Mundo. Neste momento todos os “mundos” se propunham a desenvolver ou serem desenvolvidos. Ao final do século XX com a hegemonia conquistada pelos Estados Unidos hegemoniza-se a proposta de etapas, metas e teorias sobre como alcançar o desenvolvimento, capitaneadas por Washington e seus interesses internacionais.

Com toda a popularidade conquistada pelo conceito de desenvolvimento, o que se viu foi um “passe livre” para países centrais ou desenvolvidos agirem como quisessem dentro dos demais países. Estes, ao serem alçados ao patamar de países em desenvolvimento, se submeteram completamente aos mandos do Banco Mundial (BM) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que impuseram indicadores de desenvolvimento e políticas internas nas áreas da economia, educação, saúde e todas demais áreas de bem-estar social.

A promessa do desenvolvimento se junta à de um consumo ilimitado. Mais mentiras neoliberais que ignoram a ruptura metabólica, os limites impostos pela Natureza na relação de produção e consumo, e as enormes desigualdades sociais de classe, gênero, raça. É importante falar disso, pois precisamos debater não só o acesso ao consumo, pela socialização dos meios de produção, mas os males do consumismo desenfreado nos moldes neoliberais. Esses males não se colocam apenas na destruição da Natureza, mas no adoecimento físico, psicológico e espiritual do ser humano.

Outra mentira do desenvolvimento contada aos países recém independentes, está na própria base histórica que o gera. O desenvolvimento se baseia nas relações coloniais, nos séculos de expropriação de riquezas, destruição de culturas, conhecimentos e cosmovisões, que garantiram a expansão dos países imperialistas. Tais relações não foram quebradas com a independência dos países do Sul global. Importa saber que a dependência não se manteve pela falta de determinação e trabalho duro dos países do Sul em se desenvolver (numa visão bastante positivista de progresso através do esforço individual, neste caso elevado a situação de nações inteiras). Mas por restrições e ataques (armados ou não) impostos pelos próprios países do Norte, que não conseguiriam se manter desenvolvidos sem a subjugação dos outros.

Reflitamos sobre essa proposta enganosa ao Sul global: ainda hoje a cooperação ao desenvolvimento envolve o imperialismo transferindo recursos majoritariamente do Sul ao Norte, negando os anseios das recém independentes nações africanas que, ainda no século XX, concordaram com o desenvolvimento na Conferência de Bandung,1 esperançando por construir sua soberania nacional.

Com a criação do indicador social do Produto Interno Bruto (PIB), os indicadores de qualidade de vida foram associados aos países capitalistas modernos, numa perspectiva eurocêntrica imperialista que negava as diversas formas de organização social. Assim, houve uma transformação ideológica e cultural para que as sociedades dos países da América Latina, África e Oceania se assemelhassem aos modelos estadunidense e europeus pelo desenvolvimento. Tal dominação cultural e ideológica inferioriza os modos de conceber o mundo (cosmovisões), os saberes e organizações sociais, pela simples razão de existirem fora do sistema de produção capitalista.

Mas, com tanto investimento generoso dos países centrais, e esforço dos subdesenvolvidos em se desenvolverem, porque após tantas décadas isto ainda não aconteceu?

O desenvolvimento sustentável

Sem responder a esta pergunta, no lugar de negar o desenvolvimento, este ganhou agora “sobrenomes” que buscassem resolver seus impeditivos, sendo estes: desenvolvimento sustentável, etno desenvolvimento, desenvolvimento social, desenvolvimento rural, desenvolvimento humano, etc. Percebe-se que a resposta neoliberal é tentar pequenos ajustes ao desenvolvimento, pois ele não seria problemático em sua raiz.

Todos estes sobrenomes se mostraram concretamente como meros adornos a mascarar algo que já estava defeituoso em sua concepção, e por isso não conseguiram se somar e articular entre si. Além disso, eles não atendiam às expectativas dos órgãos e instituições internacionais que pretendiam unir crescimento econômico e preservação ambiental, sem mudar o sistema.

Também tivemos como tentativa o famoso desenvolvimento sustentável, índice tão cultuado desde currículos escolares básicos de Ciências até modelos impostos pelo FMI e acordos internacionais promovidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). O primeiro grande debate mundial sobre o tema do desenvolvimento sustentável se deu na Primeira Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, promovida pela ONU em 1972. O desenvolvimento sustentável se propõe a satisfazer as necessidades atuais, sem comprometer as gerações futuras.

O filósofo húngaro István Mészáros, importante intelectual marxista de origem operária, faz ao longo de sua vida profundas críticas ao sistema capitalista. Ele também afirma que o próprio desenvolvimento na lógica capitalista é insustentável. Em um debate na  Cúpula dos Parlamentares Latino-Americanos em 2001 ele coloca como necessidade para o desenvolvimento sustentável:

[…] estarmos realmente no controle dos processos culturais, econômicos  e sociais vitais, através dos quais os seres humanos não só sobrevivem, mas também podem encontrar satisfação, de acordo com os objetivos que colocam para si mesmos, em vez de estarem à mercê de imprevisíveis forças naturais e quase-naturais determinações socioeconômicas. (István Mészáros, texto lido na conferência da Cúpula dos Parlamentares Latino-Americanos. Caracas, 2001)

Muitos outros autores abordam a falta de uma crítica radical e classista à questão ambiental, e como isso tem levado a propostas consensuais entre classes antagônicas em torno do desenvolvimento sustentável. Em artigo publicado pela sociólogas Elizabete Mota e Maria das Graças Silva, as autoras afirmam a importância de se conjugar sustentabilidade ambiental e social, o que é impossível sem superar a luta de classes do capitalismo. Elas ainda alertam que a ideologia do desenvolvimento sustentável:

unifica os interesses dos trabalhadores, dos empresários e do Estado em torno da defesa de uma pretensa sustentabilidade ambiental, social e econômica (Mota e Silva, 2010)”

A posição de governos do Norte implica uma política paternalista e patriarcal na América Latina. Temos o aumento dos debates sobre direitos ambientais que passam a serem regulados por instituições econômicas e políticas, estatais ou privadas. Com o tempo a natureza passa de uma situação de exploração ilimitada nos séculos XIX e XX, para o centro dos esforços mundiais por sustentabilidade no século XXI.

Então nos países do Sul, como no Brasil, cresce uma forte presença de investimentos estrangeiros que influenciam diretamente a legislação ambiental, chegando a sobrepor as leis nacionais. Neste ínterim, temos as prescrições do Banco Mundial, ONU e Organização Mundial do Comércio (OMC) para que países subdesenvolvidos se tornem desenvolvidos, sob a necessária adesão ao capital externo. Assim, a adoção do desenvolvimento sustentável cada vez mais se afasta das críticas ao capitalismo.

A busca pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos na Conferência Rio+20 de 2012 das Nações Unidas se mostra na realidade como uma grande falácia que, ao apresentar um relatório com o termo desenvolvimento sustentável aparecendo mais de 280 vezes, todas as propostas são genéricas e não possuem nenhum compromisso vinculado.

A conceituação, propostas e aplicação do desenvolvimento sustentável ainda se dão num campo liberal da ecologia: a-histórico, sem clareza semântica, que ignora as relações de classe e conflitos socioambientais. A própria crise ambiental costuma ser discutida de forma descontextualizada do avanço do neoliberalismo.

Percebe-se a falta de métodos revolucionários para análise de campos tão complexos e que envolvem diversas Ciências (Naturais, Exatas, Sociais). O materialismo histórico dialético traz um método de análise primoroso para tal debate no campo da ecologia marxista. Aqui, destaco os avanços dos cientistas soviéticos, ao incorporarem o método desenvolvido por Marx e Engels em suas pesquisas, com grandes avanços na climatologia e ecologia2.

Como exemplo da falta de método, é muito comum, quando falamos em luta ambiental, surgirem frases prontas como “vamos desenvolver consciência, pois estamos todos no mesmo barco”. Tais falas ignoram uma análise histórica dos impactos ambientais e o racismo ambiental. Apesar da profundidade das mudanças climáticas colocarem a espécie humana em risco de sobrevivência, os impactos sobre os países do Norte, de climas temperados, tem sido menores. Além deles possuírem maiores capacidades tecnológicas e recursos financeiros para lidar com tais efeitos.

Paradoxalmente, são esses países, com suas práticas de produção neoliberais destrutivas, que mais contribuem com o problema. Os países do Sul, que menos contribuem, mais sofrem, e possuem menos recursos para lidar com as consequências das mudanças climáticas.

Qualquer alternativa à crise deve se pautar na luta contra a extrema desigualdade, entre países do Norte e do Sul, mas também dentro dos próprios países considerados subdesenvolvidos. Os multimilionários são os maiores beneficiários das políticas sobre combustíveis fósseis, além de principais responsáveis por políticas e investimentos que destroem o ecossistema3.

Alternativas ao desenvolvimento podem ocorrer num Estado capitalista? E num Estado socialista?

Tudo mostra que o desenvolvimento proposto ocorre nas bases do imperialismo e da exploração de países do Sul global. Não podemos pensar em modelos de produção que se baseiam no idealismo. Se não há uma proposta real de desenvolvimento que negue as raízes coloniais de exploração – não apenas colocando “sobrenomes” nele buscando desenvolvimentos mais inclusivos -, então este modelo não deve ser apropriado em projetos geopolíticos que se proponham como superação do capitalismo, nem mesmo para momentos de transição socialista.

Entendidas as bases colonialistas e exploradoras do desenvolvimento, é inadmissível pensar num desenvolvimento sustentável. Ao impor a países do Sul global o modelo dos países do Norte como único possível, se copia o consumismo, individualismo e depredação, que já estão causando danos terríveis na ecologia – danos estes sentidos com mais força nos países do Sul.

Mas, quais seriam as alternativas ao desenvolvimento?

Alternativas ao desenvolvimento para a América Latina

Além de infrutíferas, as buscas sem fim pelo desenvolvimento abriram as portas dos países da América Latina ao neoliberalismo nos anos 1980 e 1990, em que o mercado foi visto como propulsor para a famigerada meta. Não é surpresa que isto não deu certo pois, como já disse o militante marxista João Carvalho “O Capitalismo falhou, falha e falhará em cada uma das sociedades aonde ele colocar os seus tentáculos”.

Mas, a partir dos fins de 1990, se vê crescer na América Latina movimentos de contestação ao desenvolvimento, especialmente pelo grande fracasso econômico, que aprofundou as crises sociais e problemas ambientais. Temos então a ascensão de governos progressistas, que não são neoliberais no sentido convencional, mas não chegam a ser de esquerda, segundo Eduardo Gudynas.

O progressismo é um conceito difícil de definir, que representa governos de reação ao neoliberalismo, mas que não podem ser chamados de socialistas. Na prática, tais governos progressistas – inclusive, no Brasil, os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) – tiveram políticas públicas de aprofundamento do desenvolvimento e do extrativismo4, que se agudizaram numa política de exportação de commodities e desincentivo à diversidade de produção.

Mas, como construir as alternativas? Se o próprio processo de desenvolvimento nega as diferentes culturas e cosmovisões, precisamos resgatar essas, recuperando saberes. No Equador, Bolívia e Venezuela temos a incorporação constitucional do Bem Viver como princípio regendo uma perspectiva transformadora de construção plurinacional. Com a ascensão de forças progressistas na América Latina, vários grupos e redes começaram a trabalhar na perspectiva das alternativas ao desenvolvimento, inspirando movimentos similares na África e na Europa. Todos esses movimentos compartilham em comum: construção da autonomia, autogestão, diversidade, colaboração em contraponto à competição capitalista.

Incorpora-se à discussão uma análise a partir do feminismo, essencial para se construir novas relações anti patriarcais, anticapitalistas e contra hegemônicas. Desde os anos 1970, vertentes feministas vem fazendo críticas ao modelo de desenvolvimento. A economista Ester Boserup faz uma crítica a esse modelo econômico pela sua exclusão das mulheres. Ela explica como os programas desenvolvimentistas impostos pelos países do Norte se baseiam na unidade do lar, e no papel atribuído às mulheres de cuidados familiares e domésticos. Tal divisão aniquila as diferentes formas culturais de organização do trabalho espraiando-se para toda a vida social.

A transformação deve se dar em tempo presente, e não em um futuro longínquo pós revolução. Se trata de prefiguração, embora incompleta, da realidade buscada. Imaginar as alternativas necessárias a medida em que se constroem . Temos como exemplo o destaque do protagonismo dos povos indígenas da nesta busca por um modelo pós-capitalista. Em momentos de crise profunda, por sua organização e inserção em movimentos populares, trouxeram propostas originárias e originais, como a do Bem Viver. As relações harmoniosas com a Natureza de povos andinos e da região Amazônica, além de outras regiões da América Latina, mostram organizações sociais, políticas e culturais, com enorme potencial para oferecer respostas aos nossos mais profundos e gritantes problemas gerados pelo Capitalismo.

Os conceitos do Bem Viver tem o potencial de nos ajudar a vislumbrar alternativas ao desenvolvimento e ao progresso. Em questão de América Latina, uma das maiores conquistas no debate do progresso foi concretizar críticas ao extrativismo. Esse tema é importantíssimo para o debate que estamos travando e necessita um posterior momento para ser discutido.

Conclusão

Urge refletir: na construção de um Estado Socialista, queremos nos apropriar de um modelo econômico que gera destruição, desigualdades e adoecimento? O que os socialistas e comunistas têm a ganhar com o desenvolvimento sustentável?

A política hegemônica do desenvolvimento mostra suas garras mais nefastas na conjuntura atual de crise ecológica generalizada, em que mesmo neste contexto ele ainda é inquestionado. É um “vale tudo” global para deixar de ser subdesenvolvido. Para satisfazer as vontades inexoráveis do desenvolvimento se aceita a destruição, submissão e aprofundamento do extrativismo. Paradoxalmente, não importa o quanto se sacrifique por ele, alcançá-lo é cada vez mais impossível. Não se trata apenas de se apropriar dos aparatos estatais, mas também transformá-los profundamente.

Finalizando com as palavras do sociólogo e pesquisador alemão, Wolfgang Sachs:

“Os últimos quarenta anos podem ser denominados como a era do desenvolvimento. Esta época está chegando ao fim. Chegou o momento de escrever seu obituário. Como um majestoso farol que guia os marinheiros à costa, o “desenvolvimento” foi a ideia que orientou as nações emergentes em sua jornada ao longo da história do pós-guerra. Sob democracias ou ditaduras, os países do Sul proclamaram o desenvolvimento como aspiração primária depois de terem sido libertados da subordinação colonial. Quatro décadas mais tarde, governos e cidadãos ainda estão com os olhos fixos nesta luz, que agora cintila tão longe como sempre: todo esforço e todo sacrifício se justificam para alcançar a meta, mas a luz continua distanciando-se na escuridão.” (O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos, p. 53)


Notas

  1. A Conferência de Bandung foi realizada entre os dias 18 e 24 de abril na Indonésia. Reunia países asiáticos e africanos que buscavam acordos entre si para se posicionarem contra as políticas que consideravam neocolonialistas das disputas entre União Soviética e Estados Unidos.
  2. Para saber mais sobre os avanços da ecologia soviética, leia o artigo O terceiro período da ecologia soviética e a crise planetária, de John Belamy Foster
  3. Sobre o aumento da concentração de renda, ver o World Wealth Report 2020. Disponível em <https://worldwealthreport.com/>
  4. Aqui entendemos as políticas extrativistas praticadas por grandes empresas transnacionais, e não o extrativismo primário praticado por populações ligadas às florestas, como o grande ambientalista e revolucionário brasileiro Chico Mendes.

Bibliografia

ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Editora Elefante, 2019.

FOSTER, John Belamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Tradução de Maria Tereza Machado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

______. O terceiro período da ecologia soviética e a crise planetária. Tradução de Letícia Medeiros em Lavra Palavra. 2020

FREITAS, Rosana de Carvalho Martinelli; NELSIS, Camila Magalhães e NUNES, Letícia Soares. A crítica marxista ao desenvolvimento (in)sustentável. Rev. katálysis [online]. 2012, vol.15, n.1, pp.41-51.

LAYRARGUES, P. P. Do ecodesenvolvimento ao desenvolvimento sustentável: evolução de um conceito? Revista Proposta, Rio de Janeiro, v. 24, n. 71, p. 1-5, 1997.

MARX, Karl. O Capital-Livro 1: Crítica da economia política. Livro 1: O processo de produção do capital. Boitempo Editorial, 2015.

______. Manuscritos econômico filosóficos. Boitempo Editorial, 2015.

MÉSZÁROS, I. O desafio do desenvolvimento sustentável e a cultura da igualdade substantiva. Texto lido na conferência da Cúpula dos Parlamentares Latino-Americanos. Caracas, 2001. Tradução de Paulo Maurício. Disponível em: <http://www.meszaros.comoj.com/?q=category/5/94>. Acesso em: 7 abr. 2021.

MORENO, M. Descolonizar o imaginário: debates sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento/Gerhard Dilger, Miriam Lang, Jorge Pereira Filho (Orgs.); traduzido por Igor Ojeda. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2016.

MOTA, Ana Elizabete; SILVA, Maria das Graças. A questão ambiental e o contraditório discurso da sustentabilidade. Praia Vermelha, v. 19, n. 2, 2010.

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