Uma precarização psíquica de magnitude quase inconcebível – Escritos a partir de K-punk de Mark Fisher

 Por Emiliano Exposto[1][2],via Cajanegra Editora, traduzido por Reginaldo Gomes

A infraestrutura desejante do capital estimula forças psíquicas sinistras que ele descarta porque não pode controlar. Os poderes surreais e aterradores do inconsciente são desencadeados e descartados pela mesma maquinaria libidinal capitalista que a desperta, captura e obstrui. Os desejos pós-capitalistas emergem paradoxalmente nas dinâmicas angustiantes e proliferantes do capital que são coaguladas por arcaísmos e tribalismos. Prescindindo do moralismo inibidor, necessitamos re-conjugar os poderes ambíguos dos desejos do consumidor com novos desejos de comunismo total entre objetos humanos e não-humanos. 

     0. As máquinas psíquicas proletárias

A precarização psíquica da classe trabalhadora é um dos sintomas estruturais resultante das crises apocalípticas da sociedade capitalista. Se o trabalhador/presidiário é o personagem dos dispositivos disciplinares e o endividado/viciado a figura dos aparelhos de controle-vigilância, como disse Fisher, talvez tenhamos que investigar o presente em ruínas com a hipótese segundo a qual a psique social precarizada e desigualmente explorada pelo capital define as máquinas psíquicas proletárias neste fim de mundo.

A atroz precarização psíquica no capitalismo tardio é a decantação subjetiva do lento, mas persistente, cancelamento do futuro nas devastadoras condições de trabalho e culturais do neoliberalismo zumbi. A contraface de uma crença angustiante, mas generalizada, de que não haveria alternativa ao suicídio ecocida do monstro abstrato do capital. O capital põe em ação os poderes mágicos, aterradores e fabulosos da psique proletária, obstruindo os vasos comunicantes entre a consciência de classe e a imaginação antagônica. Contra o pano de fundo de uma paisagem angustiante marcada pela gradual erosão da capacidade política para imaginar futuros pós-capitalistas e o declínio da razão estratégica anticapitalista, o realismo capitalista deixa como saldo uma implacável precarização psíquica cuja fenomenologia se expressa em impotência reflexiva, depressão, esgotamento, fragilidade, bruxismo, insônia, estresse, ansiedade. Isso acentua o fato de que o capitalismo ocuparia unanimemente o horizonte do desejável, uma vez que parece mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo; ou que só seria provável imaginar o fim do capitalismo como o fim do planeta.

  1. A noite onírica dos proletários

Se o pessoal é político é porque o pessoal é impessoal, escreve Fisher em Os fantasmas da minha vida [Ghosts of My Life].

Se o psíquico é político é porque o inconsciente é impessoal.

“A precariedade é uma experiência psíquica vivida que fragmenta as possibilidades do futuro”, afirma Benjamin Noys em seu texto “O colapso do realismo capitalista”[3]. O colapso ecológico, cultural e econômico do capital gera um colapso nos corpos proletários: crises psíquicas. A violência psíquica atormenta as máquinas precarizadas, expostas a uma caótica deterioração social de opressões sexistas, racistas, classistas, capacitistas e etárias. O capital estimula poderes sinistros e fascinantes nas máquinas psíquicas empregadas pelo mercado, estigmatizando os fluxos imaginários e libidinais que não se adequam, custe o que custar, ao poder capitalista. A precarização psíquica, contestada em lutas concretas, expressa no fundamental uma solução de compromisso sintomática entre a decomposição da consciência de classe e a proletarização generalizada de setores cada vez mais vastos da população. Porém, esta precarização psíquica alude a um regime político de ordem coletiva em disputa, nunca a uma condição psicológica ou neurológica dos indivíduos.

O nervosismo ansioso é talvez o sinal mais evidente dessa precariedade perturbadora. No entanto, até agora, só os técnicos do partido da propriedade (neoliberais ou progressistas) vem desenvolvendo uma política global de ansiedade, insônia ou tédio.

O período de trabalho já não se alterna com o desemprego, as férias ou com o lazer, mas com a morte. Nessas condições cruéis de flexibilidade laboral, violência nos territórios (policial, sexista, colonial, etc.), ressentimento de classe, frustação política e desastre ecológico, a precariedade psíquica atua como o subsolo obscuro e vulnerável da época.

Essa feroz precarização é a consequência de um projeto estratégico das classes dominantes orientado à decomposição das economias libidinais autônomas e dos imaginários disruptivos das classes proletárias para subordiná-los aos automatismos capitalistas. O objetivo é a confiscação dos potenciais de sonhar alternativas para além do capitalismo. Uma obsolescência programada da imaginação política. Esse desgaste dos dispositivos capazes de fantasiar futuros alternativos é diretamente proporcional a uma precarização desigual e diferencial da psique da classe trabalhadora. Onde a precariedade expressa, portanto, uma tecnologia de governo de crises do capital em que se nada explode tudo implode: implosão das máquinas psíquicas, dos lares, dos pesadelos, dos trabalhos, dos bairros, das organizações políticas, dos ativismos, das emoções, das instituições. Frente a isso, a noite onírica dos proletários tem uma centralidade estratégica na revolução infrapolítica do inconsciente.

  1. O inconsciente como arena da luta de classes

Todo sintoma é político.

Fisher tira a psique social precarizada desse closet que é o divã. A precarização psíquica funciona como um dispositivo desigual de violência, endividamento, extrativismo e exploração que aterrissa de modo diferencial nos corpos proletários de lésbicas, trans, travestis, negras, donas de casa, moradores de bairros populares, trabalhadores da economia popular, migrantes, loucos, camponesas, estudantes, jovens precarizados, crianças.

A atmosfera repugnante do realismo capitalista tem como consequência política uma proletarização psíquica no plano objetivo do processo social cujo reverso é uma desproletarização subjetiva como sinal de um recuo na consciência e na identidade de classe.

Essa precarização é um sinal muito concreto da expropriação generalizada das máquinas psíquicas possuídas pelos espectros capitalistas e seus fantasmas mercantis. Máquinas desprovidas, então, dos meios de produção libidinais e semióticos. Tais mecanismos buscam separar as máquinas psíquicas precarizadas do que podem, cancelando, culpabilizando, impotencializando, patologizando o mal-estar, os anseios ou as fantasias que não querem amoldar-se à máquina de terror farmacoterapêutica do capital. Essa precariedade é um sintoma do realismo capitalista que expressa uma solução de compromisso entre a aceleração intensiva dos processos de exploração do trabalho inconsciente das máquinas psíquicas proletárias e a expansão dos mecanismos de extrativismo psíquico que despojam os corpos de suas riquezas existenciais, potencialidades e conhecimentos.

O capitalismo atomiza e mercantiliza a precariedade psíquica, enquanto as paixões tristes dos progressismos a preenchem de amargura em uma moderação monótona, derrotada e possibilista. Diante disso, uma crítica do capitalismo centrada na denúncia moral do sofrimento psíquico que ele acarreta, mesmo como anticapitalismo gestual, tende a reforçar a dominação do capital. Devemos restituir a dimensão política e social implícita na psique proletária.

O inconsciente é uma arena da luta de classes. É necessário politizar a psique, explorando condições de rejeição e desobediência ao trabalho psíquico empregado pelo capital sem compensação. Fisher nos propõe um programa: uma revolução psíquica e social de magnitude quase inconcebível; uma greve psíquica contra a férrea aceleração dos automatismos do capital.

  1. Politizar o inconsciente

Longe de uma psicologização dos processos sociais, o que buscamos é uma radicalização dos vetores de politização do inconsciente que já estão sendo levados a cabo em diversas práticas, instituições, ativismos e grupos, ultrapassando qualquer profissionalização ao expropriar a propriedade privada e pública sobre a função analítica dos especialistas na psique. Os feminismos populares, as militâncias de dissidência sexual, mental ou corporal, certos setores do precariado, as lutas ambientais e antirracistas, entre outras, poderiam ser compreendidas como processos de transformação psíquica que instituem novas imagens de vida desejáveis contra a normatização neuro-somática dos territórios existenciais.

Porque, não nos enganemos, é assim que vivemos agora. Talvez, um dos momentos do livro que fala mais claramente ao nosso presente seja o segundo capítulo, que trata de um conto de Susan Sontag sobre a epidemia de AIDS: “É assim que vivemos agora”. O conto encena um tempo denso, de um presente ilimitado assolado por crises, e as estratégias improvisadas de adaptação e sobrevivência que seus personagens vão descobrindo e ensinando uns aos outros. “Eles correm uma corrida que consiste em não sair do lugar”, diz Berlant. Assim, à medida que o “caráter corrente das crises” de que fala Berlant se torna cada vez mais palpável, a vigência de seu livro enquanto “guia de instruções para viver no impasse” – como o chama Michael Hardt – não deixa de aumentar.

O capitalismo se vendeu como o único modo realista de governo, moldando os estados de espírito das pessoas, adaptando-as a uma teologia dos negócios onde qualquer mudança radical aparece como dificilmente concebível e vagamente arriscada. O catecismo do trabalho, a privatização do mal-estar e a sedução estatal das expectativas sociais se prolongam na estrutura sentimental da nostalgia cultural, da impotência política e do déficit de historicidade que define a psique do realismo capitalista. Isso tem como objetivo a destruição da solidariedade popular e o descrédito da organização política, difundindo um aroma podre de superioridade de classe, cinismo e conformismo.

Precisamos politizar essa precariedade psíquica como uma plataforma comum para gerar novos mundos. Todos estamos precarizados a nível psíquico. Houve algum momento em que não estivemos? É através de, e apesar de nossa condição precarizada, que podemos coordenar antagonismos contra a catástrofe do capitalismo tardio.

  1. Aceleracionismo libidinal

É possível desejar o fim de um mundo?

A flexibilização, desregulamentação e vulnerabilidade das condições neoliberais de trabalho no capitalismo avançado, contra toda nostalgia fordista (ilusão esquerdista) e anseio keynesiano de gestão da ordem (ilusão progressista), paradoxalmente foi, segundo Fisher, uma consciência não linear dos desejos ambivalentes e das fantasias ambíguas que mobilizaram as classes trabalhadoras e populares nas lutas operárias, anticoloniais e feministas em meados do século passado. O rechaço ao trabalho monótono, ao movimento operário masculinizado, ao salário patriarcal ou a sabotagem da disciplina fabril, foram capitalizados nas condições neoliberais de subcontratação, informalidade, crispação, conexão perpétua, instabilidade e desemprego. Isso afetou a precariedade da psique proletária.

O capitalismo neoliberal, moribundo desde a bancarrota de 2008, em sua fase de utopismo febril havia logrado captar o descontentamento das massas com as burocracias assimilando os desejos de autonomia dos anos sessenta que as esquerdas não conseguiram metabolizar. Entretanto, os estranhos poderes psíquicos que o capital abre tendem a exceder o comando do mercado. Na atmosfera neofascista do neoliberalismo atual, os limites entre trabalho, capitalismo e psique se tornam permeáveis, móveis, indistinguíveis até mesmo no nível do desejo. As antinomias colossais do neoliberalismo estimulam desejos e reprimem os prazeres inadequados. As redes sociais, os aplicativos digitais, o e-mail, as demandas incessantes do mercado, destituem a geometria do lugar de trabalho e espalham o tempo de trabalho. Você começa a trabalhar desde o momento que acorda, e tem que faze-lo até o horário de dormir, ou melhor ainda, segue trabalhando mesmo durante o sono. O capital se expressa também como aparelho onírico.

O capitalismo fornece objetos de desejo nunca estabilizados e medeia todas as experiências sociais graças ao dinheiro. Desencadeia desejos sempre-já parasitados por tecnologias capitalistas de subjetivação, ainda que o mercado só possa satisfazê-los de maneira momentânea, programando um software desejante cujos excessos fascinantes devem ser disputados através do desenho de uma política cultural de esquerda que leve os fluxos libidinais, imaginários e semióticos que o capitalismo descodifica e bloqueia além do limite da anarquitetura mercantil.

“Devemos prestar atenção à plasticidade do desejo. Freud diz que as pulsões libidinais são extraordinariamente plásticas. Se o desejo não é uma essência biológica fixa, então não há um desejo natural pelo capitalismo. O desejo é sempre uma construção. Os anunciantes, os publicitários e os consultores de relações públicas sempre souberam disso, e a luta contra o neoliberalismo exigirá que construamos um modelo de desejo alternativo que possa competir com esse que é impulsionado pelos técnicos libidinais do capital”, diz Fisher em “Como matar um zumbi: elaborando estratégias para o fim do neoliberalismo”[4]. Tornou-se um fato mais ou menos comum enfatizar o ambiente patógeno de Realismo capitalista apelando a hauntologia [hauntology] de Os fantasmas da minha vida, embora talvez seja mais promissor responder ao “lento cancelamento do futuro” explorando um aceleracionismo libidinal de esquerda interrogando as formas pós-capitalistas de desejo.

O desejo não é uma energia libertadora per se que se opõe desde o início aos dispositivos domesticadores e manipuladores do capitalismo. O desejo é um campo de forças em conflito, exprimido pelo poder capitalista que põe a libido para funcionar. O capital enlouquece as dinâmicas sociais transformando e plurificando espantosas riquezas psíquicas que também corroem sob as cegas compulsões de uma economia para o lucro e a acumulação. O capitalismo, observa Fisher retomando Deleuze e Guattari no texto “Desejo pós-capitalita” [Deseo postcapitalista] (Caja Negra, 2017), desterritorializa e reterritorializa ao mesmo tempo. Pois não há um processo abstrato de decodificação multivalente de fluxos psíquicos que não implique um processo oposto de recodificação através da edipianização, a neurotização individualista ou a mercantilização. No entanto, temos que disputar, reapropriar e refuncionalizar as economias libidinais que o capital, com suas tecnologias ambivalentes e consumos ambíguos gera, captura e alimenta, mas que só pode satisfazer de modo provisório e parcial. A questão é como redirecionar o material psíquico excedente que o capital estimula. Para combater nossa inserção pulsional no moedor de carne do capital não podemos responder com uma “deslibidinização depressiva” ou com uma postura defensiva de “anarco-hippie primitivo”, mas com uma contra-libido que parta das possibilidades da psicotecnologia capitalista.

A infraestrutura desejante do capital estimula forças psíquicas sinistras que ele descarta porque não pode controlar. Os poderes surreais e aterradores do inconsciente são desencadeados e descartados pela mesma maquinaria libidinal capitalista que a desperta, captura e obstrui. Os desejos pós-capitalistas emergem paradoxalmente nas dinâmicas angustiantes e proliferantes do capital que são coaguladas por arcaísmos e tribalismos. Prescindindo do moralismo inibidor, necessitamos re-conjugar os poderes ambíguos dos desejos do consumidor com novos desejos de comunismo total entre objetos humanos e não-humanos.

Ninguém sabe o que um desejo algorítmico pode fazer!

  1. Estágio superior do realismo capitalista

O realismo capitalista expande a fronteira psíquica de maneira cada vez mais agressiva, irresponsável e desafiadora. Segundo Fisher, as únicas certezas parecem ser a morte e o capital.

O estágio superior do realismo capitalista é aquele em que tende a difundir-se o imaginário social generalizado segundo o qual o capitalismo se torna um caos apocalíptico e desastroso, onde não há nenhuma alternativa possível à extinção do capital. O próprio capital para conjurar suas crises técno-cósmicas torna-se extraterrestre, intergaláctico. As derrotas dos projetos revolucionários no século passado e a consequente instalação do inconsciente neoliberal em quase todos os nervos do cérebro social têm efeitos imediatos em todos os imaginários proletários constrangidos a se ajustar às exigências do mercado respeitando o teto de uma democracia da derrota, castrada de qualquer fantasia radical e disruptiva.

O atual estado zumbi do neoliberalismo, com sua ontologia empresarial e seu individualismo meritocrático, envolve uma nova era mais desoladora e exasperante de realismo capitalista como contraface da crise de alternativas políticas radicais. Hoje é mais fácil fabular com uma invasão alienígena ou imaginar um capitalismo supraplanetário que expanda o mundo da mercadoria depois do fim do planeta Terra do que se comprometer em uma intransigente alucinação pós-capitalista. Um mundo-sem-humanos ou alguns humanos-sem-mundo, como Amador Fernández-Savater indicou. O que acaba nos persuadindo ainda mais de que a abolição e a superação emancipatória do capital são praticamente impossíveis, indesejáveis, perigosas ou onerosas demais. Razão pela qual as máquinas psíquicas são seduzidas a adotar uma atitude de resignação, politicamente correto, derrotismo e hedonismo.

  1. Revolucionemos a inconsciência de classe!

O antagonismo de classe não é jogado hoje apenas no “exterior” das correlações de forças perceptíveis e dos inimigos identificáveis como grandes grupos sociais. O antagonismo de classe também é jogado na psique conflituosa da classe trabalhadora, que metaboliza os desejos ambíguos de integração, ruptura, conformismo ou radicalidade, diz Fisher, questionando a ciclotimia emocional em “Transtornos bipolares e capitalismo”. O problema da psique deve ser lido à luz da luta de classes, e menos no quadro das oscilações da realpolitik ou das contingências daquelas trajetórias individuais e coletivas que não questionam as regras do jogo. Luta de classes inconsciente.

A classicização [clasistización] da psique é inseparável da sexualização e da racialização desigual das máquinas inconscientes empregadas sem remuneração pelo capital. Temos que tirar do caminho a crítica autocomplacente do neoliberalismo, objeto sublime da sensibilidade populista, para olhar de frente o verdadeiro demônio do apocalipse em curso: o capital.

A comoditização ou narcotização da inconsciência de classe é diretamente proporcional a sua despolitização. Precisamos reverter a privatização da psique e repolitizar o inconsciente. E para isso devemos ter em conta a plasticidade ambivalente da psique. A psique não é antropologicamente capitalista por natureza. Em vez disso, é uma construção histórica com desvios, conflitos, anomalias e conexões contingentes. Um campo de forças opacas cujas tensões são múltiplas, negociáveis, abertas. Os técnicos culturais do capital sempre souberam disso. Mas cabe a nós assumir o desafio.

Nesta conjuntura de ofensiva da pulsão de morte do capital, as empresas farmacêuticas de neuromarketing, os tratamentos new age (coaching ontológico, autoajuda) e quase todos os “agentes psi” altamente especializados do capital terapeutizado nos levam à uma narrativa espiritual ou narcótica de autoaperfeiçoamento Zen do desastre, fingindo deste modo pseudodemocratizar a dor. Eles nos convidam a elaborar a sensação de insegurança e desproteção, o colapso subjetivo, a desmoralização social, o fatalismo despótico, a desigualdade angustiante e a frustração sanitarista por meio da privatização, da infantilização, da responsabilização e da estigmatização antipolítica do sofrimento de classe que nos aflige nestas crises. Se faz necessária uma política anticapitalista do inconsciente num sentido militante, questionando as relações de classe, gênero ou raça que constituem nossos mal-estares a ponto de transformar aquilo que é vivido como o mais individual (ansiedades, feridas, manias, angústias, até o suicídio) em um problema coletivo. A redução dos transtornos e patologias às combinatórias químicas, segredos familiares sórdidos, composições neuronais, estruturas linguísticas ou meramente sociológicas não pode andar de mãos dadas com outra coisa que não a desmobilização política.

Se nossa psique foi capitalizada, revolucionemos a inconsciência de classe!

  1. A máquina terapêutica do capital

As pessoas psicologicamente esmagadas pelo capitalismo, farmacologizadas por gangsters terapêuticos da “saúde mental”, são um aborrecimento para o avanço brutal do capital. Este último não nos quer como depressivos catatônicos, dado que precisa de máquinas psíquicas abatidas, mas sem a confiança suficiente para reivindicar um trabalho melhor, desesperadas, mas sem ódio de classe suficiente para deixar de fazer listas de emergência e suportar humilhações numa multitarefa existencial de autopromoção virtual, nervosismo, apatia, ressentimento contido, produtivismo obsessivo ou melancolia depressiva. E tudo isso não pode ser tratado com mecanismos de adaptação ou integração.

A máquina de terror terapêutico do capital é um dos dispositivos mais eficazes de controle da precariedade quando se trata de esgotar a psique com comandos imperativos e exigências. O mesmo tem como objetivo saquear a vontade de transformação radical, já que funciona gerando medo emocional, culpas, regulações afetivas e transtornos mentais cuja terapêutica consiste em nos força a apenas querer que o mal-estar não continue piorando.

O imaginário terapêutico, dissecado por Fisher em textos como “Anti-terapia” ou “Por que a saúde mental é um problema político?”, busca converter os efeitos patógenos e sintomas sociais em problemas pessoais que podem ser tratados com antidepressivos, automedicação, espiritualismo, psicologia, psicanálise. Esta maquinaria constitui subjetividades concretas e gerentes terapêuticos encarregados de reparar ou tapar vazamentos psíquicos quando algo falha nos automatismos capitalistas. Segundo Fisher, uma das antinomias deste devir-terapêutico do governo capitalista é que embora democratize e popularize as questões relativas ao problema da “saúde mental”, ao mesmo tempo profissionaliza, estatiza e medicaliza as respostas a estes problemas individualizando o descontentamento, interiorizando o sofrimento de classe e desviando o ressentimento popular para os próprios oprimidos.

O capitalismo adoece as máquinas psíquicas da classe trabalhadora, e as indústrias farmacêuticas os conectam às pílulas da felicidade em conexão com um imaginário terapêutico de estoicismo heroico, voluntarismo mágico, autoaperfeiçoamento e neomisticismo new age. Tudo isso tenta colonizar a psique social submetendo 24/7 das vidas proletárias às exigências de desempenho, sucesso, otimismo cruel e moções de congratulação. Os mal-estares psíquicos desiguais que o capital produz são impossíveis de “reformar” dentro destas condições inabitáveis. A aporia da saúde mental, segundo as antinomias terapêuticas examinadas por Fisher, não pode ser resolvida dentro do sistema capitalista e condena os reformistas, possibilistas e oportunistas ao fracasso político anunciado.

  1. As crises como ponto de vista das lutas

Como fazer destas crises uma premissa para politizar a inconsciência de classe do ponto de vista de lutas concretas? Podem estes colapsos em curso ser a oportunidade do nosso 2001? Como evitar uma normalização capitalista e pós-traumática da catástrofe?

As crises da ordem capitalista explodem em choques mentais, os espasmos, os cataclismos e colapsos das máquinas psíquicas precarizadas, que ultrapassam os limites da obsessão produtivista, da psicose infoexpressiva, da paranoia higienista, do pânico securitista. Mas as crises, como argumenta Diego Sztulwark em seu livro La ofensiva sensible (Caja Negra, 2019), conformam um ponto de vista contra a “normalização”, mais do que um objeto de análise, uma vez que nas e a partir das crises é possível politizar as formações da psique social.

A precarização psíquica é a epidemia antes da pandemia. O pano de fundo da interrupção e do isolamento não tem como contrário uma detenção ou suspensão subjetiva, mas é montado sobre uma dinâmica psíquica implodida. Nestas crises psíquicas, a violência contida nos corpos proletários submersos na precariedade irrompe em: ódio, resfriamento afetivo, feminicídio, criminalização, drama, terror emocional, etc.

Se concebermos as crises desde o ponto de vista do capital, estas se apresentam como uma maneira de criar condições de governabilidade para recompor a taxa de lucro. Mas se entendermos as crises desde o ponto de vista das lutas, estas podem ser experimentadas como um momento onde há práticas, fantasias, improvisações, economias libidinais e sociais que tendem a se autonomizar do automatismo da subsunção capitalista, resistindo ao comando do capital em territórios concretos. Estas crises são uma premissa para imaginar novos futuros possíveis desde a perspectiva das lutas em curso.

  1. Disputar os delírios

Não há economia capitalista sem luta de classes, sem linguagem, sem libido, sem alucinações, sem sintomas, sem delírio. O trabalho assalta fins de semana, viagens, vínculos afetivos, entretenimentos. O capitalismo persegue as máquinas psíquicas proletárias até mesmo nos sonhos. Fisher definiu seu realismo capitalista como um tipo de trabalho onírico que explora nossa energia psíquica. E enquanto vivemos e morremos lutando contra o comando mercantil, o vampirismo hiperabstrato do capital não seria nada sem esta cooperação onírica das máquinas psíquicas oscilantes entre a insônia, sonhos rebeldes e pesadelos. Em uma conjuntura insuportável de psicodeflação, exaustão, torpor insano e inflação informacional, onde parece que só o capitalismo pode sonhar e nós não, é necessária uma estratégia de politização dos aparelhos oníricos utilizados pelo mercado.

Hoje, mais do que nunca, os delírios, as alucinações, os sonhos, as fantasias, se apresentam como dispositivos políticos em disputa. A ideologia capitalista decadente desemboca em um devir neorreacionário. Os delírios neofascistas da direita fazem um sistema a partir das desilusões progressistas. Estes delírios neofascistas, que captam até energias insubmissas das juventudes e outros setores sociais, não podem ser combatidos com as paixões tristes dos progressismos ou com a imaginação política deslibidinizada da esquerda tradicional. É necessário dar uma batalha alucinada, mas crível, aos excessos da direita.

Fisher problematiza os aparelhos capitalistas de expropriação da vida onírica. A noite dos proletários continua a ser aquele lugar mítico e ao mesmo tempo muito real de resistência plebeia e invenção de elementos de inteligência coletiva? Será que as máquinas psíquicas sonham com ecossocialismos oníricos e androides pós-patriarcais? Como imaginar modos de greve psíquica ou de rejeição do trabalho inconsciente em que nossos desejos futuros explorem a própria possibilidade de fantasiar sobre algum futuro? Uma formação desejante de seres anticapitalistas educados em um novo imaginário antagônico: as alucinações pós-capitalistas como única alternativa ao pesadelo generalizado da extinção capitalista.

[1] Emiliano Exposto é pesquisador, professor de filosofia e militante. Atualmente é doutorando com bolsa pela Conicet. É membro da Cátedra Abierta “Félix Guattari” da Universidad de los trabajadores (IMPA) e da Cátedra “Construcción histórica de la subjetividad moderna” (ex León Rozitchner) da Facultad de Ciencias Sociales (UBA). É autor dos livros “El goce del capital. Crítica del valor y psicoanálisis” (Marat), “Manifiestos para un análisis militante del inconsciente” (Red Editorial), e “Las máquinas psíquicas y otras fascinaciones capitalistas” (no prelo).

[2] O título original deste texto é “Una precarización psíquica de magnitud casi inconcebible.  Escrituras a partir de K-punk 2 de Mark Fisher”. O autor do texto escreve a partir do volume 2 da edição em espanhol do livro K-punk. Volumen 2 – Escritos reunidos e inéditos (Música y política) de Mark Fisher, publicada pela Caja Negra, em uma edição que possui 3 volumes. – Nota do tradutor.

[3] Estamos traduzindo este texto. – Nota do tradutor.

[4] Este texto possui tradução para o português, veja: Como matar um zumbi: elaborando estratégias para o fim do neoliberalismo. In: FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020, p.142-152. Esta citação pode ser encontrada na página 151 da referida edição. – Nota do tradutor.

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1 comentário em “Uma precarização psíquica de magnitude quase inconcebível – Escritos a partir de K-punk de Mark Fisher”

  1. Estava precisando desse texto… eu e minha companheira somos jovens trabalhadores, vivemos na pele esses fatores desejantes e o sequestro do nosso inconsciente. A um tempo estamos começando a conseguir enxergar essa loucura psíquica do capital. Obrigado pelo acesso a Mark Fisher

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