Possibilismo e oportunismo, por Rosa Luxemburgo

Por Rosa Luxemburgo, via LavraPalavra, traduzido por Gabriel Landi Fazzio.

Publicado no nº 227 da Sächsische Arbeiterzeitung (“Gazeta operária da Saxônia”), em 30 de setembro de 1898. Parte do livro A outra Rosa.

Como se sabe, o camarada Heine escreveu uma brochura para o congresso do partido intitulada Votar ou não votar?, [1] na qual ele defende nossa participação nas eleições para o parlamento prussiano. Não é o assunto principal deste documento que nos leva a fazer algumas observações, mas sim duas palavras que ele deixou escapar no decorrer de sua argumentação e às quais, em decorrência dos eventos notórios que têm acontecido recentemente no partido, reagimos com particular sensibilidade. Os termos são: possibilismo [2] e oportunismo. Heine acredita que toda a aversão do partido a estas tendências baseia-se em um mal-entendido acerca do verdadeiro significado linguístico destas palavras estrangeiras. Ah! O camarada Heine, como Fausto, estudou jurisprudência com dedicado empenho, mas infelizmente, diferentemente de Fausto, não estudou, com o mesmo esforço ardente, muito mais que isso. E, no genuíno espírito de um pensamento jurídico, ele diz a si mesmo: no princípio era a Palavra. [3] Se quiséssemos saber se o possibilismo e o oportunismo podem prejudicar ou beneficiar a social-democracia, basta consultar o dicionário de palavras estrangeiras e a questão estará respondida em cinco minutos. O dicionário estrangeiro nos informa que o possibilismo é “uma política que busca aquilo que é possível sob determinadas circunstâncias”, e Heine então exclama: “de fato, eu pergunto a todas as pessoas sensatas: uma política deveria tentar alcançar o que é impossível sob determinadas circunstâncias dadas?” [4] Como pessoas sensatas, respondemos que, claro, se a solução de questões de política e tática fosse tão simples, os lexicógrafos seriam os estadistas mais sábios, em vez de proferir discursos social-democratas, nós deveríamos começar a promover cursos populares sobre linguística.

Certamente, nossa política deve e pode apenas se esforçar por aquilo que seja possível sob determinadas circunstâncias. Mas isso não responde, de forma alguma, como e de que maneira devemos lutar pelo possível. Esse, contudo, é o ponto crucial.

A questão fundamental do movimento socialista sempre foi como reconciliar sua atividade prática imediata com seu objetivo final. As várias “escolas” e tendências do socialismo diferem umas das outras de acordo com suas diversas soluções para este problema. E a social-democracia é precisamente o primeiro partido socialista que entendeu como harmonizar seu objetivo final revolucionário com sua atividade prática do dia a dia e, desta forma, tem sido capaz de atrair para a luta grandes massas. Qual então é esta solução particularmente harmoniosa? Em poucas palavras e em termos gerais: [a solução consiste em] moldar a luta prática de acordo com os princípios gerais do programa do partido. “Todos nós sabemos isso de cor!”, eles nos replicam, com tanta esperteza quanto antes. Mas não acreditamos que este princípio, com toda sua generalidade, constitua um guia muito palpável para nossa atividade. Permita-me ilustrá-lo brevemente por meio de duas questões atuais da vida do partido – o militarismo e a política aduaneira.

Em princípio – como todos que estão familiarizados com nosso programa sabem – nós somos contra todo militarismo e toda política protecionista. Disso decorre que nossos representantes no Reichstag devem responder a todos os debates em torno de projetos de lei sobre estas questões importantes com um abrupto e brusco não? De forma alguma, pois esta seria uma atitude própria de uma pequena seita, e não de um grande partido popular. Nossos representantes devem responder a cada petição, considerar suas razões, julgar e argumentar a partir das determinadas circunstâncias concretas da situação econômica e política atual, e não a partir de um princípio abstrato e sem vida. Mas o resultado deve ser e será – se nós tivermos avaliado corretamente a situação atual e os interesses populares – um não. Nossa palavra de ordem é: nenhum homem e nenhum centavo para este sistema! Mas, dada a ordem social presente, não pode haver nenhum sistema senão este sistema. Cada vez que as tarifas aduaneiras são aumentadas, dizemos: não vemos razão para concordar com a tarifa nesta situação determinada, mas, para nós, não pode existir uma situação na qual cheguemos a uma conclusão diferente. Só assim nossa luta prática pode se desenvolver naquilo que deve ser: a realização de nossos princípios fundamentais no processo da vida social e a incorporação de nossos princípios gerais no trabalho prático diário.

Somente sob estas condições lutaremos da única maneira permissível pelo que é “possível” a qualquer momento. Mas se alguém diz: “deveríamos trocar nosso consentimento às medidas de política militar e tarifária pela concessão de reformas políticas ou sociais” – então este alguém sacrifica os princípios da luta de classes em nome de sucessos momentâneos, firmando-se, então, no terreno do oportunismo. Aliás, o oportunismo é um jogo político no qual saímos perdendo duas vezes: não só os princípios, mas também o sucesso prático. A suposição de que alguém pode alcançar o maior número de sucessos fazendo concessões se baseia em um equívoco completo. Também aqui, como em todas as grandes questões, as pessoas mais astutas não são as mais inteligentes. Bismarck disse, certa vez, a um partido burguês de oposição: “vocês tornam impossível para si mesmos qualquer influência prática, se sempre e desde o início vêm com um não”. O velho, como tantas vezes, era mais inteligente que seus Pappenheimers. [5] De fato, um partido burguês, isto é, um partido que diz sim à ordem vigente como um todo, mas que diz não às consequências cotidianas desta ordem, é um híbrido, uma quimera que não é nem carne, nem peixe. [6] Para nós, que nos opomos à ordem vigente como um todo, as coisas são bem diferentes. Toda nossa força está no não, na nossa atitude irreconciliável. É essa atitude que nos faz ganhar o medo e o respeito dos nossos inimigos, e a confiança e o apoio do povo.

É apenas porque nós não concedemos nem um centímetro de nossa posição que nós forçamos o governo e os partidos burgueses a nos conceder o pouco que pode ser alcançado em termos de sucesso imediato. Mas se nós começarmos a perseguir o que é “possível” de acordo com o oportunismo, sem nos preocupar com nossos próprios princípios e por meio das negociatas, como fazem os estadistas, então logo nos encontraremos na posição do caçador que não só falhou em matar a caça, mas também perdeu sua espingarda no processo.

Não são as palavras estrangeiras (oportunismo, possibilismo) que tememos, como pensa Heine: o que tememos é a germanização destes termos em nossa prática partidária. Que estas permaneçam, para nós, palavras estrangeiras. E que, havendo ocasião, que nossos camaradas evitem desempenhar o papel de intérpretes.

Não deixe de ver também o livro A outra Rosa.


[1] N.E. Wolfgang Heine, Votar ou não votar? Uma palavra sobre a questão da participação dos social-democratas nas eleições estaduais da Prússia, Berlim, 1898.

[2] N.E. Algumas edições traduzem o termo Possibilismus, utilizado por Rosa, como “a arte do possível”.

[3] N.E. Em alemão, Im Anfang war das Wort. Frase inicial do Evangelho segundo João, traduzido erroneamente, por vezes, como: “No princípio era o Verbo”.

[4] N.E. Ibidem, p. 22.

[5] N.E. Gottfried Heinrich Graf zu Pappenheim (1594-1632) foi um marechal do Sacro Império Romano durante a Guerra dos Trinta Anos. Seu nome originou a expressão ich kenne meine Pappenheimer (“eu conheço meus Pappenheimer”, “eu sei o que esperar desse lote”). Originalmente, a expressão tinha conotação positiva, em referência à determinação da cavalaria comandada por Pappenheim. Friedrich Schiller utilizou uma versão modificada da sentença em sua trilogia Wallenstein: Daran erkenn’ ich meine Pappenheimer (“é assim que conheço meus Pappenheimers”).

[6] N.E. A expressão foi extraída da obra de Heinrich Heine Alemanha. Uma história de inverno (Deutschland. Ein Wintermärchen), capítulo XVII.

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