Aonde leva a política de conciliação adornada com frases marxistas?

Por Vladímir Ilitch Lênin, via marxists.org

Excerto de “O oportunismo e a falência da II Internacional”, de janeiro de 1916, sobre os marxismos puramente ornamentais.

[…]

O social-chauvinismo é o oportunismo acabado. Ele amadureceu para uma aliança aberta, frequentemente vulgar, com a burguesia e os estados-maiores. E é precisamente essa aliança que lhe dá uma grande força e o monopólio da imprensa legal e da mistificação das massas. E absurdo considerar ainda hoje o oportunismo como um fenômeno interno do partido. É absurdo pensar em aplicar a resolução de Basileia em conjunto com David, Legien, Hyndman, Plekhánov e Webb. A unidade com os sociais-chauvinistas é a unidade com a sua “própria” burguesia nacional, que explora outras nações, é a cisão do proletariado internacional. Isso não significa que a ruptura com os oportunistas é imediatamente possível em toda a parte, significa apenas que ela amadureceu historicamente, que ela é necessária e inevitável para a luta revolucionária do proletariado, que a história, que conduziu do capitalismo “pacífico” ao capitalismo imperialista, preparou essa ruptura. Volentem ducunt fata, nolentem trahunt. [O destino conduz aquele que consente, arrasta aquele que resiste.]

Os representantes inteligentes da burguesia compreenderam-no muito bem. Por isso elogiam tanto os atuais partidos socialistas, à frente dos quais se encontramos “defensores da pátria”, isto é, os defensores da pilhagem imperialista. E por isso que os governos gratificam os chefes social-chauvinistas ora com postos ministeriais (em França e Inglaterra) ora com o monopólio da existência legal sem obstáculos (na Alemanha e na Rússia). É por isso que na Alemanha, onde o partido social-democrata era o mais forte e onde a sua transformação em partido operário nacional-liberal contrarrevolucionário foi mais evidente, as coisas chegaram a tal ponto que o ministério público vê na luta entre a “minoria” e a “maioria” uma “incitação ao ódio de classe”! Por isso os oportunistas inteligentes se preocupam acima de tudo com a preservação da anterior “unidade” dos velhos partidos, que prestaram tão grandes serviços à burguesia em 1914-1915. Um dos membros da social-democracia alemã, que publicou em Abril de 1915, sob o pseudônimo de Monitor, um artigo na revista reacionária Preussische Jahrbucher, exprime com uma franqueza digna de agradecimento as concepções desses oportunistas em todos os países do mundo. Monitor considera que para a burguesia seria muito perigoso que a social-democracia se deslocasse ainda mais para a direita: “Ela deve manter o caráter de partido operário com ideais socialistas. Porque no dia em que ela renunciar a isso, surgirá um novo partido, que adotará o programa rejeitado pelo velho partido anterior e lhe dará uma formulação ainda mais radical” (Preussische Jahrbucher, 1915, n. 4, p. 50-5 1).

Monitor acertou em cheio. Os liberais ingleses e os radicais franceses sempre quiseram precisamente isso: frases de ressonância revolucionária, para enganar as massas, para que estas tenham confiança em Lloyd George, Sembat, Renaudel, Legien e Kautsky, em homens capazes de pregar a “defesa da pátria” na guerra de rapina.

Mas Monitor representa apenas uma das variedades do oportunismo: aberta, grosseira, cínica. As outras atuam dissimuladamente, subtilmente, “honestamente”. Engels disse uma vez: os oportunistas “honestos” são os mais perigosos para a classe operária… [1] Eis um exemplo:

Kautsky escreve na Neue Zeit (de 26 de Novembro de 1915):

“Cresce a oposição contra a maioria; o espírito das massas é de oposição.” “Depois da guerra (só depois da guerra? N. L.) as contradições de classe agudizar-se-ão de tal modo que o radicalismo entre as massas se imporá.” “Depois da guerra (só depois da guerra? N. L.) arriscamo-nos a que os elementos radicais fujam do partido e refluam para um partido de ações de massas antiparlamentares (entenda-se: extraparlamentares).” “Assim, o nosso partido decompõe-se em dois campos extremos, que nada têm de comum entre si.” A fim de salvar a unidade, Kautsky procura convencer a maioria no Reichstag a autorizar a minoria a pronunciar alguns discursos parlamentares radicais. Isto significa que Kautsky quer, por meio de alguns discursos parlamentares radicais, reconciliar as massas revolucionárias com os oportunistas, que “nada têm de comum” com a revolução, que já há muito dirigem os sindicatos e que agora, apoiando-se na sua estreita aliança com a burguesia e com o governo, se apoderaram também da direção do partido.

Em que é que isto difere, no fundo, do “programa” de Monitor? Em nada a não ser nas frases melosas que prostituem o marxismo.

Na reunião da fração do Reichstag de 18 de Março de 1915, o kautskista Wurm “preveniu” a fração para não “esticar demasiado a corda; nas massas operárias cresce a oposição contra a maioria da fração; é necessário manter-se no centro marxista” (?! sem dúvida uma gralha: deve ler-se “monitoria”) (Klassenkampf gegen den Krieg! Material zum “Fali Liebknecht”. Ais Manuskript gedruckt [2], p. 67). Deste modo, vemos que o fato de que as massas são revolucionárias foi reconhecido em nome de todos os kautskistas (o chamado “centro”) já em Março de 1915!! E oito meses e meio mais tarde Kautsky de novo apresenta a proposta de “reconciliar” as massas, que querem lutar, com o partido oportunista, contra-revolucionário, e isto com a ajuda de algumas frases de sonoridade revolucionária!!

A guerra tem muitas vezes a utilidade de pôr a nu a podridão e rejeitar o convencionalismo.

Comparemos os fabianos ingleses com os kautskistas alemães. Eis o que escrevia acerca dos primeiros um verdadeiro marxista, Friedrich Engels, em 18 de Janeiro de 1893: “… um bando de ambiciosos que têm entendimento suficiente para verem a inevitabilidade do revolucionamento social, mas para quem é, no entanto, impossível confiar este trabalho gigantesco ao proletariado imaturo… medo da revolução é o seu princípio fundamental…” (Correspondência com Sorge, p. 390).

E em 11 de Novembro de 1893 escreve: ….. estes burgueses enfatuados que querem por benevolência condescender em libertar o proletariado de cima para baixo, desde que este queira ser tão inteligente para assim compreender que uma massa bruta inculta não pode libertar-se a si própria e não chega a nada a não ser pela benevolência desses advogados, literatos, atemorizados e destas comadres sentimentais…” (ibidem, p. 401).

Em teoria Kautsky olha os fabianos com desprezo, como o fariseu o pobre publicano. Porque ele jura pelo “marxismo”. Mas qual é na prática a diferença entre eles? Assinaram ambos o manifesto de Basileia e atuaram ambos em relação a ele como Guilherme II em relação à neutralidade belga. Enquanto Marx durante toda a sua vida fustigou as pessoas que procuram abafar o espírito revolucionário dos operários.

[…]

Tal como em 1912, [o kautskista russo Piotr] Axelrod está disposto, em nome de um futuro muito, muito distante, a proferir as frases mais revolucionárias, se a futura Internacional “atuar (contra os governos, em caso de guerra) e levantar uma tempestade revolucionária”. Vejam lá como nós somos corajosos! Mas quando se trata de apoiar e desenvolver agora a efervescência revolucionária que começa entre as massas, então Axelrod responde que essa tática das ações revolucionárias de massas “ainda teria alguma justificação se estivéssemos imediatamente em vésperas de uma revolução social, como aconteceu, por exemplo, na Rússia, onde as manifestações estudantis de 1901 anunciavam a aproximação de batalhas decisivas contra o absolutismo”. Mas no presente momento tudo isso é uma “utopia”, “bakuninismo”, etc., inteiramente no espírito de Kolb, David, Sudekum e Legien.

O inefável Axelrod esquece simplesmente que em 1901 na Rússia ninguém sabia nem podia saber que a primeira “batalha decisiva” teria lugar quatro anos mais tarde – não esqueça: quatro anos mais tarde – e não seria “decisiva”. E no entanto só nós, marxistas revolucionários, tínhamos razão nessa altura: nós ridicularizámos os Kritchevski e os Martinov, que apelavam imediatamente ao assalto. Nós apenas aconselhávamos os operários a expulsarem por toda a parte os oportunistas e a apoiar, intensificar e alargar com todas as suas forças as manifestações e outras ações revolucionárias de massas. A situação atual na Europa é perfeitamente análoga: seria insensato apelar ao assalto “imediato”. Mas seria vergonhoso intitular-se social-democrata e não aconselhar os operários a romper com os oportunistas e consolidar, aprofundar, alargar e intensificar com todas as suas forças o movimento revolucionário e as manifestações que se iniciam. A revolução nunca cai do céu já pronta, e no início da efervescência revolucionária nunca ninguém sabe se esta conduzirá e quando a uma revolução “verdadeira”, “autêntica”. Kautsky e Axelrod dão aos operários conselhos velhos, gastos, contra-revolucionários. Kautsky e Axelrod alimentam as massas com a esperança de que a futura Internacional será já certamente revolucionária – trata-se apenas de presentemente proteger, encobrir e embelezar a dominação dos elementos contra-revolucionários: os Legien, os David, os Vandervelde, os Hyndman. Pois não é evidente que a “unidade” com Legien e C.a constitui o melhor meio de preparar a “futura” Internacional revolucionária?

“A aspiração de transformar a guerra mundial em guerra civil seria uma loucura”, declara o líder dos oportunistas alemães, David (Die Sozialdemokratie und der Weltkrieg – A Social-Democracia e a Guerra Mundial, 1915, p. 172), respondendo ao manifesto do Comitê Central do nosso partido de 1 de Novembro de 1914 [3]. Nesse manifesto diz-se, entre outras coisas:

“Por maiores que pareçam as dificuldades dessa transformação num ou noutro momento, os socialistas nunca renunciarão a um trabalho preparatório sistemático, perseverante, constante nesse sentido, desde que a guerra se tornou um fato.”

[…]

Basta de frases, basta de “marxismo” prostituído à la Kautsky! Depois de 25 anos de existência da II Internacional, depois do manifesto de Basileia, os operários não acreditarão mais em frases. O oportunismo mais do que amadureceu, passou definitivamente para o campo da burguesia, transformando-se em social-chauvinismo: ele rompeu espiritual e politicamente com a social-democracia. Romperá com ela também organizativamente. Os operários reclamam já uma imprensa “sem censura” e reuniões “não autorizadas”, isto é, organizações clandestinas para apoiar o movimento revolucionário das massas. Só uma tal “guerra à guerra” é uma causa social-democrata e não uma frase. E a despeito de todas as dificuldades, das derrotas temporárias, dos erros, dos enganos, das, essa causa levará a humanidade à revolução proletária vitoriosa.

Notas:

[1] F. Engels, Para a Crítica do Projeto de Programa Social-Democrata de 1891.

[2] Luta de Classe contra a Guerra! Materiais para o “Caso Liebknecht”. Publicado como Manuscrito.

[3] Em 1º de Novembro d 1914 foi publicado no jornal Sotsial-Demokrat o manifesto do CC do POSDR A Guerra e a Social-Democracia Russa, escrito Lenin. O manifesto definiu o caráter da Primeira Guerra Mundial como guerra imperialista e elaborou a tática dos bolcheviques: transformação da guerra imperialista em guerra civil. O manifesto condenou o social-chauvinismo dos dirigentes da II Internacional.

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