“Não Olhe para Cima” e o Pato com o Coelho

Por Philippe Augusto Carvalho Campos

“Com efeito, o filme, a partir de sua matriz e contra-matriz pode ser lido como sintoma da divisão que atravessa nossa sociedade, cujos atores lutam em dimensões diferentes e por isso nunca se encontram em solo comum, a sociedade nunca se unifica como é o caso de Impacto Profundo. É como se, no ambiente político, se tratasse da tentativa de cruzamento de duas espécies diferentes, ou, para usar um velho exemplo da Gestalt, tivéssemos sempre uma visão ou outra, nunca uma e outra”.

Uma triangulação para medir “Não Olhe para Cima”

Propomos aqui fazer uma triangulação para tentar entender o que é esse produto: Não Olhe para Cima de Adam McKay.

1) Defendo que Não Olhe para Cima se parece com um gênero muito conhecido, a sitcom de animação tragicômica norte americana – Bo Jack Horseman, American Guy, Simpsons, South Park etc. Não sabemos ao certo o porquê de tal gênero ter se firmado como animação; por se tratar de um gênero B, suspeitamos que o baixo orçamento e um tipo de exagero característico dos desenhos animados (a caricatura) sejam as causas – outrossim, esse gênero parece ter se originado de um outro mais subterrâneo ainda, a revista em quadrinhos underground, como a Zap comix. Esse tipo de humor cínico era classicamente veiculado nas faixas da noite ou em canais alternativos, expressava um certo refinamento – repleto de referências que um pobre médio não conheceria; pessimismo ou autodepreciação – ridicularizam a cultura ou o modo de vida norte-americano; e, obscenidades – é um gênero com altas doses de sexismo, racismo, drogadição, comportamento destrutivo etc. Nesse sentido, Não Olhe para Cima é um gênero B, gravado com gente ou com orçamento de gênero A.

2) Olhando por outra perspectiva, Não Olhe para Cima é como uma regravação de Impacto Profundo, filme de 1998, o enredo é basicamente o mesmo: um meteoro é descoberto por um outsider, é comunicado ao presidente, a informação é mantida em segredo, depois vazada para a imprensa, gente é presa pelo FBI, um astronauta machão é enviado para salvar o planeta, um drama familiar no meio do enredo… a diferença é que o presidente do primeiro filme é honesto e bem intencionado (Morgan Freeman), a população é crédula, entra em pânico e o filme tem um final feliz; a população do segundo filme é negacionista, a presidente é um Trump de saia e o planeta é destruído. Aqui, Não Olhe para Cima é o Impacto Profundo gravado pós crise de 2008 e num capitalismo de smartphones – se quisermos, na era da pós-verdade.

3) Para completar a triangulação, temos filmes políticos, que tratam de política e com intenções políticas. Cito aqui os três que me vêm à cabeça, todos recentes: Big Short (também de McKay) – sobre o crack de 2008; Vice (novamente McKay) – que conta a história do vice presidente do Bush filho; e A Lavanderia – sobre os Panamá Papers. O que há de comum nesses filmes é o fato de neles estar presente um apelo a quem assiste, são filmes panfletários. Não Olhe para Cima é tão próximo do nosso tempo, tudo está tão estilizado ali que é um filme cuja finalidade fosse convencer o expectador, especificamente o negacionista, o votante no Trump e derivados, de que ele tem que crer na ciência (e derivados).

A militância do Establishment

Dessa triangulação, gostaríamos de focar em alguns aspectos.

Vamos isolar inicialmente o expectador de desenhos adultos estadunidenses. O jovem de classe média com alguma satisfação em olhar para a caricatura da sua tradição ou para a vulgaridade do povo ao mesmo tempo em que se exclui dessa massa (de ignorantes, trumpistas, iludidos); mas também sem comedimento em se autoironizar ou observar em si mesmo alguma depravação ou escória. É esse segundo elemento, presente em BoJack Horseman, mas ausente em Simpsons, que se ausenta também em Não Olhe para Cima; o cavalo ali (BoJack) é só um niilista desacreditado, ao passo que no filme, há militância. É como se, ao sair do domínio privado ou ao chegar à esfera pop, o niilismo individualista se tornasse numa espécie de ativismo coletivo – como, aliás, ocorre com frequência, ao ver seu modo de vida cético e de classe média ameaçado a reação é defendê-lo (lembremos quantas pessoas não eram propriamente ativistas e se tornaram depois da ameaça de um Bolsonaro).

Da militância presente no filme, podemos derivar dois aspectos. É como se aquilo que é apresentado ao expectador negacionista fosse uma réplica estilizada de seu negacionismo corrente, mas que, ao ver ou se ver representado, o efeito de estranhamento causado pelo despregamento de si fizesse esse negacionista se repensar. Por outro lado, os “afirmacionistas” estão também representados em seu desespero ao falarem a verdade e não serem escutados. Para esses expectadores não há intenções transformadores, mas só uma duplicação daquilo que já encontra-se apresentado – sua postura verdadeira diante das coisas. A coisa se passa como se, ao representar as coisas como elas são, as coisas deixassem de ser o que são, havendo uma provocação subjacente ao negacionista. Talvez um esquema sintético dessa peça possa ser esboçado na seguinte tabela:

Esquema representação-expectador de Não Olhe para Cima:

  Atitude representada Atitude do expectador
Afirmacionistas Militante Satisfação (atitude correta)
Negacionistas Estática (não se convencem com fatos) Estranhamento (transformar o expectador)

Mas essa síntese revela apenas a intenção dos autores do filme e possivelmente satisfaz somente aos afirmacionisas (como é o caso de filmes feitos para militantes, Bacurau etc.), quanto aos negacionistas, não se trata de mal uso da razão, de desinformação ou manipulação. Quem mira neles pelo iluminismo, erra o alvo, do que se trata ali é da defesa de um modo de vida.

E qual seria esse modo de vida? Qualquer coisa mais segura ou com coordenadas mais claras – não se resumindo ao rótulo da tradição. A financeirização do mundo, tecnologias portáteis e internet, a pauperização social, novas tendências comportamentais, desemprego, a doença etc. dão o tom de uma atmosfera insalubre. Na falta de palavra melhor, poderíamos chamar esse conjunto de capitalismo tardio, mas que é mais frequentemente percebido pelos negacionistas por termos aparentados a establishment (ideologia, esquerdismo, globalismo etc.). Assim, quando na esfera pública, midiática, o discurso negacionista apenas co-responde ao discurso do establishment, identificado como o responsável pela degradação da vida – não necessariamente acreditam no que dizem, pois se trata da defesa de um modo de vida.

Em certo sentido, eles não estão errados: a esquerda, centro-esquerda, esquerda liberal, liberais (ou qualquer sinônimo disso), em suma, o grande campo iluminista, foi o grande responsável pelo implante disso que, também, possui, vários nomes, pós-modernidade, neoliberalismo, capitalismo financeiro, capitalismo de vigilância, tecnofeudalismo etc. enfim, o establishment. Por outro lado, eles estão completamente corretos. Pra quem trabalham cientistas e público esclarecido? Para restabelecer o mesmo regime de coisas que causou o atual regime de coisas. Para trazer de volta ao poder os mesmos atores que gerenciavam o mundo quando no tempo anterior à tal onda conservadora ou autoritária. Não só na história, mas em várias situações, quando uma coisa acontece depois da outra, devemos pensar que o antecedente é causa do consequente – obviamente o que veio antes de agora deve ser causa ou, ao menos, ter relação muito forte com o agora.

O equivalente inexistente

Desconhecemos um equivalente a Não Olhe para Cima negacionista, contudo, façamos um exercício de inverter a matriz anterior:

Esquema representação-expectador de um filme negacionista equivalente inexistente:

  Atitude representada Atitude do expectador
Afirmacionistas Estática (hedonistas cínicos esclarecidos) Estranhamento (transformar o expectador)
Negacionistas Militante (lutam por um modo de vida) Correta (vivem uma vida em comunidade ou tradição)

Se pegarmos somente o eixo da atitude representada encontramos vários filmes: Avatar, Mad Max, Duna, enfim, qualquer filme em que há uma pequena tribo harmoniosa invadida por agentes exteriores e poderosos. O que se encontra mascarado nesses filmes é precisamente a divisão que os filmes políticos explicitam, representada pelo eixo da atitude do expectador, por isso esses filmes parecem tão pouco políticos ou passíveis de entreter negacionistas e iluministas. Não nos parece haver roteiro que junte esses dois eixos. Por quê?

Sugerimos como hipótese o fato de os circuitos negacionistas serem circuitos sub-reptícios à esfera pública liberal esclarecida – ainda que esses atores estampem as telas públicas, seu fundamento são circuitos subterrâneos. Assim, as técnicas de espalhamento ideológico do tipo negacionista operariam mais por vias comunitárias ou redes privadas. Eles não tentam convencer ou argumentar com os afirmacionistas, esses anti-iluministas captam algum ponto de insatisfação e a partir daí vão construindo seu universo discursivo. Por essa via, não há filmes negacionistas como há filmes afirmacionistas porque a atividade militante daqueles encontra-se em outro lugar. Nos parece que aquilo que Não Olhe para Cima e filmes que designamos políticos realizam de maneira artística ou imaginária (em teoria), os negacionistas realizam na particularidade ou na prática (redes sociais e circuitos comunitários respectivamente). De um lado temos uma atitude transcendente, do outro, uma imanente.

Com efeito, o filme, a partir de sua matriz e contra-matriz pode ser lido como sintoma da divisão que atravessa nossa sociedade, cujos atores lutam em dimensões diferentes e por isso nunca se encontram em solo comum, a sociedade nunca se unifica como é o caso de Impacto Profundo. É como se, no ambiente político, se tratasse da tentativa de cruzamento de duas espécies diferentes, ou, para usar um velho exemplo da Gestalt, tivéssemos sempre uma visão ou outra, nunca uma e outra. Na figura abaixo temos um coelho ou um pato, nunca os dois percebidos ao mesmo tempo.

Daí, o tipo de militância Afirmacionista no universal da esfera pública e aquela de negacionistas no particular da esfera privada. Dito de outro modo, afirmacionistas tentam convencer escrevendo textos, livros, fazendo filmes, escrevendo notas de repúdio, falando no púlpito e dando entrevistas, negacionistas funcionam na base do favor, do coronelismo, da rede privada (whatsapp), da teoria conspiratória, da militância evangélica. Mas, embora em dimensões diferentes, há a figura que se dispõe às duas visões, qual poderia ser o nome dessa figura ou supradimensão que acomoda duas visões disjuntas? Antigamente era chamada de sociedade do espetáculo; e tudo, tanto os ilustrados quanto negacionistas em Não Olhe para Cima convergem quando o assunto é produzir threads. Enfim, uma política incapaz de tocar na matéria do mundo.

Agora, o bloco autoritário dá sinais de esgotamento – afinal, o paladino da democracia ganhou nos EUA e tudo indica que nosso santo justiceiro será reeleito. Desse modo, o blocão iluminista (novamente: que antecedeu a onda autoritária) voltará ou já está voltando ao poder. Vejamos por quanto tempo.

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