O Comunismo, a Igreja e o Estado

Por A. K. Voronski, via marxists.org, traduzido por Guilherme Henrique.

“Somente em Moscou o número de Igrejas é quarenta vezes quarenta. E quantas delas não se encontram em toda a Rússia? E para quem todos rezam? Para seus mestres.”

Das histórias de A. Budichtchev

O comunismo não é apenas uma doutrina social e política. O comunismo é, antes de tudo, uma visão de mundo e filosofia unificada e, em seus fundamentos, completa.

Como tal, o comunismo entra em forte colisão com a filosofia religiosa.

Comunismo e a religião são dois polos, dois opostos. Eles estão presos numa luta eterna um com o outro.

Toda filosofia religiosa é baseada em sentimentos de dominação do homem pelos elementos da natureza e da sociedade, em sentimentos de medo do homem e dependência servil de seu entorno.

O comunismo, o comunismo científico, baseia-se em sentimentos de subordinação das forças cegas e mecânicas da natureza e do meio ambiente ao homem.

Dominado pelo seu entorno, o homem religioso não ousa tentar explicar o que o cerca. Ele apenas começa a falar, faz súplicas e tenta apaziguar os fenômenos ameaçadores e inexplicáveis.

O homem que se libertou do sentimento de dependência escrava tenta explicar e depois usar em seu benefício tanto a natureza quanto a sociedade.

A religião dá respostas absolutas, finais e indubitáveis. Depois de ouvi-las, não há mais nada para questionar ou investigar. Como qualquer ciência, o comunismo dá um alcance ilimitado à pesquisa; como qualquer ciência, não dá respostas exaustivas e definitivas, não dá verdades absolutas, mas apenas relativas. A alma da religião é o milagre. Sem milagres não há religião.

A alma do comunismo é a apreciação do desenvolvimento legal e da consistência legal do fenômeno. Como acúmulo de preceitos morais, a religião e, em particular, o cristianismo, prega o amor ao próximo. Mas esse amor é abstrato, desprovido de carne e sangue. É amor por Deus, e por meio de Deus. Mas é o amor que é o mesmo para todos. E como é distribuído a todos, é indiferente às pessoas concretas; no cume está sempre frio. O amor religioso é frio e indiferente às pessoas reais. Por isso, facilmente encontra seu lugar nos corações insensíveis aos sofrimentos do próximo.

O comunismo também defende a solidariedade das pessoas e o auto sacrifício. Mas envolve esses sentimentos em carne e osso, eles nascem pela terra, pela essência da vida. Eles são concretos. Eles abraçam tanto a solidariedade dos oprimidos quanto o ódio aos opressores. Um grande amor gera um grande ódio. Quem ama de maneira limitada, estando comprometido com um determinado grupo, camada ou classe, odiará outros que são seus inimigos.

Se tal é a relação entre religião e comunismo em seus aspectos mais fundamentais, então ainda mais hostil ao novo estado proletário é a Igreja, que governou até recentemente. A igreja sempre foi e continua sendo um instrumento de escravização do tipo mais refinado e consistente. Ele santificou as épocas mais sombrias da inquisição com suas fogueiras; organizou a perseguição do pensamento humano livre; ela habituou o homem ao servilismo servil, tem sido o ópio do povo, e tem abençoado e justificado as guerras mais sujas e a escravização do homem pelo homem.

Especialmente aqui na Rússia. No Ocidente, com sua guerra contra o feudalismo, a burguesia revolucionária já foi impiedosa em quebrar as tábuas religiosas. A burguesia produziu Voltaire, Diderot, Holbach e Feuerbach. Na Rússia nunca houve uma burguesia revolucionária que fosse implacável e corajosa em sua luta contra os fetiches religiosos. A Rússia pequeno-burguesa atrasada, com o domínio da “lei da terra” sobre milhões de pessoas esquecidas e oprimidas, com o domínio das forças primitivas da natureza sobre as pessoas – sempre serviu como solo fértil para a Igreja. É por isso que nenhum socialista consistente e sincero pode ou tem o direito de evitar a luta mais enérgica contra a dominação da Igreja.

A batalha contra os preconceitos religiosos, contra a Igreja com suas ordens superiores e seus “pastores”, é uma obrigação primordial de todo socialista revolucionário.

Mas esta batalha deve ser travada com habilidade e cuidado. A visão religiosa do mundo foi criada ao longo de séculos e milênios. Enquanto houver injustiça social, ignorância e dependência do homem dos elementos da natureza e da sociedade, a religião existirá de uma forma ou de outra. A luta deve ser ideológica e em nenhum caso deve transgredir esses limites. Nós comunistas seríamos filisteus se disséssemos que o comunismo não é hostil à religião. Nunca diremos isso, pois nunca fomos e nunca seremos filisteus e mercenários políticos. Mas estaríamos cometendo uma massa dos erros mais grosseiros se ultrapassemos os limites das batalhas e conflitos ideológicos. As pessoas vão objetar: e quanto à separação entre Igreja e Estado?

A separação entre Igreja e Estado é um golpe cruel e irreparável para a Igreja que governava sob o czarismo. Mas, em essência, isso é apenas um ato de justiça social. Não podemos dar preferência à ortodoxia sobre o budismo, o catolicismo ou um grande número de outras religiões. A separação entre Igreja e Estado reduz a Igreja a uma sociedade religiosa livre que vive a seu próprio critério e dos meios de seus membros voluntários. E só isso. Esta medida não significa mais nada. Priva o clero do poder econômico de que gozava ilegalmente sob o czarismo, mas essa medida não afeta a liberdade de escolher um sistema religioso. Nossos inimigos muitas vezes confundem essa intenção com outras e apresentam a separação entre Igreja e Estado como um ataque à liberdade de expressão religiosa. Pelo contrário, esta medida, que retira um conjunto de privilégios, devolve uma liberdade genuína na escolha da religião. Lutamos contra os padres por causa de sua atividade contrarrevolucionária, e não porque eles acreditam em Deus. Conduziremos essa luta enquanto a época da ditadura continuar. Não é nossa culpa se o clero acabou do lado dos “poderosos deste mundo”.

Ao devolver a genuína liberdade de expressão religiosa, vamos e devemos travar nossa luta pelo triunfo de nossas visões e nossa visão de mundo, dentro do quadro de formas ideológicas. Essa é a nossa posição.

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2 comentários em “O Comunismo, a Igreja e o Estado”

  1. Grande Lenin!
    Muitas pessoas religiosas não conseguem ou não querem entender o que a religião era em determinado momento histórico. Textos como esse deixam religiosos de cabelo em pé. Este espanto só existe em mentes que não entendem o contexto histórico e o comprometimento da própria religião com os opressores. Sinceramente considero válidas as críticas do comunismo à religião, mas também percebo que o tema se desenvolveu muito, principalmente dos anos 60 do séc XX pra cá. O cristianismo tem duas faces, uma conservadora e outra revolucionária. Creio que Lenin tinha uma noção disso, mas sua ênfase e seu momento histórico e imediato só permitiram atacar a face conservadora, reacionária e do lado dos opressores… hoje já podemos dialogar e valorizar o lado revolucionário e contestador do cristianismo…

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