Dessublimação repressiva. Proteção. Exploração. Falsa Culpa. Reformismo” e “Ideologia. O projeto revolucionário homossexual

Originalmente em Elementi di critica omosessuale. 1 ed. Milão: Feltrinelli, 2017. Traduzido por Carlos Luis Prata

As páginas a seguir apresentam a tradução dos textos “Ideologia. Progetto omosessuale rivoluzionario” e “Desublimazione repressiva. Protezione. Sfruttamento. Falsa colpa. Riformismo”, os dois últimos dos sete tópicos que compõem o capítulo “Come gli omosessuali, di rogo in rogo, divennero gay”, do livro “Elementi di critica omosessuale”, publicado por Mario Mieli em 1977. A tradução tomou por base a edição Italiana, publicada em 2017, em amplo cotejo com as traduções para o inglês (2018) e para o espanhol (1979).


É impossível evitar jogar luz sobre a intenção implícita, quando não explícita, de recuperar homossexuais que subjaz à nova atitude “progressista” de determinadas igrejas e determinados Estados. Para além disso, é preciso sublinhar de que maneira a lenta evolução da moral religiosa e de alguns estratos da opinião pública em direção a posições mais compreensivas e tolerantes tende a substituir, parcialmente, a forma tradicional de agressão aos gays por outra de proteção. Entretanto, se a agressividade é falocêntrica e a proteção paternalista, falocentrismo e paternalismo são as duas faces da mesma moeda patriarcal. Como Oscar Wilde disse durante seu julgamento: “A única ação realmente vergonhosa e imperdoável de toda minha vida foi a de me forçar a pedir ajuda e proteção à sociedade”.[1]

Proteção dos homossexuais, moral permissiva, tolerância, emancipação política conquistada dentro de certos limites nos países onde há o domínio real do capital… Tudo isso se revela substancialmente funcional ao programa de comercialização e exploração da homossexualidade por parte da empreitada capitalista. A indústria do gueto é bastante profícua: bares, clubes, hotéis, boates, saunas, cinemas, pornografia, tudo exclusivo para homossexuais, constituem fontes de renda enormes aos exploradores do chamado “terceiro sexo”. O capital opera uma dessublimação repressiva da homossexualidade. “[…] a sexualidade é liberada (ou, antes, liberalizada) sob formas socialmente construtivas. Esta noção implica a existência de formas repressivas de dessublimação […]”.[2]

O sistema adota a mesma estratégia com relação às demais supostas “perversões”. O Voyeurismo, por exemplo, embora seja uma das “perversões” mais “mercantilizáveis” pelo capital (cinema, pornografia etc.), continua, na verdade, reprimido: as pessoas vão ao cinema para assistir uma mercadoria  que consiste em ver pessoas fazendo amor e, com isso, dessublima-se repressivamente o componente “voyeurístico” de nosso desejo, em vez de vermos uns aos outros fazendo amor, aproveitando e compreendendo a nós mesmos e fundindo o voyeurismo com outras formas de prazer. A dessublimação repressiva e a exploração comercial são inseparáveis; O Eros permanece voltado ao trabalho e à produção de mercadoria alienantes, na medida em que sua dessublimação repressiva garante seu consumo.

Por outro lado, a tolerância – “tolerância repressiva”, nas palavras de Marcuse – tão somente confirma a marginalização. Tolerar a minoria homossexual, sem que a maioria questione a repressão de seu próprio desejo homoerótico que a distingue, significa reconhecer aos “desviantes” o direito de viver, precisamente, como “desviantes” e, portanto, de forma marginalizada. A marginalização favorece à exploração altamente lucrativa dos homossexuais por parte do próprio sistema que os marginaliza.

Até nas metrópoles italianas, na Espanha, na Grécia, em Portugal, e em países conhecidos por seu atraso quanto aos costumes, a indústria semiclandestina do “terceiro sexo” se sustenta sobre vínculos de estreita conveniência entre empresários, poder policial e o submundo da criminalidade. Nos Estados Unidos, a imensa maioria dos locais de reunião gays são controlados pela máfia. Segundo as leis vigentes no Estado de Nova Iorque, a homossexualidade é considerada um crime, embora, paradoxalmente, a cidade de Nova Iorque, ao lado de Tóquio e São Francisco, abrigue aquele que é, sem dúvidas, um dos guetos homossexuais mais expressivos, atrativos e bem organizados do mundo (incluindo as localidades vizinhas de Fire Island e Provincetown). Mais evidências do “caráter racional da irracionalidade” capitalista (Marcuse) se expressam ao considerarmos a distância existente entre a organização econômica sustentada pela exploração do homoerotismo e a jurisdição: o proibido vende mais.

O que convém ter em mente, acima de tudo, é o vínculo mútuo e efetivo, na sociedade sob o domínio real do capital, entre agressão e proteção na relação conosco, gays. Entre a violência e a proteção não há qualquer solução de continuidade: em última instância, o homossexual deve ser agredido, para que possa, assim, ser protegido e, então, efetivamente explorado. Por outro lado, a proteção e a integração oferecem aos gays gratificações paliativas que os conduzem à submissão e implodem a força de seu protesto (e, aparentemente suas motivações em si). Evidentemente, nem os agressores e nem os protetores são conscientes dos mecanismos de mediação que existem entre a violência e a proteção e, por outro lado, tampouco se preocupam em sê-lo; que a proteção constitui o meio que vincula a agressão à exploração é algo que somente os gays revolucionários compreenderam corretamente.

Infelizmente, porém, hoje em dia, a maior parte dos homossexuais se sente atraída pela ilusão da emancipação política no interior das estruturas capitalistas, desumanas, do establishment. Isso, em vez de nos surpreender, deve ser considerado como um resquício dos milhares de anos de adequação à Norma (“normalidade” e normatividade), que induz os homossexuais – esses transgressores – a sentirem-se culpados.  Desejando ser integrados, muitos gays se entregam à ilusória esperança de que o sistema/padre perdoe os pecados que, na realidade, sequer cometeram. Contudo, o sentimento de culpa é essencialmente funcional à dominação real do capital (“não viaje sem uma passagem”), e a mesma liberalização e tolerância, apoiam-se, precisamente, no sentimento de culpa de quem se contenta em ser meramente tolerado, para poder ser melhor explorado. É preciso que o homossexual se sinta, de alguma forma, culpado para se adaptar à angústia e à agonia do gueto e para renunciar a qualquer liberdade autêntica. Por outro lado, o capital não pode perdoar nenhum pecado: em primeiro lugar porque não existem pecadores; em segundo porque o próprio capital é setenta vezes sete a criação do pecado.

O ideal da emancipação política não diz respeito a um salto qualitativo no que tocante às condições de marginalização e exploração que cercam, atualmente, os homossexuais, nem uma superação do sentimento de culpa que permitiria jogar luz sobre os verdadeiros responsáveis pelo seu sofrimento. É chegada a hora para que os homossexuais recuperem a energia que até agora têm desperdiçado em se culpar, canalizando-a em uma luta verdadeiramente emancipadora, concomitantemente prazerosa e subversiva.

O sentimento de culpa embutido em nós pelo sistema conforma uma falsa culpa, mas, ao mesmo tempo, comporta-se como o mais aguerrido inimigo da libertação homossexual. Nós devemos eliminá-lo e, para tanto, é necessário aprender a identificá-lo sob seus múltiplos disfarces cotidianos. Reconhecê-lo já é enfrentá-lo, em vez de permanecermos cegamente dominados.

A falsa culpa é o mercenário do sistema que nos habita, o agente de morte que nos tortura impiedosamente. Segundo Corrado Levi, “Nossa doença não está em sermos homossexuais, mas em sentirmos culpa por sê-lo. Tal sentimento está embutido em nós por nossos pais e pelos heterossexuais, que temem sua própria homossexualidade”. [3]

O homossexual assumido tem sido forçado a interiorizar a condenação social do homoerotismo, uma condenação que reaparece aos seus olhos todos os dias. As pessoas “normais”, em troca, adaptaram-se a um antigo tabu antigay – interiorizando de forma ainda mais drástica a condenação e personificando a Norma heterossexual. Eles não podem se abster de atribuir a culpa a alguém que transgrida a Norma, uma vez que tal pessoa vive aquilo que eles reprimem, e, assim, repressivamente, por meio da censura e da violência, induzem o homossexual a se sentir culpado. Os héteros fomentam nos gays o sentimento de culpa.

Corrado Levi revela como o sentimento de culpa que aflige o homossexual “repercute em uma espécie de inibição de seu comportamento em geral”. No curso das reuniões à tomada de consciência, realizadas em Milão,

Ficou clara a conexão entre homossexualidade e autopunição, a qual, não por acaso […] era incitada pela polícia, pelo pai etc. A análise detalhada do sentimento de culpa leva a identificar e, então, isolar nossa internalização dos valores morais hegemônicos, aos quais podemos, então, rechaçar junto ao mesmo.

Uma eliminação gradual da falsa culpa

[…] é um resultado aquiescido em paralelo com a análise e superação dos valores, normas e comportamentos hegemônicos. O sentimento de culpa está ligado à transgressão dos objetivos em direção aos quais a repressão da homossexualidade, à qual somos submetidos desde a infância, é desenhada, a qual depois, na vida adulta, transforma-se em autorrepressão (com a compulsão à repetição), no contexto da presente deformação do indivíduo pela educação edípico-patriarcal. Ele também é reforçado pela culpabilização do sexo do corpo, imposta pela cultura judaico-cristã. Para compreender um dos efeitos desse sentimento de culpa, é sintomático observarmos que muitas vezes, ao nos descobrirmos diferentes de alguns valores e comportamentos hegemônicos, sentimo-nos levados à assunção de outros valores e comportamentos hegemônicos de uma forma muito rígida, como uma forma de compensar por aqueles transgredidos.[4]

Assim, pode acontecer de que um homossexual, induzido pelo sistema a se sentir culpado por transgredir um tabu antigay, tente, de alguma maneira, redimir-se frente à sociedade, adequando-se às suas demais regras, tornando-se conservador e reacionário, repressivo e mortífero ao seu entorno. O homossexual pode se converter em um instrumento do capital. “Sabemos perfeitamente […]”, observa Angelo Pessana, “[…] que os homossexuais que têm o poder, isto é, que vivem em situação de poder, são precisamente os que combatem a libertação homossexual”.[5]

Sobre o “Charme discreto dos pédés”, alguns companheiros do GLH (Groupe de Libération Homosexuel) escreveram:

Tal qual o movimento negro americano decidiu lutar contra a burguesia negra, que se opunha violentamente à rebelião dos guetos e que imitava a sociedade branca e racista, nós também não podemos dizer que qualquer homossexual esteja, a priori, do nosso lado, “ainda que”… Porque se todo homossexual sofre a repressão sexual, a mesma ocorre de formas distintas a depender de sua posição social, seus condicionamentos e suas ideias. O que ele faz no trabalho? O que ele faz em sua vida cotidiana? A França giscardiana permite que o homossexual viva e sobreviva com dignidade, de forma arcádica, hipócrita e disfarçada. Esse tipo de homossexual inserido é um dos primeiros aos quais devemos opor nossa revolta. Faz parte, também, de nossos inimigos. [6]

O fardo da condenação internalizada, as condições da falta de liberdade e de desespero em que vivem, seguem induzindo vários homossexuais a se contentarem com qualquer forma de adaptação, a sonharem com o vestido, a casa e o sorriso fascistas do “Homem Vogue” (com o qual quiseram, ao mesmo tempo, fazer amor e se identificar) e/ou a aspirarem a posterior conquista de direitos civis. O sistema se beneficia disso: “o sistema é o leopardo que nos incita a desejar que tudo mude a fim de que tudo permaneça como era antes”.[7]

Mesmo aqueles gays envolvidos em movimentos de liberação não são completamente conscientes da necessidade de conduzirem a luta a partir de uma perspectiva totalizante e revolucionária, voltada à emancipação humana e não à emancipação política[8]. São relativamente poucos aqueles que conhecem a força revolucionária contida em sua condição e o que devem fazer para que ela se transforme em fatos.

Atualmente, o movimento é composto por homossexuais revolucionários e homossexuais integracionistas; as atividades de tais grupos, por conseguinte, entram muitas vezes em conflito. Todavia, é através das dificuldades e das diferenças que o movimento cresce e se transforma dialeticamente. Para além das diferenças políticas formais entre as organizações e os coletivos, bem como para além das divergências interpretativas e de conteúdo, o movimento gay, em seu conjunto, é o movimento histórico pela liberação da homossexualidade, ainda que não possa, por hora, deixar de refletir a situação social geral, que é predominantemente contrarrevolucionária.

A própria estrutura dos grupos gays em si, ainda que mais flexível, viada e menos autoritária que a de grupos políticos tradicionais ou de extrema-esquerda, continua sendo, mesmo assim, substancialmente hierárquica (embora os coletivos quase nunca reconheçam uma hierarquia oficial de qualquer tipo). Os líderes homossexuais efetivos tendem, frequentemente – e às vezes inconscientemente –, a administrarem “seus” grupos como pequenas gangues mais ou menos submissas a eles, sobre as quais baseiam seu próprio prestígio e poder pessoal. Suas próprias figuras, precisamente como – em essência – figuras de políticos, são patriarcais e reacionárias, mesmo sob suas plumas e glitter.

Sem prejuízo, uma certa inércia e a insuficiência de uma consciência gay-subversiva por parte de muitos dos membros desses grupos tende a resultar na atribuição de papéis de liderança a algumas poucas pessoas, confirmando-as nesses papéis, apesar de todas as discussões contra o autoritarismo e líderes carismáticos que são realizadas no interior dos coletivos, as quais, muitas vezes, são reduzidas a um enfrentamento dialético que, na realidade, é apenas um jogo de poder entre líderes rivais.

Também é o caso de muitos homossexuais que, consumidos e ofuscados pelo sentimento de culpa ao qual foram induzidos pela internalização da reprovação social, são tomados, repentinamente, pelo remorso e, em geral inconscientemente, pelo superego, que internamente os condena por terem se atrevido a desobedecer ao superego social, que determinou sua marginalização e que se opõe à tomada de consciência homossexual revolucionária. Como os filhos do pai primitivo mítico de Freud, que, após terem se unido em um relação homossexual, encontram forças para matá-lo, mas, em seguida, são tomados pelo remorso e instauram, em memória e substituição do pai, o Totem, o fetiche fálico, os homossexuais que se reúnem em grupos de liberação são, em grande parte, impotentes face ao ataque do superego que os toma e se veem forçados a projetar em seus líderes figuras fálicas e carismáticas que os comandem, personificando a autoridade do superego que vincula cada membro do grupo ao seu sentimento de culpa.

Por um lado, não devemos inventar desculpar para todas as organizações homossexuais existentes. Apenas uma atitude crítica a respeito de sua história, a história de sua formação e desenvolvimento, pode revelar o quanto de importância – desde a perspectiva gay-comunista – e o quanto de revolucionário que está presente no seio das mesmas, tanto em potência quanto de fato.

Entretanto, ainda que nem todos os gays sejam partidários da revolução, não se pode entender a questão homossexual sem fazer referência constante aos sujeitos históricos concretos que a fizeram se movimentar através de sua luta e pesquisa. Eles nos deram os instrumentos necessários para uma leitura revolucionária das problemáticas históricas e sociais que dizem respeito a homossexualidade, bem como das discussões ideológicas e psicanalíticas sobre as “perversões”, ainda que eles mesmos não fossem revolucionários. Ninguém é capaz de interpretar melhor a análise freudiana do caso do presidente Schreber, por exemplo, que alguém que já tenha vivenciado com profundidade o que significa ser uma “bicha louca”[9], sendo condenado como tal e se revoltado contra a repressão e contra a forma internalizada de reprovação. Uma bicha pode até ser um reformista, mas, ainda assim, é, sempre, uma louca.

Oscar Wilde já foi rotulado tanto como um conservador afetado quanto como um socialista decadente, mas, do ponto de vista da liberação homossexual, era, querendo ou não, um revolucionário. É verdade que hoje o sistema está muitíssimo melhor preparado à recuperação das expressões mais moderadas de luta homossexual do que estava há cem anos. Portanto, o sentimento de culpa que aparece claramente nos trabalhos de Wilde, e que às vezes, inclusive, domina-os, é menos sério que o sentimento de culpa contemporâneo, que conduz muitos gays ao reformismo (se consideramos – em comparação à severa perseguição inglesa oitocentista à homossexualidade – a atual propensão do capital em se interessar pela tolerância).

As expressões mais radicais das lutas homossexuais, tanto práticas quanto teóricas, manifestaram-se, na Europa, a partir das lutas de trabalhadores e estudantes ocorridas em 1968 e 1969 e, nos Estados Unidos, a partir do profundo abalo causado à sociedade pelas insurreições dos guetos negros e pela afirmação revolucionária paralela do movimento negro. Além disso, contemporaneamente, a formação europeia e estadunidense dos grupos gays foi profundamente influenciada pela radicalização e expansão do movimento feminista produzida ao final dos anos 60. O refluxo das lutas, a estabilização contrarrevolucionária do poder capitalista e a estagnação do descontentamento social e existencial contribuíram notavelmente a uma fragmentação do movimento gay.

Na França, em 1974, ficou claro que a Frente Homossexual de Ação Revolucionária [Front Homosexuel d’Action Révolutionnaire], conhecida como o mais extremista dos grupos europeus, praticamente se autodissolveu. Isso não significou que o movimento homossexual na França havia morrido. Antes, havia se transformado e, então, se dividido em grupos menores (o mais importante dos quais, atualmente, é o Grupe de Liberação Homossexual [Groupe de Libération Homosexuel]) que, através de posicionamentos diversos e sem qualquer pretensão de se organizar sob uma unidade formal, promove uma luta regida por objetivos parcialmente comuns.

Na Inglaterra, a Frente de Liberação Gay [Gay Liberation Front], que teve seu auge em 1971 e 1972, vem se adaptando cada dia mais, já há algum tempo, aos quadrantes de uma luta para-reformista, que o aproxima das políticas do CHE (Campaign for Homossexual Equality), a organização integracionista britânica. Isso não impede que continuem existindo coletivos revolucionários na Inglaterra.

Nos Estados Unidos da América, o papel de destaque outrora ocupado pela Frente de Liberação Gay [Gay Liberation Front] é preenchido, agora, por grupos mais moderados, como a Força Tarefa Gay Nacional [National Gay Task Force], que, sobretudo no Estado de Nova Iorque, constitui uma poderosa reagrupação de formação mais recente, e a Aliança Ativisya Gay [Gay Activist Alliance], organização que se separou da Frente de Liberação Gay [Gay Liberation Front], em 1969. Essa primeira dissidência foi provocada por discordâncias surgidas no interior do FLG, entre os mais radicais, que apoiavam abertamente o Partido dos Panteras Negras  e que eram favoráveis a uma intensificação dos enfrentamentos, e os reformistas, propensos a uma política que era vistosa, porém cuidadosa, além de contrários à adesão, por parte do movimento gay, à outras lutas de liberação. Contudo, nos Estados Unidos, seguem existindo diversos coletivos homossexuais revolucionários, que não se reconhecem em organizações oficiais, mas que constituem as expressões mais avançadas do movimento real.

Na Itália, a confederação do Fora! [Fuori!], junto ao Partido Radical, assinala claramente a afirmação de uma linha política reformista, contrarrevolucionária, entre os homossexuais: foi sintomática a participação do Fora! [Fuori!], que apresentou candidatos próprios na lista dos radicais, nas eleições de junho de 1976, e o tom patético da campanha eleitoral. Na Itália, sem prejuízo, surgiram nos últimos anos grupos revolucionários em diferentes cidades, entre os quais estão os CHM [COM] (Coletivo Homossexual Mlanês [Colettivi omosessuali milanesi]), e os coletivos independentes de Florença, Pavia, Veneza, Nálopes, Carania, Cagliari, etc.

É possível afirmar que, se por um lado, os homossexuais reformistas aspiram ao Parlamento, os revolucionários, em seu turno, não estão de acordo em firmar compromissos com as gangues políticas do sistema, quer sejam parlamentares ou de organizações menores: eles seguem lutando por si próprios, enquanto revolucionários (e) homossexuais, sabendo que apenas a mais dura intransigência, a mais sólida coerência e o rechaço de toda politicagem e jesuitismo, pode lhes assegurar a liberdade da recuperação capitalista e promover, realmente, a conquista da liberação.

Ideologia. O projeto revolucionário homossexual.

A crítica revolucionária já demonstrou a forma pela qual a ideologia fundada no modo de produção capitalista, na alienação do trabalho e na reficiação do sujeito humano, envolve a absolutização absurda de valores historicamente contingentes e a hipóstase de perspectivas (científicas, ético-morais, sócio-políticas, psicológicas) que são, na verdade, relativas e transitórias. A ideologia defende a “naturalidade” do atual sistema e modo de produção, tornando-os absolutos de forma a-histórica e ocultando a sua transitoriedade. O que é hipostasiado pela ideologia como como “normal” e normativo, não é outra coisa senão a versão aparente do que, na verdade, muda, transforma-se, e resulta do desenvolvimento dos meios e do modo de produção, com a dinâmica da contradição entre capital e espécie humana, com o movimento do conjunto da sociedade.

Contudo, da mesma forma como, até agora, o capital derrotou, em diversas ocasiões, o movimento revolucionário, sua ideologia também sobreviveu ao surgimento e disseminação progressiva da teoria do proletariado, a respeito da qual buscou promover – e, muitas vezes, conseguiu parcialmente – uma recuperação, sem nunca apreender, porém, sua essência.

129 anos após o Manifesto Comunista, as cabeças das pessoas seguem cheias de absurdos ideológicos. A ideologia do trabalho assalariado segue sendo a Weltanschauung do homem unidimensional, apesar do capital ter alcançado seu estágio de dominação real, em que:

[…] já não é o trabalho, momento definido da atividade humana, que é submetido e incorporado ao capital, mas todo o processo vital dos homens. O processo de encarnação (Einverleibung) do Capital, que começou no Ocidente há cinco séculos, chegou ao fim. O Capital já é o ser comum (Gemeinwessen) opressor dos homens. […]. Com o desenvolvimento da cibernética se comprova que o capital se apropria e incorpora a sim mesmo o cérebro humano; com a informática cria sua própria linguagem à qual deve se moldar a linguagem humana. Nesse nível já não são unicamente os proletários – os que produzem mais-valor – que estão submetidos ao capital, mas, sim, todos os homens se convertem em seus escravos.[10]

Por sua vez, “a burguesia releva-se como classe supérflua”, porque quase “todas as suas funções sociais são executadas agora por empregados assalariados”[11] (Engels). O domínio real está caracterizado pela tendência imanente à socialização que transforma o capitalismo em capitalismo de Estado, enquanto o Estado, de “comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa”[12], passa a converter-se em um empreendimento capitalista. A escravidão geral tende a se manifestar como (participação na) gestão da produção por parte dos trabalhadores: os assalariados são transformados em autômatos que gerem e administram o sistema que os escraviza. Enquanto isso, a substituição do trabalho vivo por parte da ciência e da técnica “[…] se torna a forma universal da produção material, circunscreve toda uma cultura; projeta uma totalidade histórica – um mundo”[13] (Marcuse).

[…] a tendência necessária do capital é o aumento da força produtiva do trabalho e a máxima negação do trabalho necessário. A efetivação dessa tendência é a transformação do meio de trabalho em maquinaria. Na maquinaria, o trabalho objetivado se contrapõe materialmente ao trabalho vivo como o poder dominante e como subsunção ativa deste a si, não só por meio da apropriação do trabalho vivo, mas no próprio processo real de produção; a relação do capital como valor que se apropria da atividade valorizadora é posta no capital fixo, que existe como maquinaria, ao mesmo tempo como a relação do valor de uso do capital com o valor de uso da capacidade de trabalho; o valor objetivado na maquinaria aparece, ademais, como um pressuposto, diante do qual o poder valorizador da capacidade de trabalho individual desaparece como algo infinitamente pequeno.[14]

As premissas econômicas necessárias à criação do comunismo se encontram, portanto, completamente desenvolvidas (até mesmo sobredesenvolvidas): o próprio capitalismo reduziu o trabalho necessário a uma porção mínima. Todavia, as pessoas continuam trabalhando para o capital (que agora assume todas as atividades que o proletariado desempenha na fábrica), sobrevivendo em prol do capital. Tal subsunção real subsome a vida humana a si de tal maneira, determinando o pensamento das pessoas em tal proporção, que mesmo agora – quando seria o suficiente para parar a maquinaria do sistema, para que a espécie humana seja capaz de redescobrir a si, sua salvação biológica e sua liberdade coletiva –, a revolução tarda a se afirmar.

A ideologia nos leva a pensar segundo os critérios desumanos do capital e freia o crescimento de uma consciência humana, universal, comunista, que se oponha, de uma vez por todas, ao domínio cancerígeno do “monstro automatizado”.

 A luta feminina e as expressões teóricas de seu movimento deixaram claro o quão falocêntrica é a ideologia, tão vinculada à sujeição do gênero feminino ao masculino quanto fundada no modo de produção capitalista. Por sua vez, o fato de que a ideologia dominante é branca e eurocêntrica, foi, literalmente, iluminado pelas lutas dos negros, que, ao se insurgirem nos guetos americanos ao longo dos anos setenta e destruírem as cidades do capital, devolveram à espécie a perspectiva da revolução comunista a perspectiva da emancipação humana.

Que, “finalmente”, tal ideologia seja heterossexual, é algo que nós, homossexuais, temos mostrado pela primeira vez, de maneira disruptiva, no curso dos últimos anos, desde a fundação da Frente de Liberação Gay de Nova Iorque [New York Gay Liberation Front], o verão de 1969, até hoje.

Contudo, para além de suas características originais (burguesa, machista, eurocêntrica e heterossexual) – que ainda permanecem em seu interior –, o que devemos reconhecer nessa ideologia, sobretudo hoje em dia, é ao capital, sua dominação real. Hoje, a ideologia é uma e castiga a todos diferentemente do mesmo modo. Devemos nos livrar dela, a fim de que possamos dar “forma” e “essência” humanas, bem como liberdade, a todos os conteúdos da vida e do pensamento, atualmente reificados nas engrenagens mortais da máquina-capital. Os “privilégios” que são, hoje, celebrados pela sociedade, revelam-se, em substância, funcionais tão somente à perpetuação do sistema: o macho burguês, branco, heterossexual é, quase sempre, um solipsista obtuso e desgraçado, a mais desprezível marionete do status quo, que nega, em si, a mulher, a pessoa negra, a bicha, o ser humano.

 Se a ideologia é uma coisa única e antropomorfa, máscara (in)humana do capital, nós, por outro lado, estamos, apesar de cada vez mais distintos, sobretudo distintos uns dos outros, cada vez mais na mesma situação, sufocados pelo peso do sistema. Somos diferentes, mas é o capital quem nos contrapõe e nos separa.

Ao cultivarmos as especificidades profundas de cada situação individual de opressão pessoal, podemos avançar àquela consciência revolucionária capaz de identificar em meu caso específico de opressão, também o seu (porque você, heterossexual, também é um gay negado), e, no seu caso, o meu (porque também sou, eu, uma mulher negada), e reconhecermos, em todos e todas nós, para além de qualquer cisão e autonomia historicamente determinadas, a espécie humana negada. A revolução só pode vir de nosso ser comum reprimido, que se expressa, hoje, em formas separadas na sociedade, naqueles que vivem fronte a repressão, em primeira pessoa, um aspecto especial da “natureza”[15] humana (o ser mulher, o desejo homoerótico…) negado pelo sistema.

 O proletariado, por si mesmo, assim como a luta das mulheres, dos negros e de nós, gays, tem ensinado a compreender a importância fundamental, visando a emancipação humana, de tudo aquilo que – em relação aos valores totalizantes da ideologia –, é considerado marginal, secundário, anômalo ou, ainda, absurdo. A vida da espécie está aí.  Se a ideologia do poder é absurda, a realidade que ela oculta somente poderá ser discernida através da vivência daquilo que ela nega e relega ao campo do absurdo. A esquizofrenia é uma porta de acesso ao saber revolucionário; e apenas amando a uma pessoa negra, conhecendo às pessoas negras, se poderá realmente entender o porquê o comunismo será negro, de todas as cores.

Uma teoria crítica, desenvolvida em função de um projeto revolucionário gay, não pode deixar de levar em consideração tudo aquilo que transborda aos estreitos limites do que a subcultura dominante considera “normal”, permissível, racional. Para nós, homossexuais, existem claramente duas alternativas: ou nos adaptamos ao universo constituído e, portanto, à marginalização, ao gueto e ao ridículo, assumindo, como nossos valores, a moralidade hipócrita do idiotismo heterossexual funcional para o sistema (embora com algumas variações inevitáveis, uma vez que levar um pau na bunda é algo difícil de se renunciar) e optando, portanto, pela heteronorma; ou, então, opomo-nos à norma e à sociedade que se encontra nela refletida, rejeitando toda a moral imposta, especificando o caráter particular de nossos objetivos existenciais a partir do ponto de vista da marginalização, de nosso ser “diferente”, lésbico, bicha, gay, em um contraste aberto à regra unidimensional da monossexualidade hetero. Em outras palavras, optarmos por nossa “homonorma”.

 “No conflito original que opunha sua anomalia sexual à moral comum”, escreveu Sartre, “Gide tomou partido em favor daquela contra esta, corroendo pouco a pouco, como um ácido, os princípios rígidos que o estorvavam. Apesar de milhares de recaídas, ele caminhou em direção à sua moralidade; ele fez o que podia para inventar uma nova Tábua da Lei. […]. Ele queria libertar a si mesmo do que as outras pessoas consideravam bom; ele se recusou, desde o princípio, a se permitir ser tratado como uma ovelha negra”.[16]

A situação de Gide não é distinta, em essência, daquela de todos nós, homossexuais: trata-se de se opor à moral “normal” e de escolher o que é bom e o que é ruim a partir de nosso ponto de vista marginalizado. Se desejamos a liberação, devemos rejeitar os padrões vigentes. É uma questão de fazer uma escolhe que rejeite à Norma. Entretanto, uma moralização gay da vida, que combata a mesquinharia, o egoísmo, a hipocrisia, o caráter repressivo e a imoralidade da moral comum, só pode se produzir extirpando o sentimento de culpa, a falsa culpa que segue jungindo tantos de nós ao status quo, à sua ideologia e seus princípios mortíferos, que impedem que nos movamos com uma seriedade gay no sentido de um projeto totalizante revolucionário.

Sabemos que a descoberta do que está escondido sob o rótulo de “anormal”, com o qual a ideologia dominante reveste diversas manifestações da vida, contribui para colocar em evidência o absurdo da referida ideologia. Contudo, a progressiva acumulação de provas contra o valor alegadamente absoluto da ciência e da moral capitalistas representa, apenas, um resultado secundário da análise daquelas questões e argumentos que a opinião pública considera mais ou menos tabu. Trata-se, principalmente, de se descobrir o que revelam tais questões a respeito de nossa “natureza” profunda.

Uma abordagem direta da questão homossexual revela a importância fundamental do impulso homoerótico em todo ser humano, e contribui para delinear as problemáticas inerentes à sua repressão e à sua dissimulação. Sabemos que são “[…] nos desejos inconscientes reprimidos que encontraremos a essência de nosso ser, a explicação de nossas neuroses (enquanto a realidade seguir repressiva) e a ideia do que poderíamos chegar a ser, caso a realidade deixasse de nos reprimir”.[17]

A homossexualidade contém, ou às vezes oculta, um mistério. Dizer que tal mistério é o homem-feminino não basta, porém, para descrevê-lo e compreendê-lo. Nosso mistério, pelo que sabemos e intuímos, é muito mais que bissexual. E o mundo-da-vida é o tonal e o nagual[18]: para além da totalidade, está todo o resto.

O movimento gay revolucionário luta[19] pela (re)conquista de nosso ser misterioso profundo. Revelando o segredo histórico-existencial, até agora recolhido e conservado em nossa situação marginal, constrangido, durante milênios e por todos os anos oprimidos de nossas vidas individuais, a permanecer escondido, nós, homossexuais, com nossas vozes e todas as manifestações de nossa presença, trazemos à tona aquilo que, sem dúvidas, constitui um dos mistérios fundamentais do mundo. Talvez a homossexualidade seja, realmente, a chave da transexualidade[20]. Talvez a homossexualidade conduza a esse algo que, durante milênios, a exigência repressiva da Kultur tem sufocado.

A repressão da homossexualidade é diretamente proporcional à sua importância na vida humana e para a emancipação humana. Se voltamos nosso olhar ao massacre que nos dizimou durante séculos, é para que possamos entender melhor o antigo peso da condenação que, ainda hoje, pesa dentro de cada um de nós, para que possamos entender melhor de que maneira espetacular e ambígua tal massacre se perpetua em “nossos” tempos: e, por consequência lógica, para adquirirmos maior consciência da força revolucionária que jaz em nós, em nosso desejo.

Com seu domínio real, o capital busca se apoderar também do inconsciente, da “essência humana” cujas expressões manifestas eram forçosamente condenadas à morte pelos sistemas repressivos que o precederam. Isso ocorre porque hoje, talvez, seja mais difícil que o inconsciente exploda de forma descontrolada, dada a eficiência do condicionamento, ou, talvez, porque através da dessublimação repressiva, o capital permite que ele “emerja” através de determinadas formas alienadas, a fim de subsumi-lo,  a fim de privar homens e mulheres de acessá-lo, a fim e privar homens e mulheres de acessarem a si mesmos(as). A lógica do dinheiro e do lucro, que determina a liberalização das assim chamadas “perversões”, não é tão simplesmente um fato econômico: ela promove a subsunção ao capital da vida humana em sua totalidade.

Isso demonstra a árdua complexidade de nosso projeto revolucionário, voltado a reconhecer e a expressar uma humanidade que transcenda o capital, sem que se ofereça para ser devorado por ele. Em verdade, caso isso ocorresse, o capital nos regurgitaria a partir de suas próprias formas, a fim de que tal vômito nos alimentasse a fim de que reproduzíssemos uma nova “humanidade”, cada vez mais digerível, uma vez que já pré-digerida.

Tal é a razão pela qual devemos assumir posições extremas, não cedendo nem ao menos um centímetro no que diz respeito àquilo que realmente importa, nem renunciando jamais à luta intransigente pela liberação e conquista de qualquer aspecto de nosso ser-em-devir.

É graças à consciência disso que, nos últimos anos, muitos homossexuais têm afirmado a necessidade de forjarmos os instrumentos para uma luta autônoma (homônoma), de elaborarmos os termos de nossa própria teoria e de aprofundarmos a crítica à liberalização capitalista. A situação daqueles gays que se reconhecem como partes de um movimento (histórico, e não simplesmente formal), distancia-se daquela de André Gide, em seu caráter coletivo no qual o “sistema” da homossexualidade fornece uma “co-inerência”[21], na qual várias pessoas se sentem ligadas. Para nós, já não se trata de delinearmos um projeto antitético individual dirigido à moral comum, mas, sim, de construirmos um projeto intersubjetivo consciente das próprias responsabilidades gays e de seus próprios fins, caminhando para envolver em si toda a humanidade. Nós, homossexuais, devemos nos libertar do sentimento de culpa (e este é um dos objetivos imediatos de nossa luta) a fim de que o homoerotismo se difunda, “contagie”. Trata-se de fazer brotar água da rocha, de induzir os “absolutamente” heterossexuais a descobrirem sua homossexualidade, de contribuir, através do confronto e do choque dialético entre a orientação sexual da maioria e da minoria, a conquista de uma transexualidade, à qual remete a natureza polimorfa que subjaz ao desejo. Se a forma vigente da monossexualidade é a heterossexualidade, uma liberação do homoerotismo, a Cinderela do desejo, constitui uma etapa imprescindível da liberação do Eros. O objetivo (é necessário insistir sobre ele?) não é o de conseguir a aceitação do homoerotismo por parte do status quo hetero-capitalista, mas o de transformar a monossexualidade em Eros realmente polimorfo e múltiplo, de levar à prática e converter em gozo o polimorfismo transexual que existe potencialmente em cada um de nós, e que está reprimido.

Para conduzirmos de maneira realmente “homônoma”, original e originalmente subversiva a nossa luta, nós, lésbicas e viados, devemos refletir sobre tudo (ideais, teorias, análises, modelos de comportamento etc.) que, até agora, nos implicou e excluiu, ao mesmo tempo, uma vez resultado da elaboração da maioria heterossexual. Temos a tarefa gay de reinterpretar a tudo isso desde nossa própria perspectiva, visando enriquecer a concepção revolucionária da história, da sociedade e da existência, transformando-a.

Estamos mais que fartos de percorrermos caminhos que não nos levam em consideração, de aderirmos a sistemas morais e teóricos que fundam sua suposta credibilidade amplamente em nossa exclusão, no isolamento das temáticas homoeróticas (e somente nós somos capazes de expor de que maneira e o porquê isso ocorre). Estamos cansados de unir forças com aqueles que lutam por um ideal de futuro que, mesmo utópico, se parece, para nós, perigosamente com este presente desgraçado, uma vez que sequer considera a questão homossexual e seu vasto alcance a respeito dos beis da total emancipação humana.

Somente nós, gays, podemos entender que em tudo o que já foi silenciado de nossa história, nos segredos terríveis e sublimes dos banheiros públicos, sob o peso dos grilões com os quais a sociedade heterossexual nos aprisionou e submeteu, oculta-se a unidade de nossa (potencial) contribuição à revolução e à criação do comunismo.


Notas

[1] JULIAN, Philippe. Oscar Wilde. Torino: Einaudi, 1972, p. 227.

[2] MARCUSE, Herbert. L’uomo a una dimensione. Torino: Einaudi, 1967, p. 91. [ed. bras.: MARCUSE, Herbert. O homem unidimensional: A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1964, p. 82].

[3] LEVI, Corrado. Il lavoro di presa di coscienza: problematiche e contributi dal lavoro di presa di coscienza del collettivo fuori! di milano. Fuori!, Milão, v. 12, 1974, p. 3-5.

[4]  FUORI!. Dibattito: Discussione dell’articolo di Paola Elio Omosessualità e religione tra i membri del Fuori!. Fuori!, Milão, v. 12, 1974, p. 16-22.

[5] FUORI!. Dibattito: Discussione dell’articolo di Paola Elio Omosessualità e religione tra i membri del Fuori!. Fuori!, Milão, v. 12, 1974, p. 16-22.

[6] NICOLAS B. e JAEN L., “Homosexualité et militantisme: quelques réflexions de base” (Folheto produzido por ocasião do fim de semana teórico, ocorrido entre 13 e 14 de setembro de 1975), em Paris. Em seu texto, “Arcadie” se refere ao nome do movimento homossexual integracionista francês. Daí “De forma arcádica”.

[7] COLLETTIVO REDAZIONALE DI “FUORI!”. Gli omosessuali e l’utopia. Almanacco Bompiani: Utopia rivisitata. Milão, 1974.

[8] Neste livro utilizarei sempre as expressões “emancipação política” e “emancipação humana” no sentido que lhes atribui Karl Marx, em “Sobre a questão judaica”. “Emancipação política” significa, pois, a integração ao sistema, enquanto “emancipação humana” quer dizer libertação autêntica, revolução e comunismo.

[9] Nota da tradução: no original, a expressão utilizada é “être une folle”.

[10] CAMATTE, Jacques. Il capitale totale. Bari: Dedalo Libri, 1976, p. 151.

[11] ENGELS, Friedrich. Lo sviluppo del socialismo dall’utopia alla scienza. Roma: Samonà e Savelli, 1970, p. 86. [ed. bras.: ENGELS, Friedrich. Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico. São Paulo: Edipro, 2017, p. 73].

[12] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2017, p. 24.

[13] MARCUSE, Herbert. L’uomo a una dimensione. Torino: Einaudi, 1967, p. 168. [ed. bras.: MARCUSE, Herbert. O homem unidimensional: A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1964, p. 150].

[14] MARX, Karl. Lineamenti fondamentali della critica dell’economica politica. Firenze: La Nuova Italia, 1971, p. 391. [ed. bras.: MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 765].

[15] Eu não entendo por “natureza” humana algo definido, estável, imutável, absoluto ainda que oculto; não tenho ideias precisas sobre o que subjaz e é natural, e considero a “natureza” humana de forma materialista, como um devir, isto é, em relação com o período histórico e o contexto socioambiental, bem como com o desenvolvimento da dialética econômica e sexual.

[16] SARTRE, Jean-Paul. Baudelaire. Milão: Il Saggiatore, p. 40.

[17] BROWN, Norman O. La vita contro la morte. Milão: Il Saggiatore, p. 49. [ed. bras.: BROWN, Norman O. Vida contra a morte. Petrópolis: Vozes, 1972].

[18] Na edição inglesa, há uma nota dos tradutores explicando: “A referência de Mieli aos ‘tonali’ e ‘nagual’ diz respeito a conceitos próprios das culturas indígenas mesoamericanas: às palavras Nahuatl, respectivamente,  aos glifos diários (isto é, a marcação do significado místico do dia do nascimento de alguém, mas, também, no contexto evocado por Mieli, um vínculo espiritual existente entre a pessoa e um animal específico) e às pessoas com a capacidade mágica de mudar sua forma física à forma de um animal”. (MIELI, Mario. Towards a Gay Communism: elements of a homosexual critique.  1 ed. Tradução de: David Fernbach e Evan Calder Williams Londres: Pluto Press, 2018, p. 106)

[19] Em Italiano, a frase original é “Il movimento gay rivoluzionario (com)batte per la (ri)conquista del nostro essere misterioso profondo”, engendrando um jogo de palavras que se perde na tradução. Na explicação da tradução estadunidense: “O verbo ‘battere’ pode ser traduzido não apenas como ‘bater’, mas, também, como o ato de sair em busca de sexo [no jargão LGBT brasileiro ‘caçar’], colocando-se à disposição. O sentido aqui é de uma luta dupla, que remanesce igualmente erótica e política, e sempre coletiva”.

[20] Nota da tradução: Mieli cede à expressão “transexualidade” um sentido específico: “Neste livro, chamarei de transexualidade a disposição erótica polimórfica e ‘indiferenciada’ infantil, que a sociedade reprime e que, na vida adulta, todo ser humano traz consigo de maneira latente ou presa nos abismos do inconsciente sob o jugo da repressão. O termo ‘transexualidade’ me parece o mais adequado para expressar, de uma só vez, a pluralidade de tendências do Eros e o hermafroditismo original e profundo de cada indivíduo” (MIELI, 2017, p. 16).

[21] Nota da tradução: a expressão utilizada por Mieli é “co-inerenza”, em um jogo de palavras que sinaliza, em um mesmo movimento, a ideia de uma inerência compartilhada e de uma coerência política.

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