A crítica liberal às ações diretas bolsonaristas

Por Pedro Acácio

Sobre o oportunismo ao se criticar as ações diretas e a agitação golpista.

Desde que os bolsonaristas iniciaram o trancasso de uma série de rodovias em retaliação a vitória eleitoral de Lula, as diversas forças de esquerda, além de agitadores e propagandistas desta (sejam eles organizados ou não) vem fazendo reiterados apelos às forças policiais que “façam seu trabalho”, além de atacar esses trancassos dizendo que eles vêm atrapalhando a movimentação de pessoas e mercadorias, ou seja, a esquerda está pedindo à POLÍCIA que MANTENHA A ORDEM contra OS ARRUACEIROS.

É evidente, camaradas, que a burguesia por enquanto não tem interesse em uma ofensiva anti-Lula antes de sua posse, o próprio Bolsonaro, em pronunciamentos nos dias 2 e 3/11 disse, respectivamente, que os bolsonaristas não devem usar métodos da esquerda e que eles devem se desmobilizar e se manifestar de maneira pacífica. A burguesia não tem interesse em impedir a posse de Lula pois este garante a continuidade do projeto neoliberal (mesmo que um pouco mais suavizado), de forma que interessa tanto a esquerda do campo democrático-popular quanto à burguesia que se deslegitimem ações diretas no abstrato pois estas e outras formas de mobilização popular serão praticadas uma vez que o governo Lula evidenciar seu caráter. A própria Folha de São Paulo vem usando da mais antiga das demagogias quando se trata de greves de transporte e trancassos de rodovias: “as pessoas não terão o que comer, vai atrapalhar atendimento médico”, etc.

É oportunismo quase que didático cair na tentação da crítica fácil de apelar à ordem contra o bolsonarismo, mas nos lembremos de que os comunistas têm por papel educar as massas nas formas de luta, e fascismo não se derrota nas urnas, não se derrota com polícia. Se derrota com as massas mobilizadas, e para que as massas entendam a necessidade de se mobilizar para derrotar o fascismo, quando este atacar não podemos apelar à polícia que estabeleça a ordem batendo nos arruaceiros, e sim nos mobilizar e organizar as massas para que se mobilizem. Como podemos esperar adesão popular e uma consciência mais elevada do povo quando, nesses próximos quatro anos de Lula-Alckmin, fizermos um trancasso de rodovia?

Além disso, vários vídeos e notícias circulam de pessoas não organizadas em partidos ou coletivos políticos abrindo esses bloqueios à força. O caso mais notório é o da Galoucura e de outras torcidas organizadas (as quais não criticarei pois entendo que se trata de uma organização popular mobilizada), mas além disso, diversos vídeos de motoboys agredindo bolsonaristas e até um carro literalmente passando por cima das pessoas no bloqueio estavam sendo aplaudidos nas redes sociais.

Do campo democrático-popular que há décadas nada mais é que uma máquina de arrogância, ojeriza e boicote à mobilização popular, não se espera nada além de todo oportunismo baixo que 1) garanta o andamento do projeto burguês e neoliberal que defendem e 2) que deslegitime qualquer mobilização popular que fuja a seu controle. Por isso, não surpreende que a agitação petista na internet esteja louvando esse tipo de agressões isoladas contra os bloqueios bolsonaristas sem, em qualquer momento, fazer uma crítica política a esses bloqueios. Não apontam que se trata de um movimento fascista com massas relativamente organizadas e prontas para realizar ação direta, não se denuncia o conteúdo político do projeto de poder bolsonarista (como poderiam com Alckmin de vice), mas ficam batendo na forma da manifestação bolsonarista, buscando deslegitimar essa forma. Se fossem sérios em relação a desarticular o bolsonarismo, não veríamos todo tipo de influencer já após a vitória eleitoral falando em perdoar, em não disseminar ódio, se fossem sérios em relação a acabar com o fascismo, as campanhas eleitorais petistas teriam feito questão de criminalizar Bolsonaro, o Exército e a burguesia como responsáveis por um genocídio a serem julgados e condenados no Brasil com ampla mobilização popular (pra não dizer que não falei das flores, sempre há os patéticos apelos à Haia). O campo democrático-popular não é inimigo do fascismo, como diz a célebre tese comunista, eles não são a mesma coisa, assim como o ovo não é a mesma coisa que a galinha. E não podemos permitir que seja normal e aceitável aplaudir um carro passar por cima de um trancasso sem qualquer crítica ao conteúdo político desse trancasso, ainda mais quando esse carro nada mais era que um motorista individual com raiva que estava tendo seu cotidiano atrapalhado. Qualquer militante que tenha alguma experiência já passou pela situação de um motorista ameaçar e avançar com o carro, e provavelmente já viu essa ameaça ir às vias de fato e sabe o perigo que isso configura.

Não sejamos oportunistas, não caiamos na fácil desmobilização bolsonarista por meio de apelos policialescos à ordem nem pela deslegitimação despolitizada de formas históricas de luta que sempre serviram bem à esquerda e que voltarão a servir. Não podemos dar um tiro em nosso próprio pé em troca de uma fácil e falsa vitória agora.

[foto via O Tempo]

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