Os limites do antirracismo

Por Adolph Reed Jr., via Left Business Observer, traduzido por Gabriel Landi Fazzio.

Desde meados de agosto de 2014, o movimento de massas contra a violência policial racista nos EUA levanta uma série de questões sobre o sucesso do Sonho Americano – no país que aboliu a escravidão em meio a uma guerra civil e levou mais um século para efetivar o direito ao voto.
Em texto de setembro de 2009, Adolph Reed Jr. aponta o esgotamento da política antirracista dos Democratas diante da crescente desigualdade, pós-2008.


O antirracismo é o conceito favorito na esquerda estadunidense nesses últimos tempos. É verdade, todo bom tipo quer ser contra o racismo, mas o que o termo significa exatamente?

O discurso contemporâneo do “antirracismo” é muito mais focado em taxonomia do que em política. Enfatiza o nome pelo qual deveríamos chamar certas tensões das desigualdades – se elas deveriam ser amplamente reconhecidas como evidência do “racismo” – mais do que especifica os mecanismo que as produzem ou mesmo os passos que podem ser dados no combate a elas. E, não, nem “superar o racismo” nem “rejeitar a branquitude” se qualificam como um passo tal mais do que esperar pela “revolução” ou urgir pela intervenção celestial de Deus. Se organizar uma manifestação contra o racismo parece no pressente um ato político mais substantivo do que comparecer a uma vigília de reza pela paz mundial é apenas porque os ativistas antirracistas contemporâneos entendem estar empregando as mesmas táticas e perseguindo os mesmos objetivos que seus antecessores no período de alta insurgência na luta contra a segregação racial.

Essa visão é, no entanto, equivocada. O ativismo pós-guerra que atingiu seu ápice no Sul como o “movimento pelos direitos civis” não foi um movimento contra um “racismo” genérico: era especificamente e explicitamente voltado para direitos plenos de cidadania para estadunidenses negros e contra o sistema de segregação racial que definia um regime específico de subordinação racial explícita no Sul. Em 1940, o Movimento Marcha em Washington era inclusive voltado contra alvos específicos, como a discriminação dos empregados do setor industrial militar. A era dos Panteras Negras e a era pós-Panteras Negras se focaram, de modo similar, no combate às desigualdades específicas e perseguindo objetivos específicos, como o efetivo exercício do direito de voto e programas específicos de redistribuição.

Perda de nitidez

Queira considerar ou não esses objetivos corretos ou apropriados, eles eram nítidos e estratégicos de uma forma que o “antirracismo” simplesmente não é. Óbvio, essas lutas anteriores se deram sob um discurso de justiça racial, mas seus alvos eram concretos e estratégicos. É só em um período de desmobilização política que as especificidades dessas lutas foram cobertas das vistas em um idealismo romântico que as torna homogêneas em abstrações atemporais como “o movimento pela libertação negra” – uma entidade que, como Brigadoon, esporadicamente aparece e retorna impelida pela sua própria lógica.

Ironicamente, como base para a política, o antirracismo parece refletir, há muitas gerações, a vitória dos psicologistas do pós-guerra na despolitização da crítica da injustiça racial pela mudança de foco das estruturas sociais que geram e reproduzem  a desigualdade racial a um finalmente individual e ahistórico domínio do “preconceito” ou da “intolerância”. (Sem dúvida essa mudança foi parcialmente ajudada por imperativos políticos associados à Guerra Fria e ao anticomunismo interno.) O livro recente de Beryl Satter sobre a economia política racializada da “casa própria” na Chicago dos anos 50 e 60, Propriedades Familiares: Raça, Imóveis e a Exploração da América Urbana Negraé uma boa ilustração de como esse processo funcionou; o livro de Robert Self sobre Oakland desde os anos 30, Babilônia Americana, é outro. Ambos tornam abundantemente nítido o papel da indústria imobiliária na criação e na recriação da segregação habitacional e na guetificação.

Coelho saboroso

Com muita frequência, o “racismo” é tema de frases que implicam atividade intencional ou é caracterizado como uma “força” autônoma. Neste tipo de formulação, o “racismo”, uma abstração conceitual, é imaginado como uma entidade material. Abstrações podem ser úteis, mas elas não deveriam ter vida independente.

Eu posso apreciar tais formulações como uma retórica política transitória; reivindicações hiperbólicas feitas a fim de chamar atenção e galvanizar a opinião contra alguma injustiça particular. Mas, como base para a interpretação social e particularmente interpretação voltada para a ação política estratégica, elas são inúteis. Sua função principal é para que sejam apreciadas saborosamente como justas na boca de quem as propõe. As pessoas fazem coisas que reproduzem padrões de desigualdade racial; às vezes com motivos conscientemente intolerantes, às vezes não. Propriamente falando, no entanto, “racismo” em si não faz nada mais do que o coelhinho da Páscoa faz.

Sim, o racismo existe, como a condensação conceitual de práticas e ideias que produzem, ou buscam reproduzir, a hierarquia em termos definidos por raças. Apóstolos do anti-racismo frequentemente não podem ouvir esse tipo de declaração, porque, em sua versão excessivamente simplista do nexo da raça e da injustiça, só pode haver dicotomias maniqueístas daqueles que admitem a existência do racismo e daqueles que o negam. Só pode haver Todd Gitlin (o sociólogo e ex-líder do SDS que se tornou de forma justa e caricatural, o símbolo de uma linha de “classe antes de tudo”) que considera a si próprio, heroico e sincero, e quem quer que não seja o segundo deve ser o primeiro. Assim, a lógica de esforço para atribuir culpa por associação substitui o argumento.

Minha posição é – e eu não posso contar o número de vezes em que eu já disse isso sem rodeios, ainda que sem sucesso, em resposta aos bem-aventurados prisioneiros do maniqueísmo reconfortante – de que, naturalmente, o racismo persiste em todo o tipo de disparate e muitas vezes sem relações sociais e “atitudes” que são caracteristicamente agrupadas sob essa rubrica. Mas, do ponto de vista de tentar descobrir como combater aquilo que a maioria de nós concordaria que é desigualdade racial e injustiça, esse reconhecimento e R$2,25 vão me fazer conseguir uma só viagem de metrô. Esse reconhecimento não se presta a qualquer ação particular, exceto a produzir mais argumentos taxonômicos sobre o que conta ou não como racismo.

O que fazer agora?

E aqui está o ardil-22 prático: na lógica do antirracismo, a exposição do elemento racial de um âmbito de mal-feito levará ao reconhecimento da injustiça, o que por sua vez levará à ação que a remediará – ainda que não muita atenção pareça ser dada a como essa parte supostamente funciona. Eu suspeito que isso é porque a parte da exposição, que nos faz sentir tão bons sem pedir nada em troca, é o foco real. Mas essa exposição convence apenas aqueles que já estão dispostos a reconhecê-la.

Aqueles que não estão tão dispostos têm múltiplas camadas de ideologia ofuscante, em sua maioria formas de apontar vitimizações, pelas quais negar os dados suportes das disparidades do racismo ou mesmo o injusto. A reação do júri de Simi Valley ao vídeo de Rodney King, que viu King como agressor e os policiais como vítimas, é a ilustração clássica. Assim é também com o discurso da “subclasse”. A vitimização pela crise hipotecária do subprime pode ser, e frequentemente é, descartada como culpa de pessoas pobres irresponsáveis aspirando além de seus meios. E não faltam pessoas negras nos espaços públicos – Bill Cosby e Oprah Winfrey são dois ótimos exemplos, bem como Barack Obama – que abraçam e reciclam essas narrativas sobre o comportamento imprevisível e os hábitos autodestrutivos dos estadunidenses negros pobres.

E como a mera narrativa do “racismo” descreve o fato de que tantas instituições negras, incluindo igrejas e algumas organizações sociais, e muitos, muitos indivíduos negros ativamente promoveram tais hipotecas arriscadas como forma de fazer o “Sonho Americano da casa própria” possível para “nós”? É verdade, há analogias à disposição – traficantes negros de escravos, delatores entre os escravos, “Tios Tom” e vários traidores de raça – mas essas analogias são julgamentos morais, não explicações. E mencioná-las apenas abre outro debate de segunda ordem sobre autenticidade racial – sobre quem “realmente” representa a comunidade negra. Mesmo Clarence Thomas vê a si próprio como um orgulhoso homem negro representando os melhores interesses da raça.

Meu ponto é que é politicamente mais eficaz desafia a desigualdade e a injustiça diretamente e passar direto pelo debate sobre o que deve ou não ser chamado “racismo”.

Eu reconheço que, em parte devido às condições em que foram alcançadas as vitórias do movimento pelos direitos civis, há um forte imperativo prático para que se enfatize os aspectos raciais das injustiças: eles têm solução legal. A raça é uma das classes protegidas pela legislação antidiscriminação; a pobreza, por outro lado, não é. Mas isso faz a identificação do “racismo” um requisito técnico para que se siga em certas outras queixas, não a base para uma estratégia política global para para a busca da justiça racial, ou, como eu acredito que é uma formulação mais nitidamente de esquerda, igualdade racial como um componente essencial de um programa de justiça social.

Anti-Marx

Fui atingido pelo nível de anti-marxismo visceral e virulento que tenho visto desta linha de defensores do antirracismo como política. Não está nítido para mim o que impulsiona isso porque se assume a forma de dispensa sarcástica ao invés de argumentos diretos. Além disso, a dispensa tipicamente inclui o vazio reconhecimento de que é “óbvio que deveríamos nos opor ao capitalismo”, o que quer que isso signifique. Em qualquer caso, o teor desse anti-marxismo é reminiscência daquele discurso e direita, muitas vezes mascarado como liberal, no qual meramente invocar a palavra “marxismo” era suficiente para descartar um argumento ou uma posição.

Esse anti-marxismo tem alguns feitos curiosos. O líder antirracista profissional Tim Wise saiu em defesa do czar dos empregos verdes de Obama, Van Jones, desconsiderando o “breve flerte com um grupo pseudo-maoista” de Jones, pontuando ao invés disso, “sua ruptura recente com tais grupos e filosofias em favor de um compromisso com um capitalismo eco-amigável e sustentável”. De fato, Jones era um membro importante de uma organização revolucionária, STORM, que levou-se bastante a sério, quase que comicamente.

Devemos aplaudir sua ruptura coma política radical em favor de um estilo de capitalismo que poucos capitalistas de verdade abraçam? Essa a substância da defesa de Wise.

Esse tipo de coisa apenas aprofunda as minhas suspeitas sobre o estado do antirracismo no interior da zona de conforto do discurso do neoliberalismo sobre “reformas”. Mais do que isso, eu suspeito também que essa imersão em direção ao radicalismo está enraizada parcialmente na convicção de que uma política de esquerda com base na análise de classes e focada na injustiça racial são alternativas maniqueístas.

Devoluções

Esta é também uma noção de proveniência relativamente recente, em parte outro produto dos termos em que as vitórias dos direitos civis foram consolidadas, incluindo a emergência de uma classe política negra completamente na década de 1970 e sua evolução posterior. Por outro lado, examinando, por exemplo, as contribuições para o volume de 1944 de O Que o Negro Quer, do historiador e ativista dos direitos civis Rayford Logan, vê-se um quadro completamente diferente. Quase todos os participantes – incluindo conservadores declarados – desta coleção de análises de um amplo escopo de estudiosos negros e ativistas afirmou em termos muito concretos que a luta por justiça racial e a luta geral pela democracia social e industrial eram mais do que inseparáveis, que a vitória do primeiro dependia enormemente do sucesso do segundo. Na época, essa mal era uma questão para debate: em vez disso, era o quadro de referência para qualquer política negra de massas e atividade de protesto.

Como eu sugiro acima, várias pressões do pós-guerra – incluindo as migalhas de sucesso e os cassetetes de intimidação e a caça às bruxas, bem como a articulação das tensões de classe dentro do próprio movimento dos Direitos Civis – desenvolveram uma evolução para longe dessa perspectiva e em direção a uma reformulação do objetivos do movimento em torno de linhas mais consoantes com o pós-guerra, o pós-New Deal, o liberalismo da Guerra Fria. Assim, o que o cientista político Preston Smith chama de “democracia racial” veio gradualmente para substituir a democracia social como meta política – a reparação de injustiças que pudessem ser interpretadas como especificamente raciais tomou precedência sobre a redistribuição da riqueza, e uma psicologia individualizada substituiu noções de reformulação da esfera material. Esta dinâmica se intensificou com a combinação de desmobilização popular na política negra e emergência da classe política negra pós-segregação nas décadas de 1970 e 1980.

Vivemos agora sob um regime que é capaz de, simultaneamente, de incluir os negros e latinos, mesmo celebrar essa inclusão como um cumprimento da democracia, enquanto exclui as pessoas pobres sem um gemido de oposição. Naturalmente, aqueles mais visível na classe excluída são negros e latinos em maioria desproporcional, e esse fato desmente a celebração. Será? Do ponto de vista de um ideal neoliberal de igualdade, em que a classificação por raça, gênero, orientação sexual ou qualquer outra recebeu condição de inscrição (isto é, condição com base no que alguém alegadamente é mais do que no que esse alguém faz) não impõe limitações explícitas, intrínsecas ou necessárias sobre a participação e as aspirações de alguém na sociedade, esta celebração da inclusão de negros, latinos e outros se justifica.

Nós voltaremos!

Mas essa noção de democracia é inadequada, uma vez que não começa a abordar os padrões profundos (e que se aprofundam) das desigualdades e das injustiças embutidas nas ostensivamente “neutras” dinâmica do capitalismo estadunidense. O que A. Philip Randolph e outros – mesmo anticomunistas como Roy Wilkins – entenderam nos anos 40 é que o racismo significava uma dinâmica sem resistência, os negros e outras populações estigmatizadas de forma semelhante seriam agrupados no lado ruim da distribuição dos custos e benefícios. Para extrapolar anacronicamente para o presente, eles teriam compreendido que a luta contra as disparidades raciais na saúde, por exemplo, não tem chance real de sucesso separado de uma luta para eliminar o cuidado médico com fins lucrativos.

Estes parecem pontos realmente transparentes para mim, mas talvez seja só comigo. Eu permaneço curioso sobre porque o “debate” sobre o antirracismo enquanto política toma formas tão indiretas e evasivas  – como a analogização e a culpa por associação, moralismo bombátisco em vez de argumento concreto – e por que persiste estabelecendo, mesmo que muitas vezes negue o movimento, os termos do debate como sendo “raça vs. classe”. Estou cada vez mais convencido de que a razão provável é que a linha de raça é em si mesma uma linha de classe, uma que é inteiramente coerente com a redefinição neoliberal da igualdade e democracia. Ela reflete a posição social daqueles posicionada para se beneficiar da visão de que o mercado é um sistema justo, eficaz ou mesmo aceitável para recompensar o talento e a virtude e punir seus opostos e que, portanto, a remoção de impedimentos “artificiais” ao seu funcionamento como raça e gênero vai torná-lo ainda mais eficiente e justa.

A partir desta perspectiva, mesmo a fala de “esquerda” do antirracismo, de que devemos combater tanto a desigualdade econômica quanto a desigualdade racial, que parece sempre na prática dar prioridade a “combater o racismo” (muitas vezes teorizada como uma precondição necessária para fazer qualquer outra coisa), parece suspeito como apenas mais uma versão da política evasiva do “nós voltaremos para vocês” (depois de fazer todas as coisas boas para negócios) que os Democratas têm empregado com tanto sucesso para evitar abordar a injustiça econômica.

*Adolph Reed Jr. é professor de ciência política na Unidade da Pennsylvania.

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