Cristianismo Ostentação: ou o teológico-político explicado pela fé remake

Por Fran Alavina

Nenhum segredo é segredo perfeito, senão o que passa a ser ignorância; porque o segredo que se sabe, pode-se dizer; o que se ignora, não se pode manifestar”, (Padre António Vieira, Antologia de Sermões).


  1. Antes da ostentação: ânimo dócil, paixão rendida

Um diagnóstico teórico, ainda que breve, sobre as condições políticas do presente se deterá, certamente, na forte presença da Religião, enquanto âmbito determinante do ser social, que estende seus elementos constituidores para além da consciência dos professos. Não precisa ser religioso, ou mesmo um crente pouco praticante para sentir, por vezes na própria carne, as invasões do teológico no campo político. Em verdade, o poder da Religião, na maioria das vezes, é aferido do modo como ela se abate sobre aqueles que estão fora de seu âmbito, ou que considera seus adversários. Quando ela pode pouco contra estes, sem assumir-se fraca, se diz perseguida; quando pode perseguir, justificando falar em nome da verdade, se considera forte. Assim, parece estar sempre em cima de um cadafalso: algumas vezes para empurrar, outras se dizendo empurrada. Um púlpito, inúmeras vezes, não é outra coisa que um patíbulo onde se prega.

Cumpre ressaltar, desde já, seja ao leitor arguto, por isso benevolente; seja ao leitor desatento e, em particular, ao leitor deturpador, pois indisposto por princípio, que a argumentação deste texto não incide sobre a validade da fé. Isto é, não a deslegitima como âmbito capaz de estabelecer sentido comum; nem tampouco almeja ser um pequeno tratado de ateísmo, como tantos outros existentes, e que não apenas fazem da crítica da religião outra religião, a religião da desrealização, mas também se tornam um nicho de mercado rentável. Trata-se de demonstrar um dos modos de atuação do campo religioso na atualidade (a fé remake), e como a Religião, em sua versão judaico-cristã, pode operar com elementos estranhos à Democracia. Por conseguinte, o caráter desestabilizador provocado pelas invasões e contaminações do teológico no campo político.

Tais invasões, do teológico no campo político, são hodiernas, uma vez que é próprio da Religião reger o cotidiano com traçado dinástico. Dotando de um sentido externo, por isso considerado superior, até mesmo os atos e falas mais ínfimos. Na vida do crente, as coisas adquirem um sentido sagrado, isto é, um sentido último inviolável, justamente porque o próprio sujeito não identifica em si mesmo o centro de gravidade de suas ações. Ele, o crente, pode até se considerar o condutor do barco de sua vida, mas a rota e a direção seguidas sempre lhe escapam[1]. Dirige, mas não guia[2].

Dessa maneira, o praticante vive, pelo menos ao nível pessoal, segundo um regime despótico. Uma vez que é próprio daqueles que se submetem a um déspota agir não pela própria deliberação, mas pela simples obediência à vontade de outro, ainda que essa vontade seja apenas caprichosa. Conforme, no Tratado Teológico-Político, pondera Espinosa: “não é, efetivamente, a razão da obediência, mas sim a obediência, que faz o súdito[3]. Por conseguinte, quando alguém diz que tudo o que possui pertence a Deus, compreende-se que não foram apenas alienados os seus bens materiais, mas antes de tudo, se alienou a própria vontade e o próprio ânimo. Ao que se pode concluir, ainda com Espinosa, que “o maior poder é o daquele que reina sobre os ânimos (…)[4]. Em outros termos, trata-se de uma forma de poder exercida na manipulação do desejo, no direcionamento da vontade e no rapto das paixões[5].

Desejar, querer e sentir por simples obediência. Mecanismos de uma forma de poder que incide diretamente sobre o fórum íntimo, suscitando uma passionalidade cuja constituição nunca é uma atividade do próprio sujeito. O desejo, a vontade e a paixão são deslocados “para fora”, operam à revelia. Somente quando a paixão está rendida é possível direcionar a vontade. Sendo certo que a passionalidade desenfreada cega, quem está à revelia de seu desejo e de sua vontade, estranhado de suas paixões, forçosamente está em escuridão maior que a cegueira da paixão desmedida. Em tal estado, se faz necessário um guia. Ora, deixar-se guiar não é está completamente dócil? Quando os que necessitam de guias são muitos, as condições para a formação do rebanho já está dada.

Ademais, se consideramos que no campo político as paixões individuais tomam forma maior no espectro das paixões coletivas, o ódio político se amplifica quando é precedido, ou posteriormente referendado pelo ódio teológico. Se aquele é uma paixão cuja gênese está nos conflitos imanentes ao campo político, este é identificado como algo acima da mera passionalidade humana. Logo, ser o “(…) pior dos ódios (…), isto é, o ódio teológico[6]. Tal tipo de ódio encontra seu elemento de justificação na piedade, ou seja, na obediência a Deus. Quando odiar torna-se algo piedoso, a fúria desmedida reina absoluta, pois o exercício do ódio se faz sem impedimentos externos.

Neste registro, Deus é concebido segundo a imagem do soberano, (nunca se diz que Deus preside, mas que reina; ele não tem cátedra, mas trono), por sua vez, o fiel comporta-se como súdito, isto é, o obediente. Assim, a Religião se constitui e se expressa em termos de mecanismos monárquicos. Não por outro motivo, a hierarquia católica, sempre que confrontada a considerar a opinião de seus fiéis, se apressa em afirmar: “a Igreja não é uma democracia, o sínodo não é um parlamento”. Ademais, dirigir, mas não guiar, é o cerne da lógica da eleição divina que, mesmo fora de seu regime teocrático originário, se mantém viva no nível individual.

Se a teocracia parece ser uma forma política estranha ao homem deste início de século, isto não significa que a intensidade daqueles que professam ser Deus o governante de suas vidas tenha diminuído. Ao contrário, esta intensidade aumenta à medida que caem em descrédito os ideários e proposições políticas de longo alcance. A voz da Religião sempre encontra os melhores ouvidos para seus préstimos nos lugares em que a eficácia da ação humana é desacreditada Por isso, ainda é atual a máxima de Feuerbach: “o segredo da teologia é antropologia[7].

Todavia, se quisermos usar o jargão pós-moderno, o retorno do religioso se dá no preenchimento do vazio deixado pelas metanarrativas. Aqueles grands récits da modernidade, nos quais a ação política coletivamente bem ordenada traçava com seguridade a rota do futuro. Neste caso, o sentido da história é sempre imanente, nunca transcendente (talvez a Filosofia da História de Hegel seja o caso mais expressivo de uma história de sentido imanente, pois sustenta que o telos [fim] da história já se encontra em seu início). Não haveria então espaço para um ordenamento preestabelecido, uma história providencial. Com a Modernidade, a história começa a ser retirada dos registros soteriológico e escatológico[8]. A história da salvação não é a História, mas uma história no meio de tantas outras narrativas de sentidos possíveis para o curso das ações humanas na longa duração. Somente quando o particular assume-se como ponto de vista universal se passa de “uma história” para “a história”.

Dessa maneira, quando o âmbito político é identificado como incapaz de solucionar os grandes problemas, ou seja, no momento em que o poder político parece aceitar sua derrota ante a imposição do império econômico; quando os liames coletivos se enfraquecem, como nos nossos tempos de egoísmo maduro e insensatez do capital (para usarmos os termos de Pietro Barcellona), portanto no momento em que os interesses privados avançam sobre os públicos, os agentes políticos humanos são substituídos por Deus, (ou por um que tome o seu lugar, o mercado). Nisto reside o propalado retorno da Religião, que o conluio entre uma parte da academia e os meios midiáticos, expresso na figura dos intelectuais homologados, imputa, na maioria das vezes, somente aos fundamentalismos da religião islâmica.

No lado cristão ocidental, contudo, o avanço do teológico sobre o político não é inexpressivo, porém crescente. Como no caso ocidental este retorno é precedido pela descrença na política, o retorno do religioso apresenta-se como compensação. Mas como toda compensação detém sempre um resquício de negatividade, uma vez que se trata de amenizar uma perda, a Religião opera com renovada força, pois repara perdas de naturezas distintas: compensar o vazio da negação da política com conteúdo teológico. O teológico, assim, não está apenas imiscuído no político, mas também intenta tomar o seu lugar. Não se trata apenas de indistinção, porém de usurpação.

Com efeito, como a ação divina demanda os meios adequados (é uma tese clássica da escolástica cristã que a “graça pressupõe a natureza”, a ação divina supõe um meio adequadamente disposto para a sua ação), o governo da providência não se faz sem mediações: até mesmo Deus demanda esferas representativas. O governo divino também ocorre por representação, assemelhando-se às democracias representativas, uma vez que é necessário que alguém seja não apenas o “porta-voz”, mas também o intérprete legitimado pela autoridade dos desígnios da vontade divina. Este não sendo Deus, fala por ele; logo o representa, posto que é da natureza da representação a existência de algo que não está por si, mas por outro. O fundamento da representação assenta-se na impossibilidade de uma relação direta, logo ser necessária a representação como mecanismo mediador. Por conseguinte, pode-se apontar o caráter da representatividade como ponto de intercessão entre certas formas teocráticas e democráticas[9].

É por este caráter comum, a representatividade, que é possível compreender as vozes teocráticas, os discursos de tipo teológico-político que mesmo possuindo elementos estranhados aos regimes democráticos se instauram no seio de democracias ditas laicas. Para aferir a validade disto não é preciso ir longe, confrontar, por exemplo, o Oriente Médio islâmico com a Europa cristã (como sempre faz a babel midiática); para tanto basta voltar-se para o parlamento brasileiro. No congresso nacional há quem proponha leis não apenas citando, mas baseando-se em versículos bíblicos. Não apenas invoca-se o nome de Deus, como também se vota em nome dele; e há ainda, o caso mais extremo, aqueles que profetizam nas seções plenárias parlamentares. Profetizam, isto é, exercem um ofício religioso quando a finalidade é apenas e estritamente política. Contudo, este último caso não chega a ser espantoso, uma vez que consideram lícito realizar cultos religiosos nos locais que tem por única finalidade a prática política institucional.

Assim, os limites entre o público e o privado inexistem: apaga-se a diferença entre a liberdade individual da profissão de fé e a submissão do espaço público aos ditames do credo professado. Por conseguinte, a letra escriturística passa a estar acima da letra constitucional; o ordenamento civil deve estar genuflexo diante da prescrição religiosa. Quem conhece o congresso nacional, não estranha aqueles que querem criar um califado em pleno século XXI. A lógica do teológico-político é ecumênica, pode estar em qualquer credo, basta que se retirem os intrínsecos fundamentos terrenos da política para identificá-los como celestes. Quem se diz espantado com o estado islâmico, mas julga normais as perversas patologias religiosas do parlamento brasileiro, certamente oscila entre a alta hipocrisia dos cínicos e a baixa argúcia dos incautos.

Assim, explica-se a ação dos “representantes de Deus”, aqueles que dizem falar não em nome próprio, tal como um político diz falar em nome de seus eleitores. Neste caso, eleição é sinônimo de sufrágio; naquele, é sinônimo de escolha. Todavia, nos dois âmbitos o eleito é sempre sinônimo de escolhido: seja por Deus, ou pelos votos. Observe-se que nos dois casos, por se tratar de representação, que existe pela impossibilidade da relação direta, a autoridade da ação nunca reside no agente próximo, porém sua causa é remota. O representante diz falar e decidir pelos representados (eleitores), ou pelo representado (Deus), nunca por ele mesmo. Quando um religioso se apresenta ou é apresentado aos companheiros de confissão religiosa como sendo seu suposto representante político institucional dentro de uma Democracia, ele aparece, com a imagem de alguém escolhido, antes do voto, por Deus. Aqui a representação teológica antecede a representação política, e por isso se considera legitimada para se opor a qualquer lei considerada contrária, ou simplesmente destoante à interpretação do texto escriturístico, (é este o fundamento da proposta que dá às Igrejas o direito de questionar leis no STF). Ora, onde a prescrição religiosa é imposta a todos como lei; onde políticos validam seus votos parlamentares afirmando fazer em nome de Deus, ainda que dentro de um regime democrático, já se opera segundo mecanismos teocráticos.

Veja-se, pois, o quanto o avanço da Religião, isto é, do teológico sobre o político, é desestabilizador para uma Democracia, pois os mecanismos religiosos se expressam em uma funcionalidade monárquica. Uma vez que a escolha do representante político é aceita como a vontade de Deus que valida a ação de um determinado grupo religioso, e a vontade divina é concebida como algo nunca complemente perscrutável, a imagem do monarca e a figura do mistério tornam-se justificativas aceitáveis. Ora, o que pode haver de mais antidemocrático que a imagem do monarca, isto é, a concepção de que a vontade de um se sobrepõe à razão dos demais? O que pode ser mais danoso ao regime político que se pauta pela transparência do que a aceitação do mistério como justificativa? De um lado, uma concepção política que supõe a imanência, a constituição livre de mediações, o reconhecimento do conflito e a potência de uma passionalidade ativa; do outro lado, um mecanismo que opera apoiando-se na transcendência, nas mediações arbitrárias, na negação do conflito, pois identifica o fiel como obediente; e, supondo uma passionalidade rendida, sujeitada aos caprichos de uma afetividade estranhada.

Reconhecido que a Religião, em sua faceta judaico-cristã, contém elementos estranhos ao regime político democrático, deve-se, contudo, compreender o modo como ela opera fora do âmbito político institucional, pois é neste âmbito que se assenta a legitimidade de sua valência social. Se há, em uma democracia representativa, quem diz fazer política institucional em nome de Deus, é porque os eleitores corroboram tal acepção, na qual a democracia é sujeitada aos mecanismos antidemocráticos. Com efeito, a sustentação social possibilitadora que grupos religiosos avancem sobre a política institucional explica-se pelo construto teórico da fé remake: a aliança entre a religião e a cultura pop. Aliança possível com base na excitação: uma excita pelo entretenimento; outra excita pela fé. Se nesta primeira parte do texto a questão é o estranhamento, na segunda trata-se de adequação-homologação.

 2. Ostentar: a excitação exibicionista e desmedida como mandamento

De fato, o hedonismo se caracteriza por uma ociosidade pachorrenta e empolada, por uma autocomplacência indolente e melíflua, por uma falta de energia presunçosa e obtusa, que só consegue vangloriar-se do próprio saber viver, da própria habilidade em passar de gozo em gozo (…)”, (Mario Perniola, O sex appeal do inorgânico).

Ostentar é a máxima para qualquer existência que se queira integrada na atualidade. A ostentação é o selo da homologação, pois o consumo é o ato homologador. Sendo a finalidade o consumo, a ostentação é seu coroamento. Ostenta-se tudo. Perdura, a ostentação, não como perenidade, mas perdura na caducidade. Ostentar é um ato efêmero, como quase toda visibilidade contemporânea, mas sua efemeridade dobra toda perenidade arrogante. A ostentação perdura por não se apresentar sempre de modo singular, como algo único e sem repetição, pelo contrário perdura exigindo uma repetição incomensurável.

Ocorre uma liturgia da cópia, demandada pela ordem cultural prevalente: a cultura pop. Esta não é apenas expressão da ordem econômica, mas também um nicho de mercado rentável, pois entreter em tempos de excitação atópica e desmedida não é, há de se convir, tarefa das mais fáceis. O ato de ostentação se finda rapidamente, ele não deve durar mais que seu imediato reconhecimento social. Logo, a ostentação precisa ser replicada infinitamente, perdurando, portanto, na repetição. Sem repetição não há durabilidade, todavia não se identifica aí uma repetição de tipo mimético. Trata-se de uma repetição ao modo remake, conforme a definição de remake assinalada por Omar Calabrese, em sua obra: A Idade Neobarroca.

O remake não é uma mera cópia, uma repetição simplória. No registro do remake, não há novidades absolutas, singularidades impossíveis de se tornarem cópias, cabem apenas pequenas mudanças que não alterem a forma. Ao modo remake não se exige um modelo a partir do qual se possa realizar uma sucessão de cópias, no horizonte remake é possível repetir a si mesmo abandonado qualquer aspiração de originalidade, portanto, no modo remake, se está no âmbito da cópia da cópia, que toma o lugar da originalidade, uma vez que é a adequação ao gosto uniformizado. A diferença entre as cópias não está tanto na qualidade de copiar, mas na visibilidade. Quanto maior a visibilidade, maior a exercitação provocada.

Ora, a junção de visibilidade e excitação desmedida é a ostentação. Ademais, como se está no âmbito do gosto uniformizado, a forma da ostentação é única. Tal forma não faz qualquer tipo de discriminação: se todos são propensos consumidores, portanto são potenciais ostentadores. A única diferença se aloja ma quantidade e na qualidade dos bens consumidos. Por isso, no caso do espaço simbólico do sacro, a forma da ostentação é a mesma, ainda que os credos destoem. Existindo uma forma unívoca, há um mesmo modo de visibilidade para todos. Trata-se de um ecumenismo já realizado, perversamente realizado: o ecumenismo da ostentação feito pela fé remake. Ou seja, um tipo de atuação da religião que se dá no processo de copiar cópias. Copiar o entretenimento massificado. Neste sentido, os verborrágicos pastores midiáticos, os padres cantores, sempre com o sorriso da beleza padrão, são expressões da cópia da cópia. Trata-se da estratégia da religião de excitar não por aquilo que ela detém de específico, mas pela adequação ao status quo.

Apenas se repete sob o signo do sacro, aquilo que é feito no campo do profano. Por conseguinte, dissolve-se a diferença entre sagrado e profano. A religião quanto mais midiática mais se conduz pela fé remake. Portanto, um tipo de religiosidade que opera segundo os mesmos mecanismos da cultura pop. O espectador e o fiel tornam-se um só: por isso, a diferença entre um fã de um astro pop e um fiel neopentecostal ou carismático é apenas o nível da excitação, pois se trata de um mesmo tipo de excitação.  Com efeito, todos querem tomar parte no espetáculo, nem que somente seja oferecido o papel de figuração, pois ficar de fora do espetáculo significa o fracasso social. Por conseguinte, a fim de evitar o fracasso, uma parte considerável do cristianismo ocidental resolveu unir e ostentação.

Na contemporaneidade são considerados reais, depositários de crédito e afetividade somente o que faz sucesso, porém, cumpre lembrar, este último só é alcançado com visibilidade, ou seja, com ostentação. Assim, para não perder espaço, o cristianismo ocidental, em suas mais diversas denominações, não viu outra saída para sobreviver ante o avanço da secularização, senão adequar-se.

Na cultura do sucesso permanece somente quem adquire visibilidade, quem se reduz à sua própria imagem ostentatória, quem excita a si mesmo e os outros valendo-se dos meios dispostos pela mídia e pelo mundo virtual. Desse modo, nos mais diversos âmbitos todos são chamados a serem empreendedores de sua própria imagem: publicitários de si. Logo, se para permanecer é preciso unir visibilidade e excitação, ambas midiáticas, não resta outra coisa senão copiar o estabelecido. Neste caso, as Igrejas Neopentecostais, no lado protestante, e a Renovação Carismática, no lado católico, foram os primeiros empreendedores. Reforçando o modelo da fé remake, que além de se adequar ao status quo das perversidades imagéticas, o reproduz, fundando-se na categoria sagrado. O proclamado “reavivamento do espírito”, está envolto na soberania da visibilidade desmedida e na excitação ilimitada.

Trata-se de um pentecostes midiático, no qual todos se entendem não em virtude de falarem a mesma língua, mas porque são expressões de uma mesma uniformização. Exemplos não faltam, programas de TV, verdadeiros talk shows da fé; adorações que se consomem na transmissão ao vivo; louvações na madrugada que em nível de excitação não perdem em nada para uma rave; glórias e hosanas que podem ser ouvidos mesmo quando se desliga o áudio do aparelho transmissor. Os gritos, que tomaram o lugar da fala, não cumprem apenas uma função retórica na ordem do discurso religioso, mas expressam o nível de excitação. Um nível tal que a mera repetição do tradicionalismo não pode oferecer. Na simbiose entre religião e cultura pop, evangelizar tornou-se, antes de tudo, um ato de excitação: sociedade excitada, religião excitada. Aparecimento, portanto, de uma religião estética.

Em um mundo no qual o real tornou-se pesado de mais, o fardo não pode ser mais aliviado pelas formas de lazer tradicionais. É preciso manter-se anestesiado. Mas no caso da sensibilidade contemporânea o efeito anestésico só ocorre quando a excitação alcança um nível extraordinário. É necessário sentir exageradamente para sentir infimamente. Quem quer sentir tudo, sempre e com a mesma intensidade, em verdade, não tem sensibilidade, uma vez que não reconhece mais a diferença entre ordinário e extraordinário. Um nível de excitação que faz com que o real apareça como ficção, ou seja, um nível de excitação que anestesia. Em tempos da amplitude do âmbito estético, o efeito é o contrário do que se mostra na superfície: a estética não é mais que anestética.

Ora, para anestesiar bem é preciso apartar os laços comuns de pertença, afastar-se da concretude do real, reduzindo o sentir à mera disposição anímica individual e não mais como disposição coletiva. Isto faz a religião midiática: proporciona uma fé intimista e egoísta. Não poderia ser diferente, pois o real é sentido como ficção, e é próprio de toda ficção bem sucedida gerar no espectador o sentimento de que a ordem de sentido que se assiste não pode ser alterada. Os efeitos da anestesia religiosa midiática não é um simples “ópio do povo”, uma vez que sua capacidade alucinógena tem efeitos mais fortes e duradouros do que o narcótico da papoula. Ademais, no “ópio do povo”, havia povo, ou seja, um sentir compartilhado, hoje se observa apenas narcisos frágeis que reproduzem a lógica perversa das idiossincrasias contemporâneas, que medem o mundo pelas visualizações de suas selfies, fazendo do real uma sucessão da visibilidade de corpos sem carne. Súditos pelos mecanismos monárquicos da religião, por um lado; por outro, espectadores de uma excitação intimista e alucinante na religião midiática. Confirmação dos ânimos dóceis e da paixão rendida: elementos enfraquecedores de qualquer forma política institucional que se queira democrática.


[1] “Quem tem um fim último, tem uma lei acima de si. Não se limita a conduzir-se, é conduzido”, Cf. FEUERBACH, Ludwig. A Essência do Cristianismo. Trad. br. Adriana Veríssimo Serrão. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 70.

[2] Talvez o exemplo mais didático desta concepção esteja nos adesivos de carro, nos quais se lê: “Deus no comando”.

[3] Cf. ESPINOSA, Baruch. Tratado Teológico-Político. Trad. Diogo Pires Aurélio. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 251.

[4] Ibidem, p. 252.

[5] Note-se que qualquer semelhança com os avanços do capital sobre a nossa subjetividade não é mera coincidência, pois a ordem capitalista se assume cada vez mais como religião, porém de lógica inversa. Enquanto as religiões sacralizam, o capital dessacraliza. Em um mundo onde tudo é violável antes os ditames econômicos, somente a economia apresenta-se sobre o manto da inviolabilidade, por isso torna-se sacralizada. Daí, o vocabulário econômico adotar com maior frequência termos cuja gênese de sentido é dada pela religião. Quando o mercado oscila, qual um Zeus furioso, é preciso acalmá-lo. Os raios são os números que descem do olimpo das bolsas de valores. Quando a oscilação de humor do Zeus mercado permanece por longo período é preciso fazer sacrifícios. Estes sacrifícios são os cortes econômicos. Os termos crise e sacrifico tornaram-se irmãos siameses do vocabulário teológico-econômico. Ora, mas como todo sacrifício exige um sacerdote, isto é, o oficiante do ato de libação, quem está investido desta função é o economista. Ele pode assim fazer, pois é o especialista, aquele que melhor conhece os misteriosos desígnios da vontade do Deus mercado. Na liturgia do sacrifício econômico, ao poder político cumpre apenas o papel de acólito: usar com presteza o turíbulo da lei. Incensar muito, para que no meio da fumaça os “meros mortais” não possam divisar bem a figura do imolado, pois se o vissem, se identificariam de pronto.

[6] Ibidem, p. 267.

[7] FEUERBACH, Ludwig. A Essência do Cristianismo, p. 5.

[8] Atente o leitor que não adotamos a argumentação, por vezes simplista, que identifica no processo de secularização apenas uma mudança dos atores, aceitando que a trama histórica ainda continua a ser pensada em termos de escatologia messiânica.

[9] Este argumento, do ponto de intercessão entre teocracia e democracia, não é de todo nosso, porém baseia-se no Tratado Teológico-Político de Espinosa, mais particularmente no capítulo XVII. Acrescentamos o problema da representação política que estava fora do escopo da argumentação espinosana.

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