Marx e a opressão da vida burguesa

Por Camila Koenigstein

“Três dos quatro casos de suicídio mencionados nos excertos se referem a mulheres vítimas do patriarcado ou, nas palavras de Peuchet/Marx, da tirania familiar, uma forma de poder arbitrário que não foi derrubada pela Revolução Francesa”.(LOWY, 2006, p.18)


O fim do século XIX e o início do século XX foi marcado por profundas transformações históricas e culturais.

A sociedade capitalista industrial modificou profundamente as relações dos indivíduos com o espaço público, o que trouxe à tona o imperativo da individualidade e exaltação ao modo de vida burguês.

Tal transformação afetou a relação estabelecida entre a esfera pública/privada. Conforme os cidadãos foram sendo alijados do espaço público e da vida política, mais foi sentido como o capitalismo afetava não somente as relações com o mundo do trabalho, mas também as relações familiares. Nesse aspecto, Marx foi visionário ao perceber que a estrutura psíquica dos homens seria alterada profundamente pelo capital.

“A burguesia afogou os fervores sagrados da exaltação religiosa, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno–burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca; substituiu as numerosas liberdades, conquistadas duramente, por uma única liberdade sem escrúpulos: a do mercado. Despojou da sua auréola todas as atividades até então reputadas como dignas e encaradas com piedoso respeito. Fez do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, da sábio, seus servidores assalariados.” (MARX, 1998, p.13)

Na medida em que avança a separação entre trabalho material e intelectual, há a divisão mais acentuada dos gêneros. São novas correlações de poder que estavam se estabelecendo nesse momento e que beneficiam os homens, excluindo as mulheres e reduzindo ainda mais seu papel na sociedade. Assim o cerceamento do feminino passou a ser uma forma do homem manter seus privilégios de gênero. A desvalorização da mulher na sociedade burguesa industrial seria um dos aspectos mais afetados pelo capital. Nas palavras de Gramsci, as mulheres viraram “mamíferos de luxo” nesse período de consolidação dessa nova forma de vida regada pelo capital industrial.

Do burguês ao proletário, a mulher, a partir desse período, foi confinada ao espaço doméstico, deixando de exercer juntamente com os homens os trabalhos atrelados às antigas corporações de ofício. As funções exercidas em comunidade perdem a importância, e a mulher passa a ser vista como propriedade, em muitos casos o único patrimônio.

“Na medida em que imputavam novas qualidades à mulher como passividade e emotividade (se bem que agora restritas ao círculo familiar burguês) e ao homem, por sua vez, a ação e a racionalidade no espaço público da incipiente sociedade industrial, ocorreu uma “polarização de caráter entre os sexos”. A mulher e a família deviam converter-se em polos de oposição ao mundo externo cada vez mais dominado pela racionalidade instrumental. Cabia à mulher não apenas ser uma dona-de-casa exemplar, mas também tornar agradável a vida do marido.” (SCHOLZ, 1992)

Vemos nesse momento, e não inocentemente, a ascensão da psicanálise e das neuroses femininas. A repressão e o confinamento criaram estereótipos que perpetuam-se até os dias de hoje e são assimilados e naturalizados como fatores constitutivos da formação psíquica da mulher. Para Simone de Beauvoir foi a ausência de compreensão dos movimentos históricos que fez com que Freud não enxergasse os processos  que reprimiram as mulheres  e garantiram, em uma perspectiva de larga duração,  a supremacia do macho na sociedade:

“Não basta dizer que a mulher é uma fêmea, não se pode defini-la pela consciência que tem de sua feminilidade; toma consciência desta no seio da sociedade de que é membro. Interiorizando o inconsciente de toda a vida psíquica, a própria linguagem da psicanálise sugere que o drama do individuo desenrola-se nele […] Mas uma vida é uma relação com o mundo. Em particular, a psicanálise malogra em explicar por que a mulher é o Outro, pois o próprio Freud admite que o prestígio do pênis explica-se pela soberania do pai e confessa que ignora a origem da supremacia do macho.” (BEAUVOIR, 1980. p.70)

Assim, diante dessas transformações, Karl Marx, tendo como coautor Jaques Peuchet (Inspetor de Polícia) escrevem em 1846 “Sobre o Suicídio”, trabalho pouco conhecido e valorizado pelos meios acadêmicos, mas de riqueza ímpar para o entendimento da subjetividade, esvaziamento da vida pública e o impacto que todas essas mudanças trouxeram à vida das mulheres.

Segundo Ligia Quatim: “O estudo desenvolvido por Marx é pouco conhecido, visto que faz parte de um momento de transição dos seus estudos […] Seguindo o conceito de Althusser: ocorreu um corte epistemológico, ou seja, Marx desvia seus estudos vinculados à esquerda hegeliana e inicia sua trajetória ruma a sua grande obra: O Capital.”

Os autores escolheram o caso de três mulheres de camadas sociais distintas, e esse fator não foi acidental. Através de histórias completamente diferentes, criaram uma trama riquíssima que envolveu o surgimento de novos valores sociais, assim como a multiplicidade de aspectos opressivos que ultrapassaram a esfera do mundo do trabalho e adentram na vida privada: “A natureza desumana da sociedade capitalista fere os indivíduos das mais diversas origens sociais”.

A TIRANIA  DO PATRIARCADO

A vida burguesa é repleta de características específicas, um verniz social criado para manter a integridade do núcleo familiar. O domínio que o homem exercia no mundo do trabalho, na esfera pública, necessitava ser ampliado e aplicado nas relações familiares, caso contrário, o prestigio social seria reduzido. O homem burguês, bem sucedido, é dono, senhor de todas as suas relações. Ele é detentor da vida dos seus funcionários e dos seus familiares. O poder passa a ser mais um item de compra e se estende a tudo e a todos. Sendo assim, a mulher, o elo mais fraco na cadeia social,  ficou sujeita aos desejos e manejos masculinos, vivendo uma espécie de “tirania privada”.

Como exemplo desse poder tirânico Marx expõe o caso do Sr. Von M, senhor abastado de Martinica que mantinha sua esposa em cárcere. Desse caso  problematizam a ampliação do conceito de propriedade.

Debilitado pela doença, o que atingiu sua estima de maneira ímpar, Sr. Von M se agarrava a um modo de vida sofisticado, regado a festas e eventos. No entanto, o olhar de discriminação dos jovens pertencentes a sua classe social causaram tal constrangimento que Sr. M opta por uma vida mais reclusa. Com isso leva sua mulher junto e a “condena à mais insuportável escravidão, e podia praticá-la apenas por estar amparado pelo Código Civil e pelo direito de propriedade, protegido por uma situação social que torna o amor independente dos livres sentimentos dos amantes e autoriza o marido ciumento a andar por aí com sua mulher acorrentada como o avarento com seu cofre, pois ela apresenta apenas um parte do seu inventário”. (MARX, 2006, p.37)

Diante do aprisionamento e cerceamento da liberdade, a jovem comete suicídio, o que leva o esposo ao desespero absoluto. A condenação de uma vida sem liberdade era pior do que o suicídio. Diante desse caso, Marx e Peuchet apontam para a junção dos valores capitalistas aos valores atrelados ao mundo dos afetos.

Nesse sentido,  Florestan Fernandes ressalta a singularidade de Marx:

“Seu esquema de interpretação geral e os resultados teóricos de sua investigações histórico-sociólogicas lançam luz sobre os processos mencionados e permitem entender como a economia, sociedade e civilização se relacionam reciprocamente sob a existência e o desenvolvimento do modo de produção capitalista.” (FLORESTAN, 2012, p. 144)

Assim, a apropriação da mulher como parte do  patrimônio é algo muito característico do período. A demarcação do poder  sobre a vida das mulheres é mais uma forma de afirmação de territorialidade masculina sobre vários âmbitos da sociedade. Um homem que não dominava a própria família era um homem enfraquecido socialmente.

Um aspecto interessante e que caracteriza muito bem o período é a produção literária. Temas atrelados ao universo dos amantes, contos sobre amores proibidos, e críticas à sociedade burguesa como os escritos por Balzac, Arthur Schnitzler e mais tardiamente Stefan Zweig, emergem e marcam a consolidação dos valores burgueses e a exaltação do ambiente doméstico. A internalização da própria vida fez com que os atos proibidos tomassem conta da literatura da época como uma forma de rebeldia a toda cena de opressão social posta no período.

“Hoje duas coisas parecem ser modernas: a análise da vida a fuga dela. Há pouca alegria em agir, em jogar com as forças exteriores e interiores., em aprender a viver como Wilhelm Meister, ou em  aprender o curso do mundo com Shakespeare. Faz-se anatomia da própria vida anímica ou então se sonha. Reflexão ou fantasia, imagem de espelho ou imagem onírica […] o culto da verdade tal como é sentida por cada um. A verdade objetiva é relativizada na subjetiva, e esta, ancorada em sensações que abrem um espaço inteiramente novo, para o qual ainda deveriam ser encontradas as denominações adequadas: o interior, a alma, o sistema nervoso, o inconsciente.” (BAHR, 1987, p. 14)

O microcosmo familiar surge como fator de empoderamento masculino frente a uma sociedade opressiva, que retira do sujeito a liberdade de escolha, visto que grande parte dos homens estavam sujeitados às condições impostas pela dinâmica social violenta do mundo do trabalho.

Nos outros dois casos, Marx e Peuchet abordam o cerceamento da liberdade feminina, assim como os novos valores que estavam despontando no seio da sociedade burguesa.

Para Marx, a questão do suicídio era um ato contestador às pressões sociais, um sintoma aos resquícios do poder tirânico e despótico que “subsistiam nas famílias”.

No caso da filha do alfaiate esse aspecto fica evidente. Noiva de um jovem rapaz trabalhador, a moça passa uma noite junto ao noivo antes da formalização do casamento. O jovem casal, que estava junto há um tempo considerável, não levou em conta as regras sociais vigentes. Ao retornar pela manhã a moça se depara com a violência dos pais e os inúmeros insultos proferidos a uma mulher cujo seu único erro foi o abandono da norma social.

Neste caso, Marx e Peuchet apontam para a frustração frente ao desrespeito que ocorre no mundo do trabalho, de modo que a vida do homem é reduzida  e sua dignidade perdida em nome do salário. Essa dinâmica hostil e violenta é reproduzida na vida privada como uma espécie de compensação a toda violência sentida no âmbito social: segundo Marx (2006, p.32): “O mau uso dessa autoridade é igualmente uma compensação grosseira para o servilismo e a subordinação aos quais essas pessoas estão submetidas, de bom ou de mal grado, na sociedade burguesa”.

Relatam ainda que o ocorrido se espalha e outros membros da comunidade,  como os padrinhos, aderem ao mesmo discurso, agredindo a moça, tal qual fazem  seus pais.

Diante da vergonha, a jovem decide tirar a própria vida e se joga no rio Sena. Dado o final trágico, a comunidade se apieda e os mesmos que outrora apoiaram os pais, viram-se contra eles diante do ocorrido. Dias depois Peuchet relata que os pais foram até a inspetoria de polícia mas, para a surpresa do inspetor, o que os levou até lá não foi nada além do desejo de recuperar as joias que a moça usava no dia de sua morte. Peuchet recrimina a atitude dos pais, que se mostravam mais preocupados com os bens materiais do que com a tragédia que havia abatido a família. A morte perde seu significado, o que ressalta o caráter desumano da sociedades capitalistas, evidenciando o câmbio de valores oriundos de uma sociedade que reduz todas as relações em mercadoria.

No último caso eles analisam o suicídio de uma jovem mulher que engravida em decorrência do abuso sexual que sofre por parte do seu tio, um banqueiro francês  proeminente. A moça, desesperada, procura um médico que possa fazer o aborto, porém se depara com o conservadorismo vigente quando se trata de assuntos ligados à realidade feminina. Diante da negativa do médico a jovem decide seguir com seu plano. Desesperado, o  médico que recusou fazer o procedimento procura Peuchet e relata o ocorrido. A hipocrisia da vida privada, reflexo dos valores burgueses que massacram as mulheres das mais variadas classes sociais se faz presente:

“Quinze dias depois os jornais trouxeram-me a solução do segredo. A jovem sobrinha de um banqueiro parisiense, de no máximo dezoito anos de idade, pupila querida de sua tia, que nunca a perdia de vista desde a morte de sua mãe, deixara-se deslizar para dentro de um regato na propriedade de seus tutores, em Villemomble, e havia se afogado. Seu tutor estava inconsolável; em sua qualidade de tio, o covarde sedutor podia expor a sua dor diante do mundo”. (MARX, 2006, p. 48)

TIRANIA NA ATUALIDADE

Esse casos  pontuam com  exatidão o poder do capital sobre a vida das mulheres, sujeição que se mantém, mas é escondida diariamente por meio do discurso de liberdade e emancipação feminina. Os direitos adquiridos no último século encobrem a realidade de milhares de mulheres; mulheres indígenas, negras, pobres, que, diante da dependência financeira e de discursos segregatórios, são submetidas à  tirania masculina, tendo seus corpos e desejos suprimidos a valores criados para proteger o universo masculino e que são, de certa forma, a junção de valores burgueses e patriarcais na atualidade. Machismo, poder e capital são parte de um único sistema que é aceito por homens de diferentes camadas sociais.

Estudos recentes apontam que a violência no âmbito familiar ainda vigora, tornando a casa um dos ambientes mais hostis para as mulheres:

O Mapa da Violência 2015 (Cebela/Flacso) mostra ainda o peso da violência doméstica e familiar nas altas taxas de mortes violentas de mulheres. Dos 4.762 assassinatos de mulheres registrados em 2013 no Brasil, 50,3% foram cometidos por familiares, sendo que em 33,2% destes casos, o crime foi praticado pelo parceiro ou ex. O estudo aponta ainda que a residência da vítima como local do assassinato aparece em 27,1% dos casos, o que indica que a casa é um local de alto risco de homicídio para as mulheres.

 Assim, refletir sobre a obra de Marx é refletir sobre a necessidade de extirpar os modelos de opressão vigentes. Cabe às mulheres compreenderem que a hegemonia masculina, juntamente com os valores familiares burgueses, precisam ser extirpados, pois enquanto houver sujeição, seja de ordem econômica ou cultural, seguiremos sendo mortas das formas mais bárbaras possíveis.


Bibliografia

BAHR, et al. Contos de Amor e norte. São Paulo: Companhia das letras. 1987.

BEAUVOIR, SIMONE. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1980.

FERNANDES, Florestan. Marx, Engels, Lenin – A história em processo. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

GRAMSCI, Antônio. Americanismo e fordismo. São Paulo: Hedra, 2008.

QUARTIM, M Lygia. Curso livre Marx e Engels: sobre o Suícidio. 2008. Dispónivel em:https://blogdaboitempo.com.br/2015/03/07/michael-lowy-marx-contra-a-opressao-das-mulheres≥. Acesso em: 3 maio. 2016.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Paz e Terra. 1998.

MARX, Karl. Sobre o Suicídio. São Paulo: Boitempo, 2006.

SCHOLZ. Roswitha. Publicado na Revista Krisis, maio. 1992. Disponível em: http://obeco.planetaclix.pt/rst1.htm.≥. Acesso em: 3 maio.2016.

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