2011: o ano das ocupações que mudaram o mundo

Por Paolo Gerbaudo, via ROAR Magazine, traduzido por Patricia Ferreira-Lemos

O que aconteceu com a grande promessa de mudança social suscitada pelos ‘movimentos das praças’ em 2011? O que estas ocupações espetaculares de praças públicas, de Tahrir no Cairo a Puerta del Sol em Madri e Syntagma em Atenas deixaram para trás? Em que medida elas contribuíram para o avanço da causa dos ‘99%’ ou das ‘pessoas comuns e ordinárias’ pelas quais pretendiam lutar?


Com os movimentos de protesto, como em qualquer outro fenômeno social e político, chega o tempo de se fazer um balanço do que aconteceu – um tempo que é tão importante para avaliar o passado, como para o planejamento de ações futuras. Este último parece ser particularmente relevante à luz da emergência de novos movimentos, como o Nuit Debout na França, que pode ser visto como continuação do ciclo de 2011.

Cinco anos depois 2011, celebremente comemorado como o ‘ano do manifestante’ na capa do ano[2]da TIME Magazine, talvez estejamos suficientemente distantes do calor destes eventos para elaborar algo semelhante a um balanço das realizações e dos desapontamentos daquela onda de protesto momentânea.

A avaliação das mobilizações de 2011 é, como frequentemente acontece com grandes eventos históricos, um tema altamente controverso. Os movimentos das praças entusiasmaram na mesma medida que decepcionaram; eles têm faltas e excessos.

Para algumas pessoas estes protestos parecem não ter conseguido nada; para outros, como o ativista grego Giorgios Giovannopoulos, eles ‘mudaram completamente a paisagem política’. Alguns, incluindo muitos esquerdistas nostálgicos, os veem apenas como uma distração da política séria ou uma exibição pueril de ingenuidade; para outros, as mobilizações têm sido um ponto de virada decisivo na política contemporânea.

Esta grande diversidade de avaliação decorre das diferentes maneiras que as pessoas olharam para estes movimentos e seus resultados; posições ideológicas diferentes levam a diferentes análises. Mas elas também derivam de diferentes entendimentos do que os resultados dos movimentos de protesto supostamente são, critério contra o qual podemos ‘medir’ seus resultados.

Como argumentarei, os movimentos das praças não cumpriram sua promessa hiperbólica revolucionária de acabar com a democracia representativa e substituí-la por instituições autônomas de autogestão de base modeladas depois dos acampamentos de protesto. Mas eles tiveram rituais públicos formidáveis que, ao recuperarem o espaço público e envolverem os cidadãos nas discussões públicas sobre desigualdade econômica e política, facilitaram uma mudança cultural profunda na sociedade para fins mais progressistas. Eles informaram a criação de novas campanhas, iniciativas e organizações que estão começando agora a representar um sério desafio à ordem neoliberal

UM FOGO DE PALHA?

A principal razão para o ceticismo generalizado sobre os resultados da onda de protestos de 2011 deriva do rápido declínio experimentado por estes movimentos depois do clímax das ocupações. O fim das ocupações das praças – seja por despejos policiais ou por exaustão interna – muitas vezes deixou um sentimento de fracasso[3] e vazio, junto com o remorso de ter perdido uma grande oportunidade de provocar mudança social.

O descarrilamento dos movimentos resultou em um ‘trauma’ coletivo que se levou muitos meses para superar. Muitos dos 130 manifestantes que entrevistei para meu livro The Mask and the Flag[4] associaram sua descrença a visão de como um movimento que tinha ascendido tão rapidamente a tão grandes alturas poderia ter entrado em colapso tão depressa. No auge dos acampamentos de protesto, ativistas tinham estado na linha de frente do movimento popular massivo que prometia mudar radicalmente a sociedade; mas assim que os acampamentos foram despejados ou abandonados, eles amiúde sentiram que estavam por si mesmos novamente – a multidão que se reuniu em torno deles de repente havia evaporado.

Todavia, parar nossa avaliação nesta decepção inicial seria errado. Grandes convulsões históricas são conhecidas por produzirem desilusões em suas consequências imediatas. Tão grandes são as esperanças que inspiram, que não se podem cumpri-las integralmente. A Revolução Francesa levou ao Reino do Terror e a ditadura de Napoleão. O entusiasmo provocado pelos protestos de maio de 1968 evaporou depois da vitória do Partido Gaullista nas eleições parlamentares de junho. No entanto, ninguém poderia negar que estes e outros eventos similares mudaram profundamente o curso da história. O mesmo se aplica a 2011.

O ano de 2011 não cumpriu as esperanças revolucionárias alimentadas pelos seus defensores mais militantes. Suas ocupações não se tornaram o embrião de uma sociedade anárquica de comunidades autogeridas, como alguns de seus participantes esperavam. No entanto, o movimento de protesto teve consequências profundas na política contemporânea de formas menos perceptíveis e menos radicais, mas não menos importantes.

Para começar, as ocupações repolitizaram a sociedade, os movimentos sociais galvanizados e as políticas de esquerda. Além disso, elas geraram uma profunda transformação cultural, como é visto na crescente atenção pública para a questão da desigualdade econômica e a crise da democracia. Finalmente, elas agiram como ‘incubadoras’ que contribuíram para o surgimento de formações e candidatos anti-establishment, incluindo o Syriza na Grécia, o Podemos na Espanha, Jeremy Corbyn no Reino Unido e Bernie Sanders nos Estados Unidos.

Estas mudanças culturais e políticas teriam sido insondáveis se não tivesse havido a onda de protestos de 2011. Longe de ser um fogo de palha, 2011 foi um ano divisor de águas; no qual, apesar de suas muitas falhas e deficiências, inaugurou-se uma nova onda de política progressista que está mudando o mundo.

Adeus apatia

O resultado mais importante da onda de protestos de 2011 foi a mudança na cultura e na psicologia social. Este ano de protestos e revoluções foi fundamental para superar a apatia política enraizada, acessório natural da injunção neoliberal que ‘não há alternativa’, com sua implicação sobre a futilidade da política e consequente apatia política.

Uma das queixas recorrentes entre os ativistas no rescaldo da crise financeira de 2008 foi que, apesar da evidência esmagadora sobre o fracasso do capitalismo financeiro e dos efeitos por demais reais na vida cotidiana da maioria da população, a maioria das pessoas não teriam ação. Os protestos de 2011 forneceram um poderoso remédio para este sentimento generalizado de impotência. As enormes manifestações e ocupações demonstraram concretamente que a ação política de massa está retornando na atualidade, e ainda podem ter vastas consequências políticas, como a maioria claramente viu na queda dos ditadores árabes.

Como resultado, 2011 foi o ano que ‘o medo mudou de lado’, para usar uma expressão adotada pelos ativistas da Espanha. Foi o momento em que os movimentos de protesto derrubaram a psicologia da derrota – aquele sentimento desagradável que eles eram o lado errado da história – e mais uma vez começou-se a ir para o ataque. O entusiasmo evocado pelas ocupações nas praças convenceu muitos que, longe de viver o ‘fim da história’ como foi infamemente reivindicado por Francis Fukuyama, nós estávamos de fato testemunhando um ‘renascimento da história’, para usar uma expressão de Alain Badiou[5].

Este novo sentimento de entusiasmo e esperança foram fundamentais na ativação de grandes camadas da população que estavam anteriormente à margem da política.  Os movimentos conquistaram grande parte da geração do milênio, muitas vezes caracterizada pela mídia como essencialmente apolítica – algo que, como temos aprendido nos últimos anos, está muito longe de ser verdade.

Os protestos de 2011 também facilitaram uma profunda mudança em termos de discurso político e no conjunto de pressupostos segurados pela maioria da população. Um dos exemplos mais claros dessa tendência vem dos Estados Unidos, um país no qual a discussão da desigualdade econômica era marginal na política dominante nos últimos 30 anos. Ainda como efeito do Occupy, muitos políticos tentam se apresentar como os campeões dos ‘99%’- as pessoas comuns desfavorecidas pela arrogância dos super-ricos e pelas instituições políticas.

 O ano de 2011 também redesenhou as linhas de batalha discursivas dos conflitos contemporâneos em torno da oposição entre os cidadãos e o sistema, entre as pessoas comuns e a elite, e entre o fundo e o topo, ligando assim  desigualdade econômica e política, empobrecimento e privação de direitos. Esta mudança cultural profunda abriu caminho para a ascensão de novos candidatos e formações anti-establishment que agora estão tomando a política institucional de assalto.

As ocupações como ‘incubadoras’

O maior paradoxo por trás do resultado dos movimentos das praças é que sua influência foi justamente maior onde se esperava o mínimo: na esfera das organizações formais e da política institucional e de partido.

A onda de protesto de 2011 será sempre associada ao slogan ‘eles não nos representam’- uma clara acusação a forma atual de política representativa e a classe política existente. No entanto, um grande número de pessoas que sustentou e apoiou os movimentos de 2011 passou a ver o compromisso radical com as instituições existentes como um meio necessário para obter resultados políticos concretos sobre muitas das questões levantadas por esses movimentos.

As ocupações, portanto, agiram como ‘incubadoras’ fornecendo a inspiração, a fonte de legitimidade e as redes pessoais para esta nova onda de políticas institucionais radicais. Para usar termos de Jodi Dean[6], algumas das ‘multidões’ que se reuniram em 2011 passaram a formar partidos políticos. Da Grécia e da Espanha para o Reino Unido e os Estados Unidos, as ocupações foram seguidas por uma surpreendente onda de novas formações e candidaturas de esquerda. A onda eleitoral do Syriza na Grécia, que eventualmente o levou ao poder, foi em parte impulsionada pela força do movimento aganaktismenoi. Na Espanha, o Podemos conseguiu, pelo menos inicialmente, capturar grande parte da energia dos movimentos das praças e se apropriar de algumas de suas práticas de democracia direta, através dos seus círculos locais e formas de deliberação online.

A conexão com os protestos dos indignados foi ainda mais clara nas plataformas municipalistas que assumiram as prefeituras de Barcelona e Madri em 2015. No Reino Unido, a eleição de Jeremy Corbyn a líder do Partido Trabalhista no outono de 2015 e a impressionante performance de Bernie Sanders nas primárias dos Democratas nos Estados Unidos também carregam a assinatura da onda Occupy. Estes fenômenos políticos seriam impensáveis se não fosse o apoio de uma geração de jovens ativistas que cresceu politicamente nas praças ocupadas de 2011.

Tal ‘projeção institucional’ dos movimentos de protesto certamente não é um fenômeno novo. Uma e outra vez ao longo da história as ondas de protesto foram seguidas pela criação de novos partidos políticos e candidatos radicais propondo dar representação institucional às queixas levantadas. A ascensão dos movimentos operários no século XIX e início do século XX levou a criação dos primeiros partidos Socialistas e Comunistas. Em alguns países, a começar pela Alemanha, os protestos de 1968 e dos anos 1970 encontraram uma saída política nos recém-formados partidos Verdes.

Claro, a relação movimento-partido é notavelmente aquela que tem sido repleta de contradições. Portanto, não é surpresa que problemas similares também emergem na sequencia dos movimentos das praças. A ascensão do Syriza inicialmente atraiu grandes esperanças de muitos manifestantes da Syntagma, apenas para logo levar a amargas decepções depois de sua rendição aos credores estrangeiros em julho de 2015. Da mesma forma, uma série de decisões do Podemos e de seu líder Pablo Iglesias tem sido criticadas por desconsiderar o espírito democrático dos protestos de 2011 e por impor a tradicional estrutura de cima para baixo dos partidos.

Estes e outros incidentes levaram muitos veteranos de 2011, especialmente aqueles mais crentes do anarquismo e autonomismo, a ver na tomada eleitoral e institucional mais uma traição que uma continuação do espírito de 2011. É justo e necessário que os movimentos de protesto critiquem e desafiem os partidos, também aqueles que representam pontos de vista políticos próximos aos seus. Ao mesmo tempo, é importante destacar que essa virada eleitoral da política contemporânea radical é também um resultado de uma realização coletiva, compartilhada por muitos veteranos dos protestos de 2011, sobre os limites da recusa neo-anarquista da organização formal e liderança, e a exigência de acompanhar necessariamente movimentos de protesto fugazes com formas mais duradouras e estruturadas de organização política.

O começo está aqui

Dada a amplitude e a profundidade dos resultados produzidos pelos movimentos de 2011, pode-se dizer que agora estamos vivendo em um mundo pós-2011; um mundo no qual 2011 atua como uma espécie de ‘ano zero’- um momento de fundação de uma ‘nova política’ que cumpre a promessa contida na legenda de um famoso pôster do Occupy[7], anunciando que o ‘começo está próximo’. Longe de ser um fogo de palha, 2011 inaugurou uma nova onda de política progressista que está mudando o mundo.

É verdade que estes movimentos, em ultima análise, não entregaram muitos de seus objetivos revolucionários estabelecidos como acabar como a democracia representativa e constituir comunidades políticas autogeridas. Todavia, essa onda de protesto atingiu dois objetivos políticos importantes: romper com o sentimento generalizado de apatia política e impotência, e agiu como ‘incubadora’ para o estabelecimento de novas organizações políticas que, em aliança com os movimentos, podem dar a luta pela igualdade substancial e para a democracia real uma forma mais sustentada e estruturada.

Para aqueles que participaram desses movimentos, os apoiaram e acreditaram neles, a tarefa a frente é construir sobre essas fundações, desenvolvendo novas iniciativas e campanhas e travando novos conflitos que possam cumprir as esperanças evocadas pelos protestos de 2011 – mas também voltando periodicamente às ruas e ocupando praças públicas, sabendo que é lá que todas as políticas radicais tem seu necessário começo.


[1] Sociólogo, diretor do Centre for Digital Culture na King’s College London, pesquisador de movimentos sociais e políticas digitais. É autor de Tweets and the Streets (Pluto, 2012) e The Mask and the Flag (Hurst, 2016).

[2] http://content.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,2101745_2102132,00.html

[3] http://www.thenation.com/article/breaking-occupy/

[4] Publicado pela Hurst (2016) e ainda não traduzido para o português.  http://www.hurstpublishers.com/book/the-mask-and-the-flag/

[5] https://www.versobooks.com/books/1124-the-rebirth-of-history

[6] https://www.versobooks.com/books/1991-crowds-and-party

[7] https://roarmag.org/wp-content/uploads/2016/04/ows-the-beginning-is-near.jpg

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