És tu pro

Por Clarisse Gurgel

Situando o estupro como um ato nem só biológico, nem somente simbólico, somos levados a destrinchar algo que envolve uma pulsão. Assim compreendendo, seremos levados a considerar uma dimensão também não somente biológica, nem somente simbólica, na forma do sonho e na forma da mercadoria.


Nos últimos dias, um fato estarreceu todo o Brasil e o mundo: um estupro coletivo, envolvendo trinta homens e uma adolescente. As campanhas de combate à violência contra a mulher vieram em resposta a este ato bárbaro e tomou corpo um debate público sobre a “cultura do estupro”.

Mas, afinal, o ato foi bárbaro mesmo? Bárbaro é um termo adotado para designar não-civilizados, os não-romanos, povos cujos métodos de invasão teriam sido brutais, sanguinários. Nestes marcos, poderíamos nos filiar à tese de que, de fato, os trinta estupradores da moça possuíam outra cultura, que não-a-nossa.

Ocorre porém que a hipótese de se tratar de uma “cultura do estupro” fundamenta-se na possibilidade de que as relações sociais que envolvem o trato com a mulher possam ser analisadas de forma descolada das demais relações sociais. Slavoj Žižek nos ajuda a compreender como aquilo que poderíamos estar entendendo como uma forma de imaginar a mulher, como uma forma de querer uma mulher está diretamente associado à outras formas em que o fetiche se manifesta: na forma do sonho e na forma da mercadoria. Haveria, assim, segundo o filósofo, uma homologia, uma lógica semelhante, entre estas duas formas: o sonho e a mercadoria. Nosso esforço é situar o ocorrido na semana passada nesta mesma homologia, de tal maneira que superemos o possível equívoco de tratarmos como cultura aquilo que se insere em condições materiais mais gerais, de tal modo que não possamos falar de “cultura do racismo” ou “cultura do capitalismo”, “cultura da homofobia”. Como afirma a assistente social Tereza Martins, já basta o capital para nos dividir em  identidades.

Situando o estupro como um ato nem só biológico, nem somente simbólico, somos levados a destrinchar algo que envolve uma pulsão. Assim compreendendo, seremos levados a considerar uma dimensão também não somente biológica, nem somente simbólica, na forma do sonho e na forma da mercadoria. É o que, talvez, ajude-nos a entender à tese de Sohn-Rethel, já esboçadas por outros colegas aqui no LavraPalavra [1], acerca da “abstração real”, em que representações, abstrações, são possíveis, antes mesmo de um esforço intelectual. Em que conversões mentais são produzidas em ato, em que o fazer produz uma falsa consciência necessária, conforme à lógica de produção social. Tal como o preceito de Pascal – ajoelhe-se, que a fé vem -, agiríamos de um modo cuja crença neste modo se produz no próprio ato de agir. A noção de abstração real é o que nos permite compreender o alto grau de idealização que um modo de vida material pode possuir em si, em sua dinâmica imanente.

No nosso modo de vida, em que tudo se rege pela circulação da mercadoria, relações de troca entre coisas diferentes como se fossem iguais é uma abstração que sabemos se tratar de uma ilusão, mas mesmo assim seguimos. É o que nos permite crer que dois limões são semelhantes a uma maçã, que é semelhante a duas laranjas, que são semelhantes a uma banana, ou que R$1 real é semelhante a 2 limões, a 1 maçã, a 3 laranjas e a 1 banana (x$ = A = B = C = D). De tal modo que um equivalente universal, uma representação, possa servir de síntese das demais representações. O fetiche ou o feitiço está no fato de que a ilusão não se situa no saber, mas no fazer, de tal modo que algo permaneça oculto, ainda que eu saiba. O sentido oculto da mercadoria estaria em sua própria forma, é o excesso da regra da determinação de seu valor pela quantidade de trabalho nela contido que corresponde o desconhecido: a exceção da regra quando a mercadoria é o trabalho, cuja quantidade de trabalho, cuja capacidade de transformação da natureza, é muito superior àquele ao qual é atribuído.

A forma do sonho também possui uma mesma estrutura seriada de representações, uma cadeia de imagens que se deslocam de tal modo que, deste processo de condensação, produzam-se sínteses. O sentido oculto do sonho estaria na sua própria forma, naquilo que Freud denominou rébus do sonho. Rébus é tal como uma brincadeira de charadas, em que utilizamos a descrição de duas coisas para, juntas, formarem uma terceira coisa. A regra deste jogo é avisar quantas sílabas tem a coisa. Digamos que eu queira representar a palavra “Catavento”. Aviso que tem 4 sílabas e a compartimento em duas representações: a primeira, que representa as duas primeiras sílabas, é: pega do chão (Cata); a segunda, que representa as outras duas sílabas, é: ar em movimento (Vento). As duas representações designam “aquilo que gira quando assopro”. A resposta da charada é: Catavento.

Diríamos que o sonho e a mercadoria assumem a forma de um jogo de charada, cujas regras forjam-se no jogo onírico de processos primários que representam o recalque e no jogo ilusório de trocas como se todos fossem efetivamente iguais, no capitalismo. Nesta direção, convocamos o leitor a descobrir conosco a charada do momento: aviso que tem 3 sílabas e a compartimento em 3 representações. A primeira, que representa a primeira sílaba, é: verbo ser no tempo presente, na segunda pessoa do singular. A segunda, que representa a segunda sílaba, é: a segunda pessoa no singular. A terceira, que representa a terceira sílaba, é: contração prepositiva de para mais artigo definido masculino, o. As três representações designam “violação”. A resposta da charada é: Es-Tu-Pro.

Desta série, formamos a palavra estupro, mas as considerando como três significantes que se deslocam e os inserindo em um campo simbólico de significações, chegamos à afirmação: És tu para o. Da cadeia de equivalência rumo ao seu feitiço, chegamos a: És tu pro homem (mesmo que você, mulher, não queira), és tu pro capital (mesmo que você, trabalhador, não queira). As duas formas em que está encarnada a propriedade privada, em que a potência de um ser genérico é extraviada, em gênero e em função: a mulher como a coisa do homem, privada de sua liberdade; o trabalhador, como a coisa do empresário, privado de sua indeterminação.

Talvez o jogo nos indique que os trinta estupradores não sejam bárbaros, nem não-civilizados, mas, mais do que nunca, civilizados em um “cultura” perversa, em que o fazer assume a feição cínica de não só estuprar, mas exibir o estupro, com orgulho. Mas este cinismo não corresponde a um apartar do ser de seu mundo, a uma postura em que a ironia é uma espécie de redenção à vida como ela é. O estupro é um agir que se crer o ápice da liberdade dos homens sobre sua propriedade, a mulher, porém, oculta o alto grau de subsunção deste mesmo homem – tal como Hegel descreve a perda de liberdade que existe no ato espontâneo, em que se faz sem perceber – à fantasia perversa chamada capitalismo.


[1]    Ver TUPINANBÁ, Gabriel e TUTT, Daniel.

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