Apresentação do colóquio “Futuro e Hipótese Comunista”

Por CEII – Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia

Este é o texto preparado para dar início ao colóquio “Futuro e Hipótese Comunista”, organizado pelo CEII – Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia em parceria com a Universidade Federal do ABC,evento este que sucedeu aqueles realizados na Universidade Federal de São João Del Rei em Novembro de 2015 e na Universidade de São Paulo com o nome de “Psicanálise e Hipótese Comunista”. Publicaremos nas próximas semanas alguns dos textos apresentados durante o evento.


Bom dia a todos! Nós do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia – CEII, para os íntimos – queríamos começar agradecendo à acolhida aqui na Universidade Federal do ABC, no departamento de Filosofia, e principalmente agradecer à professora Marília Pis e ao professor e”companheiro de viagem” do Círculo, Victor Marques, por organizarem essa atividade junto com a gente.

Pra começo de conversa, vale a pena esclarecer que esse colóquio não é tanto um longa-metragem e mais um episódio numa série. Uma série de encontros em torno da hipótese comunista. Agora, se essa é uma série dramática, uma comédia ou um desenho animado, ainda não dá pra saber. Em todo caso, esse é o terceiro episódio – que é quando, depois de apresentadas as personagens principais, a trama começa a se desenrolar mesmo.

Em Novembro de 2015 organizamos, junto com o Núcleo de Pesquisa e Extensão em Psicanálise da Universidade Federal de São João del Rei, um primeiro colóquio chamado “Psicanálise e a Hipótese Comunista”, e repetimos a dose, numa espécie de episódio piloto em duas partes, na Universidade de São Paulo, em Maio de 2016, em parceria com o Laboratório de Psicanálise e Sociedade. Nessas duas primeiras edições, investigamos, em interlocução com a psicanálise, a dimensão “fantasmagórica” do comunismo, essa herança do século vinte que, na bonita frase de Marx, “oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Debatemos, entre outras coisas, a relação entre comunismo e totalitarismo, os impasses contemporâneos da militância, a difícil articulação da disciplina militante com a singularidade do desejo, o luto e a melancolia na esquerda, e as maneiras como a psicanálise poderia informar uma nova teoria da organização coletiva. Agora que a coisa tá esquentando, no terceiro capítulo dessa novela – e talvez a esquerda hoje esteja mais pra uma novela mesmo – a proposta é mudar o foco do passado para o futuro.

É engraçado porque esse papo de filme e série tem tudo a ver com isso. Como Slavoj Zizek brincou recentemente, o “espírito do mundo” parece mesmo ter migrado do cinema para as séries de televisão – o que, brincadeiras à parte, diz alguma coisa sobre a nossa relação com o futuro. É uma observação que na verdade mistura várias questões ao mesmo tempo.

Tem o lado da produção, pois assim o investimento multimilionário em uma dessas megaproduções hollywoodianas, com o risco de ser um fracasso retumbante e o estúdio não ter retorno, é substituído pela possibilidade de ir testando a recepção da série, ver se vale a pena continuar ou não, ver se é melhor mudar o roteiro, etc. É uma outra maneira de controlar o risco do fracasso comercial, negociar com ele. Outros fatores econômicos também são importantes nessa guinada, como o fato de que ficou mais barato fazer efeitos especiais mirabolantes – ou ainda a possibilidade de valorizar a série contratando atores que estavam encostados e não apareciam mais em grandes produções cinematográficas. O “exército de reserva de trabalhadores” que o cinema hollywoodiano foi criando agora pode ser empregado com salários menos estratosféricos em produções televisivas – que também absorve toda uma mão de obra técnica de qualidade que os estúdios não tinham filme o suficiente pra empregar (até porque é preciso de menos pessoas hoje pra fazer um filme).

Mas toda essa mudança nos meios de produção do entretenimento afetam também a maneira como as estórias são contadas. O final de um filme não tem o mesmo papel que o fim de um episódio ou de uma temporada. É engraçado porque dá pra ver como anda difícil não só criar novas estórias para o cinema, mas também terminar os filmes, deixar algo do futuro da narrativa em aberto. É verdade que Hollywood anda numa baita compulsão de repetição, fazendo remake até de filme que ainda tá em cartaz, o que não deixa de ser uma maneira de tentar controlar o risco – já que o filme que deu certo antes pode dar certo de novo se for recauchutado. Mas, além disso, as megaproduções não conseguem mais ter ponto final: tem que ter o primeiro filme, aí um segundo onde as conquistas do primeiro filme vão todas por água abaixo, e um terceiro que redime o segundo – mas depois tem que ter uma estória da origem da trilogia também, e aí um remake da trilogia, depois um filme que se passa dez anos depois….  O Hegel já dizia que quem faz dialética tem que saber contar até quatro, mas parece que George Lucas acha que tem que contar até nove, e depois ainda lançar uma estória paralela e um desenho animado infantil.

Toda essa situação embaraçosa parece se resolver na série de tv, com o formato da temporada com episódios. Enquanto o cinemão trouxe “de fora” esse sistema das franquias pra se adequar a esse presente que nunca acaba, as séries de tv não tiveram muita dificuldade de lidar com esse novo espaço narrativo. Vale lembrar que as séries já foram como pequenos filmes, com cada episódio contando uma estória diferente, sempre com a mesma personagem principal – o episódio acabava, o vilão era desmascarado pelo detetive, e bola pra frente: o futuro daquele caso ficava pra imaginação. Mas teve um momento qualquer aí nas últimas décadas quando o futuro do episódio começou a retornar dentro de um outro episódio ou temporada. O recurso mais clichê para essa operação é tornar o detetive ao mesmo tempo investigador e vítima, alguém pessoalmente investido no futuro do caso, então ele pega o bandido que matou a família dele, ou passa dez episódios atrás do cara, e o maldito foge, e começa tudo de novo. É claro que muitas séries hoje ainda usam esse formato de uma estória por episódio, muitas vezes mesclado com um arco narrativo mais longo, mas não deixa de ser marcante como as séries ficaram dramaticamente mais complexas recentemente. É como se tivéssemos descoberto que esse é um meio que consegue se acomodar melhor a essa transformação do futuro numa possível continuação do presente sem alterar essencialmente a sua forma e, com essa realização, o spiritus mundi trocou mesmo de canal. Um episódio pode ter uma resolução interna, pode deixar tudo por explicar pro episódio seguinte, a série pode ter um final com o final da temporada, ou prometer respostas pro ano que vem, ou pode mesmo ser cancelada com a trama toda em aberto.

O importante aqui é que tem algo que corta na transversal tanto o lado da produção quanto o das narrativas nessa indústria, e que é essa alteração no lugar do futuro, essa colonização do futuro pelo visualizável: seja do ponto de vista econômico ou do cultural, o futuro nas séries de tv não é o lugar do não-experimentado, do que não cabe no presente, mas uma instância com a qual negociamos para que o presente nunca acabe, se estenda por mais tempo que as 49 temporadas de Lei e Ordem. As séries raramente acabam com um “e viveram felizes para sempre” não porque a gente não acredita mais nisso, mas porque nessa nova função do futuro, tanto do ponto de vista do risco, quanto do ponto de vista narrativo, não tem espaço para o tipo de abertura impossível de representar que a palavrinha “sempre” implica. Ao invés de um futuro irrepresentável – daquilo que não podemos experimentar, a eternidade – a gente tem a próxima temporada.

Com o perdão de baixar o nível geral do colóquio logo assim de saída, a gente poderia aproveitar um trocadilho infame e começar a nossa atividade aqui hoje com a pergunta: à luz disso tudo, o que viria a ser hoje um programa comunista? É tanto uma pergunta sobre a imaginação utópica quanto uma questão sobre tática e estratégia em tempos de uma gramática mais serialista.

A gente poderia dizer que o século vinte foi o século da esquerda cinemão – e tanto os americanos quanto os soviéticos tinham lá seus filmes épicos, sua forma de pensar a longa-metragem do tempo – mas e se o século vinte um for o século da série? O que isso significaria para as categorias revolucionárias elaboradas sob esse paradigma anterior? Por exemplo, cinematograficamente, a insurreição pode ser pensada como o ponto de partida ou como o final de um filme – os laços da ordem se desfazem, e aí se desenrola a ação na trama, ou então o mundo vai muito bem obrigado e a narrativa vai caminhando na direção de uma ruptura dramática final. Mas numa série de tv, um grande evento – por exemplo, no final de uma temporada – demanda, seja comercialmente seja narrativamente, uma continuidade: comercialmente, porque se você conseguiu interessar um grande público naquele último capítulo, também garantiu já a audiência para a próxima temporada, o risco de não ter ninguém vendo diminui bastante, e narrativamente também, porque o episódio final da temporada tem a exata mesma forma do primeiro episódio da temporada seguinte – as escansões são homogêneas, sempre dá para mostrar um pouco mais, para elaborar “o dia seguinte”.

Então, quando a gente fala que esse nosso colóquio é um episódio numa série isso não deixa de apontar para uma aposta, partilhada pelos organizadores dessa atividade, de que é preciso disputar não apenas as narrativas sobre o futuro – digamos, o conteúdo que depositamos no porvir – mas também a própria forma narrativa, que hoje parece mais serial do que antes – o que, por sua vez, significa também disputar a organização econômica e social que dá seu substrato.

Um exemplo humilde dessa disputa se dá aqui mesmo, na presença de todos vocês. Isso porque organizar uma série de encontros em torno da hipótese comunista está sendo uma lição pra nós do Círculo sobre como, à luz desse futuro sem lugar para o absolutamente novo, a verdadeira dificuldade, e a verdadeira novidade, aparecem na hora de dar “só mais um passo a frente”. Ou seja, não é tanto que com o fim do futuro como limite da narrativa, como ponto final do presente, acabou-se qualquer referência ao não-experimentado, mas que os desafios e expectativas depositadas no desfecho do filme pipoca agora aparecem no espaço entre episódios, na dificuldade de continuar, de fazer durar. Fazer durar sem a promessa de um ponto-limite – a gente vem experimentando na pele como isso beira o insuportável. Organizar essa série de colóquios vem nos ensinando quão difícil é dar prosseguimento com um projeto que chame para si qualquer signo do futuro, pois o mundo pode ter mudado, mas a sacralização do “limite final”, da ruptura final, está aí ainda, e é a partir dela que julgamos o valor dos pequenos passos. Quando esse limite vacila no horizonte, bate uma desmotivação, o que só dificulta ainda mais na hora de nos empenharmos para disputar as ferramentas necessárias para poder continuar.

É por isso que no CEII a gente trabalha com uma “moral provisória” de olhar menos para onde o dedo aponta e mais para o próprio dedo. Menos para o limite e mais para o próximo passo. Menos para a igualdade expressa no conteúdo das formulações e mais para a igualdade das condições materiais de participar da duração do que quer que seja. Se “seriedade” vem mesmo de “série”, acho que isso faz de nós comunistas “sérios”.

Para terminar esses “créditos iniciais” do colóquio e darmos início à primeira mesa, deixo vocês aqui com uma citação do filósofo franco-marroquino Alain Badiou:

“A ideia que prevalece hoje é a de que o que acontece ‘no limite’ é mais complexo, e também mais obscuro, do que o que ocorre na sucessão, ou em um simples “passo a mais”. Por muito tempo a especulação filosófica alimentou uma sacralização do limite.(…) Todo verdadeiro teste para o pensamento se origina na necessidade localizável de um passo adicional, de um início impossível de antecipar, que não se funde com a riqueza infinita do que o precede, nem é idêntico à sua disseminação. Entender e suportar o teste do passo adicional, tal é a verdadeira necessidade do tempo. O limite é a recapitulação daquilo que o compõe, sua ‘profundidade’ é falaciosa: é por não ter lacunas que o ordinal-limite atrai o poder evocativo e vazio de tal ‘profundeza’. O espaço vazio do sucessor é mais temível, ele é realmente profundo. Não há nada mais a pensar no limite além do que aquilo que o precede. Mas no sucessor há um atravessamento. A audácia do pensamento não é repetir ‘ao limite’ aquilo que já está contido na situação que o limite limita; a audácia do pensamento consiste em cruzar um espaço em que nada é dado. Nós precisamos novamente aprender a suceder.”

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