Clarice Lispector x Teoria da Personalidade de Freud

Por Tarique Layon

Tal artigo visa a comparação entre a trinca conceitual Freudiana sobre a personalidade e seus três personagens (Id, Ego e Superego1) com a obra literária de Clarice Lispector, especificamente sobre o livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres2”.


Freud conceitua o Id como a mais tenra manifestação de ações humanas onde os instintos hão de prevalecer seus anseios sobre os interesses da pessoa. Por sua vez, ao atingir certo nível de maturidade, o Ego há de ser o divisor entre a paciência por atingir metas de longo prazo e a saciedade das vontades do Id. E o Superego é o dito “juiz”, pois corrobora as atitudes frívolas e inconsequentes do indivíduo, sendo rigoroso frente a estes atos.

A obra de Clarice narra as descobertas de Loreley ao desbravar sua vida, até então parca e monótona de “aventuras”, com o auxílio de Ulisses, como seu mentor, a ajuda a desbravar o que nela estava oculta e por ser externado do âmago de seu ser. Ulisses age com paciência e usa de sua experiência (acadêmico-profissional e vivida), para inspirar Loreley a não se abnegar de ser e sentir, a impulsiona a se permitir “ser” na mais pura e sublime definição de tais termos. Sendo assim, obra tem seu ápice com ambos de fato “o sendo” com a aceitação pessoal de ambos na consumação carnal da relação de ambos de forma fugaz, amorosa e ímpar.

A relação de Loreley com o exterior (tanto pessoal quanto social) se dava de forma oblíqua onde ela se escondia em si mesma e vivia de forma superficial suas relações com terceiros (inclusive com Ulisses e consigo própria) e sua vida era vivida de forma rasa e sem tanto envolvimento quanto lhe era possível ter e aproveitar as boas vivências que lhe podiam ser proporcionadas.

Todavia há de se definir Ulisses nessa mudança de personalidade de Loreley (quiçá de ambos) de que forma frente aos elementos Freudianos?

Loreley se enclausurava nela mesma porque não notava nada de atraente e/ou vivaz na sua essência que fosse digno de ser partilhado com terceiros (e com ela, inclusive). Poderemos adotar a tal o papel incessante de ser sua própria “Superego” pelo fato da forma com a qual ela se subjuga ser similar aos meios que o Superego se utiliza para frear nossos impulsos. Entretanto, a protagonista utiliza sempre a repreensão para suas atitudes (o que a torna o centro desta obra literária de Clarice), em que  a leitura é instigante e nos faz imergir no cerne do raciocínio e dos paradoxos de tal personagem.

Ulisses, por sua vez, pode ser vulgarmente atribuído ao “Id – implícito de Ego” pois permaneceu coadjuvante no envolvimento nessa relação e sempre submisso aos caprichos de sua amada, ainda que desejasse Loreley com o mais íntimo de suas vontades. Utilizou de sua paciência quase similar a Jó para lapidar os pensamentos e libertar o interior de Loreley nesse receptáculo que ela se trancou.

O “Ego de Loreley” (atribuído aqui a Ulisses) faz com que ela se permita migrar vagarosamente do extremo Superego, o qual ditava os pensamentos dela para um julgamento mais permissivo e superficial de atos. Este “afrouxamento” pode ser notado quando a protagonista deste enredo dialoga suavemente e de forma descontraída no ponto de ônibus com uma transeunte e quando se banha nas águas próximas ao local onde residia.

O clímax da leitura aparece quando ambos sucumbem suas aspirações aos “Id” por intermédio de consumações carnais na forma mais plena, tornando-os cúmplices de suas permissividades.

A trinca Freudiana se correlaciona com a obra de Clarice de forma sutil, pois Ulisses quase “assovia” aos ouvidos de Loreley os caminhos a serem seguidos e de que forma ela alcançaria a plenitude de sentidos, confiança e autoestima caso se sentisse bem consigo mesma e ao permitir-se trocar experiências com terceiros. Essa “tutoria” do tal a fez perceber seu entorno com outra visão e mesmo suas insônias eram percebidas de outra forma por ela.

A protagonista da obra de Clarice migra suas percepções de um rígido “Superego”, este imposto de forma imperiosa para um Id sublimado por ela e por Ulisses após traçar um caminho de descobertas e aventuranças antes nunca permitidos de serem trilhados; este que a leva para uma melhor compreensão de seu ser, do âmbito social que se inseria e da relação que Loreley estava vivenciando.

Ulisses agiu como um apaziguador do pesar dessa cela que sua amada se encontrava, fazendo assim com que ambos caminhassem para uma maior leveza no trato que davam a si próprios e pudessem ter um Ego de fato mais acessível e que transitasse entre as vontades do Id e repressões do Superego de forma mais dinâmica e equilibrada.

A leitura da obra “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” permite tais comparações pela forma que a autora nos conduz frente aos pensamentos e atitudes do casal em questão e nos mostra as mudanças nas nuances individuais e captações de terceiros dessa relação que norteia a história.


1FREUD, Sigmund. Mal-Estar na Civilização. Tradução Paulo César de Souza. — São Paulo : Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

2LISPECTOR, Clarice. Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998.


MINIBIOGRAFIA

Graduado em Administração na UFRRJ, Flamenguista por Opção, Geek por Natureza, Carioca de Nascimento, Amante de Livros, Misterioso, Cinéfilo, Curte Contar/Apreciar Boas Histórias e Experiências de Vida; Sempre em Busca de Novos Objetivos.

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