Ser, evento, sujeito: o sistema de Alain Badiou

Por Alain Badiou, traduzido por Daniel Fabre

Após mais de trinta anos de sua primeira edição, o Ser e o Evento de Alain Badiou segue sendo um dos mais importantes e controversos livros de filosofia contemporânea. Abaixo, o prefácio do autor à primeira edição inglesa, onde faz um importante balanço da repercussão de seu livro até então (2005) e uma breve síntese de suas principais motivações e teses.


Em breve fará vinte anos desde que eu publiquei esse livro na França. Naquele momento eu estava ciente de que havia escrito um ‘grande’ livro de filosofia. Eu senti que tinha realmente atingido o que tinha planejado fazer. Não sem orgulho, pensei que tinha escrito meu nome na história da filosofia, e em particular, na história daqueles sistemas filosóficos que são matéria de interpretações e comentários através dos séculos.

Quase vinte anos depois o livro será publicado em inglês, depois de ter sido publicado em português, italiano e espanhol, e justo antes de publicá-lo em alemão, certamente não é uma prova de imortalidade! Mas mesmo assim, é uma prova de consistência e resistência; muito mais do que se eu tivesse sido traduzido imediatamente – o que pode sempre ser um mero efeito da moda.

De fato, ao tempo de sua publicação, esse livro não deu a si uma imediata compreensão. Estavamos no fim dos oitenta, em franca regressão intelectual. O que estava na moda era a filosofia moral disfarçada de filosofia política. Em qualquer lugar que você virasse alguém estava defendendo os direitos humanos, o respeito pelo outro e o retorno de Kant. Protestos indignantes eram feitos contra o “totalitarismo” e uma frente única foi reunida contra o Mal radical. Um tipo de filosofia reacionária e fraca se insinuava em todo lugar: uma comunhão pela dissolução do socialismo burocrático na URSS, a desconcertante expansão do mercado financeiro mundial e a paralisia quase global de um pensamento político emancipatório.

A situação era realmente paradoxal. Por um lado, dominando a opinião publica, tinha-se a “democracia” – em sua forma representativa e eleitoral inteiramente corrupta – e a “liberdade” reduzidas a liberdade de comercializar e consumir. E isso constitui a universalidade abstrata de nossa época. Isto é, a aliança entre o mercado e o parlamentarismo – que eu chamo “capitalo-parlamentarismo” – funcionando como se fosse a única doutrina possível, em uma escala mundial. Por outro lado, tinha-se a ampla presença do relativismo. Declarações foram feitas de que todas as culturas tinham o mesmo valor, de que todas as comunidades geravam valores, de que toda produção do imaginário era arte, de que todas práticas sexuais eram formas de amor, etc. Em suma, o contexto combinava o violento dogmatismo da ‘democracia’ mercantil com um constante ceticismo que reduzia os efeitos da verdade em operações antropológicas. Consequentemente, a filosofia era reduzida a ser tanto uma justificação laboriosa do caráter universal dos valores democráticos, como a um sofismo linguístico de legitimação do direito a diferenças culturais contra qualquer pretensão universalista por parte das verdades.

Meu livro, entretanto, por meio de um pesado aparato demonstrativo, fez quatro afirmações que foram inteiramente contra o fluxo dessa filosofia ordinária.

  1. Situações não são nada mais, em seu ser, do que puras multiplicidades indiferentes. Consequentemente, não faz sentido buscar por nenhuma diferença que possa ter um papel normativo. Se a verdade existe, elas são certamente indiferentes a diferenças. O relativismo cultural não pode ir além da afirmação trivial de que diferentes situações existem. Ele não nos diz nada sobre o que, entre as diferenças, importa legitimamente aos sujeitos.
  2. A estrutura das situações não aporta, em sí, nenhuma verdade. Por consequência, nada normativo pode ser extraído do exame realista e simples do devir das coisas. Em particular, a vitória da economia de mercado sobre as economias planificadas e a progressão do parlamentarismo (que de fato é bem menor e, como de costume, atingida por meios violentos e artificiais), não constitui argumentos em favor de um ou outro. A verdade é constituída apenas pela ruptura com a ordem que a suporta, nunca como um efeito desta ordem. Eu nomeei esse tipo de ruptura que se desdobra em verdades como ‘o evento’. A filosofia autentica não começa em fatos estruturais (culturais, linguísticos, constitucionais, etc), mas unicamente no que acontece e no que permanece na forma de uma emergência estritamente incalculável.
  3. Um sujeito não é nada mais do que uma fidelidade ativa ao evento da verdade. Isso significa que um sujeito é um militante da verdade. Eu fundei filosoficamente a noção de ‘militante’ em um tempo em que o consenso era que qualquer engajamento desse tipo era arcaico. Não apenas fundei essa noção, mas a aumentei consideravelmente. O militante da verdade não é apenas o militante político trabalhando para a emancipação da humanidade em toda sua extensão. Ele ou ela são também o artista-criador, o cientista que abre um novo campo teórico, ou o amante cujo mundo esta encantado.
  4. O ser de uma verdade, provando a si mesmo como uma exceção a qualquer predicado pré-constituído da situação na qual a verdade surge, deve ser chamado ‘genérico’. Em outras palavras, apesar de estar situada em um mundo, uma verdade não retém nada de expressivo dessa situação. Uma verdade diz respeito a todos tanto quanto uma multiplicidade que nenhum predicado particular pode circunscrever. O trabalho infinito de uma verdade é então um ‘procedimento genérico’. E ser um Sujeito (e não um simples animal individual) é ser uma dimensão local e ativa de tal procedimento.

Tentei argumentar sobre essas teses e relacioná-las juntas de uma maneira coerente: isso eu falei. No mais, coloquei um sofisticado aparato matemático a seu serviço. Para pensar o infinito dos múltiplos puros tomei ferramentas da teoria dos conjuntos de Cantor. Para pensar o caráter genérico das verdades me voltei ao profundo pensamento de Gödel e Cohen a respeito do que é uma ‘parte’ de um múltiplo. E apoiei essa intervenção no formalismo matemático com uma tese radical:  o ser, ser-enquanto-ser, não é nada mais que pura multiplicidade, é legitimo dizer que a ontologia, a ciência do ser-enquanto-ser, não é outra coisa do que a própria matemática.

Essa intrusão do formalismo me colocou em uma posição paradoxal. É bem conhecido que por décadas nós vivemos em uma oposição artificial entre a filosofia anglo-americana, que é supostamente racionalista, baseada na analise formal da lingua e da lógica matemática, e a filosofia continental, supostamente na borda do irracionalismo, e baseada no senso literário e poético de expressão. Recentemente Sokal pensou ser possível mostrar que as referencias ‘continentais’ a ciência, tais como as de Lacan, Deleuze, ou mesmo a minha, não eram mais do que imposturas ininteligíveis.

Entretanto, se usei as matemáticas e lhes dei um papel fundamental, como um grande numero de racionalistas americanos o fazem, também uso, na mesma extensão, os recursos do poema, como um grande numero de meus colegas continentais o fazem.

No fim isso ocorreu devido a companhia que mantive da literatura, os representantes da filosofia analítica, incluindo aqueles na França, tentaram denegrir meu uso do formalismo matemático. De qualquer modo, devido a seu próprio uso, os puros filósofos continentais me acharam opaco e esperaram uma tradução literária dos matemas.

Ainda assim não há diferença entre o que eu digo e o que filósofos como Platão, Descartes, Leibniz ou Hegel disseram mais de cem vezes desde as próprias origens de nossa disciplina: reorganizar como um todo, se não criar, o conhecimento das matemáticas, por meio de todos os poderes imagéticos da língua. Saber como abrir caminho através de demonstrações tais como as de um completo cantochão, e então adentrar em um pensamento sem precedentes em primaveras díspares.

O que eu quis enfatizar aqui é que eu não apresento nada nas matemáticas que já não tenha sido estabelecido; eu tomei cuidado em reproduzir demonstrações, para que não fosse pensado que glosei os textos à distancia. Da mesma maneira, meu recurso aos poetas é baseado em uma interminável visita a seus escritos.

Então não se pode me flanquear com alguma suposta ignorância, tampouco em matéria de complexidades formais que eu requeiro, de Cantor a Groethendick, nem em matéria de inovação escrita, de Mallarmé a Beckett.

Mas é verdade que esses usos, que rompem com o horrível destino acadêmico de especialização, renovando os laços com a abertura absoluta sem a qual a filosofia não é nada, poderia bem facilmente ter sido surpreendente naqueles tempos de reação e fraqueza intelectual.

Talvez hoje nos estejamos entrando em tempos novos. Nesse caso, esse pode ser um dos possíveis sentidos da publicação do meu livro em Inglês.

Essa publicação deve tudo, deve ser dito, ao meu principal tradutor, Oliver Feltham, e a seu amigável orientador, Justin Clemens. Não é fácil a tarefa de transportar a amplitude que eu dei a sintaxe francesa na concisão irônica da língua deles. Ademais, agradeço aqueles que assumiram o risco de distribuir tal mercadoria singular: Continuum Books.

Eu gostaria que essa publicação marcasse um fato obvio: a nulidade da oposição entre pensamento analítico e pensamento continental. E eu gostaria que esse livro fosse lido, apreciado e contestado tanto pelos interiores da grandeza experimental e formal das ciências e ou do direito, quanto ele é pelos estéticos do niilismo contemporâneo, pelos refinados amadores da desconstrução literária, pelos militantes selvagens de um mundo desalienado, e por aqueles que estão deliciosamente isolados por construções amorosas. Finalmente, que digam a si mesmos, fazendo o difícil esforço de ler a mim: aquele homem, no sentido do que inventa, é todos nós ao mesmo tempo.


*Imagem: Kandinsky, Circles in a Circle. 1923

 

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