O quadrado antes e depois: Malevich e o filme The Square

Por Philippe Campos

O que me motiva a escrever sobre o filme The Square é que há outros dois squares que permitem a contraposição com o primeiro.  Essa contraposição permite polarizar o significado de um desde aproximações e distensões entre os outros dois.


Fig 1

O filme The Square foi o vencedor da palma de ouro no festival Cannes. O filme trata do curador de um museu (Christian – pertencente a uma alta classe social), o qual encontra-se envolvido em duas narrativas principais, primeiro há um garoto que importuna Christian devido a este tê-lo acusado de ter furtado o seu telefone celular. O garoto (morador de um prédio de baixa renda cuja família parece ser de origem imigrante ou calcada numa sociedade tradicionalista), como não havia cometido o crime, sai em busca de Christian e exige que este faça uma retratação perante sua família por ter tido a honra manchada. A segunda narrativa é sobre uma obra de arte, chamada O Quadrado. Esta obra constitui-se de um quadrado desenhado em frente ao museu que conta com os dizeres: “O quadrado é uma zona franca onde impera confiança e cuidado. Em seu limite, todos têm os mesmos direitos e deveres”. A treta acontece quando os responsáveis pela divulgação da obra de arte pensam numa propaganda. O vídeo de propaganda divulgado no youtube mostra uma garotinha tremendo e chorando, embrulhada num lençol (percebe-se que é uma mendiga) e quando ela adentra no quadrado, algo inesperado acontece, ela explode. Isso gera uma comoção da imprensa que obriga Christian a justificar esse grotesco perante a mídia, o culmina com a perda de seu posto no museu.

Voltando à minha motivação. Acontece que existem outros quadrados permitem dar sentido a esse quadrado: o primeiro trata-se do quadro de Malevich, Quadrado negro sobre fundo branco, pintado entre 1913 e 1915. Essa obra constitui-se, conforme o título, de apenas um quadrado negro pintado sobre a tela. Contudo, em Malevich, há ainda um outro quadrado, o quadrado ícone do século XX para Badiou, a obra Quadrado branco sobre fundo branco (1915). Essa obra é resultado do escrutínio por encontrar a mínima diferença que separa a composição do artista da matéria bruta, o ato artístico puro e autêntico – Badiou associa essa obra ao século passado, pois, foi naquele período em que se passou ao ato de levar até às últimas consequências a promessa do século XIX, o século das promessas (revolucionárias) e assim, encontrar o autêntico por debaixo do semblante, demolir as falsas aparências para que o verdadeiro (o novo Homem soviético) pudesse aparecer; mas, Badiou pontua “Essa paixão só pode realizar-se como destruição. É sua força porque, afinal das contas, muitas coisas merecem ser destruídas. Mas é também seu limite, porque a depuração é processo inacabável”[1].

Fig 2           Fig 3

Qual dos dois quadrados merecem ser associados ao outro quadrado, o do filme? O quadrado com a diferença mínima ou aquele com o marcado contraste? Se o quadrado da diferença mínima nos remete à paixão pela destruição ou pelo autêntico, ainda não dissemos como ler o quadrado contrastante. Esse quadrado preto nós o leremos sua literalidade. Ele marca a passagem de uma pintura figurativa, para uma pintura abstrata – em que se pese os esforços estéticos da pintura pós-impressionista rumando à composição puramente cromática e formal nas telas, essa pintura ainda fazia referência aos objetos fora do plano; fora necessário o passo formal de Malevich (e de outros) para se estabelecer o abstracionismo. Portanto, contrastaremos o filme ao quadrado do escrutínio ou ao quadrado do contraste?

Ao que nos parece, aos dois e a nenhum dos dois. O Quadrado branco sobre fundo branco nos remete à paixão revolucionária por romper com o império do semblante que coage o autêntico. Já o Quadrado negro sobre fundo branco, nos lança à paixão revolucionária pelo rompimento, o contraste entre o antes e o depois da revolução, ao período da tomada do poder e o de destruição das bases pré-existentes. Sobre o primeiro aspecto, fica difícil sustentar o verdadeiro num mundo onde a verdade carrega consigo o germe do totalitarismo, onde a figura do ideal é facilmente demolível pelo argumento ad hominem – quem poderia enunciar uma verdade quando todo discurso é circunscritível a um lugar, a uma vivência, à experiências particular? –. Para o segundo, é difícil sustentar um discurso revolucionário numa era, nas palavras de Paulo Arantes, de expectativas decrescentes,[2] numa época em que a política do mal menor, ou emergencial, impera na agenda ativista – seria razoável dizer que a pessoa normal preza por um cotidiano um pouco menos mordaz, as pessoas querem segurança, seja no seu emprego sucateado, seja no seu trajeto do trabalho ou até a padaria.

Dessarte, o que resta da comparação entre o The Square e os outros squares? Resta o seu átomo literal. Um quadrado é uma limitação espacial, é um lugar no espaço onde se inscreve um dentro e um fora. Vejam só. O monstruoso gap que se acentua conforme passa ano entre a riqueza e a pobreza[2] é o que representa o quadrado. E isso está dito no filme: “O quadrado é uma zona franca” (em que se pese o blábláblá que vem depois), zona franca é uma região limitada onde imperam relações econômicas não sujeitas às taxações alfandegárias, ou seja, essa delimitação espacial define simplesmente o lugar para onde o Capital aflui, separa os espoliados. Voltemos ao filme e às duas narrativas ali expostas. – A essa altura a metáfora de quem está dentro e de quem está apartado deve parecer um tanto óbvia –. No primeiro caso, o garoto importuna Christian para que ele o devolva a honra que lhe fora manchada, quando Christian se compadece da posição do garoto, o feito não pode ser desfeito, a família do garoto se mudara do prédio e o curador quando chega lá não encontra ninguém. Christian sai de sua zona privilegiada mas é impotente em restaurar o dano. No segundo caso, a metáfora é mais óbvia, a garota mendiga é simplesmente feita em pedaços ao entrar na zona franca.

A comparação se fecha aí. O simples quadrado nas telas de Malevich outrora endereçados à revolução ou à paixão revolucionária, em The Square, é simplesmente o reflexo do dado na realidade obturada do capitalismo atual, as coordenadas estão postas: ou se está dentro ou se está fora.

Curioso notar a mobilização da energia humana em pensar um projeto de colonização de marte e observar como nossa imaginação não consegue cogitar uma reorientação mínima da cadeia produtiva. Retomando o quadrado, o bilionário Elon Musk (dentre outros)[3] gerencia um projeto (literalmente de “outro planeta”) de colonização de marte, caso aconteça, pode-se supor quem serão os novos marcianos. Quando indagado sobre o projeto, o bilionário diz: “Eu apenas tento pensar no futuro e não ficar triste[4]”. Para aqueles que podem se dar ao luxo de pensar longe, o futuro está em outro planeta, para os milhões outros, estes estão condenados ao presente perpétuo.


[1] Badiou, A. (2007). O século. SP: Ideias & Letras. p. 94.

[2] Arantes, P. (2014). O novo tempo do mundo. São Paulo: Boitempo.

[3] https://g1.globo.com/economia/noticia/oxfam-critica-concentracao-indecente-de-riqueza-no-mundo.ghtml

[4] https://www.ted.com/talks/elon_musk_the_future_we_re_building_and_boring/transcript?language=pt#t-1074460


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Ministrado por Philippe Campos, formado pela Universidade Federal de São José Del Rei, mestre em teoria psicanalítica pela UFRJ, grande conhecedor de memes e menes e membro do CEII, supervisionado pelo Gabriel Tupinambá, doutor em filosofia pela European Graduate School, professor do nosso curso “Introdução ao Pensamento de Slavoj Zizek” e também membro do CEII.

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Fig 4

 

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