Gênero e lugar de fala

Por Julio d’Avila

BRUTO: A que mar de perigo me conduzes, 

Pedindo que vasculhe a própria alma

Buscando o que lá dentro não se encontra?

Júlio César, Shakespeare


A “esquerda” pós-moderna, que abandonou a luta e teorização contra o capitalismo, para empreender em um projeto de “humanização” do sistema, utiliza três conceitos como norteadores de suas indagações e problematizações: teoria de gênero, lugar de fala e apropriação cultural. É evidente que esses não são os únicos temas que essa “esquerda” discute. Mas são sem dúvida os mais polêmicos. O objetivo desse texto não é criticá-los ou esclarecê-los ou expandi-los. O objetivo desse texto é mostrar que existe uma inconsistência teórica no cerne da coexistência de dois deles. Isto é, pode ser um ou o outro. Os dois se contradizem e se invalidam. A explanação dos conceitos é feita apenas para melhor compreensão dessa inconsistência.

A maior fonte teórica para a compreensão da teoria de gênero é, evidentemente, Problemas de Gênero, de Judith Butler, que popularizou essa discussão. O primeiro capítulo do livro (publicado pela editora Civilização Brasileira como parte da coleção Sujeito e História), é uma crítica do desenvolvimento do gênero, da ideia de sujeito e identidade, que se encerra com a conclusão que o gênero é performativo. Para ela, ninguém é ou possui um gênero desde seu nascimento, o gênero se constitui a partir do modo como agimos, certos modos de agir criam uma ideia do que se é. Nas palavras da autora: “O gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura altamente rígida, a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substancia, de uma classe natural de ser”[i]. Não à toa, o subtítulo do livro é “Feminismo e a Subversão da Identidade” – Butler desconstrói a ideia de identidade e, portanto, a legitimidade obtida a partir dela[ii]. Ela fortalece esse ponto no capítulo sobre atos corporais: “[…] se o gênero é algo que a pessoa se torna – mas nunca pode ser – então o próprio gênero é uma espécie de devir ou atividade, e não deve ser concebido como substantivo, como coisa substantiva ou marcador cultural estático, mas antes como uma ação incessante e repetida de algum tipo”[iii].

Toda a crítica que Butler faz no primeiro capítulo fundamenta-se na ideia de que o agente de uma ação se forma através do ato e que o “nós” feminista não passa de uma construção falsa. A identidade, em Butler, é uma prática, um efeito.

Não é difícil perceber o problema que essa concepção butleriana coloca para defensores do “lugar de fala”.

Por tratar-se de um termo pouco acadêmico, mais comum em discussões de coletivos ou na internet, é difícil encontrar uma referencia bibliográfica forte para o conceito, à exceção do livro de Djamila Ribeiro, O Que é Lugar de Fala? [IV], mas como a autora leva o conceito a um fim menos radical, não chegando à proeza pós-moderna de defender que um homem não possa se pronunciar sobre feminismo, não é interessante adentrar as questões que ela aborda, especialmente porque ela contorna essa problemática ao afastar a ideia de identidade, usando, no seu lugar, a posição social ocupada pelo agente do discurso. O livro de Djamila apresenta a variante mais lógica do conceito: o agente do discurso deve reconhecer a posição social a partir da qual ele o produz.  Ainda existe a contradição com a ideia de Butler segundo a qual o agente é produzido a partir do discurso mas, a partir da dissociação da ideia de identidade, é possível articular ambas as posições, mesmo que em uma corda argumentativa bamba. A outra variante é aquela que essencialmente afirma “somos contra a apropriação do nosso discurso – a legitimidade do nosso discurso origina-se na nossa experiência e identidade”. Essa posição é completamente insustentável à luz de Butler, que trata a identidade, ou nossa ideia de identidade, como um efeito, algo produzido, algo que não tem origem antes do sujeito e sim a partir de ações discursivas, podendo ser relativizada e moldada a partir de cenários culturais e linguísticos diferentes. Para ela, “[…] o substantivo ‘eu’ só aparece como tal por meio de uma prática significante que busca ocultar seu próprio funcionamento e naturalizar seus efeitos”. Dessa forma, partindo dessa noção de identidade, é impossível defender a legitimidade de uma fala a partir da identidade.

Christian Dunker também critica essa ideia de lugar de fala, afirmando que essa posição não só é uma inversão da ideia de poder para o polo oposto, ao invés de ser uma frutífera crítica do poder, mas também leva ao “infinito ruim” de Hegel, culminando com a pergunta “você quem? Quem é você?” que determina a falta de coerência dessa posição.

Se a base de um discurso defendido é inteiramente desmontada por um outro discurso, defendê-los simultaneamente é insustentável, leva ao fim da legitimidade do próprio agente discursivo, no caso, os arautos do pós-modernismo. A contradição é gritante: o lugar de fala baseia-se na ideia de que a identidade confere autoridade a quem produz o discurso. A teoria de gênero tem como pressuposto teórico a definicao da identidade como algo artificial e construído a partir de um processo ilusório, que dá à identidade essa sensação de naturalidade.

Se obtive sucesso na minha argumentação, a impossibilidade de coexistência de articulação da ideia de lugar de fala com pressupostos e conceitos de Judith Butler e a teoria de gênero ficou clara. Na epígrafe desse texto, Brutus desconfia de Cássio, que pede para que ele procure algo dentro de si que, para Brutus, não existe. Por isso, ele teme e age com desconfiança. Devemos fazer, com relação à “esquerda” pós-moderna, o mesmo.

Ao analisar a fundamentação teórica de suas posições, percebemos que elas são fragilmente sustentadas, a partir de constatações que, como demonstrado, podem até se contradizer explicitamente. Muitas vezes o combate mais eficaz a essa posição é o questionamento mais profundo, que chega ao cerne e aos pressupostos teóricos básicos da problematização. É provável que, a partir da pergunta “qual a base do que você está dizendo?”, os defensores dessa posição reajam exatamente como Brutus: recuem, assustados.


[i] Judith Butler, Problemas de Gênero (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira), p.69

[ii] “[…] qualificar-se como uma identidade é tarefa das mais árduas, pois tais aparências são identidades geradas por regras, que se fiam na invocação sistemática e repetida de regras que condicionam e retringem as práticas culturalmente inteligíveis da identidade.” Idem, p.249

[iii] Idem, p.195

[IV]  Um outro livro, Feminismo em Comum, de Marcia Tiburi, aborda o assunto, mas a filósofa faz uma crítica ao uso deturpado (o uso com o objetivo de silenciar críticas e posicionamentos opostos) do conceito de lugar de fala que, para ela, é um lugar de diálogo, um lugar politico em que o outro tem grande importância. “Se o lugar de fala é abstrato e silencia o outro, ele já não é mais um lugar politico, mas um lugar autoritário que destrói a política”(p. 166). A autora faz uma distinção interessante: o lugar onde o outro só pode assumir o papel de ouvinte de fato existe, mas ele é o “lugar da dor”, não o lugar de fala. “Para que o o lugar da dor se torne lugar de fala, é preciso articular a dor, reconhecê-la, colocá-la em um lugar politico, aquele lugar onde o outro está incluído como um sujeito de direitos que também tem sua dor”.

 

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