Fascismo e o futuro

Por John Michael Greer, via Resilience, traduzido por Aukai Leisner

John Michael Greer é um autor e blogueiro amplamente lido cujo trabalho se concentra nas sobreposições entre ecologia, espiritualidade e o futuro da sociedade industrial. Ele serviu doze anos como Grande Arquidruida da Antiga Ordem dos Druidas na América, e atualmente lidera a Ordem Druídica da Golden Dawn.


Parte 1: Novilingua

Durante os quase oito anos em que venho postando esses ensaios semanais sobre como seria um futuro desindustrial, percebi que certas questões emergem tão infalivelmente quanto narcisos em abril ou comida de aeroporto num vôo turbulento.

Algumas delas tem a ver com tópicos que discuti aqui recentemente, tais como o “vaporware du jour” que certamente salvaria nossa civilização industrial e o “cataclismo du jour” que, de maneira igualmente certa, a destruiria. Posso afirmar com satisfação, no entanto, que nem todas as questões recorrentes são tão inúteis assim.

Umas delas merece bastante mais atenção do que a tenho dedicado até agora: a questão de saber se o Longo Declínio da sociedade industrial será perturbado por um ressurgimento do fascismo. É uma pergunta razoável, uma vez que os movimentos fascistas de nosso passado não tão distante ascenderam ao poder graças à falência política e implosão econômica da Europa pós-Primeira Guerra Mundial, e “falência política e implosão econômica” é uma descrição bastante legítima do atual estado de coisas nos Estados Unidos e em boa parte da Europa. Além disso, já existem hoje movimentos perigosamente próximos dos partidos fascistas dos anos 1920 e 1930 em uma série de países europeus. Aqueles que os descartam como uma irrelevância política talvez devessem examinar a história mais de perto, pois o mesmo erro foi também cometido repetidas vezes por políticos e especialistas há quase um século atrás.

No entanto, até o momento, com apenas uma exceção – uma crítica, alguns anos atrás, do alvoroço na cena do pico do petróleo sobre uma suposta sociedade “fascisto-feudal” que os ricos estariam planejando nos empurrar goela abaixo – fiz o melhor que pude para evitar o assunto. Não por ele ser desimportante, mas pelo fato de estar tão atulhado de obscuridades e distorções históricas que uma conversa sobre ele tornou-se quase impossível. Precisarei de um post inteiro apenas para limpar parte do estrume que se acumulou ao longo das décadas nesses estábulos de Áugias de nossa imaginação coletiva. Ainda assim, tenho certeza de que muitos leitores serão capazes de distorcer cada uma de minhas palavras.

Há uma grande ironia nessa situação. Quando Orwell escreveu sua extraordinária sátira sobre a política totalitária, 1984, um dos principais temas explorados pelo autor foi a degradação da linguagem para fins políticos. Tal tendência encontrou sua forma mais bem acabada na língua criado pelo governo hiper-autoritário do romance, a Novilíngua, que era deliberadamente calculada para obstruir a clareza de pensamento. A Novilíngua permanece no domínio da ficção – bem, mais ou menos – mas toda a questão do fascismo, incluindo o próprio termo, acabou se enredando num emaranhado de linguagem degradada e pensamento incoerente tão extremos quanto quaisquer elementos do romance orwelliano.

Hoje em dia, para ser mais preciso, a palavra “fascismo” funciona na maior parte do tempo como o que S. I. Hayakawa chamava de “palavra-rosnado” – um barulho verbal vazio de conteúdo, que serve apenas para expressar sentimentos de raiva e nada mais. Na semana passada, um de meus leitores comentou que, para todos os efeitos, a palavra “fascismo” poderia ser substituída em seu uso quotidiano por “bicho-papãozismo”, no que ele está, é claro, coberto de razão; Aldous Huxley apontava muitos anos atrás que, já em sua época, a palavra “fascismo” significava apenas “algo que devemos reprovar veementemente”. Quando ativistas à esquerda do espectro político contemporâneo insistem que o atual governo dos EUA é um regime fascista, eles querem dizer exatamente a mesma coisa que seus equivalentes do lado oposto do espectro tem em mente ao chamar o atual governo de socialista: “Eu te odeio!” Trata-se de um belo exemplo de como o discurso político contemporâneo degenerou, em grande parte, em barulhos verbais associados a estados emocionais exaltados que acabam por sufocar qualquer outra forma de comunicação.

O rebaixamento da nossa linguagem política muitas vezes atinge níveis absurdos. Nos anos 90, por exemplo, quando eu morava em Seattle, alguém começou a pixar “FACISMO” em muros de alguns bairros descolados da cidade. Enquanto esperávamos nosso ônibus, eu e minha esposa aproveitávamos para especular do que exatamente se trataria aquele “fascismo”. (A teoria dela é de que se tratava do preconceito que faz com os patrões pensem que empregados que trabalham na recepção deveriam ser contratados pela aparência (belos rostos/faces) em vez de por suas habilidades; a minha, lembrando a declaração moralista de uma prima vegetariana de que ela jamais comeria algo que tivesse um rosto (face), era de que se tratava da crença de que o valor moral de um ser vivo dependeria do fato de possuir um rosto (face) que os humanos reconhecessem como tal). Para além da brincadeira, no entanto, há uma questão real: o que diabos o pixador imaginava que conseguiria ao espalhar aquela palavra pelos muros da tão liberal Seattle? Por acaso pensava que os membros do Partido Fascista Americano que calhassem de estar marchando pela cidade veriam o slogan e tremeriam de terror?

Para ir além dessas bobagens, precisaremos de um tempo para sair do atoleiro da Novilíngua que cerca o tópico do fascismo – para reconectar as palavras a seus significados e movimentos políticos a seus contextos históricos. Comecemos pelo óbvio: o que exatamente significa a palavra fascismo, e qual foi a trajetória de seu significado original a seu atual status como palavra-rosnado?

Isso nos remonta ao sul da Itália, em 1893. Naquele ano, um movimento socialista de camponeses rebelou-se e recorreu a ações extra-legais para tentar romper o domínio da velha aristocracia feudal sobre a economia da região. Os grupos armados mobilizados por esse movimento eram chamados de fasci, palavra que pode ser melhor traduzida como “grupo” ou “bando”. Na conturbada cena política italiana, o rótulo foi tomado emprestado por vários outros grupos políticos, além de nomear as unidades de choque na Primeira Guerra Mundial – os Fasci di Combattimento, “grupos de combate”, eram o equivalente exato das Sturmabteilungen, “tropas de assalto”, do Exército Imperial Alemão.

Após a guerra, em 1919, um veterano do exército e ex-jornalista socialista chamado Benito Mussolini deu o nome de Fasci di Combattimento a seu novo movimento político, mais ou menos ao mesmo tempo em que outro veterano do exército, do outro lado dos Alpes, tomava emprestado o termo Sturmabteilungen para os capangas de camisa marrom de seu partido. O movimento transformou-se rapidamente num partido político, mudando seu nome para Partido Fascista, e a quase total inércia do sistema político italiano permitiu que Mussolini tomasse o poder após a Marcha sobre Roma, em 1922. A ideologia de segunda mão que os partidários de Mussolini fabricaram para o novo regime ficou conhecida, portanto, como Fascismo – “Grupismo” é, novamente, uma tradução razoável. Mais tarde, numa tentativa de apropriar-se do prestígio do Império Romano, Mussolini identificou o Fascismo com outro sentido da palavra fasci – o punhado de gravetos em torno de um machado que os lictores romanos carregavam como símbolo de sua autoridade – que mais tarde acabou tornando-se o emblema do Partido Fascista.

É preciso dizer que, de todos os regimes totalitários da Europa no século XX, Mussolini estava longe de ser o mais sanguinário. O regime fascista na Itália levou a cabo, talvez, duas mil execuções políticas durante toda sua vigência; o regime de Hitler contabilizou esse número de assassinatos políticos, em média, TODOS OS DIAS em que o Reich esteve no poder – e quando o assunto é assassinatos políticos, Hitler foi um amador comparado a Stalin ou Mao Zedong. Ademais, os assassinatos políticos em alguns regimes oficialmente democráticos excedem facilmente os números do fascismo italiano. Por que, então, “fascista” continua sendo o clichê preferido de quem deseja denunciar um sistema político? Mais especificamente, porque a maioria dos americanos diz “fascista” querendo dizer “nazista”, para em seguida demonstrar a mais invencível ignorância a respeito de ambos os movimentos?

Há uma razão para tal – e ela provém das reviravoltas da política radical na Europa dos anos 20 e 30.

A fundação da Terceira Internacional em Moscou, em 1919, forçou os partidos políticos de outras partes da Europa a tomar um lado, posicionando-se contra ou a favor do regime soviético. Os partidos que se filiaram à Internacional deveriam obedecer as ordens de Moscou sem questionamentos, mesmo quando essas ordens tinham claramente muito mais a ver com a política externa expansionista da Rússia que com a gloriosa causa da revolução proletária; ao mesmo tempo, muitos idealistas ainda pensavam que o regime soviético, apesar de todos os seus defeitos, era a melhor esperança para o futuro. O resultado, na maioria dos países, foi o surgimento de partidos marxistas rivais: um partido comunista obediente a Moscou e um partido socialista independente.

No vale-tudo ideológico que se seguiu, o regime de Mussolini foi um presente dos céus para Moscou. Já que o Duce era um ex-socialista que havia abandonado Marx na sua trajetória de ascensão ao poder, os partidos que pertenciam à Terceira Internacional passaram a usar o termo “fascista” para designar aqueles que se recusavam a juntar-se a eles; era sua maneira de afirmar que os últimos não eram de fato socialistas, e com certeza trairiam o proletariado como Mussolini era acusado de fazê-lo. Mais tarde, quando a União Soviética acabou do mesmo lado na Segunda Guerra que seus velhos inimigos Inglaterra e Estados Unidos, o hábito de usar a palavra “fascista” como ofensa genérica espalhou-se pela esquerda desses dois últimos países. Daí a seu status atual como palavra-rosnado universal o caminho não é longo.

O que tornou o termo “fascista” tão útil tanto tempo depois do colapso do regime de Mussolini foi sua completa vacuidade. Mesmo em italiano “grupismo” não quer dizer muita coisa e, em outras línguas, a palavra não passa de um som vazio; isso ajudou sua transformação num epíteto que poderia ser aplicado a qualquer um. O termo  “nazista” partilhava de muitas das mesmas vantagens: na maior parte das línguas, ele soava como algo desagradável e não tinha nenhum significado, podendo ser atirado livremente contra qualquer alvo, sem risco de constrangimento. Não se pode dizer o mesmo a respeito do verdadeiro nome do movimento político liderado por Adolf Hitler, o que é uma das razões pelas quais quase ninguém de fora da academia especializada chama o nacional-socialismo por seu nome próprio.

Esse nome, aliás, não é simplesmente um jargão inventado pelos publicitários de Hitler. O primeiro partido nacional-socialista foi fundado em 1898, no que é hoje a República Checa, e o segundo na França, em 1903. O nacional-socialismo era uma posição reconhecida nas controvérsias político-econômicas da Europa do início do século XX. Se não se compreender isso, torna-se impossível conceber o fato de o fascismo ter apelado a tantas pessoas nos amargos anos do entre-guerras. Para de fato compreendê-lo, no entanto, é necessário livrar-se de um dos mais duradouros fardos intelectuais da Guerra Fria.

Depois de 1945, à medida que os Estados Unidos e a União Soviética cercavam-se como cachorros rivais disputando o mesmo osso, passou a ser do interesse de ambos os lados impedir qualquer outro país/bloco de propor uma terceira via. Alguns dos detalhes mais perversos da política do pós-guerra derivaram desse interesse compartilhado, bem como alguns impactos duradouros sobre o pensamento econômico e político. Até aquele ponto, a economia política no mundo ocidental havia abraçado diversas escolas de pensamento. Depois, em ambos os lados da cortina de ferro, a existência de alternativas à democracia representativa conjugada ao capitalismo, de um lado, e ao estado socialista burocrático, de outro, tornou-se um assunto tabu, assim permanecendo até hoje nos EUA.

Pode-se ter uma dimensão do que foi apagado ao se investigar o cenário político na Europa do entre-guerras, quando a diversidade de ideias estava em seu auge. Naquele tempo, assim como hoje em dia, a maioria dos partidos políticos existiam para promover os interesses de determinadas classes sociais mas, naquela época, ninguém fingia o contrário. Os partidos conservadores, por exemplo, representavam os interesses da antiga aristocracia e dos proprietários de terra; eles defendiam barreiras comerciais, baixos impostos sobre a propriedade e uma economia que privilegiasse a agricultura. Os partidos liberais atuavam em favor dos interesses da burguesia – isto é, das classes gerentes urbano-industriais; eles defendiam o livre-comércio, altos impostos sobre propriedades, gastos militares e expansão colonial, porque essas eram as políticas que aumentavam a riqueza e o poder da burguesia.

As classes trabalhadoras tinham algumas opções de movimentos políticos. Havia os partidos sindicalistas, que buscavam conquistar para os trabalhadores o controle direto das firmas em que trabalhavam; a depender do gosto local, isso poderia significar desde programas de controle acionário para empregados até cooperativas e outras empresas administradas por trabalhadores. O sindicalismo era também chamado de corporativismo; na maior partes das línguas européias, “corporação” e seus cognatos poderiam se referir a qualquer organização com um alvará governamental, incluindo associações de classe e cooperativas. Foi nesse sentido que o regime de Mussolini, que tomou emprestado alguns elementos do sindicalismo para formar sua eclética ideologia, gostava de referir-se a si próprio como um sistema corporativista. (Aqueles radicais que insistem que isso torna o fascismo um instrumento das grandes corporações no sentido moderno estão, portanto, irremediavelmente desinformados – um ponto de que tratarei em mais detalhe na semana que vem).

Havia também os partidos socialistas, que geralmente buscavam estabelecer um controle estatal das empresas; isso poderia variar desde uma regulação governamental, por meio da compra de ações que dessem ao estado relativo controle sobre as grandes empresas, até a pura e simples expropriação seguida de administração burocrática. Diferenciando-se dos partidos socialistas, havia os partidos comunistas que, depois de 1919, apenas vomitavam qualquer que fosse a linha do partido de Moscou; havia também uma enorme quantidade de movimentos menores – distributivismo, crédito social, e muitos outros – todos com seus próprios seguidores e soluções para os problemas políticos e econômicos da época.

A tendência da maioria desses partidos de promover o interesse de um única classe tornou-se uma preocupação no final do século XIX, e o resultado foi a emergência de partidos que lutavam, ou diziam lutar, pelos interesses de toda a nação.Muitos deles acrescentaram o adjetivo “nacional” a sua denominação, para indicar essa mudança de orientação. Assim, os partidos nacional-conservadores defendiam que as barreiras alfandegárias e políticas econômicas focadas no setor agrícola beneficiariam a todos; partidos nacional-liberais afirmavam que o livre-comércio e a expansão colonial eram o melhor para toda a nação; partidos nacional-sindicalistas sustentavam que todos sairiam ganhando se os trabalhadores tivessem uma participação maior nas empresas, etc. Não havia partidos nacional-comunistas porque Moscou não o permitia, mas havia partidos nacional-bolcheviques – no entre-guerras europeu, um bolchevique era alguém que apoiava a Revolução Russa mas insistia que Lênin e Stálin a tinham traído a fim de impor uma ditadura pessoal – que defendiam que uma revolução violenta contra a ordem existente era, na verdade, no interesse de todos.

O nacional-socialismo era mais uma dentre essas posições. Os partidos nacional-socialistas defendiam que as empresas deveriam ser sujeitas à regulação e coordenação governamental para que não agissem contra os interesses da sociedade como um todo, e que as classes trabalhadoras deveriam receber uma série de benefícios governamentais pagos por meio de impostos sobre a renda corporativa e dos ricos. Esses pontos eram centrais ao programa do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães desde a época em que a agremiação ganhou esse nome – fundado como Partido dos Trabalhadores Alemães, os demais adjetivos surgiram por exortação de um homenzinho com bigode à la Charlie Chaplin, que se tornou o líder do partido pouco tempo depois de sua fundação – e essas foram de fato as políticas que o partido implantou quando chegou ao poder em 1933.

Se essas políticas soam familiares, caro leitor, nada mais natural. Essa é a segunda razão pela qual quase ninguém de fora do nicho historiográfico chama o nacional-socialismo pelo nome: as nações ocidentais que derrotaram o nacional-socialismo na Alemanha adotaram prontamente suas principais políticas econômicas, a principal fonte de seu apelo, para impedir qualquer tentativa de que ele fosse reeditado no pós-guerra. Em sentido estrito, em termos do significado que a expressão possuía antes do início da Segunda Guerra Mundial, o nacional-socialismo é uma das duas orientações padrão da economia política contemporânea. A outra é o liberalismo, e trata-se de outra ironia da história que nos Estados Unidos o partido que detesta a palavra “liberal” é o exemplo perfeito de um partido liberal no sentido original do termo.

Quando as pessoas pensam no Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães hoje em dia, no entanto, elas não pensam em regulação estatal de empresas e férias remuneradas para os trabalhadores, apesar de esses terem sido fatores significativos na vida pública alemã durante o regime nazista. Elas tendem a lembrar outras práticas do regime de Hitler, tais como declarar guerra contra a maior parte do mundo, o assassinato em massa de oponentes políticos e o extermínio de grupos étnicos inteiros. É claro, todas essas foram realidades e devem ser lembradas. É crucial recordar, no entanto, que quando os nacional-socialistas da Alemanha estavam em campanha nos anos anteriores a 1933, eles não foram às ruas marchar com faixas dizendo VOTE HITLER E 50 MILHÕES MORRERÃO! Do mesmo modo, quando os mesmos nacional-socialistas proferiam sua retórica antissemita, eles não estavam dizendo nada que o alemão médio considerasse ofensivo ou mesmo fora do comum; para tomar emprestada uma palavra alemã bastante útil, naquela época o antissemitismo era salonfähig, “o tipo de coisa que se pode levar para a sala de estar”. (Para sermos justos, era um discurso igualmente aceitável no Inglaterra, nos Estados Unidos, e no resto do mundo ocidental).

Assim, quando as pessoas falavam sobre fascismo nos anos 1920 e 1930, a menos que fossem marxistas ortodoxos, não usavam o termo como ofensa. Era o nome oficial do partido dirigente na Itália e muitas pessoas – incluindo pessoas bem-intencionadas – ficaram impressionadas com alguns dos programas realizados pelo regime de Mussolini e desejavam que políticas parecidas fossem postas em prática em seus próprios países. O fascismo era salonfähig na maioria dos países industrializados e não perdeu esse status até que a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria remodelassem a paisagem política do mundo ocidental – quando isso aconteceu, a complexa realidade dos regimes autoritários do início do século XX desapareceu detrás de uma vasta e distorcida sombra que poderia ser, e foi, subsequentemente lançada sobre qualquer coisa imaginável.

Os prejuízos de tal distorção não se limitam a uma incapacidade de compreensão histórica. Se um autêntico movimento fascista, do tipo que surgiu na Europa no início do século passado, surgisse hoje nos Estados Unidos, é fácil prever que ninguém, à exceção de alguns historiadores, conseguiria identificar sua verdadeira natureza. Mais ainda: é igualmente previsível que muitas das pessoas que pensam opor-se ao fascismo – até mesmo, ou especialmente, os que crêem terem conseguido alguma coisa ao pixar “ FACISMO” num muro de concreto – estariam entre os primeiros a saudar um tal movimento e cerrar fileiras com ele. Como e porquê isso poderia acontecer será o tema dos dois próximos posts.

FASCISMO E O FUTURO – PARTE 2: O CENTRO TOTALITÁRIO

Como apontou a primeira parte dessa série na semana passada, há uma estranha discrepância entre o uso contemporâneo do termo “fascismo” como palavra-rosnado universal, de um lado, e a mediocridade do regime que pôs a palavra em circulação, de outro. De modo geral, como tirano, Mussolini simplesmente não era lá essas coisas e, embora o regime que ele montou com peças ideológicas sortidas tivesse muitas características objetáveis, na galeria maldita de estados autoritários o fascismo italiano não tinha exatamente um papel de destaque – como arquétipo de tirania, não era muito convincente.

Além disso, não é nada óbvio que exista um solo comum suficiente entre os vários movimentos totalitários europeus do entre-guerras que justifique o uso de um único rótulo para todos eles – com menos razão ainda poderíamos aplicá-lo a tiranos e tiranias ao redor do mundo e através das décadas. Assim, historiadores europeus e de outras partes do mundo passaram, em décadas recentes, um bom tempo discutindo se haveria ou não algo como o fascismo em geral, e alguns autores bastante rigorosos acabaram por insistir que não – que palavras mais gerais como “ditadura” seriam boas o bastante para designar a maior parte dos regimes autoritários, e que a palavra “fascismo” se aplicaria única e exclusivamente ao regime de Mussolini.

Do outro lado do debate, estavam os que argumentavam que um certo tipo de movimento autoritário na Europa do entre-guerras era suficientemente distinto de outras espécies de tirana a ponto de merecer um nome próprio. Entre eles, Ernst Nolte, cujo livro de 1968 Die Krise des liberalen Systems und die faschistischen Bewegungen (A Crise do Sistema Liberal e os Movimentos Fascistas) teve um papel central no início do debate acima mencionado. Nolte foi cuidadoso o bastante para não propor uma definição demasiado rígida do fascismo, ao invés disso propondo uma lista com seis características que qualquer movimento deveria ter para ser considerado fascista. As três primeiras são características organizacionais: o culto de uma liderança carismática, uma milícia partidária uniformizada e o objetivo do totalitarismo.

Esta última palavra foi usada tão displicentemente ao longo das últimas décadas que provavelmente é necessário parar por um momento e discutir o que ela quer de fato dizer. Um sistema político totalitário é tal que o partido no poder arroga-se o direito de governar todas as esferas da vida: política, religiosa, artística, científica, sexual etc. Há, portanto, muitas ditaduras que não são totalitárias – na verdade, é bastante comum que os ditadores se poupem do enorme trabalho extra que teriam focando única e exclusivamente na esfera política, deixando que as pessoas façam o que bem entender nas demais esferas da vida, desde que suas atividades não invadam o domínio da política – e há também sistemas totalitários que não são ditaduras: existem muitas comunidades religiosas, algumas delas mais ou menos democráticas em termos de governança, que reivindicam uma autoridade totalitária sobre a vida dos fiéis.

A dimensão totalitária, no entanto, é central a esses movimentos e regimes que são considerados fascistas segundo os critérios de Nolte. Os líderes carismáticos e milícias partidárias dos partidos fascistas do entre-guerras europeu se apresentavam, e em ao menos em alguns casos viam-se honestamente, como buscando derrubar não somente um sistema político mas toda uma civilização que, segundo eles, estava irremediavelmente corrompida. Cruzadas contra a arte e literatura “degeneradas” não eram apenas o produto de caprichos individuais de líderes fascistas; elas eram parte fundamental de uma tentativa de reconstruir do zero uma sociedade inteira, e o culto da liderança e a milícia partidária muitas vezes serviam como veículos de uma agenda totalitária mais ampla.

Boa parte da discussão que se seguiu à publicação do livro de Nolte focou na questão de se os três traços organizacionais acima discutidos seriam suficientemente únicos aos movimentos fascistas a ponto de servir como pedra de toque, se haveria mais características que poderiam ser adicionadas à lista etc. As três outras características da descrição de Nolte, por outro lado, foram amplamente aceitas pelos acadêmicos da área. Isso é ainda mais interessante, na medida em que uma delas é quase sempre imediatamente rechaçada nas raras ocasiões em que escapa do círculo encantado em que os historiadores profissionais praticam seu ofício. Essas três características são coisas que os movimentos e regimes fascistas rejeitam. A primeira é o marxismo, a segunda, o liberalismo, e a terceira – a fonte da polêmica – o conservadorismo.

Mencione isso a qualquer membro da esquerda americana contemporânea, e a reação será de total incompreensão. Tente ir além e, se você conseguir chegar a algum lugar, provavelmente o olhar de incompreensão será substituído por um de categórica rejeição ou de raiva incandescente. Um dos credos paradigmáticos do nosso atual folclore político é que o fascismo pertence ao eixo conservador do espectro político.Mais especificamente, deveria estar no extremo desse eixo, aquilo que é mais conservador que os conservadores, assim como – para a direita americana contemporânea – o comunismo é o extremo do eixo esquerdo do espectro político, aquilo que é mais liberal que os liberais.

Eu mencionei no post da semana passada que, durante a Guerra Fria, a tumultuosa complexidade do pensamento político no início do século XX foi reduzida a uma escolha de Hobson entre a democracia representativa mais capitalismo (a ideologia do imperialismo americano) e o socialismo de estado burocrático (a ideologia do império soviético). O mesmo processo de achatamento também afetou a política doméstica dos Estados Unidos, embora de um modo um pouco diverso.Comunismo e fascismo são há muito os rótulos mais apaixonados na demonologia de nossa cultura política, com republicanos e democratas usando-os avidamente para atacar uns aos outros. Uma vez que republicanos e democratas são eles próprios apenas pequenas variações sobre o mesmo tema, os rótulos passaram a funcionar bem para designar qualquer um que se desviasse demais de um ponto médio entre os dois. Isso permitiu que os partidos discutissem ferozmente sobre temas periféricos ao mesmo tempo em que mantinham perfeito consenso sobre valores fundamentais como, por exemplo, a manutenção do império americano, ou a sustentação dos desequilíbrios sistêmicos nos fluxos financeiros e de recursos que mantém esse império funcionando.

Uma das consequências dessa estratégia foi a eliminação do conservadorismo, no sentido clássico da palavra, do vocabulário da política americana. A tradição anglo-americana do conservadorismo – o movimento na Europa continental tem uma história própria e algo diversa – tem suas raízes nos escritos de Edmund Burke, cujas Reflexões sobre a Revolução na França tornou-se um farol para várias gerações de pensadores que se opunham à hubris do Iluminismo radical. Arriscando simplificar em demasia uma tradição complexa, podemos dizer que o conservadorismo baseava-se no princípio de que os seres humanos não são tão inteligentes quanto gostam de pensar. Como resultado, quando os intelectuais se convencem de que sabem como construir uma sociedade humana perfeita, eles estão equivocados, e as consequências de tentar realizar suas fantasias no mundo real normalmente vão do humilhante ao hediondo.

Na perspectiva conservadora, a ordem existente da sociedade tem uma grande vantagem em relação às invenções arbitrárias de aspirantes a revolucionários: já demonstrou-se que ela funciona na prática. Assim, os conservadores insistiam que mudanças no status quo deveriam ser feitas apenas quando houvesse boas razões para crer que elas seriam de fato para melhor. O grande defeito do conservadorismo tradicional, como gerações de radicais adoravam apontar, era que ele tendia a defender e desculpar velhas injustiças; entre suas grandes virtudes, estava a defesa das liberdades tradicionais contra as tendências autoritárias nem sempre veladas dos aspirantes a revolucionários.

Nos Estados Unidos pré-Guerra Fria, portanto, os conservadores demandavam limites ao poder federal, denunciavam as manobras da nação em direção à formação de um império global, exigiam orçamentos equilibrados e prudência fiscal e defendiam culturas e governos locais contra o domínio centralizador de Washington. No sul, esse raciocínio era inevitavelmente usado para defender a segregação racial, mas dizer que o conservadorismo americano não passou jamais de um verniz civilizado para a aberração de Jim Crow é uma distorção histórica. Como todo movimento político no mundo real, o conservadorismo era uma coisa complexa, combinando ideais elevados e motivos abjetos mais ou menos na mesma proporção que seus rivais.

Quaisquer que tenham sido seus defeitos e virtudes, no entanto, o movimento teve uma morte miserável durante o século XX, à medida que ambos os partidos e a maioria dos centros de poder adversários que formavam as classes dirigentes americanas uniram-se avidamente na corrida imperialista e passaram a competir para ver quem conseguiria inventar mais desculpas para centralizar o poder no ramo executivo do governo federal. Como parte desse processo, o antigo conservadorismo foi eviscerado, embalsamado e abandonado numa câmara de refrigeração, à exceção de alguns momentos ocasionais de demonstração pro forma para a ínfima minoria que ainda não havia recebido a notícia.

Na Europa, entre 1919 e 1945, no entanto, o conservadorismo clássico ainda era uma força poderosa, e Nolte estava corretíssimo em afirmar que um dos temas centrais do fascismo era a rejeição de ideias conservadoras. Enquanto os conservadores viam-se como defensores da velha ordem da Europa – cristã, aristocrática e comprometida com os costumes e autonomia locais – os fascistas queriam impor uma Nova Ordem (uma das expressões favoritas de Hitler) em que as hierarquias sociais tradicionais se dissolveriam no abandono orgiástico a “um líder, um partido, um povo”. Fascistas e conservadores em geral se odiavam e desprezavam mutuamente; é fato histórico que a resistência mais ferrenha que o regime de Hitler enfrentou e as conspirações que chegaram mais perto de reduzir o próprio Führer a pedacinhos vieram todas da direita aristocrática linha-dura da sociedade alemã.

Na verdade, o conflito renhido entre fascistas e conservadores remete diretamente à origem de ambos os movimentos. Num livro provocativamente intitulado Hitler como Filósofo, Lawrence Birken mostrou em detalhe como todo o vocabulário de ideias políticas usado por Hitler e outros ideólogos do nacional-socialismo alemão tem origem na mesma versão radical do Iluminismo que Bruke criticava tão incisivamente. Quando Hitler perorava sobre a vontade do Volk, por exemplo, ele estava simplesmente tomando emprestada a noção de Rosseau da vontade geral do povo, que ambos acreditavam estar acima dos entraves mesquinhos das meras leis e instituições. Os exemplos poderiam se multiplicar quase infinitamente, e coincidiam quase literalmente, palavra por palavra, com os discursos de Mussolini. Apesar do clichê de que o fascismo era uma regressão à Idade Média, Hitler, Mussolini e seus companheiros fascistas eram figuras radicalmente modernas e buscavam implementar algumas das ideias mais vanguardistas de seu tempo.

Ao apontar esse dado para a maioria das pessoas hoje em dia, no entanto, sua explanação provavelmente será rechaçada com dois argumentos. O primeiro reza que o fascismo equivale a racismo e, sendo o racismo um hábito de direita, o fascismo deve ser um movimento de direita. Esse argumento deriva sua força dos assombrosos níveis de ignorância histórica encontrados hoje em dia nos Estados Unidos, mas é comum, e precisa ser discutido.

O conservadorismo americano tradicional, como descrito acima, tinha um lado indubitavelmente racista. Ao sul da linha de Mason-Dixon, em particular, quando se falava em autonomia local e resistência aos decretos de Washington, normalmente havia um subtexto que favorecia a segregação e demais políticas que prejudicavam os americanos de origem africana. Essa é uma das consequências da história confusa e violenta da raça nos Estados Unidos. No entanto, tende-se a esquecer, convenientemente, que em pleno século XX o movimento trabalhista americano era tão zeloso em seu racismo quanto qualquer grupo de velhos sulistas brancos – impedir que os negros ocupassem as posições mais qualificadas, por exemplo, era visto por muitos ativistas trabalhistas como essencial para aumentar o salário dos trabalhadores brancos. Com poucas exceções, vergonhosamente, o preconceito racial foi amplamente aceito através do espectro político americano, até que as convulsões dos anos 1960 finalmente o forçaram a seu atual estado de lenta desintegração.

Em outras partes do mundo, a ideia de que o racismo é uma prática exclusiva da direita tem ainda menos credibilidade. Ainda que rótulos como “esquerda” e “direita” apliquem-se ao contínuo n-dimensional de pontos de vista políticos e econômicos opostos na era pré-Guerra Fria, o preconceito racial, a intolerância e a relativa apatia a respeito do tema eram mais ou menos igualmente distribuídos entre eles. Os partidos fascistas são uma boa amostra do todo. Alguns regimes fascistas, como o de Hitler, eram violentamente racistas. Outros não – o regime de Mussolini na Itália, por exemplo, não era mais racista ou antissemita que o governo democrático que ele substituiu, até que a Alemanha impôs sua leis raciais à força. A equação fácil do fascismo com o racismo, e do racismo com o (pseudo) conservadorismo americano, é outro exemplo de como as complexidades da política e da história são transformadas em caricatura no que se passa pelo discurso político moderno.

Esse é o primeiro argumento padrão que sustenta a tese do fascismo como movimento de direita. O segundo é a afirmação de que o nacional-socialismo alemão foi financiado por grandes empresas, o que implicaria que o fascismo em todos os outros lugares também teria sido um movimento de direita. Essa é uma narrativa extremamente comum; você a encontrará espalhada por toda a internet, e em muitos outros meios menos evanescentes, como se se tratasse de fato provado e incontestável.O único problema com esse consenso fácil é que ele não é verdadeiro.

Há dois excelentes estudos acadêmicos sobre o assunto, Quem Financiou Hitler (1978), de Pool e Pool e As Grandes Empresas Alemãs e a Ascensão de Hitler (1985), de Turner. Ambos mostram decisivamente que o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães obteve a grande maior parte de seu financiamento de contribuições de seus próprios membros de classe média até aproximadamente dois antes de tomar o poder – somente depois vieram as doações das

empresas que, confrontadas com a decisão entre os dois poderes em ascensão durante a crise final do regime de Weimar – os nazistas e os comunistas – decidiram apoiar os primeiros. Na verdade – e essa informação pode ser encontrada em detalhes em qualquer história social da Alemanha no entre-guerras – os grandes empresários alemães, de modo geral, desconfiavam do partido de Hitler, e ressentiam-se profundamente da política de “coordenação” do novo regime, que submetia mesmo as maiores firmas à supervisão e regulação pelos funcionários do partido.

De onde então veio a acusação de que o fascismo é sempre um fantoche das grandes empresas? Assim como o uso de “fascismo” como um rótulo genérico para regimes que os liberais não gostam, trata-se de um empréstimo da antiga propaganda soviética. Na teologia política do marxismo, é importante lembrar, tudo se resume à luta entre capitalistas e o proletariado, as duas forças rivais do cosmos marxista. Tudo e todos que não defendam os interesses do proletariado como definidos pela teoria marxista são, portanto, por definição, ferramentas da classe dominante capitalista, e qualquer movimento político que se oponha ao marxismo será necessariamente composto de lacaios capitalistas. Q.E.D.!

De modo mais geral, os partidos comunistas tentam conquistar a população insistindo que todos os outros movimentos políticos trabalham, na prática, para a manutenção da ordem existente. Uma boa campanha de marketing em qualquer contexto, tal argumento tornou-se uma necessidade a partir do momento em que o regime de Stalin demonstrou o quão desagradável um regime comunista poderia ser na prática. A insistência de que o fascismo é simplesmente outro nome para o que já temos, no entanto, causou um prejuízo duradouro – muitas pessoas se convenceram, apesar de todas as provas em contrário, de que o fascismo, por definição, é uma defesa do status quo. O fato de que ambos o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão ascenderam ao poder prometendo mudanças radicais em suas respectivas sociedades e cumpriram essas promessas foi completamente apagado de nossa moderna imaginação política.

Além disso, o achatamento do pensamento político americano num espectro linear que vai da “esquerda” (o partido democrata, e os comunistas que supostamente estão à espreita na sua margem esquerda) à “direita” (o partido republicano, e os fascistas que, alegadamente, possuem também um esconderijo nas margens direitas do GOP) ajuda a alimentar a mesma crença. Desse modo, todo o pensamento político é reduzido a essa cama de Procusto ideológica – afinal, se os fascistas não estão se escondendo em algum lugar no extremo do eixo republicano do espectro, onde mais poderiam estar?

É nesse ponto que chegamos à dimensão mais explosiva da história do fascismo, porque a aceitação cega do modelo linear de política pressuposto por aquela questão não é meramente um problema no sentido abstrato, mas também obscurece algumas das dimensões mais importantes da vida política contemporânea, nos Estados Unidos e no resto do mundo. De acordo com aquele modelo, o ponto no meio do espectro – onde “esquerda” e “direita” se fundem e desaparecem – é o solo comum da política, o meio do caminho, onde a maioria das pessoas está ou deveria estar. Quanto mais você se afasta desse ponto, mais próximo estará do “extremismo.” (Pense nesta última palavra por um momento.) O que acontece, no entanto, se o solo comum onde os dois partidos se encontram e trocam apertos de mão está bem distante das crenças e opiniões da maioria das pessoas?

Essa é a situação em que nos encontramos nos Estados Unidos hoje. Os americanos podem não concordar sobre muita coisa, mas um número consideravelmente alto deles concorda que nenhum dos partidos lhes dá ouvidos ou lhes oferece políticas atraentes ou mesmo aceitáveis. Nas questões em que os dois partidos conseguem chegar a um consenso – por exemplo, anistiar os banqueiros até mesmo pelos atos mais conspícuos e danosos de fraude financeira – há normalmente uma distância considerável entre esse consenso e a opinião da maioria dos americanos.Quando os partidos permanecem em desacordo, há normalmente três posições: a democrata, a republicana, e a da maioria dos americanos, que jamais é levada em consideração.

Esse é um dos riscos ocupacionais mais pervasivos de sistemas democráticos em crise. Na Itália antes e durante a Primeira Guerra Mundial, e na Alemanha depois dela, as instituições democráticas congelaram em torno de uma série de problemas que os sistemas políticos em questão não estavam dispostos a confrontar e com os quais, portanto, eram incapazes de lidar. Todos os partidos políticos tradicionais estavam comprometidos com a manutenção do status quo em face a um espiral crescente de crise que tornava brutalmente claro que o status quo já não funcionava mais. Um governo após o outro assumiu o poder, prometendo melhorar as coisas aplicando as mesmas políticas que estavam tornando as coisas piores, enquanto a oposição fazia discursos apocalípticos, prometendo resistência ferrenha ao partido no poder em todas as questões, exceto aquelas que realmente importavam – assim, em ambos os países, uma figura de fora do establishment, disposta a romper com aquele consenso falido, conquistou o apoio de um número suficiente dos eleitores para chegar ao poder.

Quando o fascismo é bem-sucedido em conquistar o poder, não se trata propriamente de um movimento de direita ou de esquerda. Ele se apropria do solo comum abandonando da política, esposa as causas populares que todos os outros partidos se recusam a enfrentar e impõe um totalitarismo de centro. Esse é o segredo da popularidade do fascismo – e também a razão pela qual a irrupção de um autêntico fascismo nos Estados Unidos é uma possibilidade real e assustadora, à medida que o país caminha aos tropeços em direção a um futuro sombrio. Falaremos disso na semana que vem.

FASCISMO E O FUTURO – PARTE 3: OS ESTADOS UNIDOS DE WEIMAR

A discussão sobre fascismo que foi tema dos dois últimos ensaios semanais aqui no The Archdruid Report, e se encerrará com o post dessa semana, tomou rumos que muito provavelmente surpreenderam e incomodaram muitos dos meus leitores. Na verdade, a esta altura alguns de vocês devem estar pulando e gritando histericamente: “Ok, mas e o fascismo? Já lemos o suficiente sobre ditadores europeus do período da Depressão em seus uniformes engraçados, e tudo isso é muito interessante, mas e o fascismo de verdade, do tipo que temos hoje nos Estados Unidos?”

Se isso é o que está passando pela sua cabeça nesse momento, caro leitor, você tem companhias interessantes. Trata-se de um detalhe curioso que, nos últimos anos da República de Weimar, um grande número de intelectuais de vanguarda e figuras culturais estavam convencidos de que já viviam num país fascista. Eles apontavam, como o fazem hoje muitos americanos, para a evidente influência das grandes empresas no processo político, as violações de direitos civis perpetradas pelo governo, e outros abusos de poder comuns a qualquer sistema político centralizado, insistindo que isso equivalia ao fascismo, já que sua concepção de fascismo – assim como a definição padrão hoje nos EUA – supunha como óbvio que esse regime totalitário defendesse o status quo econômico e político.

Na verdade, como Walter Laqueur demonstrou em seu competente estudo Weimar: Uma História Cultural, denunciar a República de Weimar como um regime fascista era uma indústria bastante vibrante na Alemanha no final dos anos 20 e início dos anos 30. Infelizmente para os que assumiram essa posição, a história tem um senso de humor perverso. Muitas das pessoas que gostavam de insistir que o regime de Weimar era uma estado fascista acabaram descobrindo – em muito casos, pagando com a própria vida – que há uma diferença real entre uma democracia representativa problemática, disfuncional e deficiente e um estado totalitário, e que um movimento que promete derrubar o status quo e é bem-sucedido em fazê-lo, é perfeitamente capaz de tornar as coisas muito, muito piores.

É perfeitamente possível que, hoje, dada nossa conjuntura, acabemos por receber da história mais uma dose de seu humor negro. Afinal de contas, o pensamento político americano atual degenerou, vergonhosamente, no tipo de descarga afetiva reflexiva que George Orwell parodiou magistralmente em 1984, com os Dois Minutos de Ódio. Ao invés de extravasar seu ódio diante de uma imagem cinemática de soldados eurasianos em marcha justaposta ao rosto choroso de Goldstein, o líder traiçoeiro da Irmandade, os habitantes da nossa Oceania contemporânea tem seu menu de opções perfeitamente gravado no interior de seus cérebros. Para os democratas, até pouco tempo, o alvo padrão era uma imagem de George Bush vestido como Heinrich Himmler, acendendo uma fogueira com a Constituição para em seguida atirar ao fogo espécies ameaçadas; hoje em dia, o pesadelo dos republicanos é uma imagem de Barack Obama vestido de Ho Chi Min, transando com suas filhas e fugindo com sua coleção de armas. Em ambos os casos, o efeito é o mesmo.

Eu gostaria de estar brincando. Conheço pessoas que, durante o mandato de Bush, eram incapazes de passar diante de uma foto do homem sem lhe gritar obscenidades, e conheço outras que tem exatamente a mesma reação figadal a fotos do atual ocupante da Casa Branca. Comentei aqui recentemente sobre como nossa demonologia política acaba por impedir qualquer resposta às crises convergentes de nosso tempo. O mesmo tipo de frenesi denunciatório grassava na Alemanha durante a República de Weimar – e sua consequência mais importante foi o fato de ter cegado muitos para a diferença entre uma disfunção política comum e a realidade bem mais sombria que estava à espreita.

Para explorar a maneira como tal realidade se desenrolou, façamos um pequeno experimento mental. Imaginemos, pois, que, durante essa primavera, ao visitar um lugar público ao ar livre, você encontre meia dúzia de jovens vestidos de maneira idêntica com camisas verde-oliva, calças pretas e botas militares. Eles têm boa aparência, são inteligentes, entusiasmados e querem te apresentar a um novo movimento político chamado Partido do Povo Americano. Você não está interessado, e segue seu caminho.

Alguns meses mais tarde, você topa novamente com um grupo deles, tão inteligentes e entusiasmados quanto os primeiros. O movimento agora se chama Partido Nacional Progressista dos Povos Americanos, PNPPA, e tem um programa com vinte e cinco pontos focado na economia em crise. Você pega um panfleto, sobretudo porque a moça/rapaz que o distribuía era atraente. Os tais vinte e cinco pontos não soam muito originais, mas fazem mais sentido do que ambos Obama e os Republicanos estão oferecendo. Mais ainda, o panfleto diz que a economia está um caos, que o pico do petróleo e a mudança climática são problemas reais que não desaparecerão com um passe de mágica, e isso lhe impressiona.

Com o passar dos meses, você os vê com cada vez mais frequência, distribuindo panfletos, indo de porta em porta para convidar as pessoas a participar de encontros partidários locais, e fazendo todas as outras coisas que os partidos políticos costumavam fazer quando levavam a sério o trabalho de base. Um site de notícias que você acompanha mostra uma foto do presidente do partido, um homem chamado Fred Halliot*; trata-se de um sujeito com aparência séria, de trinta e poucos anos, um veterano do exército que serviu três vezes no Afeganistão e ganhou uma Estrela de Prata pela coragem demonstrada em batalha. Você dá uma olhada na foto e passa para algo mais interessante.

(*Sim, é um anagrama para você decifrar.)

Enquanto isso, a economia vai piorando no mesmo ritmo lento e irregular dos últimos anos. Dois dos seus amigos perdem o emprego, e o preço da gasolina sobe a $5,69 o galão, cai drasticamente, e estabiliza-se novamente bem acima dos $4. Obama insiste que a recuperação já está aqui, e que as pessoas apenas precisam ser pacientes e esperar para que a prosperidade chegue até elas. Os republicanos insistem que a única razão pela qual a economia ainda não se recuperou são os impostos sobre os ricos. A mídia está cheia de reportagens animadas sobre como a temporada de final de ano será um sucesso tão estrondoso que as lojas poderão ficar sem estoque; a Black Friday registra números recordes, ou ao menos é o que diz a TV, mas ninguém que você conhece tem muito dinheiro sobrando esse ano. Apenas na metade de janeiro a mídia admite que a temporada de compras foi um desastre e que duas mega-lojas foram à falência.

Em meio a toda essa crise, o novo partido continua a crescer. Com a chegada da primavera, Halliot começa um tour pelo país. Ele viaja num ônibus escolar verde e preto, as cores do PNPPA, com uma árvore da vida celta, o novo emblema do partido. O ônibus vai de cidade em cidade, e Halliot reúne cada vez mais pessoas. Alguns comentadores na mídia já começam a falar dele e do PNPPA, insinuando nostalgicamente sua satisfação em ver novamente jovens idealistas na política; outros fazem denúncias, embora não pareçam saber exatamente o que estão denunciando. Ambos os partidos tradicionais, bem como os Libertários e os Verdes, lançam organizações de juventude com suas próprias camisas e slogans, mas como eles não possuem nem novas ideias nem respostas críveis para o caos econômico, tais esforços acabam sendo em vão.

O tour se encerra em Washington D.C. com um enorme comício, mas as coisas fogem do controle. É difícil dizer exatamente o que aconteceu, com a polícia federal, a mídia, a internet e o partido contando histórias radicalmente diferentes. O resultado, no entanto, é que Halliot e dois de seus assessores são presos, acusados de conspiração contra o governo. O julgamento é um circo midiático. Halliot faz um discurso inflamado, em que justifica suas ações pelos graves problemas que os EUA e o mundo enfrentam e argumenta que uma mudança radical é necessária para que as coisas não piorem, o que torna legítima a desobediência civil. Ele é condenado a quatro anos de prisão e os demais partidos respiram aliviados, convencidos de que o PNPPA não passava de fogo de palha.

Eles estavam enganados. O PNPPA sai da crise com facilidade e a publicidade do julgamento dá a Halliot e seu partido um novo fôlego. Candidatos do novo partido participam de disputas por todo o país nas eleições de 2016, roubando o foco da corrida presidencial francamente monótona entre Hillary Clinton e Haley Barbour.

Contados os votos, descobre-se que o novo partido conquistou mais de trezentos cargos municipais e estaduais, 43 assentos nas câmaras estaduais e dois assentos na Câmara Federal. Os partidos tradicionais tentam de tudo para suspender os resultados das eleições, mas acabam apenas parecendo corruptos e assustados.

Em seguida, Halliot é solto, tendo servido apenas nove meses de sua sentença. (Na internet, especula-se que o haviam prendido apenas para que ele não pudesse participar das eleições – mas não seria isso uma teoria da conspiração do PNPPA? Ninguém sabe ao certo.) Halliot aproveitou seu tempo na prisão e escreveu um livro, A Luta pela Alma da América, que chega às livrarias na mesma semana da posse do presidente Barbour. Você folheia uma cópia na biblioteca pública; não é exatamente uma grande obra literária – o estilo tosco e digressivo lhe irrita, mas o livro está repleto das ideias políticas que os americanos comuns discutem enquanto bebem cerveja e comem pizza: ideias, em suma, que nenhum outro partido do establishment irá propor.

Além disso, o livro possui um tom mais agressivo, que não estava presente na literatura do PNPPA antes da prisão de Halliot. O governo dos partidos, insiste ele, deve ser substituído pelo governo das pessoas, guiado por um consenso de novos valores que vá além da política falida da ganância e dos grupos de interesse, um governo capaz de lidar com a economia em desintegração, o desafio do pico do petróleo e os impactos da mudança climática. O tempo é curto, enfatiza ele, e meias medidas não serão suficientes para evitar a catástrofe; a única opção restante é uma completa transformação de todos os aspectos da vida americana, uma Grande Virada. Você percebe que, apesar do tom apocalíptico de sua linguagem e ideias, ele ainda é a única pessoa na política nacional que leva a sério as crises econômica, energética e climática.

Alguns meses depois, providencialmente, a economia sofre nova decaída. Os preços do petróleo voltam a subir vertiginosamente – você passa a usar transporte público quando o preço da gasolina atinge $8 o galão – e um grande banco de investimentos de Wall Street que tinha investido em derivativos na direção oposta acaba indo à falência. Tentativas de conseguir um plano de resgate no Congresso emperram diante do cipoal de disputas partidárias. Durante os dois meses seguintes, apesar de esforços frenéticos da administração Barbour, o mercado de ações sofre queda brutal e os mercados de crédito entram em estagnação. O desemprego vai às alturas. Durante o semestre seguinte, os militantes do PNPPA estão por toda a parte, panfletando, organizando cozinhas comunitárias e marchando pelas ruas. Normalmente, você não prestaria tanta atenção, mas em pouco tempo você também está desempregado.

Os anos seguintes foram uma confusão de manchetes sombrias, multidões famintas em cozinhas comunitárias e grupos marchando em verde e preto. Nas eleições de 2018 há rumores, nunca provados, de militantes do PNPPA impedindo eleitores da oposição de votar nos distritos mais importantes. De um jeito ou de outro, no entanto, o partido de Halliot consegue eleger 6 senadores e 185 deputados no congresso, além de assumir o governo de 12 estados. Com a câmara dividida em três facções, torna-se quase impossível aprovar qualquer projeto. Os democratas e republicanos não têm ideia do que fazer e a administração de Barbour apenas copia suas predecessoras, num malabarismo desorientado sem nenhum efeito prático. Mas, em meio a esse oceano de irrelevâncias, algo de importante acontece; para angariar o apoio do PNPPA a fim de aprovar na câmara um orçamento paliativo em 2019, o presidente Barbour é forçado a conceder a Halliot anistia federal plena, removendo assim a última barreira legal às ambições presidenciais do líder populista.

Façamos um salto até as eleições de 2020, disputadas ferrenhamente em meio a uma barafunda de marchas, protestos, agressões, tumultos, acusações e contra-acusações de fraude eleitoral. Quando a poeira baixa, descobre-se que nenhum dos partidos possui maioria no colégio eleitoral. A eleição vai para a câmara e, uma vez que nenhum dos partidos tradicionais está disposto a votar no candidato de seu adversário, Halliot acaba vencendo por uma ínfima minoria na quadragésima segunda votação. Ele toma posse num dia terrivelmente frio, cercado de faixas do PNPPA e saudado por fileiras de militantes em marcha. Ele anuncia que convocará em breve uma assembléia constituinte para substituir o governo dos partidos pelo governo do povo, colocar o país novamente nos trilhos e varrer tudo o que estiver no caminho da Grande Virada que conduzirá os EUA e o mundo a um futuro brilhante. A multidão brada seu apoio.

Mais tarde, naquele mesmo ano, as multidões vão ao delírio quando a velha constituição é descartada e nova entra em vigor. Aqueles com ideias antiquadas consideram objetáveis alguns aspectos da nova carta magna, na medida em que estão ausentes dela alguns pequenos detalhes como um sistema de freios e contrapesos (“checks and balances”), sem falar em garantias do devido processo legal e direitos civis. A mídia, no entanto, não menciona nada disso, porque o “consenso de novos valores” é imposto à força pelos funcionários do Partido – a inicial maiúscula torna-se rapidamente um padrão – e aqueles que fizeram críticas demasiado duras à nova constituição… bem, digamos apenas que ninguém sabe ao certo onde eles estão agora, e a maioria prefere não perguntar.

E você, caro leitor? Em que ponto dessa trajetória você teria decidido que, apesar das promessas, da juventude, do entusiasmo e seriedade que emanavam, o Partido Nacional Progressista dos Povos Americanos e o veterano de guerra despojado e carismático que o liderava poderiam ser piores – potencialmente muito, muito piores – que o sistema política caótico, disfuncional e monótono que eles tentavam substituir? Ou você acabaria se juntando às multidões entusiasmadas da última cena? Não precisa me dizer a resposta – apenas, no silêncio de sua própria mente, tire um tempo para encarar a questão com honestidade.

O que quase sempre se esquece a respeito dos movimentos fascistas da Europa do entre-guerras é o quão promissores eles pareciam e quantas pessoas bem-intencionadas viram neles a melhor aposta para o futuro. Seus líderes eram jovens – Hitler tinha 43 anos quando se tornou chanceler da Alemanha, a mesma idade de John F. Kennedy na data de sua posse, e Mussolini contava apenas 39 anos quando se tornou primeiro-ministro da Itália – e a maioria dos seguidores de ambos era ainda mais jovem. O partido de Hitler, por exemplo, fazia enorme sucesso entre universitários alemães muito antes de conquistar as massas. Ambos os partidos também fizeram uso, em larga medida, da cultura vanguardista e das ideias populares de seu tempo. Quantas pessoas hoje sequer se lembram que, antes da Segunda Guerra Mundial, a suástica era vista como um símbolo pagão da vida, evocando raízes ancestrais e uma vitalidade primeva, com o mesmo valor cultural que o emblema celta da árvore da vida teria hoje nos Estados Unidos?

Os movimentos fascistas dos anos 20 e 30 estavam, portanto, em plena consonância com os medos e esperanças das massas, muito mais que qualquer um dos partidos tradicionais ou grupos radicais estabelecidos de seus respectivos países. Ao contrário do “fascismo” quimérico da retórica radical moderna, o “fascismo realmente existente” era uma alternativa ao “business as usual” do establishment político, uma alternativa que ocupava exatamente o centro abandonado do discurso político de sua era. Considerando esse discurso no contexto de seu tempo e lugar, os argumentos dos partidos fascistas não eram nem de longe tão extremos quantos nos parecem hoje em dia – e, para nosso perigo mortal, tendemos a esquecê-lo.

Foi isso que tentei replicar no experimento mental acima, ao alterar certos detalhes do nacional-socialismo alemão de modo a conferir ao Partido Nacional Progressista dos Povos Americanos um toque contemporâneo – um que evocaria as mesmas reações que seu equivalente alemão obteve em sua época. O antissemitismo e o militarismo ostensivo eram socialmente aceitáveis na Alemanha do entre-guerras; eles não são socialmente aceitáveis nos EUA atuais, de modo que não terão qualquer papel em nenhum movimento neofascista relevante do futuro. Esse papel ideológico será desempenhado pelos tropos e termos em voga hoje, que apelam à maioria dos americanos, incluindo – porque não? – você, caro leitor.

Busquei levantar aqui, também, uma questão mais profunda. É fácil, confortável e (para os fabricantes e distribuidores de propaganda panfletária) altamente vantajoso abordar todos os conflitos políticos em termos simplistas do bem contra o mal. O hábito de enxergar as lutas políticas nesses termos torna-se uma fonte segura de problemas quando o conflito em questão é na verdade entre o bom e o perfeito – isto é, entre uma opção falha mas viável, que pode ser implantada, e uma supostamente impecável mas impossível. A escolha política mais difícil, no entanto, vem quando o conflito se dá entre o ruim e o muito, muito pior – como no exemplo esboçado acima, entre uma democracia disfuncional e decadente, repleta de corrupção e abusos de poder, de um lado, e uma admirável nova tirania, de outro.

Muito provavelmente não há respostas fáceis para esse dilema. A menos que os americanos encontrem uma maneira de deixar para trás o ódio faccioso que contamina nossa vida política, não é difícil prever que não haverá resposta nenhuma –  muito possivelmente não até que a longa e nada honrosa lista de regimes totalitários do mundo ganhe um novo nome – um totalitarismo de pacote completo, com os clássicos adicionais de campos de prisão e covas coletivas. Enquanto a palavra “fascismo” retiver seu atual status de palavra-rosnado lançada displicentemente ao status quo, certamente a última possibilidade será bem mais provável que qualquer das demais alternativas.


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