As colunas da ordem e da desordem: brevíssimo ensaio sobre a insatisfação na lírica

Por Otávio Moraes

O crítico literário Helder Macedo assevera em um de seus ensaios que “(…) toda linguagem é feita de passados e não de futuros”[1]. Tal assertiva carrega implicações interessantes, principalmente para discutir a linguagem estetizada em forma de lírica.


Enquanto expressão do “eu” essa faceta do poético tende a ser lida como uma pura expressão subjetiva. Uma espécie de autorretrato do poeta que se mimetiza através dos artifícios linguageiros.

Perceber o caráter puído das palavras, ou seja, o fato de serem utilizadas e reutilizadas à exaustão nos leva a algumas questões primeiras concernentes ao poético. De onde emerge a novidade no exercício de expressar o eu? Seria no plano da própria individualidade? Acreditamos que não. A expressão unicamente particular, se tal gesto fosse possível, teria que necessariamente ultrapassar a própria mediação pela linguagem, sequer o silêncio pode adentrar nesse espectro já que usualmente é figurado no literário enquanto negativo do expresso e, portanto, também linguagem.

Tendo em vista tais questões parece-nos interessante caminhar para uma leitura do universo lírico enquanto incessante movimento de tradução do particular para o universal e do universal para o particular. O eu lírico, nessa perspectiva, emerge enquanto uma figuração fronteiriça. Um personagem de atrito, incapaz de escapar da faceta conflitiva da própria vivência empírica. Se há novidade no poema ela está no próprio exercício de dar forma artística ao mundo, tornar a experiência sensível matéria disciplinada pela palavra.

O movimento de elevar a lírica para uma espécie de Éden da individualidade, espaço onde finalmente possamos ser sem nenhum temor ou tédio, expõe à faceta social do processo de transmutar o eu em ficção. A liberdade lírica, ou melhor, o desejo de liberdade expresso pela poesia lírica, entendendo-a fundamentalmente em seus moldes modernos, encena o processo que Adorno[2]  resume como: “(…) o sujeito interioriza sua própria nulidade”.

Abaixo vamos desenvolver, brevemente, a análise de um poema buscando na forma o que a tradição crítica na qual nos assentamos vislumbra como uma predominância do social. O poeta em questão é o mineiro Murilo Mendes.

No poema “Os dois lados”[3] o artista toma como eixo duas facetas da figuração poética, cada lado como uma estrofe. O verbo ter se repete múltiplas vezes sendo indiscutivelmente a grande marca lexical do poema.

Deste lado tem meu corpo

tem o sonho

tem a minha namorada na janela

tem as ruas gritando de luzes e movimentos

tem meu amor tão lento

tem o mundo batendo na minha memória

tem o caminho pro trabalho.

 

Do outro lado tem outras vidas vivendo minha vida

tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas

tem minha noiva definitiva me esperando com fores na mão,

tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.

Outro elemento marcante está na semelhança entre os primeiros versos de cada estrofe, este são respectivamente: “Deste lado tem meu corpo” e “Do outro lado tem outras vidas vivendo a minha vida”. Uma primeira impressão da leitura de tal estrutura poética é a de que a predominância do verbo ter concatenada com os referenciais “deste” e “do outro” cria um tensionamento no jogo expressivo, em outras palavras, ter é deslocado semanticamente para o campo da ausência. Cada estrofe se torna espelho invertido da imagem da outra.

A relação espacial é igualmente importante, a referência do primeiro verso a uma proximidade do eu lírico frente ao cenário idílico apresentado e o distanciamento em relação ao “outro lado” reforça a demarcação de lugares entre as diferentes estrofes. Tais limites são atritados em relação a substância de cada polo do poema.

A primeira estrofe elabora um universo espaço-temporal que remete a um frescor ímpar: tem namorada na janela, tem um amor lento, tem as ruas com luzes e movimentos. Na última estrofe o frescor inicial dá lugar a uma expressão mais cinzenta e enfadonha, há um distanciamento entre eu lírico e o mundo, melhor, há um desencontro. Talvez o fragmento mais marcante da ruptura entre a primeira face do poema e a segunda seja “Do outro lado tem outras vidas vivendo a minha vida”.

A ideia de uma vida não vivida, algo aquém de uma juventude que resiste unicamente nos recantos da memória, pode ser lida sob as lentes do filósofo teutónico Georg Hegel. O pensador dedicou parte de suas sistematizações teóricas ao estudo da estética tendo a poesia como um objeto predominante em sua análise.

Ele pode auxiliar-nos em compreender como o caráter dúplice da lírica transmuta o pranto e as delícias de Murilo Mendes em algo concomitantemente singular e plural, íntimo e coletivo.  Hegel (2015, p.38)[4] assevera que “(…) toda obra de arte pertence à sua época, ao seu povo, ao seu ambiente, e depende de concepções e fins particulares, históricos e de outra ordem.” Tal fato implica que o mais intimo dos discursos está inescapavelmente vinculado a uma intrincada rede de referências culturais, linguageiras, políticas, religiosas, ou seja, históricas. Nossa possibilidade expressiva carrega os limites e potencialidades de nossa experiência coletiva e, portanto, temporal.

Sob tal perspectiva, ler Murilo Mendes é acessar o trabalho de um homem que estetizou a linguagem em meio aos ideais modernos e suas contradições. E a modernidade é para Hegel a temporalidade da expressão prosaica.

A característica mais marcante de tal conceito é o de figurar artisticamente “(…) a realidade exterior como uma existência que não lhe é adequada” (HEGEL, p. 253, 2014)[5]. Explico: o prosaico, como produto da modernidade e seu processo maquinico de estruturação da vida transmuta a experiência humana em um roteiro de predeterminações sociais havendo pouco espaço para a vivência e por consequência ficcionalização de aventuras e heroísmo.

Se partirmos da leitura hegeliana torna-se possível entender as duas facetas do poema, representadas pelas respectivas estrofes, como a enunciação de uma crise do próprio exercício artístico e por consequência da vida. O idílico é figurado como o mais próximo do eu lírico, primeira estrofe, mas ao mesmo tempo o prosaico, segunda estrofe, mimetiza cenas mais verossimilhantes de uma vivência madura e moderna.

A ficcionalização lírica alcança, portanto, a potencialidade de dizer-se como ponte entre o real e suas contradições. Isso se dá através de uma mediação que desnuda nossa arquetípica insatisfação com a vida vivida. Com a linguagem estetizada torna-se possível transmutar as “colunas da ordem e da desordem” em uma expressão que interioriza em suas formas a falta de liberdade que a concretude cotidiana oferece.

O poeta constrói tal relação de sentido através da conjugação de uma estrutura intelectual que privilegia o tensionamento de polos, figurados pelas estrofes, com a articulação repetitiva do verbo ter. Como toda grande obra de arte o poema de Murilo Mendes é inescapável, ele dá forma às abstrações de nossos dilemas, ele ressoa uma universalidade intima. Talvez o ponto chave de tal efeito seja tematizar os limites e as fronteiras, das estrofes, da memória e por consequência do próprio humano. Amor, dor, morte e vida trocando de lugar em um jogo que mimetiza agruras ainda atualíssimas.

 Parece-nos difícil alcançar conclusão diversa do que a insatisfação lírica enquanto reflexo sensível de uma realidade sob o imperativo de radical alteração. A insatisfação do eu lírico é a universalização de nossa solidão cotidiana, da pequenez objetificante à qual a vida é reduzida. O poeta, ao nos oferecer “Os dois lados” enquanto faces diversas da mesma moeda, seja no sofrimento da liberdade em abstrato, ou em sua contraparte, o vazio do dia-a-dia, acaba demonstrando a relação indissociável entre arte e vida e por consequência entre o empírico e o ficcional.


[1] MACEDO, Helder. Luís de Camões então e agora. Disponível em: ™¢¬ª®. Acesso em 21 jan. 2018.

[2] ADORNO, Theodor. Notas de literatura. São Paulo: Ed. 34, 2004.

[3] MENDES, Murilo. Antologia poética. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

[4] HEGEL, Georg. Curso de estética II. São Paulo: Edusp, 2014.

[5] HEGEL, Georg. Curso de estética IV. São Paulo: Edusp, 2004.

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