As verdadeiras lições do levante de 1956 na Hungria

Por Jon Britton, via Liberation School, traduzido por Bruno Santana

As raízes da rebelião pode ser remontada ao modo como o capitalismo se enraizou na Hungria após a Segunda Guerra Mundial. Enquanto a derrota da Alemanha nazista abriu as portas para um número de revoluções vitoriosas lideradas pelos movimentos comunistas no leste europeu, como na Iugoslávia, Albânia e Checoslováquia, os movimentos da classe trabalhadora na Hungria e em outros países do leste europeu foram fracos. O capitalismo foi abolido em primeira instância por causa do Exército Vermelho soviético.


No dia 22 de Junho, o Presidente Bush viajou à Hungria para se juntar à comemoração de um levante que lá ocorreu há 50 anos atrás, entre outubro e novembro de 1956. Ele esteve lá como líder representativo do imperialismo estadunidense presidindo a cerimônia que marca sua principal vitória – o colapso do bloco socialista na União Soviética e no Leste Europeu.

Depois que ele e Laura Bush deixaram uma coroa de flores no Monumento Memorial de 1956, ele falou ao povo da Hungria. “Em 1956” ele disse, “o povo húngaro sofria com uma ditadura comunista e com a dominação de poderes externos. Naquele outono, o povo húngaro decidiu que já tinham sofrido o suficiente e exigiram mudanças.

“Em 1989”, ele continuou, “uma nova geração de húngaros voltou às ruas para exigir sua liberdade, e com ousadia ajudaram outros a garantir sua liberdade… Por vocês terem tido a coragem de liderar, a Hungria se tornou a primeira nação comunista na Europa a fazer a transição para a democracia.”

Aquela versão dos eventos de 1956 na Hungria foi tão repetida na grande mídia corporativa e na Academia que é aceita como um evangelho. Dado à atmosfera anticomunista das comemorações, qualquer trabalhador com consciência de classe ficaria cético de que o levante fora tão positivo. Os mesmos políticos capitalistas, a mídia e a Academia nunca veicularam genuinamente levantes da classe trabalhadora em seus próprios interesses com termos tão entusiasmados.

Claro que, os eventos de 1956 na Hungria foram dramáticos. Milhares de pessoas, incluindo setores amplos da classe trabalhadora em Budapeste e outras cidades foram às ruas. O estado de trabalhadores infantis, formado após a derrota do brutal regime pró-fascista durante a Segunda Guerra Mundial, estava prestes a colapsar. Setores isolados do Partido Comunista Húngaro apelaram à União Soviética por ajuda e no dia 4 de Novembro de 1956, tropas soviéticas foram enviadas para derrotar a rebelião.

Usando a mesma linguagem que Bush utiliza hoje em dia, o levante Húngaro de 1956 foi vestido com o véu da “liberdade e da democracia”. Poucos manifestantes clamaram abertamente pela restauração do capitalismo e da espoliação senhorial. Mas os políticos imperialistas e a imprensa sabiam onde isto estava indo; sabiam “de que lado estavam”.
Hoje, 50 anos depois, houve a restauração do capitalismo, depois dos protestos de 1989 – inspirados pela rebelião de 1956 – sucederam à derrubada do governo. A derrota do estado dos trabalhadores foi saudada de modo eufórico como vitória da “liberdade e da democracia”.

A realidade foi muito diferente.

A Hungria após 1989

Aqui, por exemplo, está uma descrição do documentário “Barren”, exibido em um festival de cinema em Praga, na República Tcheca, em abril de 2002:

“Imagens chocantes de pobreza e da miséria econômica no leste da Hungria cinco anos depois da queda do Comunismo. O desemprego é generalizado; pobreza, corrupção e crime estão em ascensão. A polícia impôs políticas de lei e ordem para cercear os pobres em seus lares… Crianças pedem por comida nas ruas; pessoas roubam para sobreviver. A situação é severa, e a busca por um bode expiatório começou.”

O desemprego e a pobreza, desconhecidos na Hungria Socialista, são agora partes da vida cotidiana. Enquanto o nível oficial de desemprego é por volta de 7%, quase 40% da força de trabalho sequer conta nos índices, de acordo com o Caderno de Fatos da CIA de 2006.

Claro, como em quase todas economias capitalistas, estes flagelos atingem os mais vulneráveis com mais força.

Chris Corrin, professora de Estudos Feministas da Universidade de Glasgow na Escócia, apresentou um artigo em 1999 em que resumiu a situação das mulheres na Hungria após 1989:

“Embora certos grupos de mulheres (como banqueiras) foram capazes de ser bem sucedidas na estrutura competitiva orientada pelo mercado, muitas mulheres e grupos de mulheres não foram. A rápida diferenciação social que a economia de mercado trouxe à sociedade húngara ao longo da última década, resultou em vastas desigualdades, que ainda não estão compatibilizadas com medidas de política social e de legislação governamental.”

“Mulheres idosas vivendo na pobreza não estão adequadamente contabilizadas no sistema social,” continuou Corrin. “Mulheres sofrendo violência doméstica e em outros locais não possuem mais opções para assistência como precisam.”

O povo roma, referendados no ocidente como “ciganos”, são historicamente discriminados na Hungria. O diretor executivo do Centro Europeu dos direitos dos Ciganos, Dimitrina Petrova, deu a seguinte declaração ao Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas no dia 22 de março de 2002:

“A Hungria pós-1989 é um lugar onde a população Cigana está em um estado de exposição indevida à violações de direitos humanos básicos. A proteção dada à comunidade cigana pelas autoridades húngaras contra as violações de direitos humanos é frequentemente inadequada ou inacessível, e o governo húngaro fez pouco para reduzir o sentimento anti-cigano.”

“De fato”, diz Petrova, “agentes húngaros tem apelado tática ou explicitamente à sentimentos racistas para angariar apoio, contribuindo arduamente para a criação de uma cultura pública na qual os direitos fundamentais dos ciganos são tolerados.

E, finalmente, este relatório apareceu no dia 31 de Julho de 1995 no Cultural Survival Quarterly:

“Na Hungria, Eslováquia, e na República Tcheca, grupos skinheads regularmente perambulam por vilarejos e bairros para agredir grupos ciganos, judeus e estrangeiros. Eles também distribuem literatura e música com conteúdo de ódio.”

Mais claro em retrospectiva

Mas é mais fácil ver estas consequências em retrospectiva. Naquela época, havia uma confusão generalizada sobre a natureza da rebelião de 1956, ao mesmo tempo na classe trabalhadora húngara e no mundo socialista e no movimento progressista.

As raízes da rebelião pode ser remontada ao modo como o capitalismo se enraizou na Hungria após a Segunda Guerra Mundial. Enquanto a derrota da Alemanha nazista abriu as portas para um número de revoluções vitoriosas lideradas pelos movimentos comunistas no leste europeu, como na Iugoslávia, Albânia e Checoslováquia, os movimentos da classe trabalhadora na Hungria e em outros países do leste europeu foram fracos. O capitalismo foi abolido em primeira instância por causa do Exército Vermelho soviético.

Ao contrário da propaganda ocidental, a derrocada da classe de proprietários de terra e dos capitalistas – muitos dos quais eram entusiastas do regime fascista da Cruz Flechada e de seu programa antissemita e anti-cigano – foi bem vista por muitos trabalhadores e camponeses húngaros. Mas o entusiasmo pelos ganhos sociais alcançados na derrubada revolucionária das relações capitalistas de propriedade foram temperadas por condições virtuais de guerra civil imediatamente após a guerra.

O governo soviético impôs uma agenda para solucionar as fatalidades causadas pelos regimes húngaros nos tempos de guerra que eram aliados da Alemanha nazista durante a invasão da União Soviética. A Hungria pagou reparos adicionais à Checoslováquia e Iugoslávia, e também pagou para tropas soviéticas em seu território para deter outras invasões do ocidente capitalista. Tudo isso causou dificuldades reais para a classe trabalhadora húngara.

Havia também a fraqueza política do regime Erno Gero na Hungria em 1956, que falhou em inspirar apoio sólido da classe trabalhadora e o espírito de sacrifício necessário nestas circunstâncias. Como o governo Matyas Rakosi que o precedeu, Gero confiou tanto nas forças de segurança controladas pelo partido quanto nos setores da classe trabalhadora para compor sua base de apoio.

Tudo isso significa que mazelas legítimas da classe trabalhadora húngara não encontraram expressão adequada em uma circunstância organizada e revolucionária. Quando os trabalhadores formaram conselhos como parte da rebelião, suas demandas por democracia e pela retirada das tropas soviéticas foram cooptadas por forças contrarrevolucionárias abastecidas pela propaganda amplamente direcionada às massas húngaras pela Rádio Europe Livre, financiada pelos EUA.

Ausência de uma liderança revolucionária

Sob grande pressão da propaganda imperialista e da histeria anticomunista predominante nos EUA à época, muitos grupos socialistas nos EUA e na Europa sentiram que estes conselhos eram progressistas ou tinham um papel revolucionário na Hungria, especialmente em detrimento da politicamente contraditória liderança soviética.

Estes grupos falharam em lembrar da experiência do Partido Bolchevique nos eventos revolucionários em 1917 na Rússia. Após o Czar ter sido deposto em fevereiro, os conselhos operários – conhecidos na Rússia como soviets – tomaram fábricas, campos e assentamentos militares pela Rússia. Mas sem conciliar isto à uma nova forma de organização sob liderança revolucionária, os sovietes estavam fortalecendo o domínio político da burguesia.

Oito meses de um trabalho político paciente porém determinado por um lado onde os bolcheviques expunham o papel contrarrevolucionário dos líderes socialdemocratas dentro dos sovietes foi necessário antes da manutenção dos capitalistas no poder ser destituída (Lenin, “Dualidade de Poderes,” 9 de abril de 1917).

Não havia um partido nos moldes bolcheviques na Hungria em 1956. O único partido que se manteve firme para superar as relações capitalistas de propriedade foi o Partido Comunista da Hungria – e mesmo segmentos deste partido debandaram.

Potencialmente o partido mais influente à época era o partido burguês e anticomunista dos pequenos agricultores. Este partido ganhou uma ampla maioria nas primeiras eleições do pós-guerra, e foi posteriormente dissolvido. Também dissolvido foi o reformista Partido Social Democrata, que superaram os Comunistas por uma pequena margem nas mesmas eleições. Durante a rebelião de 1956, ambos os partidos voltaram à legalidade e se juntaram à nova coalizão do governo formada por Imre Nagy, membro do partido comunista que era a favor de concessões às demandas rebelião.

O caráter político do governo de coalizão estava claro por fora deste cenário. Nas ruas, multidões linchavam comunistas, destruíam memoriais de guerra soviéticos e queimavam livros socialistas. O novo governo soltou da prisão o reacionário católico radical József Cardinal Mindszenty, que imediatamente assumiu papel proeminente na liderança das manifestações. Ele fez uma transmissão de rádio saudando as ações anticomunistas no levante.

Nagy também anunciou que a Hungria iria sair do Pacto de Varsóvia, a aliança defensiva dos estados do Leste Europeu para conter invasões da OTAN.

Nestas circunstâncias, não fosse pela intervenção das tropas soviéticas, a contrarrevolução teria sido o resultado. Este foi, de fato, o resultado 25 anos depois, após Mikhail Gorbachev retirou as tropas soviéticas.

Depois da intervenção soviética, Mindszenty fugiu para a embaixada dos EUA. Apelações dos manifestantes anticomunistas por intervenção estadunidense foram ignorados, a despeito das transmissões repetidas da Radio Free Europe dizendo que o Ocidente esteve por trás da manifestação. Aparentemente o Pentágono não considerou se a contrarrevolução na Hungria valia o risco de uma guerra nuclear ou de um confronto a nível europeu com a União Soviética.

Uma de várias tentativas

O levante de 1956 na Hungria foi um resultado de uma série de tentativas – algumas bem sucedidas, outras mal sucedidas – dos governantes estadunidenses e seus aliados para trazer “mudanças de regime” reacionárias nos países que passaram por transformações sociais desfavoráveis a seus interesses. Tais tentativas remontam pelo menos a 1918 na Rússia, quando uma grande operação imperialista foi lançada para derrubar o novo governo bolchevique.

Durante a guerra civil que sucedeu a revolução de 1917, os EUA se juntaram a 13 outros poderes e aliados imperialistas para mandar tropas para apoiar os Exércitos Brancos contrarrevolucionários. Cerca de 10.000 tropas estadunidenses foram mandados para a Sibéria. Todas as tropas invasoras bateram em retirada depois do Exército Vermelho Soviético ter derrotado os Exércitos Brancos.

Outras iniciativas tomaram forma na Checoslováquia em 1968, Polônia em 1981 e na China em 1989, por exemplo. No final, tais movimentos precipitaram o colapso do bloco socialista no leste europeu de 1989 a 1991.

Enquanto cada uma destas instâncias tiveram suas particularidades, eles comungam de uma característica em comum. Em todos os casos, mazelas legítimas de parte das classes trabalhadoras foram exploradas e canalizadas em movimentos contrarrevolucionários. Ausentes de uma liderança anticapitalista e anti-imperialista, tal degeneração é inevitável em um mundo dominado pelo imperialismo.

Cuba ainda está na lista

As lições não são apenas históricas. Elas são importantes para qualquer partidário da classe trabalhadora que genuinamente procura defender os ganhos da classe trabalhadora mundial contra o imperialismo.

Está além do escopo deste artigo detalhar o longo histórico de medidas que o imperialismo estadunidense tomou para trazer à tona uma mudança de regime reacionária em Cuba. Mas em 10 governos estadunidenses diferentes as administrações utilizaram todo tipo de truque, incluindo numerosos atentados contra a vida de Fidel Castro, guerra biológica, bloqueio econômico, transmissões subversivas e um ataque para-militar no fiasco de 1961 na Baía dos Porcos.

O pentágono está observando a transição na liderança revolucionária de Cuba como uma oportunidade para derrubar a revolução de 1959. Eles irão procurar qualquer fraqueza dentro do Partido Comunista ou qualquer mazela, justificada ou não, dentro da população para criar condições para uma contrarrevolução.

A liderança cubana se preparou para esta eventualidade. Eles prepararam uma campanha minuciosa com o partido e as massas para garantir que os riscos e a diferença entre revolução e contrarrevolução sejam compreendidas.

O imperialismo dos EUA está comprometida com esta política de uma guerra sem fim – a garantia de sua sobrevivência enquanto império. A visita de Bush no começo deste ano à Hungria deve ser vista como uma ameaça à Cuba, Coreia, Venezuela e China e à qualquer país tentando construir o socialismo ou rumo à um curso independente.

Porém com a resistência do povo palestino, libanês e iraquiano, esta ameaça pode ser desafiada.

A Hungria por si mesma tem uma tradição revolucionária, que não pode ser apagada da consciência dos trabalhadores a despeito da propaganda anticomunista. Em 1918, os trabalhadores e camponeses húngaros, liderados por Bela Kun, estabeleceram a primeira república soviética seguindo a vitória revolucionária de 1917 na Rússia.

As revoluções socialistas na União Soviética e outros países oprimidos inspiraram centenas de milhões de trabalhadores ao redor do mundo tendo em mente que a opressão capitalista é inevitável. Hoje, é um dever especial da classe trabalhadora multinacional nos países imperialistas – especialmente nos EUA – acabar com a pilhagem capitalista e imperialista.

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