Por uma Perspectiva Realmente Revolucionária e Não Reacionária Para o Movimento Negro

Por Vinicius Souza

A realidade possui uma diversidade de perspectivas para pensar suas principais características, é possível pensar a realidade, como Hegel, de maneira idealista se limitando somente ao campo das ideias ou como as teorias culturalistas sobre a libertação negra que se limitam a pensar em torno da construção de uma subjetividade existente nas pessoas negras por ligações ancestrais, literalmente mística.

São linhas de pensamento diferentes, mas, que em essência, se limitam a pensar a realidade e sua transformação somente no campo das ideias. Fato é que, quando o assunto é a transformação radical da realidade, é necessário se pensar na realidade concreta, no mundo material e nas suas implicações e consequências para os diferentes grupos e classes que nele estão inseridos e que com ele estão em constante movimento.

Não existe projeto revolucionário que não esteja ligado a transformação profunda das formas de reprodução da vida material. É na realidade concreta e objetiva que se encontram os principais fatores da opressão em suas diversas formas. A reprodução das condições materiais nas sociedades está ligada, claramente, aos meios de produção. No capitalismo, vigora a propriedade privada dos meios de produção e o acumulo dessa propriedade na mão de poucos e, com isso, a exploração de muitos. O capitalismo, historicamente, para se manter, cria diversas formas diferentes de realizar sua própria reprodução. O racismo moderno é uma delas e uma das mais essenciais para o seu funcionamento.

No século XIV em meio a crise generalizada que ocorria no continente Europeu, em plena ascensão progressiva da burguesia e o nascimento das relações pré-capitalistas conhecidas como mercantilismo que geraram as bases para a primeira forma do capitalismo — capitalismo comercial. A Europa se encontrava com um forte êxodo do campo para a cidade na busca por trabalho, com um déficit demográfico grave devido a peste e as cruzadas e conflitos cada vez mais crescentes pela disputa por terra produtiva — que eram poucas — nas cidades, a situação já beirava ao conflito armado. Tudo isso ocorrendo enquanto uma nova lógica de reprodução da vida material se estabelecia e um mercado consumidor se formava. Não havia terra produtiva, não havia mão de obra o bastante devido a queda demográfica e os principais centros urbanos vivam em um estado profundo de crise, ainda mais com o início das delimitações das fronteiras nestes.

O capitalismo em sua nascente necessitava de meios para continuar seu processo. Sendo assim, as necessidades impostas pelas condições adversas na Europa, levaram a expansão marítima conhecida como colonização, na busca por matéria prima para atender o mercado consumidor e mão de obra barata para a superprodução que o sistema econômico ali em formação necessitava. Desta forma, o racismo foi um subproduto da necessidade de expansão do capitalismo. Necessidade essa que pode ser vista em todos os seus diferentes momentos. O racismo foi a razão de justificativa para atender a necessidade de superprodução do capitalismo em sua nascente, a desumanização do negro ocorreu para a sua exploração que era uma necessidade a formação capitalista.

O racismo moderno vem, então, como uma necessidade do capitalismo para justificar a exploração desumana necessária ao seu desenvolvimento. O fator cultural do racismo existe como forma de justificar essa exploração também, como é trabalhado por Fanon.

“[…] a determinação em última instância do racismo é a escravização, ou a submissão dos povos a determinada lógica de exploração. Mas para que esse procedimento — primeiramente econômico — seja viável, seria preciso destruir todos os sistemas de referências dos povos a serem subjugados.

Fanon é bastante preciso ao afirmar que é apenas em função disso — e não como sua causa — que a ‘expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objetivo desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem…’.” (FAUSTINO, 2018, p. 88)

Na perspectiva de Frantz Fanon, a dimensão cultural do racismo serve como uma manobra para a exploração do indivíduo negro, a condição de existência da cultura é então voltada para a libertação no contexto de dominação racista, voltada para a libertação do sistema que visa essencialmente a exploração do negro para o benefício capitalista.

Cultura não é morta, é um conceito vivo que se adapta e se transforma. Os problemas das pessoas negras foram gerados pelo capitalismo e a forma como ele criou o racismo moderno como forma de legitimação para sua expansão e exploração de diversos povos não brancos pelo mundo. As pessoas negras nunca pararam de produzir cultura, as pessoas negras foram e são agentes históricos ativos de todos os processos onde estão inseridas, sendo transformadas e transformando as realidades com as quais estão em movimento. A cultura, dessa forma, deve ser pensada de maneira que contribua para a revolução que vise o fim da propriedade privada dos meios de produção e o estabelecimento do socialismo como antítese ao capitalismo que desestruturou o mundo em seus mais diversos processos de expansão que passam, necessariamente, pelo reprodução e manutenção do racismo. Por essa perspectiva o racismo seria um sistema ou uma característica sistêmica do capitalismo que funciona como instrumento de dominação de outros povos através da desumanização para o estabelecimento de sua exploração.

Como afirmou Malcolm X: “Sem racismo não há capitalismo”, o que é fato. Sendo assim, a destruição do racismo passa necessariamente pela superação do capitalismo e o fim da propriedade privada dos meios de produção, logo, pela instauração do socialismo e a criação do Poder Popular. Como afirma Kwame Ture (Stokley Carmichael): “[…] a raça não só se tornou um fenômeno com as proporções de uma estrutura de classe, mas em muitos casos ela própria se tornou uma entidade e uma classe em si mesma.”. É impossível pensar em qualquer hipótese a libertação das pessoas negras dentro do sistema capitalista.

Fred Hampton, um dos maiores revolucionários negros da história e líder do Partido dos Panteras Negras, delimitou bem esse processo quando em um de seus discursos em 1969, expôs o seguinte fato histórico:

“Quando o Partido começou a falar sobre luta de classes, […] nós nunca negamos o fato de que havia racismo na América, mas dissemos que quando você, o subproduto, o que sai do racismo. Que quando eles trouxeram escravos até aqui o fizeram para ganhar dinheiro. Então a primeira ideia a surgir foi que nós queremos ganhar dinheiro, então os escravos vieram com o objetivo de gerar aquele dinheiro. Isso significa que, através de um fato histórico, o racismo tinha que vir do capitalismo. Tinha que ser o capitalismo primeiro e o racismo foi um subproduto daquilo.” (HAMPTON, p. 45, 2018)

Por mais incrível que pareça, é extremamente necessário falar nos dias atuais que não existe libertação negra dentro do capitalismo e que a luta revolucionária das pessoas negras deve ser necessariamente anticapitalista. Vivemos em um momento onde com base em ideologias culturalistas e com base em ideias de líderes negros conservadores com várias posições reacionárias, a comunidade negra militante, em uma parcela considerável, está exercendo uma práxis de direita, no passo em que não olham para a realidade objetiva e os principais fatores de reprodução do racismo que são, necessariamente, ligados a reprodução material da sociedade que, por sua vez, é o capitalismo.

Existe em curso uma negação sistemática, sobretudo, das teorias marxistas que, por regra, trata-se da crítica ao sistema capitalista mais bem fundamentada da história e a teoria revolucionária mais completa e condizente com as diferentes realidades onde o capitalismo estabeleceu seu império de exploração e dominação. A teoria revolucionária mais bem estabelecida dos últimos séculos. Essa negação, se da por concepções essencialistas e sem embasamento científico que não lidam com a realidade como ela é, mas como gostaria que fosse. Sem a autocrítica necessária, principalmente os seguidores da doutrina garveystas estão fazendo uso de ideias já extremamente complicadas do Marcus Garvey e dando ares ainda mais conservadores do que as interpretações iniciais já estabelecem por si só. Sobretudo, as concepções de Garvey sobre o capitalismo, nacionalismo e a forma como enxerga o pensamento comunista.

O estilo de vida, digamos, pequeno-burguês é extremamente atraente a quem vive em uma sociedade com todos os códigos e símbolos culturais ligados, de alguma forma, a lógica de produção. O capitalismo é tão versátil em seu enfrentamento às formas com que grupos sociais se articulam na dinâmica do interior da sociedade que, basicamente, de tudo se apropria e tira lucro.

O movimento negro passa por uma questão muito séria quando em suas trincheiras existem pessoas que reivindicam o Black Power, não enquanto a ideologia política revolucionária de Kwame Ture (Stokely Carmichael) que dialogava com o Pan-africanismo revolucionário de Kwame N’krumah, mas da forma turpe com que Richard Nixon se apropriou do Black Power e o transformou em propaganda de mercado tirando seu caráter revolucionário em uma tentativa de abafar a resposta das massas negras ao programa revolucionário do Partido dos Panteras Negras.

A ideia de se criar o tal do capitalismo negro é tão nojenta quanto oportunista. Eu sempre fracasso quando tento buscar exemplos históricos de quando o capitalismo passou por um processo de mudança e isso não implicou em uma exploração massiva da mão de obra barata ou escrava. Se torna ainda mais nojenta quando é colado em pauta a forma como o racismo em sua concepção moderna é um aspecto fundamental do capitalismo e do seu caráter propriamente expansivo e, ainda assim, esses grupos permanecem em suas concepções pequeno-burguesas e nocivas a comunidade.

Se fosse consolidado o tal do capitalismo negro, quem de nós seria a elite econômica e quem seria a massa trabalhadora? Como essa elite negra se colocaria diante do cenário do capitalismo internacional em relação as potências imperialistas e racistas?

Acredito que os processos de pós-independência dos países africanos e os confrontos dentro da comunidade negra estadunidense mostraram o absurdo que é apoiar a ideia de uma burguesia negra que, supostamente, se voltaria para as demandas da comunidade. Hampton, no mesmo discurso citado anteriormente, sintetiza bem a grande maioria das posições contrárias ao comunismo e ao fim do capitalismo dentro da comunidade negra:

“Vocês sabem, muitas pessoas se irritam com o Partido porque ele fala sobre a luta de classes. E as pessoas que se irritam com isso são oportunistas, covardes e individualistas e tudo o que são é qualquer coisa menos revolucionários. E usam essas coisas como desculpas para justificar e invocar um álibi e para bonificar sua falta de participação na luta revolucionária real” (HAMPTON, p. 44, 2018)

Em tempos onde práxis de direita e ideias extremamente reacionárias tomam conta de uma parte dos militantes da comunidade negra no Brasil, sobretudo, os que se dizem autônomos e nacionalistas de uma coisa que vai saber o que seria, o trabalho de base realmente revolucionário é extremamente necessário e urgente. As pessoas negras precisam se pautar no fim do capitalismo e na superação da exploração. Sim, a comunidade negra precisa de marxismo, precisa do Partido dos Panteras Negra, Frantz Fanon, Kwame N’ krumah, Amilcar Cabral, um contraponto revolucionário que, de fato, lide com a realidade histórica das pessoas negras e que mostre os caminhos de sua libertação que, sim, está intimamente ligada ao socialismo e comunismo e uma sociedade justa e igualitária.

“É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria converte-se em força material quando penetra as massas.”

Karl Marx

Todo Poder ao Povo!


* Vinicius Souza. Graduando em História pela Universidade Cidade de São Paulo – Unicid, coordenador e escritor na revista online Revista Clio Operária.

 

Referências

Antologia: Volume I Partido dos Panteras Negras . São Paulo: Ed. Nova Cultura, 2018.

FAUSTINO, Deivison Mendes. Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro .1º ed. São Paulo: Ciclo Editorial Continuo, 2018.

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