Movimento Negro Unificado e Movimento Negro Empoderado

Por Eduardo Bonzatto e Luis Gustavo Reis

“Eu, por mim, me unirei com qualquer um, não me importa de qual cor seja, uma vez que queira mudar essa situação miserável que existe neste planeta.” (Malcom X)


Dois movimentos que expressaram e expressam a luta contra o racismo podem ser analisados de modo comparativo. Os anos entre esses dois movimentos apontam para uma permanência e muitas mudanças nas estratégias que encerram. A análise aqui ensaiada tem como objetivo enunciar lugares históricos distintos, em que sujeitos diversos se aliam para a busca por justiça, ainda que essa palavra, anunciada no bojo de um sistema fundamentalmente injusto como é o sistema capitalista, se apresente como problemática.

Os dois movimentos aqui analisados, aos moldes de uma contenda, de uma polêmica, são chamados por nós de Movimento Negro Unificado e Movimento Negro Empoderado. No caso do primeiro, sua história é famosa e fundamental para consolidar um espaço de luta que ainda está aberto numa realidade dura moldada pelo racismo, pelo preconceito e pela discriminação. O segundo foi por nós batizado para que a distinção seja melhor apreciada, embora não exista, de fato ou de direito, movimento com esse nome, mas se constitui por indivíduos e grupos que vão moldando uma visão de mundo totalitária e bem consistente que é, por sua natureza moral, praticamente imune à crítica.

Se o valor que move o primeiro é a alteridade, o que move o segundo é a competitividade. Enquanto a alteridade é parte do jogo das diferenças, a competitividade é a resultante das naturalizações da desigualdade, em que os sujeitos se submetem ao jogo perverso de múltiplas exclusões para o benefício próprio. A interdependência do outro que caracteriza a alteridade é substituída pela condição de exclusividade que a competição exige.

Para o Movimento Negro Empoderado, o racismo é o capital simbólico que anima toda a sua força e poder. Com o fim do racismo, portanto, a fonte de poder simbólica exaure e o movimento empoderado também desaparece.

Um promove a luta coletiva, enquanto o outro é a busca individual pela inclusão; um se municia na história, o outro na ideologia. O Movimento Negro Unificado acredita que enquanto um estiver preso, todos estão presos. O outro movimento acredita que se um atingir o reconhecimento e o sucesso, já houve ganho.

Um se baseia na história da escravidão para naturalizar a dor e o sofrimento e demandar justiça individual, enquanto o outro se fundamenta no projeto de branqueamento como estratégia de produção de racismo e propõe criação de escolas nas periferias, atuação em presídios, produção de cultura. Um demanda empoderamento para a edificação de um território. O outro é rizomático e caótico. Um quer dignidade e respeito, o outro poder e temor.

O Movimento Negro Unificado é o resultado das lutas contra o racismo que se avolumaram a partir dos anos 1950, e cresceu fortalecido até os anos 1980. O Movimento Negro Empoderado nasceu das estratégias do modelo neoliberal, a partir dos anos 2000, e se articulou a partir dos direitos poder ofertados por este: Lei Maria da Penha, Lei contra o racismo, dentre outros, foram os dispositivos que acionaram a Lei de Cotas. Em grande medida, o Movimento Negro Empoderado encerrou as atividades do Movimento Negro Unificado e com ele as lutas coletivas.

Nas zonas de exclusão, num país que ostenta o incômodo título de maior fosso social do mundo, a Lei contra o racismo é tão abstrata quanto a Lei do direito do consumidor ou do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O Movimento Negro Unificado ataca a fonte do preconceito e a instituição do racismo, enquanto o Movimento Negro Empoderado destaca sempre a discriminação que acirra as tensões e conferem a seus integrantes um espírito de justiça e legitimidade.

Exemplos recentes da diferença entre os dois nas postagens que se seguem.

Movimento Negro Unificado:

Movimento Negro Empoderado:

Enquanto o Movimento Negro Unificado estabelece a positividade em ser negro, o Movimento Negro Empoderado enfatiza a dor de ser negro. Conceição Evaristo diz: “é como se fosse uma memória afetiva da dor, quase ancestral, genética”.

A diferença de lutas é simples: o primeiro não recorre ao vitimismo para avançar, mas ao coletivismo e à condenação ao racismo. O segundo precisa da vitimização histórica para promover sua zona de poder, de justiça e legitimidade e se move na exaltação dos malefícios do racismo, criando uma voz uníssona contra a qual é impossível e perigoso se colocar.

Positividade que valoriza o negro, dor que vitimiza o negro, esses os polos opostos dos dois movimentos. Um precisa de energia para a luta coletiva, o outro do poder para o indivíduo avançar nas demandas sociais.

O Movimento Negro Empoderado precisa ressaltar a dor da escravidão como herança a ser demandada e compensada, usufruindo de uma dor que não é a sua. A dor ancestral, cabe pontuar, não é a atual. Ela é um compêndio, uma espécie de manual que é possível consultar e eventualmente requisitar para si como justificativa para reivindicar direitos e usufruir do poder disponível. O Unificado precisa reivindicar a ação política do branqueamento para denunciar os limites do racismo e apontar para as formas de luta para sua superação.

O Movimento Negro Empoderado não se interessa pelo fim do racismo, embora brade aos quatro cantos suas ações antirracistas. Usufrui da história como forma compensatória para legitimar o seu poder numa sociedade de pequenos poderes. Segundo Asad Haider, autor do livro Armadilhas da Identidade (2019), ancorado nas palavras e ações dos teóricos revolucionários negros, aponta que a política de identidade não é sinônimo de luta antirracista, mas, ao contrário, equivale à neutralização de seus movimentos.

O Teatro Experimental do Negro (TEN), a música erudita de Moacir Santos, os avanços intelectuais de Abdias Nascimento e Lélia Gonzalez são exemplos das lutas encetadas que culminaram no Movimento Negro Unificado. Exemplo das lutas do Movimento Negro Empoderado é a fala de Conceição Evaristo: “É preciso questionar as regras que me fizeram ser reconhecida apenas aos 71 anos”[1]. Ou de Sueli Carneiro: ”Organizem-se, porque não há mais limite para a violência racista”[2].

Um demanda dignidade, o outro só poder. Um vivencia e estimula a luta com seu exemplo, o outro, o medo, que é fonte de submissão. Um estimula a ação política direta, enquanto o outro somente a representatividade.

O Movimento Negro Empoderado opera no pensamento dicotômico e no automatismo do concordo discordo; o outro, no pensamento complexo das ações multifacetadas em busca de expansão. O pensamento linear e dicotômico é limitante e truncado, pois está sempre levantando barreiras e hostilidade. Não visa expansão, pois precisa tão somente edificar lugares de fala e poder. É individual e privado, embora clame por coletividade quando gera o medo.

Já o Movimento Negro Unificado congrega esforços que anseiam por visibilidade sem os conflitos constrangedores da resistência. É artístico e acolhedor das diferenças, tais como exemplificam os trabalhos de Moacyr Santos, Wilson Simonal, Carolina Maria de Jesus e do Teatro Experimental do Negro.

O Movimento Negro Empoderado é estimulador das desigualdades e provoca reações de ódio como forma compensatória para os infinitos anos de dor sofrido por irmãos negros na escravidão. Escravidão apresentada como um sistema de opressão exclusiva de brancos contra negros durante mais de trezentos anos. A simplificação é pedagógica e instrumental. O empoderado justifica também um sistema de terror a compensar a dor acumulada e sofrida por outros. Pouco importa se quem recebe a paga histórica nunca sofreu nenhum dos males que acusa, ou que os que devem pagar a conta agora sejam outros que nada tem a ver com a mesma história distante. Tudo é atualizado para a contabilidade do poder que se deseja usufruir.

O sistema capitalista feito para produzir injustiça e desigualdade se encolhe diante do sistema racista, infinitamente mais injusto, e que quase pode levar ao engano de que o sistema maior é justo. Os brancos são os inimigos naturais a serem combatidos nessa história de ajuste de contas. O clima é forçosamente antagônico para o benefício de alguns. A racialização resultante desse processo é danosa para ambos, todavia. O sistema maior vence assim, com o auxílio de seus peões.

É um jogo de simulações e de simulacros. A escravidão justifica as simulações e os negros são os simulacros, novos avatares da justiça e da redenção. É o reino das identidades étnicas, em que a tensão é o modelo social privilegiado. Todos os negros, racialmente identificados por dispositivos sociais que podem irrefletidamente acusar todos os brancos de serem os privilegiados do sistema escravista, herdeiros dos benefícios sociais injustos historicamente determinados. É um mecanismo oportunista que pode ser projetado contra quem confrontar o poder insurgente. E o confronto pode ser qualquer coisa irrelevante, pois a acusação de racismo é implacável e imediata e nada há a se fazer para amenizá-la. Atinge o alvo em cheio, pois só um negro empoderado pode impunemente acusar alguém de racismo, já que ele sabe bem o que é isso. A acusação será antecipadamente justa.

Um homem ou mulher negra sabe bem a dor da injustiça por herança atávica que justifique a imediata condenação, ainda que jamais tenha sofrido diretamente qualquer ofensa devido à cor da sua pele em toda a vida.

Normalmente, os usuários e mandatários desse empoderamento são jovens universitários em que essas questões estão mais em evidência. Nas periferias ou entre os mais pobres, essas questões são irrelevantes. Nas zonas de exclusão não existem lugares de fala ou de poder abertos. A luta pela sobrevivência é sempre mais premente. Além do mais, ali, brancos e negros, ou negros e não negros, não se veem como desiguais. Buscam com a mesma determinação a sobrevivência do dia a dia. A despeito das piadas preconceituosas, das estratégias racistas, das naturalizações da desigualdade, a solidariedade está sempre ativa nas zonas de exclusão, lugares onde não funcionam bem as promessas de justiça, de igualdade, de inclusão.

A classe média é o lugar do poder e, portanto, do empoderamento. É uma zona de disputas, de competitividade, de denúncias e acusações. É fértil nisso.

A classe média que emergiu no mundo neoliberal cultiva valores muito mesquinhos. Sua instabilidade carece de certos protocolos de medo, insegurança e ódio na medida certa para que arrefeça qualquer possibilidade de organização política mais consistente.

Paulo Bomfim, poeta brasileiro, delimitou esse lugar da classe média neoliberal em que o empoderamento é combustível de contenção. Segundo ele, “A alma não cabe na memória dos computadores/ nem se enquadra no paraíso do consumo/ O mistério do Ser escapa às tecnocracias”.

O empoderamento é tecnocrático por excelência. Uma forma perversa de burocracia do esforço para habitar um lugar de fala reconhecidamente justificado. Justamente por essa percepção que todos os direitos-poder foram direcionados a esse lugar social movediço: Lei do consumidor, Lei da criança e do adolescente, Lei para proteção de homossexuais, Lei Maria da Penha, Lei antirracista. Fora da classe média, esses direitos são como os demais, o direito à dignidade humana, o direito à habitação, à alimentação, ao emprego. São falácias distantes e nem sequer sonhadas.

Desse modo, o empoderamento é um valor de classe média, exclusivamente, para ser jogado contra a classe média, exclusivamente. Não ousa se contrapor ao poder conservador soft das elites nem mesmo ao pega-pra-capar da pobreza e da exclusão.

O terror sofrido pelas favelas, com a repressão constante de policiais e traficantes, é mero exemplo para o negro de classe média justificar seu poder de justiçamento. A favela é, para ele, uma ficção teórica.

Não é necessário enfatizar a diferença de atuação dos dois momentos na luta antirracista. Atualmente, toda ação se reduz a lugar de fala e cotas em universidades ou empresas. É o individualismo reinante sem postura crítica alguma. Pouco importam as estratégias de encarceramento e de extermínio da juventude negra, exceto para compor um discurso compensador para aqueles que estão na zona de benefícios dos privilégios. Ação mesmo só a discursiva, nada de efetivo que barre ou minimize tal situação.

O movimento negro unificava lutas que vinham de longe, continuadas por expressividades como Abdias Nascimento e Lélia Gonçalvez. Lélia, por exemplo, escreveu o livro Lugar de Negro (1982), em parceria com o sociólogo Carlos Hasenbalg, onde traça um panorama histórico do modelo econômico de 1964, a inserção da população negra neste cenário e o resgate histórico dos movimentos sociais negros, análise que contribuiu cabalmente para o entendimento do negro no Brasil. Fundadora do Grupo Nzinga, coletivo de mulheres negras, Lélia publicou Racismo e sexismo na sociedade brasileira (1989), texto que estimularia outra pesquisadora brasileira, Sueli Carneiro, estabelecendo uma linhagem que apontava para caminhos promissores, mas que seriam soterrados pelos projetos individualistas do Movimento Negro Empoderado.

Abdias do Nascimento, por sua vez, foi um dos intelectuais mais importantes do Brasil de todos os tempos. Professor de universidades em diferentes regiões do mundo, fundou museus, cursos de pós-graduação, integrou a Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Frente Negra Brasileira (FNB). Anos mais tarde, após reiteradas cobranças feitas pela UNE sobre seu passado integralista, Abdias afirma: “não tinha nada a declarar naquela espécie de autocrítica sob coação. Nada havia no meu passado para lamentar ou arrepender. Não me submeteria àquela chantagem.”[3]

O jornalista Gumercindo Rocha Dorea, descreveu um encontro que teve com Abdias:

“O nosso encontro seguinte foi na África, no decorrer do II Festival de Arte Negra, realizado na Nigéria, em 1977: integrava, então, a comitiva oficial do Brasil, chefiada por Euro Brandão, na época Secretário-Geral do MEC. Por seu lado, Abdias fazia parte da comitiva norte-americana, liderada por um líder racista, e que trazia para o encontro de Lagos o ódio alimentado contra a raça branca, ali ainda virulentamente dominante. […] Abdias do Nascimento já não mais encontrava no Integralismo a solução para o problema angustiante da integração da raça negra na estrutura do povo brasileiro. Voltava-se, então, para a doutrina do ódio de raça contra raça, se tornando, indiscutivelmente, o seu líder. Esquecia-se, assim, de Plínio Salgado e os integralistas, ‘de cuja agenda constavam a valorização do mestiço e a dignificação do negro’, nas palavras de Alberto da Costa e Silva. Dezenas e dezenas de anos lutando por um ideal, mesmo maculado em sua etapa derradeira – a dos últimos anos – por um ódio irracional!”[4]

É dessa complexidade que tratamos aqui. Sujeitos históricos plenos, com suas contradições e suas maravilhas, sem escamotear nenhum detalhe da luta contra o racismo, mesmo os mais questionáveis.

O movimento empoderado carece de heróis depurados de humanidade, de símbolos imunes às contingências tão peculiares da vida ordinária em nome de jornadas extraordinárias, que servem para contrapor-se a maldade histórica do homem branco, hétero, cis, racista, homofóbico, transfóbico, e um monte de coisas na atual nomenclatura do ódio de plantão. O Movimento Negro Empoderado, hoje, certamente chamaria esse intelectual gigantesco de “capitão do mato”.

Mark Lilla lembra que na

“História recente dos Estados Unidos, houve dois tipos de política identitária. A primeira, dos anos 50 a 70, defendia os direitos de afro-americanos, mulheres e gays. Lutava por igualdade, cidadania e solidariedade. Exigia reparação histórica, mas era também generosa. Por isso, conquistou a solidariedade de pessoas que não pertenciam a esses grupos. Um segundo tipo de política identitária floresceu a partir dos anos 80, obcecada pela identidade pessoal, com o que diferencia você dos outros. A primeira dizia ‘somos todos iguais e queremos ser tratados com igualdade’. Já essa segunda política identitária se baseia na afirmação da diferença e na exigência de respeito à singularidade. Ninguém pode falar em nome de ninguém. Isso jogou as pessoas umas contra as outras.” [5]

O racismo avilta a todos, negros e não negros e por isso não pode ser uma luta de uns contra outros. Nunca é demais recordar que pensamento crítico não é ser do contra. Isso é pensamento linear e dicotômico. Pensamento crítico é ser complexo. Pensamento complexo é pensar com as diferenças, não com as semelhanças. Pensar com as semelhanças é pensamento único, portanto, estandardizado, ou seja, fascismo.

Um ditado Iorubá conta essa estranha parábola: “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje…”. Em outras palavras, quando algo do presente muda algo do passado. O Movimento Negro Empoderado, ou alguns de seus aspirantes, lamentam que se revele que os escravizados recém-libertos adquiriam rapidamente um escravo para cumprir o trabalho num mundo em que o trabalho era fonte de indignidade. Afirmam que o movimento ainda é frágil para conviver com as duras verdades históricas. Que deveríamos aguardar para um momento em que estivessem mais consolidados para não minar seus objetivos. Mas a mesma pedra que mata o pássaro, ao atingir a água do lago provoca ondulações que se transformarão, pelo efeito dos fractais, em gigantescos maremotos.


Referências

[1] É preciso questionar as regras que me fizeram ser reconhecida apenas aos 71 anos

[2] Organizem-se porque não há mais limite para a violência racista

[3] NASCIMENTO, Abdias do. Entrevista. In CAVALCANTE, Pedro Celso Uchôa e RAMOS, Jovelino (orgs). Memórias do exílio. 1964/1978. De muitos caminhos. Vol. 1, cit., loc. cit.

[4] CAVALCANTE, Pedro Celso Uchôa e RAMOS, Jovelino (orgs). Memórias do exílio em PDF

[5] Esquerda gosta de resistir não de governar, porque tem uma visão teatral da política

 

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