Uma história de deslocamento das mulheres não-brancas da Vila Mimosa

Por Mirna Wabi-Sabi, Beatriz da Matta e Fábio Teixeira, via Plataforma9

A divisão religiosa que se tornou racial e étnica na época do Império Bizantino pode ser traçada de hoje.


Tudo começa em fevereiro do ano 840 com a proibição da venda de cristãos, que na época ocupavam o norte do mediterrâneo, à muçulmanos norte-africanos. Ao invés, Eslavos começaram a ser capturados e vendidos. A Europa ocidental aprendeu a fazer dinheiro vendendo outros povos no lugar de si mesmo, e foi do nome deste outro povo que surgiu a palavra escravo. Como pagãos do leste Europeu, Eslavos eram considerados uma etnia distinta. A Europa Ocidental se transformou no coração da Supremacia Branca quando os eslavos do leste começaram a ser marginalizados, explorados e escravizados de maneiras que extrapolavam estruturas de classe. O conceito de posse e venda do “outro” vem de diferenças religiosas, já que há mil anos o conceito de raça ainda estava em estágio de formação. O conceito logo tomou forma e hoje ainda vivemos na estrutura social e governamental que começou a ser construída naquela época.

O Pactum Lotharii, que regulamentou a venda de pessoas em 840, representa a ruptura entre a República de Veneza (hoje o nordeste da Itália) e o Império Bizantino (que beirava o Mediterrâneo e boa parte do Mar Negro). Essa ruptura significa a aliança entre a Itália e o Mundo Ocidental.

Durante mil anos, cristãos se expandiram do norte do mediterrâneo, ocuparam o norte e o oeste europeu, e eventualmente colonizaram as Américas. Eslavos no leste europeu resistiram o quanto podiam para preservar suas línguas, sua cultura e sua etnia. No começo do século XX, como resultado de centenas de anos de tensão causada por esta resistência, o Mundo Ocidental inicia a Primeira Guerra Mundial.

Mapa

Na minha leitura, a divisão entre leste e oeste Europeu não é baseada nas relações entre a Europa e a União Soviética. Por isso, não incluo parte da Alemanha no leste. Baseio a divisão nas regiões historicamente Eslavas, com exceção da Hungria, Romênia e Grécia [1], que não são eslavos mas são do leste em termos geográficos. Mesmo assim, a expansão de Eslavos antigos mais de mil anos atrás tem tudo a ver com a categoria etnolinguística Eslava que vemos hoje.

A protuberância na linha de divisão entre leste e oeste formada, pela Áustria e pela Hungria (por não serem Eslavos), foi central no conflito global que marca a reestruturação de Impérios e fixa a predominância da estrutura de estado-nação que conhecemos hoje [2]. Impérios como o Bizantino passavam por fazes de expansão e declínio, e um período de declínio aconteceu por conta da divisão entre o oeste europeu ortodoxo cristão e o leste grego. No século XX, com a Grande Guerra, Impérios no leste europeu se desmantelaram, e apenas alguns, no oeste, continuaram até os anos 80 ou 90 [3].

No império da Áustria-Hungria, uma minoria alemã e húngara dominava uma população majoritariamente Eslava. Um dia, o casal de herdeiros da Áustria-Hungria [4] foi assassinado por um Sérvio-bósnio [5]. Este evento desencadeou a Grande Guerra. As autoridades imperiais da Áustria-Hungria já pretendiam invadir a Sérvia bem antes do assassinato de seu casal de herdeiros. Portanto, quando o governo Sérvio negou envolvimento no assassinato e a maioria dos países europeus acreditaram, todos queriam evitar escalar o conflito, menos as autoridades Austro-Húngaras.

Naturalmente, havia tensão nas estruturas de poder que não respeitavam a diversidade étnica da região. Uma cor rodeada pelo seu oposto torna-se mais vibrante, contrastante. Não é por acaso que a Áustria e a Hungria têm radiado um tom supremacista branco único desde então.

O papel da mulher

A transição de Impérios para Estados iniciou também uma mudança no papel das mulheres na sociedade ocidental. Depois da Grande Guerra na Europa, havia um “excedente de mulheres supérfluas”. Em outras palavras, elas eram solteiras por conta do alto índice de morte em batalha. Na Inglaterra, por exemplo, mulheres entre 25 e 40 foram selecionadas e mandadas para as colônias, onde o excedente era inverso — havia mais homens colonizadores. Este processo de seleção era em teoria consensual, mas que opções elas tinham de fato? Eu diria que o processo era essencialmente de deportação, porque falta de opções está longe de significar consenso. Não ter marido era contrário às normas do Estado, era ilegal.

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Foto de Beatriz da Matta (2019)

A “deportação” de mulheres brancas de classe média servia também para prevenir que europeus no exterior não acabassem formando “vínculos escandalosos” com mulheres não brancas das colônias. Repondo a mão de obra dos homens que foram para a guerra, essas mulheres brancas ocuparam um espaço no campo profissional que nunca tiveram antes. Isso engatinhou o feminismo burguês que conhecemos hoje, onde mulheres de classe média lutam para não serem apenas donas de casa, e para ocupar posições profissionais que até então eram disponíveis apenas para homens.

As mulheres pobres também não tinham poder, mas sempre trabalharam.

Se é ilegal não ter marido, e são as mulheres brancas que são destinadas a casar, o que acontece com as Eslavas? As mulheres não-brancas com quem era “escandaloso” se envolver acabam contando com a clandestinidade como modo de sobrevivência. Enquanto a profissão de prostituta é vista como degradante para a mulher, a realidade social e estatal que as leva a depender dessa carreira é conservada, pois, essas são vistas como puras e justas. A linha entre casamento forçado e prostituição é a distinção entre níveis de conforto estabelecidos por normas estatais. Essas normas estatais eram e ainda são estabelecidas por homens.

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Foto de Fabio Teixeira (2015)

Como é que tentar sobreviver nas entranhas da história é vergonhoso, enquanto os que a alimentam são vangloriados? A História se alimenta do conflito, se empolga com a miséria, ignora tantas vítimas e imortaliza os escritores e narradores.

O Brasil se envolve

O Brasil se envolveu no conflito Europeu declarando guerra contra a Alemanha em 1917. Em fuga, mulheres eslavas buscaram abrigo aqui. Sem dinheiro e sem marido, elas fundaram um bordel em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Foi ali que nasceu o que hoje conhecemos como Vila Mimosa. Com o tempo, as trabalhadoras estrangeiras se misturaram com as locais, porém, o que mais impactou a mudança na demografia da área foi o deslocamento. A expansão urbana e do capital as perseguiam, forçando-as a esquivar em regiões mais e mais distantes.

Depois do chamado fim da escravidão, muitas mulheres negras começaram a trabalhar com as do leste Europeu. Algumas destas praticavam o Judaísmo, e eram reduzidas a “polacas” mesmo quando não eram da Polônia. Muitos anos depois, quando a Vila se estabeleceu na Praça da Bandeira, na zona norte, o corpo trabalhista era composto predominantemente de mulheres brasileiras negras. Na sociedade patriarcal e supremacista do século XIX e XX, mulheres solteiras do leste Europeu eram tachadas de “supérfluas” e tratadas desumanamente por pertencerem a uma etnia distinta da branca cristã. No Brasil, podemos ver paralelos com o tratamento de mulheres negras, e não é por acaso que a palavra ‘escrava’ também emigrou.

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 Foto de Fabio Teixeira (2015)

Hoje, a Vila Mimosa é uma pequena área onde a prostituição acontece de forma razoavelmente legalizada, na propriedade da polícia civil, com aval do estado e apoio de instituições sociais e de saúde. Digo razoavelmente porque prostituição é uma profissão reconhecida pelo ministério do trabalho brasileiro, porém, ainda envolve uma série de ilegalidades relacionadas a drogas ilícitas e milícias. Nem todas as mulheres negras que trabalham na Vila Mimosa são solteiras, mas todas lidam diariamente com a violência de um Estado Branco que sustenta uma estrutura social que as rouba de opções. Há fome, miséria, e subjugação ao homem. Subjugação não apenas em termos interpessoais/sexuais, mas também como políticas públicas, interesses governamentais e expansão do capital.

TAV Rio–São Paulo

Países como Alemanha, França, Espanha e Itália têm interesse econômico e investem em um trem de alta velocidade que conectará Rio de Janeiro e São Paulo. Esse projeto pretende passar pela Vila Mimosa e precarizará ainda mais o sustento destas trabalhadoras no processo de deslocamento. Há planos de construir um novo local para as mulheres trabalharem chamado “Cidade das Meninas”, mas o orçamento ainda flutua à distância, bem longe do campo de visão de qualquer destes investidores Europeus. Os interesses econômicos da Europa Ocidental marginaliza outros povos a centenas de anos, a Vila Mimosa é um exemplo microcósmico da estrutura global que até hoje desloca e fragiliza a existência de mulheres não-brancas.

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Foto de Beatriz da Matta (2019)

Esses interesses econômicos certamente não beneficiam todas as pessoas. Eles estão beneficiando a quem, afinal? A Europa Ocidental é pequena e vulnerável. Como podemos ver no mapa acima, ela ocupa metade do continente Europeu, que já é o segundo menor continente do mundo e tem poucos recursos naturais. Mesmo assim, ela é uma força capaz de evoluir seus métodos de escravização e de sustentar uma sociedade onde mulheres como as trabalhadoras da Vila Mimosa não tem opção alguma além de se expor a situações brutais para sobreviver.

Gatilho: O próximo paragrafo contem descrições perturbadoras de violência física

Em 2017, um ex-segurança da Vila gravou um vídeo contando a história da situação que o levou a se demitir. Um dia, por necessidade financeira, uma trabalhadora concordou com uma quebra de protocolo. Ela foi com um cliente para um hotel fora da área designada para o trabalho das mulheres, e demorou para voltar. A vizinhança se preocupou e pediu para alguns seguranças irem checar. Coagiram o recepcionista, arrombaram a porta do quarto e a encontraram amarrada, com fita sobre a boca, sendo torturada com um caco de vidro.

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Foto de Beatriz da Matta (2019)

Se o problema fosse esse psicopata em particular, poderíamos resolver ele rapidamente. Infelizmente, aqui nos deparamos com um problema que persiste a mais de mil anos. A tortura, a miséria e o (ab)uso do corpo da mulher são problemas que persistem ao longo da história humana, e é um trabalho constante resistir contra eles. Essas guerras estão no passado, no presente, nos nossos corpos e nas nossas mentes. Como a historiadora britânica Clare Makepeace apontou, a Grande Guerra teve o seu papel moldando a performance da heterossexualidade masculina, e ela perturba.

“Sexo antes do casamento e extraconjugal não eram vitais para concepções de masculinidade. […] Um novo código de conduta foi revelado: comportamento masculino oculto, mas aceito”.

A História é agora

Nas minhas viagens pela Europa senti que eu, branca brasileira, não era branca o suficiente lá. Nem o polonês loiro de olho azul era branco o suficiente. O recorte não só de classe, mas de raça se revelava em qualquer contexto. Era normal falar que alguém tinha “cara de polonês”, e estava no oeste para fazer trabalho braçal. Eu, como latina, provavelmente estava na Europa (ocidental) para achar um marido para me “legalizar” (conseguir um visto). Querendo ou não, são sempre eles nos melhorando.

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Foto de Fabio Teixeira (2015)

A memória da Grande Guerra e a conjuntura conflituosa contemporânea nos apresenta a cada minuto com a dor e com o terror que muitas vezes é ser uma mulher pobre e quase sem opções. É preciso evitar desviar o olhar, e lutar contra as estruturas patriarcais, supremacistas e estatais de poder. Há diversas formas de resistir, e umas das mais acessíveis é minar as concepções de masculinidade abusiva, em volta e dentro de nós, sempre que possível.

A Vila Mimosa não é um lugar de bueiros e camisinhas como a Globo prefere retratar. Pode ser um lugar para fazer amizades, ouvir rock ao vivo, dançar ao som de reggae no vinil, tomar ótimos coquetéis e comer refeições vegetarianas. A entrada é um portal, um trilho elevado industrial antigo com juntas de aço como as da Torre Eiffel, onde o trem para a Central do Brasil passa com um som suave. Precisamos ver a beleza no sobreviver para reunir forças para combater o que está nos matando. Tudo ao redor é resistência, e aqui se esconde a energia para continuar a luta.


Notas de rodapé

[1] – Gregos não são ocidentais, apesar de terem inspirado tal cultura. De certa forma o período helenístico foi apropriado e gentrificado pelo mundo ocidental. Algo parecido, porém mais extremo, foi o embranquecimento do Antigo Egito.

[2] – As definições de Império e Estado-nação dão a entender que Nações se criam organicamente e de forma menos autoritária, porque se baseiam em identidade e vínculo cultural. Hoje, formas veladas de Imperialismo existem quando uma Nação “garante” a soberania de outras. Garantir soberania é um paradoxo, já que se dependemos de outros para a possuir, a deixamos de ter. No século de hoje, Soft power é o disfarce de impérios.

[3] – Os seguintes impérios acabaram durante ou logo depois da Grande Guerra: Otomano, Russo, Alemão, Austro-Húngaro. Os seguintes permaneceram: Francês, Inglês, Português, Espanhol.

[4] – Francisco Fernando da Áustria-Hungria e Sofia- Duquesa de Hohenberg.

[5] – Gavrilo Princip, que tinha 19 anos quando o assassinato ocorreu.


* Mirna Wabi-Sabi é escritora, teórica política, professora e tradutora. É editora da Gods and Radicals, fundadora da revista A Inimiga Da Rainha e membro do coletivo Plataforma 9.

* Beatriz da Matta é artista mutidisciplinar, lgbtqi, acumuladora de ideias, escritos e experimentos com audiovisual – corpos – materiais ~ movimentos… Participante ativa do coletivo “Labirinta” e do coletivo residência “Ksa do mato”.

* Fabio Teixeira é fotojornalista e documentarista no Rio de Janeiro, e já fotografou para o The Guardian, Folha de São Paulo, Cruz Vermelha Internacional, Unicef e outros. É também membro do coletivo Plataforma 9.


 

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