Depois de amanhã: o vírus que desperta ao econômico (?)

Por Phillipe Augusto Carvalho Campos

O Guy Debord continua sendo um farol pra esse mundo em que vivemos, seu diagnóstico fundamental é o de que nossas expressões são integralmente cópias de imagens. Como se, ao comprar uma calça, já tivéssemos feito a inferência sobre quem queremos ser, qual imagem queremos passar, ao vestir aquela calça – desnecessário dizer que esse exemplo serve muito melhor para as redes sociais e para mercadorias cuja escassez é programada (o IPhone é paradigmático).Contudo, numa escala global, não podemos pensar numa cultura genuína; as imagens estilísticas do cinismo, pastiche e sinédoque caem muito bem para explicar comportamentos, crenças, apropriações e intercâmbio num plano social em que as pessoas não se comunicam nem possuem seus valores comunitariamente. Daí, um beco sem saída, se assumimos que a cultura superficialista mediada por imagens ou produzida em massa por uma indústria do lucro (aqui Adorno e Herkheimer) é a única possibilidade para um mundo global, como produzir uma ação verdadeira, lastreada pelo real, por necessidades reais, dada força gravitacional exercida pela dinâmica imagética? A frase do Debord que tenho em mente é:


No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.

Ou seja, num mundo em que a representação das coisas, em que o significado social estabelecido por uma economia espetacularizada de imagens, toma o lugar de matrizes de significação alternativas – tradicionalistas, religiosas, utópicas etc. –, o verdadeiro, a possibilidade de intervir politicamente, moralmente, solidariamente etc., é apenas um momento do grande teatro espetacularizado de imagens.

Essa foi minha reação ao ver as primeiras reações à infecção global. Não me parecia que as pessoas estavam usando máscaras, fazendo compras colossais no mercado ou se higienizando para aplacar a ameaça do vírus, mas agindo copiosamente, parodiando uma reação moderada e necessária que seria efetiva para minorar os efeitos. De modo que, caso as circunstâncias não se mostrassem maiores que as imagens, todas as atitudes seriam parecidas com a histeria estadunidense que vemos na Black Friday ou na falta de educação de alguns deles quando no trato com imigrantes.

Mas a realidade se impôs às imagens – pra aqueles que gostamos do Lacan, o Real interveio no simbólico.

E agora, se o vírus (verdadeiro), é, também, um momento do teatro de histerias, de pânico, de politização (falso) – dito por outras palavras, se de um lado transplantamos o esquema brasileiro pré-vírus, para a realidade virótica –, há também um momento do verdadeiro não imagético ou que não se deixa arrastar pelo teatro. E esse momento “verdadeiro de verdade” não se expressa somente nos corpos mazelados, mas nos desdobramentos do poder de Estado para conter a crise – acaso o governo não “pariu” 170 bilhões para lidar com a pandemia?[1] –. Tudo se passa como se as medidas de salvamento estivessem em estado latente esperando o momento oportuno para serem utilizadas, momento este que não era o super-endividamento das famílias brasileiras, a crise de desemprego e a calamidade do Teto de Gastos.

Estamos colocados, então, num momento de luta econômica onde, a princípio, todas as bandeiras simbólicas foram colocadas de lado. Participamos de um cabo-de-guerra em que um dos lados pretende lidar com a situação de modo a socializar menos os prejuízos, isto é, fazer com que empresas ou o Estado diminuam as perdas – nesse campo se incluem as medidas como os 30 bilhões para salvar bancos[2], o cancelamento de salários por quatro meses (glória a Deus o presidente já voltou atrás)[3] e o corte de bolsa-família[4] –, no lado contrário, as perdas serão melhor socializadas, serão democratizadas – por exemplo a implementação da renda básica universal para lidar com a calamidade[5]. – Digno de nota, quem trouxe esse vírus ao Brasil foi a gente rica, que anda de avião, quem mais vai sofrer é o povo, que não anda de avião.

Na hora avançada em que a intrusão do Real virótico puxa a intrusão de um Real econômico, é tempo de revelar a boçalidade mascarada pelo espetáculo político no qual estávamos relegados. A arena política que fora dominada pelo esquematismo culminante na derrota disso que se chama esquerda – isto é, as tais pautas simbólicas com precedência sobre as pautas econômicas – foi abalada. O governo eleito não é boçal só porque anacrônico quanto aos costumes, o é também, e, principalmente, porque é mal para com a pobreza, o é porque seu “liberalismo” opera como uma máquina de moer gente. O governo que não tinha dinheiro, na verdade, tem dinheiro. E isso é uma pauta democrática. Não depreciando as bandeiras da derrota da esquerda: isso é uma pauta de “maioria”.

Sem medidas devidas que envolverão muito dinheiro para a pacificação social e contenção da pandemia, não dá para se ter ideia do que o nosso país vai se tornar – é necessário evidenciar que o Brasil tem fatores que nos colocam em situação muito mais grave se comparado à Itália (desemprego, subemprego e um sistema de saúde depredado são alguns). A hora agora é, obviamente, de colocar no lado certo do cabo-de-guerra, de fazer o dever de casa bonitinho – o isolamento como forma de solidariedade –, e (porque não?) tentar formar comitês de ajuda para aqueles que precisarem (nunca devíamos ter parado o trabalho de base). Passada a hora mais escura, teremos aprendido algo com isso? Teremos deixado o fla-flu de ressentimentos de lado? Teremos (re)aprendido a falar de dinheiro? Hegel disse que:

“Em geral se aconselha a governantes, estadistas e povos a aprenderem a partir das experiências da história. Mas o que a experiência e a história ensinam é que os povos e governos até agora jamais aprenderam a partir da história, muito menos agiram segundo as suas lições.” (HEGEL, Razão na História).

E pelas melhores razões. Não se aprende nada com a história porque a história anda e sempre nos propõe novas questões, fundadas no presente, o qual se furta a ser compreendido pelo passado. Contudo, resta saber se o Real virótico se imporá à realidade pós-virótica. Se sim, o vírus terá nos acordado: é a economia, estúpido!


Notas:

[1] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/governo-eleva-a-r-1596-bi-recursos-para-medidas-economicas-de-combate-a-efeitos-do-coronavirus.shtml

[2] https://oglobo.globo.com/economia/caixa-pode-injetar-70-bi-em-credito-para-ajudar-bancos-pequenos-24300797

[3] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/mp-de-bolsonaro-suspende-contrato-de-trabalho-por-4-meses.shtml

[4] https://www.cartacapital.com.br/sociedade/governo-corta-bolsa-familia-de-158-mil-familias-em-meio-a-crise-do-coronavirus/

[5] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/relator-da-onu-pede-que-paises-adotem-renda-basica-universal-com-pandemia-de-coronavirus/


*Phillipe Augusto Carvalho Campos é psicanalista, mestre em teoria psicanalítica (philippe.a.c.campos@gmail.com)

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