Nosso amigo, o filósofo Ruy Fausto, está morto

Por Christian Laval, traduzido por Douglas Rodrigues Barros

O repentino anúncio do falecimento de Ruy Fausto em Boulogne-Billancourt, causado após um ataque cardíaco nesse primeiro de maio, foi para nós, como para todos seus inumeráveis amigos, um choque precedido por uma tristeza gigante.[1]


Ruy Fausto era – após a criação – presença fiel no grupo de estudos sobre as alternativas ao neoliberalismo (GENA) e um grande amigo com quem compartilhamos tantas belas noites e momentos felizes em Paris e em São Paulo, estava sempre na companhia de todos que o amavam pelo que ele havia feito e por tudo que havia escrito em sua vida, com sua presença calorosa, agradável e generosa.

Era um homem de sorriso e de raiva, de combate e de trabalho, de paixão e de diálogo. Aqueles que tiveram a chance de partilhar dessas trocas ricas em análises sutis, histórias vividas e idéias, lembrarão da arte irônica com a qual ele sabia combinar as anedotas de uma vida pessoal abalada pelas tragédias políticas sentidas tanto na Europa como na América Latina; a história da filosofia no Brasil, os ícones do marxismo mundial, o olhar crítico para a esquerda brasileira e o esforço retratado em seus mais recentes compromissos na tentativa de renovar a Esquerda francesa. Ruy Fausto era múltiplo, brasileiro, francês, filósofo, poeta, músico, militante, jornalista e professor.

Esses são todos os aspectos que por mais de uma vez reavivaram seus propósitos, notadamente na cafeteria da BNF, seu quartel general em Paris, onde nós nos encontrávamos sempre, o mesmo local onde ele se reunia frequentemente, na maior generosidade, com os jovens doutorandos e pós-doutorandos brasileiros que vinham estudar em Paris. Ele permaneceu tanto em Paris como em São Paulo, um elo vivo entre o pensamento francês e o brasileiro. Elo que o havia verdadeiramente constituído intelectualmente desde sua juventude, graças há alguns de seus mestres que sempre fazia questão de evocar com gratidão, como Gèrad Lebrun, à época que lecionou na Universidade de São Paulo, instituição a qual, malgrado o exílio em Paris, estava profundamente apegado. A França foi para ele, como para outros jovens intelectuais de sua geração, sua terra de exílio. Isso lhe permitiu construir uma carreira no departamento de filosofia da Universidade de Paris VIII, não sem as singulares dificuldades em meio às intrigas profissionais das quais ele guardava humorísticas lembranças.

Filósofo engajado, homem de grande cultura, intelectual cosmopolita, Ruy Fausto não concebia o exercício do pensamento como algo encerrado no interior dos muros da academia. Distante da obsessão exegética, Ruy Fausto concebia a filosofia apenas quando em contato com a realidade social, somente na relação com a vida dos homens. Lia economistas, sociólogos, romancistas e poetas. Às vezes se arrependia de não ter tempo suficiente para se consagrar às leituras de diversos escritores. Que livros ainda teria que ler! A Biblioteca Nacional não era para ele apenas um abrigo longe da fúria e do barulho, mas também, às vezes, um posto de observação sobre o mundo, um arsenal de armas políticas, ou melhor, um lugar para continuar aprendendo. A sala K (filosofia) não será a mesma sem ele.

Os seus trabalhos altamente eruditos sobre Marx, dos quais por vezes ele se arrependia, não são mais lidos, mas restarão incontornáveis, e em nada contradirão o engajamento de uma vida. Ruy Fausto é autor, entre outras obras, de um livro que é referência “Marx: lógica e política: a busca de uma reconstituição do sentido de dialética”[2] de 1986. De saída devemos se atentar à data de publicação, estávamos em meados dos anos 1980, os assim chamados “anos de inverno”, para falar como Guattari. Anos nos quais estava na moda tratar Marx como um “cachorro morto” expressão aplicada a Espinosa nos tempos de Lessing, ou a Hegel nos tempos de Marx, fato que recorre justamente Jean Toussaint Desanti no início do prefácio que escreveu para o livro de Fausto. Como bem observou: “A moda Marxista dos anos sessenta foi sucedida com a mesma rapidez e raiva pela moda antimarxista dos anos oitenta”. É preciso lembrar, com efeito, que o antimarxismo era popular entre os oportunistas e ensaístas que buscavam notoriedade, em particular, entre os promotores de uma marca chamada “nova filosofia.”

A abordagem de Ruy Fausto é seguramente algo que estava na contracorrente da moda intelectual que prevalecia à época. Entretanto, não se trata nulamente de restaurar a integridade da doutrina marxista e de se apresentar com um defensor irremediável de alguma ortodoxia ameaçada. Observando a crise do marxismo, ele a liga de maneira original à crise da própria dialética. Pretende acima de tudo restituir à dialética o seu rigoroso significado, e para isso, passa a praticá-la na leitura meticulosa dos textos de Marx, sobretudo nos Grundrisse e n’O capital, numa época onde, sobretudo, se contentavam em leituras de prefácios para emitir algum comentário autorizado. Mas, o mais importante aos nossos olhos reside no que segue ao nome de Marx: “Lógica e Política”. Dois extremos reunidos por um “e”. De um lado, a lógica da crítica da economia política. De outro, a prática política. Ainda é hoje, a tensão entre esses dois extremos, o que nos faz pensar. Hoje mais do que nunca. Essa é a grande lição que nos legou.

Ruy Fausto teve que transmitir uma experiencia política, não somente sua, mas a dos revolucionários do século XX. A política é um assunto sério, assunto de vida e morte. Esse agudo intelectual sabia que o assassinato político em massa era uma ameaça sempre presente tanto na Europa quanto na América Latina. Criança, durante a Segunda Guerra mundial, jovem, durante a imposição da ditadura no Brasil, exilado, no Chile, escapa por pouco das forças armadas na época do golpe de Pinochet.

O trotskismo de sua juventude o vacinou de qualquer compromisso com o totalitarismo stalinista e seus duplos. Crítico intransigente das formas oligárquicas, dogmáticas e populistas da esquerda, ele esperou ate o fim que ela se curasse de suas feridas e se reinventasse, tanto no Brasil quanto na França. Leitor de Arendt, Lefort e Castoriadis, foi um daqueles para quem a verdadeira tradição revolucionária era a democracia levada a cabo. Ativo internacionalista, sabia que nada de bom poderia advir do nacionalismo. E quando chegou o tempo catastrófico do bolsonarismo, novamente deu mais uma lição de coragem ao iniciar uma luta pública contra o novo fascismo que se abatia sobre seu país.

A despeito de suas múltiplas atividades, notadamente a edição da revista Fevereiro, após a revista Rosa[3], cujo lançamento dedicou muito esforço, sobretudo, nos últimos meses, paralelamente a difusão de seus últimos livros sobre a esquerda, revolução e totalitarismo, participou também com paixão da criação e discussão do GENA. Tínhamos muito em comum, exceto a diferença de uma geração. Ainda tinha muitos projetos para realizar com o grupo francês. E escreveu para um de nós um e-mail no final de março: “Espero que possamos realizar um trabalho coordenado França/Brasil. De várias formas: revistas, seminários, vídeos, podcasts etc.” Em tudo o Ruy estava lá. Aos 85 anos, o futuro ainda estava em ação, a coordenação, a aliança com a França e o Brasil.

Gostaríamos de dizer a todos seus amigos e colegas brasileiros, que hoje sofrem cruelmente a sua perda, que o esforço dos estreitos laços intelectuais e amigáveis que pudemos estabelecer com a ajuda de Fausto não serão rompidos. Será a nossa forma de perpetuar, para além da sua morte, sua magnifica lição de vida.


Notas:

 

[1] Texto originariamente publicado em https://blogs.mediapart.fr/christian-laval/blog/020520/notre-ami-le-philosophe-ruy-fausto-est-mort

[2] FAUSTO, R. Sentido de dialética: Marx, lógica e política. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2015

[3] www.revistarosa.com/1/


 

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