Pandemia, saúde mental e as tarefas da psicologia

Por Marcela Pereira Rosa*

A pandemia do novo coronavírus e a necessidade do isolamento social tem colocado em pauta, dentre muitos outros aspectos, as questões relacionadas à saúde mental da população.O momento é difícil, sabemos, e o sofrimento que pode decorrer daí ganha nuances diversos, em forma e conteúdo. É fato que as condições de isolamento social podem gerar ou aprofundar quadros já existentes de sofrimento psíquico. Nesse cenário se espalham por todos os cantos das redes sociais as receitas prontas do “que fazer para manter sua saúde mental em dia”. Na esteira que vai das “cinco dicas para se manter produtivo na quarentena” até os “sete passos para ter uma semana melhor em tempos de coronavírus”, quase sempre a cereja do bolo é o “aguente firme: vai passar”. É claro que o mundo das receitas inclui também estratégias importantes de cuidado e os esforços sinceros de psicólogas/os realmente preocupadas/os com o rumo das coisas e com a saúde mental da população em geral. Aí o problema maior, me parece, são as limitações da própria psicologia com a qual elas/es operam, a psicologia que só faz prescrever dicas paliativas, individualizadas e, em última instância, se agarra na ideia de que “vai passar”. É verdade que as pandemias são passageiras e, nesse sentido, a ideia do “vai passar” está correta, é claro. O problema é a maneira como, muitas vezes, ela é empregada, expressando uma concepção superficial e idealista.


Um dos problemas do pressuposto de que “vai passar” é quando ele é empregado baseado em uma concepção falsa da existência de uma normalidade pré-pandemia. É como se o mundo antes da Covid-19 girasse na mais plena harmonia – exceto para os terraplanistas, é claro. É como se a pandemia fosse um parêntesis da história, uma pausa no mundo, um momento de silêncio no meio da festa. Fechado o parêntesis, a roda da história volta a girar, os trabalhadores regressam felizes para os seus locais de trabalho e a vida, enfim, volta à normalidade.

Essa suposição é problemática primeiro porque, por óbvio, não voltaremos nunca ao estágio anterior da pandemia – é a velha história de que não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois, afinal, o tempo passa, o rio muda. A história está sempre em movimento. O segundo problema é que essa dita normalidade é, na verdade, o cenário da mais profunda barbárie e, nesse sentido, a suposição de que “vai passar” está alicerçada na inquestionabilidade da ordem posta, na naturalização e na aceitação fácil de uma sociabilidade fundada sobre a exploração da massiva maioria dos trabalhadores pela minoria detentora dos meios de produção.

Acontece que essa dita “normalidade” é, na verdade, a sociedade da mais profunda desigualdade entre as classes e das mais variadas opressões de gênero, de raça e etnia. Na mais pura “normalidade” da sociedade pré-pandemia quase um terço da renda no Brasil estava concentrada nas mãos do 1% mais rico da população, uma mulher morria a cada 7 horas vítima de feminicídio, a cada 16 horas ocorria uma morte por homofobia e 75% das vítimas de assassinato no país eram negras – pra ficar só em alguns exemplos. A psicologia que não problematiza essa realidade e, mais do que isso, anseia em voltar a ela, é, sem dúvidas, uma psicologia burguesa, negacionista, estéril, idealista e ineficaz. É a psicologia – ou são as psicologias – a serviço da manutenção do status quo, que nega a realidade concreta e a história, naturaliza a barbárie gerada pelo capitalismo e idealiza uma sociedade harmoniosa que só existe nas propagandas de margarina.

Por outro lado, a concepção do “vai passar” pode sustentar também a ideia de uma passagem a um estado melhor do que aquele em que vivíamos antes da pandemia. Aqui surgem os otimistas-ingênuos, que acreditam que inevitavelmente sairemos desse momento dispostos a rever e reconstruir nossas formas de sociabilidade a partir da mirada crítica que a crise pandêmica magicamente despertou em nossas consciências. Nesse caso, as mazelas históricas das quais padecemos até são reconhecidas, mas prevalece a leitura idealista, fetichizada e mecanicista, que acredita que a consciência se produz de forma espontânea, como resultado imediato da vivência de experiências difíceis. Em outras palavras, como se a consciência, nesse caso, fosse reflexo mecânico da condição de exacerbação das contradições sociais que a pandemia provoca.

Um outro problema da ideia do “vai passar” é quando ela é construída e concebida em uma dimensão temporal a partir da lógica formal, que é linear e fragmentada. Como já dito, é certo que tudo segue em movimento e constante mudança no decorrer do tempo. Mas esse movimento de mudança não pode ser compreendido a partir da lógica linear em que um momento da história sucede o anterior sequencialmente, em períodos estanques que se iniciam e se encerram por completo – como a ideia do “vai passar” muitas vezes sugere. O movimento de mudança precisa ser compreendido a partir da lógica dialética, em que um momento supera o outro incorporando elementos do momento anterior. O que eu quero dizer com isso é que não podemos conceber a realidade como se ela fosse uma série sequencial de momentos estanques no tempo, como uma sucessão de fases pré-pandemia, pandemia e pós-pandemia em que, num passe de mágica, as coisas mudam ao passarmos de um momento a outro; em que o pós-pandemia nos permitirá o regresso à “normalidade” da vida pré-pandemia, ou mesmo, em que, quando a pandemia acabar, uma sociedade harmoniosa será inevitavelmente construída. É preciso compreender que, se é certo que a história é movimento e transformação, esse movimento é necessariamente dialético e, por isso mesmo, nosso “pós-pandemia” depende diretamente dos determinantes históricos de nosso passado e do nosso agir presente. Esperar a pandemia passar de braços cruzados não nos levará a um amanhã melhor. Nosso devir de liberdade depende diretamente da nossa capacidade de organização consciente e intencional na luta pela transformação social e pela superação das estruturas que geram e mantêm a desigualdade.

A verdade é que, muitas vezes, por mais bem-intencionadas/os que possam ser as/os psicólogas/os, ao difundirem a ideia do “vai passar” estão empregando uma psicologia que carece de crítica no sentido estrito do termo, justamente porque, de uma maneira ou de outra, estão tratando de negar a realidade concreta – e cada vez mais evidente – e sustentar, a partir daí, uma concepção completamente idealizada do que era a sociedade ou do que ela inevitavelmente será. Essa simples ideia do “vai passar” pode sustentar, na verdade, uma série de pressupostos não explícitos da psicologia a partir da qual se fala: o idealismo, o mecanicismo, o a-criticismo e o a-historicismo. O papel da psicologia é exatamente caminhar na contramão desses pressupostos.

Ignacio Martín-Baró, importante psicólogo social latino-americano, escrevia na década de 1980 que o horizonte primordial do que fazer do psicólogo deve ser a conscientização. Para ele, esse trabalho de conscientização envolve o desvelamento dos mecanismos de opressão e desumanização aos quais estão submetidas as maiorias populares. Nesse sentido, conscientizar significa superar a falsa consciência, o que envolve atingir um saber crítico sobre a realidade e sobre si mesmo1. Em outras palavras, cabe à psicologia contribuir com o desvelamento do emaranhado de forças objetivas da ordem social que manipula os sujeitos mediante mecanismos de falsa consciência2.

Como bem lembrava Baró, uma crise social abre uma brecha na estrutura ideológica dominante por onde pode avançar a consciência de classe dos grupos oprimidos. “Há verdades que só são possíveis descobrir a partir do sofrimento ou do lugar crítico das situações-limite”2. Nesse sentido, é preciso ter em vista que estamos diante de uma quadra histórica que, enquanto situação-limite, não só nos permite avançar na tarefa de conscientização, mas nos convoca a fazê-lo enquanto necessidade e imperativo histórico. E, como também frisava Martín-Baró, não se trata de uma escolha individual de cada psicólogo, mas de uma tarefa que compete à psicologia enquanto ciência.

Se estamos de acordo com a proposição de que a psicologia tem como papel contribuir com os processos de conscientização da população, uma difusão simplista da ideia de que a pandemia “vai passar” é inconsistente e incoerente, e está longe de ser o caminho para que a psicologia construa contribuições efetivas nesse momento. A psicologia não pode vender a falsa ideia de que tudo vai ficar bem quando a pandemia passar, mesmo porque qualquer análise econômica e política com o mínimo de consistência nos diz exatamente o contrário. Não se trata aqui de ser pessimista, se trata sim de situar nossa atuação na realidade concreta e contribuir com a construção de mecanismos que possibilitem que toda a população o faça, a partir de uma leitura clara e desideologizada acerca das condições que teremos que enfrentar. Como dizia Martín-Baró, quanto mais conhecimento o sujeito tenha das circunstâncias nas quais se encontra, mais consciente será sua ação.

O vírus aprofunda a crise econômica que já vinha em curso e exacerba as contradições que imperam na sociedade. Na desumana lógica capitalista o imperativo é sempre o do lucro. Por isso as pessoas velhas podem morrer, já que são improdutivas do ponto de vista do capital, e os trabalhadores não podem ficar em casa, porque assim os capitalistas não podem extrair mais-valor a partir da exploração do trabalho alheio e nem há consumo suficiente para manter a engrenagem capitalista girando. Para além do presidente da república, são didáticos nesse quesito os discursos de conhecidos empresários brasileiros, como Roberto Justus e Junior Durski, que dão objetividade à mais pura lógica neoliberal. É preferível sacrificar vidas – desde que não as suas próprias, é claro – à permitir qualquer esfoladela nos seus gigantescos palacetes do lucro.

Essas, dentre tantas outras, são as contradições da sociabilidade capitalista que ficam cada vez mais explícitas no contexto de pandemia que estamos vivendo e que a psicologia tem o dever de desvelar. A população precisa ter clareza de que a proposta de “isolamento vertical” é, na verdade, uma proposta de extermínio das camadas mais pobres que, ao serem obrigadas a saírem de suas casas para manter a roda dos lucros capitalistas girando, estarão se expondo a uma série de riscos, enquanto os grandes empresários assistem a barbárie desde suas poltronas confortáveis, na segurança de suas mansões. Os trabalhadores precisam estar conscientes de que a proteção integral à saúde e à vida é um direito que lhes está sendo negado; que a precarização do SUS e de todas as políticas públicas, que agora geram as mais profundas dificuldades no combate à pandemia, é fruto do desmonte do Estado imposto há décadas pela ordem capitalista; que a precarização de condição de vida e a carência do atendimento de suas necessidade mais básicas, como alimentação, moradia, saúde e educação, são determinadas pela desigualdade estrutural gerada no modo de produção capitalista; que o caos social que vivemos nesse momento tem suas origens no imperativo de uma organização econômica e social que coloca o lucro à frente de tudo e acima de todos.

É preciso que a psicologia esteja engajada no desvelamento das contradições, na tarefa urgente da conscientização, abandonando o lugar cômodo e ineficaz em que se situa para disparar suas limitadas dicas individualistas de “autocuidado”. Não se trata aqui de jogar fora a preocupação e as estratégias de cuidado que vêm sendo construídas nesse sentido. Se trata de reconhecer suas limitações. Não há estratégia de “autocuidado” que seja suficiente para lidar com o medo, a sensação de abandono e vulnerabilidade geradas pela pandemia, quando vivemos em um país em que o próprio presidente dissemina fakenews e toma medidas que claramente caminham na contramão da proteção da população brasileira; quando sofremos as consequências de anos de um projeto de desmonte do Estado e de precarização das políticas públicas; quando a ideologia neoliberal faz imperar a exacerbação do individualismo e a responsabilização dos próprios sujeitos por tudo aquilo que lhes toca; ou quando se vive com mais oito pessoas em uma habitação de um ou dois cômodos na periferia da cidade, sem saber se há comida pra colocar no prato por hoje. Medo, insegurança, vulnerabilidade e quaisquer outros sentimentos que possam emergir nessas condições estão completamente entrelaçados com as questões políticas e econômicas. Nesse sentido, a psicologia que se pretenda crítica – ou mesmo, minimamente, eficaz – é necessariamente política.

Para além das estratégias individuais de cuidado, a psicologia tem o dever de colaborar na construção de estratégias coletivas de enfrentamento ao atual momento de pandemia e a se preparar para as tarefas que teremos pela frente. É um dever da psicologia defender o SUS, a ampliação dos direitos, da proteção social, dos investimentos em políticas públicas e a planificação estatal. Além disso, é preciso exigir em nossa formação capacitação profissional para atuação em caso de catástrofes e pandemias e lutar pela construção de um programa amplo de acolhimento e atendimento psicossocial voltado aos casos de adoecimento psíquico decorrentes da pandemia que, seguramente, irão aumentar a médio e longo prazo.

Na construção das estratégias coletivas, é indispensável atuarmos junto aos movimentos populares e organizações partidárias, endossando as ações que já vêm sendo postas em curso e contribuindo na construção de novas estratégias, tanto de enfrentamento à pandemia, quanto de conscientização. Nesse mesmo sentido, é fundamental fomentar a organização popular em nossos locais de trabalho e de moradia. Nesse momento em que enfrentamos uma situação-limite, surgem também as mais diversas iniciativas de solidariedade entre os trabalhadores. A psicologia deve fomentar essas iniciativas, trabalhando no sentindo de promover e fortalecer a organização coletiva.

A conscientização enquanto horizonte do nosso que fazer depende de um engajamento sólido e práxico, construído desde baixo, a partir das necessidades concretas das trabalhadoras e trabalhadores brasileiros. E não há maneira de fazê-lo que não passe pela necessidade de levantar a bandeira do Fora Bolsonaro. Enquanto o presidente passeia pelo comércio em Brasília e promove aglomerações em manifestações protofascistas, vemos o número de casos e mortes pela Covid-19 no Brasil aumentar, assim como os índices de desemprego e de miséria da população. Em plena crise sanitária, os ataques aos direitos trabalhistas seguem a pleno vapor. A política deste governo é a política do genocídio da população e derrotar Bolsonaro é uma das tarefas urgentes que se impõe a nós no longo caminho da transformação social.

Por fim, é preciso ter clareza de que uma psicologia que pretenda contribuir efetivamente com as necessidades da população, a partir de uma base crítica e verdadeiramente científica, deve ser necessariamente anti-capitalista. A superação do capital constitui um elemento indispensável à efetiva desalienação da classe trabalhadora e à possibilidade do pleno desenvolvimento humano. É a partir desta psicologia que poderemos contribuir efetivamente no enfrentamento à pandemia e às consequências dela advindas, saindo dos limites das iniciativas individualizantes e situando-nos em uma análise crítica da realidade concreta, que permita desvelar as contradições de nosso modo de sociabilidade e contribuir na construção de estratégias de organização coletiva.


1 Ignacio Martín-Baró. O papel do psicólogo. Estudos de Psicologia, v.2, n.1, p.7-27 1996.

2 Ignacio Martín-Baró. Acción e ideología: psicología social desde Centroamérica. UCA Editores, 1990.

* Psicóloga, doutoranda em Psicologia Social pela USP e militante do PCB em São Paulo

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