Autofagia social, coronavírus e política da Terra

Por Danilo Augusto de Oliveira Costa

“O futuro, o clímax do capitalismo no qual sua configuração atual se encontra mais próxima do seu conceito – dinheiro que gera dinheiro – é o momento em que não só grande parte da população se torna supérflua e sacrificável para a manutenção, em última instância, da sobrevida do sistema econômico. Num momento de pandemia e de uma infraestrutura herdada de décadas de política de austeridade, a primeira coisa a ser salva são as empresas e o jogo mercantil: crédito e subsídio para empresas a partir de um endividamento galopante do Estado, redução da taxa de juros etc. Em todo mundo, assim, se vê medidas político-econômicas baseadas num endividamento gigantesco dos Estados para salvarem empresas e manter um jogo mercantil especulativo, isto é, baseado na queima do nosso futura por meio da dívida.”


1. A autofagia do futuro

A história interna do capitalismo foi animada pela promessa de um futuro novo, que resultaria de uma temporalidade progressiva imanente ao capitalismo. Pode-se dizer que tal temporalidade diacrônica, como argumenta Deleuze e Guattari em O Anti-Édipo, é condicionada por um modo de produção marcado não só por processos de desterritorialização e descodificação de sociedades pré-capitalistas, mas pela conjunção de fluxos materiais descodificados e desterritorializados. Tal dinâmica de produção social é que dá uma tendência histórica interna animada pelo delírio de fim de mundo e apocalíptico.

Cabe aqui uma explicação rápida sobre os conceitos de desterritoriolização e descodificação. O conceito de desterritorialização, bem como o de território e reterritorialização, não é um conceito estritamente geográfico, mas existencial. Trata-se, assim, no caso do surgimento e da reprodução do capitalismo, de dar conta da destruição de certos modos de territorialidade sociais pelas quais se povoava a terra de determinadas maneiras. O conceito de descodificação, por sua vez, não diz respeito a um processo pelo qual se busca compreender um código, traduzi-lo, mas a um processo de destruição do próprio código enquanto tal. Código aqui, para os autores, são processos de qualificação de fluxos materiais: sejam pessoas, atividades, objetos, pensamentos etc. As sociedades pré-capitalistas se caracterizam por uma qualificação dos fluxos: fluxos matrimoniais, de prestígio, de bens de consumo, de nascimento. Fluxos que, ao serem qualificados, não tem relação de equivalência entre si, isto é, não pode ser reduzido a uma substância comum que permitiria a troca mercantil. A desterritorialização, assim, não se confunde com a descodificação, na medida em que é possível desterritorializar sem necessariamente destruir os códigos: é o caso, para os autores, da desterritorialização operada pelos Estados pré-capitalistas em relação a comunidades camponesas, que apesar de manter seus códigos sociais, passavam a ser sobrecodificadas pelo Estado a partir do tributo, do trabalho público e da renda da terra. A partir desse processo, a Terra deixa de ser o Corpo indivisível sobre o qual se distribui os diversos corpos e grupos sociais e que pertencem a ela, a Terra deixa de ser o corpo do qual e no qual tudo emana, se produz, distribui e consome[1], para ser um objeto do Estado que deve ser agora distribuído.

Tais termos, assim, indicam também a importância que uma reflexão sobre a Terra e os modos de povoar e despovoar a Terra – como um campo material e intensivo no qual e pelo qual tudo é produzido: as formações sociais, mas também as formações geológicas, bio-químicas, orgânicas e anorgânicas – ocupam para o pensamento e a prática política. Trata-se de pensar a história e a ação política como formas de relação com a Terra enquanto um campo ou plano material imanente onde tudo coexiste e estabelece relações de conexões a partir do qual se constrói um meio, um território, um plano de organização, um modo de vida. É assim que os autores leem, por exemplo, a figura social do cavaleiro no feudalismo: o cavaleiro é um arranjo entre a lança, o estribo e cavalo: “A posição natural do cavaleiro, a maneira natural de segurar a lança depende de uma nova simbiose homem-animal que faz o estribo a coisa mais natural do mundo, e, do cavalo, a coisa mais artificial”. A Terra, ao aparecer como plano fundamental, e ao fazer de toda política uma política da Terra, não é a Terra restrita a sua concepção geográfica, as suas positividades geológicas, biológicas etc. Nela está incluída também as formas sociais de habitar a Terra, de modo que a distinção entre homem-natureza não faz mais sentido. Mas para além dessa indistinção a partir da coexistência de organizações e territorialidades distintas produzidas pela conjunção de elementos heterogêneos (o cavalo entra tanto no social, operando como elemento produtivo de modos de existência social, quanto o estribo do cavaleiro na natureza), trata-se de indicar como a Terra é algo produzido constantemente e de formas distintas que implica uma reflexão ética sobre como vivemos a e na Terra.

Feito essa digressão, voltemos para a genealogia do capitalismo com a qual iniciamos. A produção capitalista tem como condição de existência a liberação de fluxos materiais a partir da destruição de territorialidades sociais e de códigos sociais, mas essa liberação requer, por sua vez, a conjunção de dois fluxos específicos que converte os fluxos materiais em quantidades abstratas. Ou seja, o capitalismo não inventa novos códigos, não dá novas “qualidades” aos fluxos, mas impõe o que os autores chamam de “axiomática”, conceito que visa dar conta de uma mudança na própria forma de relação social. A axiomática é a forma social que dá aos fluxos materiais uma equivalência matemática: a diferença entre eles é meramente de quantidade. O que dá concretude a essa abstração é a conjunção entre o fluxo de força de trabalho e de dinheiro. É só quando ocorre essa conjunção que os elementos liberados de suas territorialidades e codificações sociais devém Capital. Como argumenta Marx: “dinheiro e mercadoria são tão pouco capital quanto os meios de produção e subsistência. Eles precisam ser transformados em capital”. Sem essa conjunção o dinheiro apenas é capital virtualmente, e a força de trabalho é apenas trabalho humano em geral virtualmente, sua existência não foi posta, não formou um plano de relação social.

O dinheiro, sendo uma quantidade abstrata, representa toda a riqueza social produzida por uma atividade igualmente abstrata que é o trabalho. Tendo isso em vista, Marx pôde falar do capitalismo como um processo fetichista de autovalorização do valor (quantidade de trabalho morto que deve ser acumulada), ou seja, um processo de produção social autotélico (produção pela produção) levado a cabo por uma forma abstrata quantificável tornada independente – o dinheiro – e que visa a si mesma. Assim, não importa no interior dessa formação social a qualidade ou o código do que se produz e nem da atividade que produz: que seja bomba atômica, alimentos envenenados ou resultantes do assassinato em massa de animais infectados. Por isso, do ponto de vista estrutural, o capitalismo não é “territorial”. Se o capitalismo é capaz de englobar toda a Terra é por seu objetivo não é tomar a terra como objeto e partilhá-la, mas a si mesmo na forma de trabalho, de dinheiro e de mercadoria, como “uma energia cosmopolita universal que reverte toda barreira e todo laço, uma substância móvel e convertível”:

“O capitalismo não é absolutamente territorial, mesmo em seus começos: sua potência de desterritorialização consiste em tomar por objeto, nem sequer a terra, mas o ‘trabalho materializado’, a mercadoria. E a propriedade privada não é mais a da terra ou a do solo, nem mesmo dos meios de produção enquanto tais, mas a de direitos abstrato convertíveis”[2]

Há, assim, uma profunda indiferença do capitalismo em relação à terra e que dá o caráter apátrida do Capital. Se a terra aí intervém, se há uma apropriação privada do solo, da terra, dos meios de produção etc., é no sentido de que são suportes de valor. A propriedade privada, assim, é o direito sobre algo abstrato convertível em dinheiro, isto é, a terra, o solo, os meios de produção sobre os quais se tem direito valem enquanto mercadorias. É por essa razão, aliás, que há no capitalismo uma mudança profunda na forma do direito. A propriedade privada, por exemplo, não exprime nenhum laço de dependência pessoal, nem está ligada diretamente as coisas (terra, uso do solo ou meios de produção), ao contrário, ela é o direito abstrato sobre um fundo de valor qualitativamente homogêneo e quantificável do qual as coisas são suportes, isto é, é direito do valor. Ao que se tem direito pela propriedade privada? Caberia aqui responder: a uma mercadoria, a uma coisa de valor abstrata ou, em outros termos, o direito é a potência da abstração, de ela se realizar e de se apropriar do mundo. Assim, a propriedade privada é a forma jurídica específica ao Capital como único Sujeito que atribui a si o direito sobre o conjunto do valor. É aqui que o direito assume toda sua abstração, se assenta numa abstração: o sujeito de direito, sendo algo abstrato, tem como direito algo que não se distingue dele, ele é o único laço jurídico cujo objeto é si mesmo. E é por essa forma jurídica que o capital distribui a massa de valor, distribuindo, assim, a terra conforme seu domínio.[3]

Um agenciamento social e mundial qualificado dessa maneira só pode ser sustentado, aliás, como os autores franceses argumentam, por uma potência do desejo que segue uma linha destrutiva ou, se se quiser, por uma pulsão de morte que nega o mundo concreto e suas singularidades intensivas e incomensuráveis. Manifestação desta potência negativa é a formação, a partir das duas guerras mundiais, de uma “máquina de guerra mundial” que se autonomiza em relação aos próprios Estados e seus objetivos políticos, formando uma espécie de economia de guerra mundial na qual estamos todos envolvidos e que nos leva investir do ponto de vista do desejo ou do inconsciente, um processo de autodestruição. Por isso, o capitalismo é por definição um necro poder social ou, na palavra dos autores, uma axiomática mortuária que, além de selecionar quem vive e quem morre, encaminha todos para um processo suicidário.

Todo processo de produção capitalista, portanto, se caracteriza por um tornar-se concreto da abstração, de uma abstração que não é, nesse sentido, meramente um processo mental, mas um processo real de determinação da realidade concreta ou vivida:

“O dinheiro como quantidade abstrata ilimitada não é separável de um devir-concreto sem o qual ele não deveria capital nem se apropriaria da produção.”[4]

Uma sociedade dirigida por uma abstração cuja forma mais adequada é o dinheiro, implica uma contradição interna à própria forma da abstração: ela tem a qualidade ilimitada de representar toda a riqueza social, ao mesmo tempo que a riqueza representada é sempre uma quantidade limitada:

“Seja qualitativamente, seja segundo sua forma, o dinheiro é desprovido de limites, quer dizer, ele é o representante universal da riqueza material, pois pode ser imediatamente convertido em qualquer mercadoria. Ao mesmo tempo, porém, toda quantia efetiva de dinheiro é quantitativamente limitada, sendo, por isso, apenas um meio de compra de eficácia limitada. Tal contradição entre a limitação quantitativa e a ilimitação qualitativa do dinheiro empurra constantemente o entesourador de volta ao trabalho de Sísifo da acumulação”.[5]

A acumulação do capital é, portanto, uma exigência constitutiva de sua própria forma abstrata: a abstração só se realiza enquanto tal se acumular, se expandir o seu domínio sobre a realidade concreta ou vivida. Tal exigência leva, assim, o capitalismo a ultrapassar seus limites internos de acumulação lançando mão de mecanismos de desterritorialização e descodificação, isto é, destruindo formações sociais pré-capitalistas e “arcaizando” seus códigos, dando lhes um estatuto “folclórico”.[6] Quer dizer, a sociedade capitalista em decorrência da sua relação destrutiva com as outras sociedades para alimentar sua finalidade social de produção ampliada de dinheiro deu as bases para que se formasse uma forma de reflexão sobre si mesma que se vê como superior historicamente. Para essa epistemologia interna ao capitalismo, tudo se passa como se ele fosse um momento necessário no interior de uma História Universal progressiva e como se sua temporalidade interna nos levasse para um processo ascensional rumo a um futuro novo, marcado pela realização de valores racionais e morais universais. Fazem parte dessa temporalidade não só as revoluções burguesas, mas as revoluções ou as “modernizações recuperadoras” (Kurz) levadas a cabo por partidos que se pretendiam representantes do proletariado, instaurando um Capitalismo de Estado sem que as relações de hierarquia e exploração que caracterizam o capitalismo fossem abolidas.

Tal “ascensão” da abstração e de sua tendência a universalização e totalização do mundo nos entregou um futuro, entretanto, que destrói a si mesmo: a realização de um futuro produzido pelo desenvolvimento das forças de produção capitalista não levou a uma superação, a partir de um processo dialético, das suas relações de produção, mas a uma aniquilação do próprio futuro. A história interna de nossa sociedade, assim, assume uma feição escatológica.

2. Pré-história de um futuro pandêmico

No momento que este texto é escrito, há 222,877 casos confirmados de coronavírus no Brasil e 15,046 mortos. No mundo, há 4, 686,592 casos confirmados, 310.907 mortes, números que aumentam exponencialmente. Na mídia o discurso comum é de que o vírus está produzindo uma crise econômica e social, levando a queda de bolsas de valores, diminuição do crescimento econômico mundial e uma revisão de todas as projeções econômicas.

Assim, no mês de maio deste ano, as projeções em torno de 2,5% de crescimento global em 2020, uma taxa já considerada de recessão para o FMI, cairam para em torno de 1% e até mesmo para taxas negativas[7]. Diversos países tiveram suas previsões de crescimento anual revistas naquele mês: no Brasil de 1,6% caiu para 1%[8]; no EUA de 1,2% para 0,4%[9]; na China de 6% para 3%[10]. O número de desempregados começou a aumentar e se projetou que o número de desempregados no mundo teria um acréscimo entre 20 a 35 milhões de desempregados no mundo, num nível base de 188 milhões em 2019.[11] Ainda naquele mês, 3 milhões de pessoas nos EUA pediram seguro-desemprego e se projetou que em abril haveria mais 20 milhões de pessoas desempregadas, dados que superam em muito o período da crise de 2008, em que houve 659.000 pedidos. Não demorou para que diversas organizações financeiras internacionais começassem a comparar a crise econômica causada pelo vírus com a Grande Depressão de 2029.

Várias dessas projeções encontraram posteriormente maior ou menor confirmação. Os EUA já possui 36 milhões de pessoas desempregadas, a taxa de desemprego oficial é de 14,7%. O Brasil teve um aumento de 1,2 milhões de pessoas desempregadas no primeiro trimestre. A China teve em abril uma queda de 6,8% do PIB, frente as projeções que oscilavam entre 4 a 9% em maio. Não só as projeções estão se confirmando, como tendem ainda piorar: o governo brasileiro já prevê uma queda de 4,7% do PIB anual, mais de três vezes as previsões de maio. A Comissão Europeia que previa uma recessão de 1 a 2,5% do PIB da União Europeia fala agora em 7,75%.

Não há dúvidas que o vírus está agravando a situação econômica mundial, mas ele não é a causa dessa situação e o estado precedente ao seu surgimento e a tendência para o qual o estado anterior apontava indica, aliás, que a crise que iremos viver é mais aguda que a de 1929, pois as condições sociais e materiais da atual crise não contém a possibilidade de sua resolução a partir de uma aumento do uso produtivo da força de trabalho, mas para uma exclusão ainda maior e estrutural de parcela da população.

Desde 2014, quando do estouro da “bolha de commodities”, temos notícias de diminuição do crescimento econômico, ou em outros termos, diminuição da produção do capital. Tanto o Brasil quanto a China, por exemplo, já vinham demonstrando uma diminuição da produção industrial que só foi compensada por um processo de especulação imobiliária pós 2008, que sustentou em grande parte o crescimento econômico destes países e que mostrou também seus limites, intensificando a separação entre a acumulação fictícia do capital e a acumulação real. Índice dessa separação é o endividamento mundial crescente que correspondia, em 2017, a 317% do PIB mundial. [12]

Desde a década de 70 o capitalismo vive uma crise estrutural da sua acumulação real em decorrência de um novo patamar da produtividade social. O novo nível de produtividade levou a uma eliminação crescente da força de trabalho, que, entretanto, é fonte do capital, e à produção de um excedente de capital que já não podia se valorizar sendo investido diretamente no setor produtivo que sofria com uma sobreacumulação. Nesse momento, o Capital para se manter realiza, portanto, uma fuga para frente a partir da acumulação fictícia de capital, isto é, a acumulação de dinheiro passa a se realizar a partir de investimentos baseados em especulação sobre rendimentos futuros via crédito e investimentos especulativos no mercado mobiliários e imobiliário, sem uma mediação necessária com a produção real. Esse processo pôde, apesar da crescente separação entre os dois níveis de acumulação: o fictício e o real, alimentar processos de produção real, pois a própria reprodução social já não podia ser feita independente do endividamento e de processos especulativos. Mesmo assim, a mobilização real de força de trabalho e de maquinaria, tendo um papel preponderante do setor de serviços, isto é, de atividades ligadas à infra-estrutura social (transporte, comunicação, energia etc), não pôde alcançar os patamares anteriores de empregabilidade, que se reduzia cada vez mais e que foi intensificado com as políticas neoliberais de desmonte dos Estados sociais e de abertura dos mercados, que levou a uma desindustrialização envidada dos países do Terceiro Mundo. Uma parte crescente da população passou, já a partir da década de 70, a se tornar disfuncional para o Capital, sendo índice disso, do ponto de vista do trabalho, o aumento dos “bicos”, trabalhos temporários legais e ilegais, do “empreendedorismo de si”, da ubernização. É nesse momento, aliás, que presenciamos a virada punitiva: as prisões deixam de desempenhar a função de disciplinamento dos corpos individuais para o trabalho e passa a ser lugares de contenção de pessoas tornadas supérfluas com a crise do fordismo, sobretudo negras e pobres.

Exemplar desse processo de simulação de acumulação real assentada de partida numa queima especulativa do futuro é a bolha das commodities. Desde os anos 2000 diversos países, como e sobretudo o Brasil, tiveram seu crescimento econômico sustentado pelo aumento do preço de produtos primários demandados pelo crescimento chinês, isto permitiu a construção de uma tecnologia social baseada na promoção de uma inclusão pelo consumo, conformando um paradoxal “keynesianismo neoliberal”. Contudo, o crescimento da China, num primeiro momento, esteve assentado no endividamento Estatal dos EUA, principal consumidor dos produtos chineses. Não só os Estados Unidos é o país mais endividado do mundo, como a China é seu principal credor. Após a crise de 2008 que diminui a demanda pelos produtos chineses, os preços das commodities puderam se manter pelo aumento do investimento imobiliário da China como forma de compensar a diminuição da rentabilidade do setor industrial[13]. O Brasil, seguindo medidas semelhantes as adotadas pela China no plano de estímulos de 2008, manteve uma simulação de crescimento a partir da construção civil financiada, sobretudo, pelo endividamento do Estado. Esse crescimento assentado na especulação imobiliária e no endividamento dos Estados também mostrou seu limite: tais processos não eram realmente rentáveis e nem expressão de um ciclo “saudável” de acumulação, expondo nos países “emergentes”, a partir de 2014, o distanciamento crescente entre investimentos na forma fictícia e rentabilidade real. Como argumenta Kurz, tais fenômenos de exportações unilaterais, como as da China e do Brasil, e seu financiamento por endividamentos e bolhas financeiras “não constituem um deslocamento sustentável da acumulação, mas já são em si manifestações de crise extremas”.[14]

A recessão dos processos produtivos alimentados pela especulação leva, por sua vez, a um excedente de capital acumulado de maneira fictícia que já não pode ser investido também em processos especulativos rentáveis, trazendo a luz o fato estrutural de que o coração do Capital já não bate faz algumas décadas. Observa-se, assim, no Brasil, no que diz respeito a força de trabalho, pós-fim da bolha de commodities, o aumento do desemprego (12,9 milhões de pessoas), do trabalho informal, da subocupação, redução dos salários e, sobretudo, da população em desalento, isto é, pessoas que já desistiram de procurar emprego (65,7 milhões de pessoas), tais dados indicam a formação de pessoas que se tornam cada vez mais e em massa disfuncionais para uma sociedade orientada sobre o consumo da força de trabalho[15] Do ponto de vista do capital produtivo, observa-se um avanço da desindustrialização e, consequentemente, da ociosidade da indústria. E, por fim, do ponto de vista do capital monetário, um aumento da fuga de capitais[16] e diminuição da taxa de juros como expressão de uma perda da rentabilidade da acumulação fictícia.[17]

3. A bufada do COVID-19

Todo processo de crise exposto acima só foi acentuado pelo surgimento do COVID-19, que levou a uma paralisação dos processos produtivos e da circulação de mercadorias. A pandemia que vivemos é parte de uma situação social e histórica marcada pelo total descontrole e por reações atropeladas de instituições que perdem cada vez mais a capacidade de regular processos sócio-naturais cegos que são imanentes ao capitalismo: não se vive e não é produzida e propagada doenças da mesma maneira no capitalismo e fora dele. Não simplesmente porque as maneiras de lidar são diferentes, como se uma pandemia como a que vivemos fosse um objeto externo, mas porque tais fenômenos são produtos internos às relações de produção alienadas da vida social em sua simbiose com a natureza, atualmente marcadas por uma intensa exploração da natureza e de destruição em larga escala de sua biodiversidade, visando dobrá-la com recurso a um conjunto de biotecnologias à exigência abstrata da valorização do valor, em crise.

Ou seja, todo fenômeno natural é social e histórico e vice-versa, pois nossos saberes sobre a natureza e as técnicas a eles ligados não são simplesmente um desnudar de uma realidade exterior, separada e trazida à luz pela razão, mas fazem parte de uma certa formação social, de um certo sistema de poder social a partir do qual nos relacionamos com a natureza, nos “desenraizando” dela para poder conhece-la e melhor dominar seus processos para finalidades sociais altamente questionáveis. Ocorre que as intervenções que realizamos – amparadas em certas formas de saberes que não só tem relações com grandes corporações, mas que também pressupõem uma imagem de mundo que orienta a ciência a se converter em dominações técnico-industriais dos fenômenos naturais – são maneiras imediatamente sociais de produção da realidade, impondo-a condições determinadas ligadas, no nosso caso, a uma axiomática social marcada pela abstração do valor.

A administração necropolítica, o controle da vida e da morte da população não é feita sem a abstração como pressuposta: a redução de um fenômeno a um puro problema biológico, reduzindo as pessoas à vida nua, a partir de um conjunto de técnicas de poder, faz com que se administre, em contexto de austeridade e de crescente desigualdade, as condições de “mortificação” da população tomada como “quantidade abstrata”. Puro dado biológico administrável, assim parece passar na cabeça dos governantes para os quais, infelizmente, algumas pessoas deverão ser deixadas para morrer[18] (e caso ocorra, se tornarão também problema de administração). As pessoas não são cidadãos que tem direito à vida, mas pura vida sem direito, que em um contexto de emergência foi para o beleléu, menos para quem pode pagar, claro. Redução a um fenômeno biológico realizada politicamente, portanto, e no qual critérios raciais, de classe, gênero e idade entram na equação arbitrária de definição da vida que importa ou não nesse contexto de pandemia.[19]

O futuro, o clímax do capitalismo no qual sua configuração atual se encontra mais próxima do seu conceito – dinheiro que gera dinheiro – é o momento em que não só grande parte da população se torna supérflua e sacrificável para a manutenção, em última instância, da sobrevida do sistema econômico. Num momento de pandemia e de uma infraestrutura herdada de décadas de política de austeridade, a primeira coisa a ser salva são as empresas e o jogo mercantil: crédito e subsídio para empresas a partir de um endividamento galopante do Estado, redução da taxa de juros etc. Em todo mundo, assim, se vê medidas político-econômicas baseadas num endividamento gigantesco dos Estados para salvarem empresas e manter um jogo mercantil especulativo, isto é, baseado na queima do nosso futuro por meio da dívida. No Brasil, por exemplo, o tesouro está emitindo 10 bilhões de títulos da dívida por semana e foi aprovado um Orçamento de Guerra que permite ao Banco Central “emitir dinheiro”, isto é, aumentar o endividamento do Estado, fornecer empréstimos e comprar ações ou títulos podres para salvar empresas e bancos em dificuldade. [20] Boa parte desse dinheiro oriundo da dívida pública está sendo empregado – e isso no mundo todo – para manter a liquidez do mercado financeiro, isto é, manter um processo econômico totalmente desconectado da economia real, da geração de emprego, investimento produtivo etc, o que acentua o potencial de uma crise da dívida e um estouro da bolha acionária, levando a uma desvalorização do capital e a um aumento da inflação. À população, apenas se fornece um auxílio monetário irrisório e que para ser conseguido é necessário uma prova de sobrevivência.

Nesse contexto, é previsível que as primeiras pessoas a serem deixadas a morrer são pessoas idosas, pobres, moradores de rua, população carcerária, domésticas, prostitutas, pessoas desalentadas, trabalhadoras informais em geral, transgêneras, pessoas sem acesso a saneamento etc. E todas as medidas que se tomam para lidar com a situação significa intensificação da produção de vidas precárias: aumento do desemprego[21], arrocho salarial, endividamento geral da sociedade[22], intensificação da produção de bolhas financeiras e aumento futuro das políticas de austeridade.

Longe de ser um agente externo que imporia de fora limites ao sistema social, causando “crise” em diversos aspectos: da saúde pública à queda nas bolsas de valores, o coronavírus atua bem como uma bufada de realidade num edifício social que se autodestrói, mostrando seu limite interno como modo de vida. E tudo isso fica mais aterrorizante com um negacionismo da situação – principalmente pela extrema direita – ou por uma visão que visa amenizar o que vem pela frente, apontando para um possível estado de “normalização”. Ocorre que a normalização ou estabilização da situação será a do próprio estado de calamidade, de ruína social. E nesse cenário parece que cabe menos acumular força na expectativa do tempo por vir do que pensar o que fazer com a ruína no presente legada por um sistema que é seu próprio limite. Quer dizer, quando o capitalismo se depara consigo como seu próprio limite, vem a luz da superfície social o fato de que a forma do processo de produção domina, como uma “quase-causa”, os próprios produtores, que não controle nem da produção, nem da distribuição e nem do consumo de bens mais básicos, como alimentos.

Uma das lições éticas que pode ser extraída da filosofia política de Gilles Deleuze e Félix Guattari é aquela segunda a qual o capitalismo em seu processo de desterritorialização e descodificação libera fluxos vivos capazes de produzir efeitos que ele não pode prever, pois “há sempre uma diferença fundamental entre os fluxos vivos e os axiomas”[23]. Diante de tais fluxos, o capitalismo precisa mobilizar um conjunto de mecanismos repressivos para submetes os fluxos vivos à grade de ferro das quantidades abstratas. Contudo, enquanto houver fluxos vivos, estes colocarão problemas ao capitalismo, carregarão em si a capacidade de traçar uma linha de fuga para fora desse modo de produção. Cabe a nós, em momentos como este, fazer com que estes fluxos se conjuguem, se encontrem a partir de uma solidariedade prática e um cuidado comum entre as vidas mais vulneráveis. Essa é uma das maneiras de produzir novos agenciamentos coletivos numa sociedade marcada por um processo de subjetivação centrado no “Eu” abstrato e concorrencial. A participação coletiva na produção social capitalista se dá pelo trabalho desterritorializado (isto é, trabalho individual) e genderificado como masculino e branco. Por sua vez, a produção social é cindida em relação a reprodução da força de trabalho. A reprodução, atribuída à esfera privada da família e marcada pelo trabalho reprodutivo – genderificado como feminino – é também o ponto de chegada do processo de subjetivação pelo qual todos os problemas sociais de rebatem como problemas privados, ligados ao “eu” e seu círculo familiar. Produzir um novo agenciamento coletivo é arrebentar com esse regime de subjetivação, abrir a família e o assentamento do campo social ao campo familiar-privado, assumindo que nosso próprio ser é res publica.

Mas, mais do que isso, trata-se também de pensarmos sobre o papel que a ciência e as tecnologias ocupam no interior dessa ordem social e da necessidade cada vez mais urgente de mudarmos as maneiras como agenciamos as técnicas e tecnologias, como a partir desse arranjo social elas são produzidas e que tipo de função ai desempenham. Isso implica repensar a própria forma da ciência e nossa compreensão do mundo e da maneira de povoarmos coletivamente a Terra, isto é, de pensar numa Terra por vir.


Notas:

[1] Lembremos a esse respeito a afirmação do Casé Angatu sobre a relação dos povos indígenas com a terra: “Nós não somos donos da terra, nós somos a terra”.

[2] DELEUZE, G; GUATTARI, F. Mil Platôs 5. Platô 13, p. 163.

[3]

[4] DELEUZE, G; GUATTARI, F. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Editora 34, 2011. p. 330.

[5] [5] Marx, K. O Capital: Crítica da economia política: Livro I: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo,

[6] “Nossas sociedades apresentam um vivo gosto por todos os códigos, os códigos estrangeiros ou exóticos, mas é um gosto destrutivo e mortuário.”

[7] O Banco JP Morgam prevê uma taxa de -1,1%. Para analistas, recessão global está cada vez mais próxima. In: Estadão, 19 de março de 2020.

[8] JPMorgan e Goldman derrubam projeção do PIB do Brasil em 2020 e veem queda de até 1% em 2020, InforMoney, 18 de mar de 2020.

[9] Goldman reduz projeção de crescimento dos EUA no 1° e 2° tri devido ao coronavírus, Folha de São Paulo, 15 de mar de 2020;

[10] Goldman vê economia da China afundando 9% no 1º trimestre devido ao coronavírus, Uol, 17/03/2020.

[11] ROBERTS, M. O colapso emergente do mercado, blog The next recession, 19/03/2020.

[12] BOTELHO, M. Rumo ao desconhecido: endividamento mundial, crise monetária e colapso capitalista –blog da boitempo.

[13] Cf. GAULARD, M. La burbuja inmobiliaria em China. In: Revista Problemas del Desarrollo, 178 (45), julio-septiembre 2014, p. 63-88.

[14] KURZ, R. Dinheiro sem valor: linhas gerais para uma transformação da crítica da economia política. ANTÍGODA, 2014. P. 273

[15]  Desemprego no Brasil cai impulsionado por pessoas que desistiram de procurar emprego. El Pais, 28 de Fev. de 2020.

[16]  Em 2019 o Brasil já havia registrado a maior fuga de capitais nos últimos 38 anos, antes, portanto, do surgimento do corona vírus, que reforço u o processo.

[17] BOTELHO, M. Um mundo afogado em capital: a queda global da taxa de juros e a nova rodada da crise estrutural do capitalismo, blog da boitempo.

[18] Este segredo inconfesso foi manifestado pelo jornalista conservador britânico Jeremy Warner para o qual o Covid-19 pode ser benéfico do ponto de vista econômico ao abater os idosos dependentes.

[19] Nesse sentido, o texto de Agamben sobre a pandemia nos apresenta alguns aspectos valiosos, menos aqueles que dizem respeito a uma emergência “imotivada” para servir meramente de pretexto para uma escalada autoritária, e mais aqueles que reforçam que a vivemos num processo de administração social que só pode ser a da exceção. Cf. AGAMBEN, G. O Estado de Exceção provocado por uma emergência imotivada. Instituto Humanitas Unisinos.

[20] O Secretário do Tesouro, Mansueto, disse, por exemplo, que teremos um déficit de 700 bilhões em 2020 e que será retomada as políticas fiscais de corte de gastos, reformas tributárias etc.

[21] Já não é novidade as notícias de empresas como Cinemark, Burger King, Uber etc, que demitiram seus funcionários. Além disso, o governo do Bolsonaro decretou um medida que permitem as empresas reduzir os salários e suspender contratos – MP 936.

[22] As políticas adotas para manter o sistema econômico pelos diversos Estados no mundo, coo argumentado, são sobretudo políticas de liberação de crédito e de facilitação da sua concessão seja para salvar empresas, para manter a liquidez do mercado financeiro, seja para manter o consumo.

[23] Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol.5. São Paulo: Editora 34, 2011, p. 178.


 

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