Construindo uma psicologia marxista

Por Anup Gampa e Jeremy Sawyer, via isreview.org, traduzido por Henrique Cosenza

Carl Ratner é um dos poucos psicólogos ativos atualmente que buscam desenvolver a psicologia em uma fundação abertamente marxista. A narrativa dominante em psicologia é a de que nossas mentes e nossa sociedade são manifestação direta da biologia humana. Supostamente, possuímos um cérebro da era do Pleistoceno implantado em corpos modernos, o que significaria que provavelmente nascemos racistas e que as disparidades de gênero são naturais. E por sermos naturalmente egoístas, violentos e desconfiados quanto a forasteiros, desenvolvemos polícias, exércitos e fronteiras para manter a sociedade coesa. Ratner vira tudo isso de cabeça para baixo, demonstrando como, pelo contrário, a psicologia humana é construída por forças culturais, econômicas e sociais. Todo trabalho de Ratner é inspirado por um compromisso pela emancipação da classe trabalhadora, e ele busca dar seguimento à abordagem iniciada por Lev Vigotski e seus colaboradores, na Rússia revolucionária durante os anos 1920.

Seu livro de 1991, Vygotsky’s Sociohistorical Psychology and its Contemporary Applications (“Psicologia sócio-histórica de Vigotski e suas aplicações contemporâneas” – tradução livre), é uma formidável crítica ao determinismo biológico. Ratner expõe as raízes marxistas de Vigotski e aplica seus conceitos a uma variedade de tópicos na psicologia moderna, demonstrando sua ampla validade. Partindo da premissa de que todo fenômeno psicológico é construído enquanto os humanos transformam a si e aos mundos social e natural, Ratner aplica uma abordagem sócio-histórica unificada à cognição, percepção, formação da personalidade, emoção, memória e psicopatologia. Numa valorosa seção, Ratner analisa formas extremas de psicose, demonstrando como forças sociais perniciosas liberadas pelo capitalismo podem produzir rupturas psicológicas dramáticas em nossas vidas. Talvez ainda mais notável seja a demonstração de como mudanças em atividades e estruturas socioeconômicas podem alterar processos psicológicos básicos como nossa percepção das cores, tamanhos, sons e até cheiros. A profunda implicação do livro é que, se a psicologia humana é tão completamente social – construída cultural e historicamente de baixo pra cima -, então a noção de traços humanos “pré-programados” é uma ilusão. A transformação da consciência e sociedade não só é possível, mas esses processos contínuos formam a própria tessitura da psicologia humana.

Em seu livro de 2011, Macro Cultural Psychology: A Political Philosophy of Mind (“Psicologia macro cultural: uma filosofia política da mente” – tradução livre), Ratner avança no escrutínio da psicologia como uma prática política. Respondendo ao chamado de Vigotski por um “materialismo psicológico” marxista, Ratner baseia os fenômenos psicológicos em instituições sociais (governo, exército, corporações), artefatos culturais (autoestradas, shopping centers, computadores) e conceitos culturais (gênero, riqueza, infância, justiça). A exposição de Ratner da psicologia do consumidor exemplifica sua abordagem que analisa uma psicologia opressiva que é instigada no nível macro. Para gerar a demanda necessária para que o capitalista extraia o mais-valor, a psicologia do consumidor reconstrói cada aspecto da existência humana em uma commodity. Especialmente relevante para a organização é o papel que a psicologia do consumidor desempenha não apenas em aplacar uma população frustrada e alienada, mas em nos convencer de que nossas próprias inadequações são responsáveis ​​por nosso desespero, causando um curto-circuito na resistência coletiva. As indústrias de moda e cosméticos criam ideais insalubres e inatingíveis, nos levando a comprar produtos frustrantes atrás de produtos frustrantes. Como observa Ratner, “É uma rara sociedade a que consegue ganhar a lealdade dos cidadãos ao frustra-los continuamente. Isto corrobora que a resposta à frustração é determinada culturalmente, ao invés de qualquer resposta natural”. O livro analisa diversos fenômenos cultural-psicológicos, por exemplo, como a “etiqueta” racial Jim Crow estruturou a função sócio-emocional das crianças brancas, e o quão difícil foi romper com essa psicologia (na ausência de um movimento de massas).

Dado o legado de Ratner, nos debruçamos em sua recém-editada coleção, junto a Silva, com grande expectativa. O objetivo manifesto dos autores é o de contribuir com a ciência social do marxismo e a transformação revolucionária da sociedade. Enquanto muitos tratamentos ignoram o marxismo de Vigotski, Ratner e Silva mostram como Vigotskinão só era um revolucionário marxista comprometido, como ele expandiu o marxismo em novas formas ao aplica-lo à psicologia. Os autores criticam “vigotskianos” proeminentes contemporâneos que divorciam a ênfase de Vigotski na colaboração, na prática transformativa, e no desenvolvimento humano do projeto de emancipação socialista. Por exemplo, a atividade laboral é a origem da psicologia para Vigotski e Marx, mas os intérpretes de Vigotski desconsideram a alienação do trabalho sob o capitalismo, analisando-a como um fenômeno ameno, neutro.

Os oito capítulos do livro buscam recuperar o trabalho de Vigotski de tais distorções aplicando sua abordagem a questões específicas como imaginação e criatividade, língua e bilinguismo, e sociocostrutivismo. No capítulo que compreende a maior parte do livro, Ratner sistematicamente articula um quadro geral para a psicologia marxista que examina a origem social da consciência humana emanando da relação política e econômica no coração da cultura humana. Ratner argumenta que “psicologia macro-cultural” é uma abordagem bem adequada para o avanço da psicologia marxista. Ele escreve, “Uma forma de estender e avançar os conceitos de Vigotski seria adentrar debates quanto a causas… da inteligência, identidade, emoções, habilidades cognitivas, desenvolvimento infantil, sexualidade, ou doenças mentais. Vigotskianos poderiam elaborar as bases culturais dessas competências e refutar as causas nativistas, biológicas e pessoal-subjetivas”. Assim, Ratner nos incita a buscar inspiração dos cientistas marxistas dos anos 1970 e 1980 que refutaram o reducionismo biológico. Ratner também faz um argumento persuasivo de que ideias que podem ser incompatíveis com o marxismo, mas que ainda assim possuem valor psicológico – como a psicanálise freudiana – podem ser reformuladas e efetivamente incorporadas à psicologia marxista.

Ainda que Ratner preste um serviço ao delinear amplos princípios para uma psicologia marxista, às vezes ele simplifica por demais a teoria vigotskiana no processo. Por exemplo, ele escreve “Vigotski enfatizou a linguagem como base do pensamento”, no que ele se contraporia a Marx e Engels quanto às bases da vida social da linguagem. No entanto, em Imaginação e criação na infância e Pensamento e linguagem, Vigotski discute como a língua emerge historicamente para facilitar o trabalho humano cooperativo, referenciando Engels. Além disso, Vigotski relaciona o insight cognitivo dos símios no feitio de ferramentas simples para conseguir comida e o pensamento de crianças humanas antes da aquisição da língua. A língua não é a base do pensamento para Vigotski, mas a língua revoluciona, sim, o pensamento humano tanto historicamente quanto ao longo de nossas vidas individuais. Ao interagir no mundo, o pensamento e a língua da criança se entrelaçam dialeticamente para formar um poderoso novo modo de pensamento verbal, marcado pelo discurso interior silencioso. O desenvolvimento do pensamento e fala infantil se baseia em sua atividade prática, e precisamos ler Vigotski para ver essas dialéticas psicológicas em ação.

Ratner oferece um antídoto à psicologia convencional, e sua abordagem abertamente política é revigorante e esclarecedora. Já quanto como transformar a sociedade, Ratner oferece menos insights. Ele frequentemente critica demandas por reformas no capitalismo (ex. “Black Lives Matter”) como distrações da revolução, ao invés de mostrar como movimentos como BLM contribuem para construir forças revolucionárias e desafiam o racismo que é tão integral no capitalismo estadunidense. Um tanto surpreendentemente, Lênin, Trótski e o partido bolchevique não aparecem no livro, e o papel da ação, liderança política e consciência radicalizada na transformação revolucionária não são satisfatoriamente abordados. Enquanto Ratner detalha influencias sociais, culturais e históricas com destreza, sua visão de como a sociedade se transforma parece extremamente mecânica em alguns momentos. Munidos do conhecimento da valorosa obra de Ratner, cabe a nós desenvolver mais adiante o lado subjetivo da dialética revolucionária em que o autor avança.

 

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no pocket

Posts recentes

Mais lidos

6 comentários em “Construindo uma psicologia marxista”

    • Muito bom o texto e é urgente a maior divulgação do Ratner aqui no Brasil. Agora, afirmar que ele é um dos poucos psicólogos na atualidade que buscam construir uma psicologia de base marxista é um grande exagero, considerando os vários núcleos de pesquisa aqui e lá fora (América Latina, Europa, Ásia, etc.) que tem uma grande contribuição à psicologia histórico-cultural.

      De resto, só elogios, e espero mesmo que saia mais coisas da psicologia marxista pelo LavraPalavra ✊

      Responder
  1. Estou adorando ver que mais pessoas estão divulgando a psicologia marxista e as ideias de Vigotski e os demais da “troika”, quem sabe esse seja o início de mais pessoas, e principalmente marxistas, iniciando seus estudos na PHC e se desprendendo um pouco do ecletismo e modismo da psicanálise (não querendo afirmar que a psicanálise deva ser descartada por completo, mas há grandes divergências epistemológicas que muitos marxistas parecem ignorar)

    Responder
  2. Muito bom o texto e é urgente a maior divulgação do Ratner aqui no Brasil. Agora, afirmar que ele é um dos poucos psicólogos na atualidade que buscam construir uma psicologia de base marxista é um grande exagero, considerando os vários núcleos de pesquisa aqui e lá fora (América Latina, Europa, Ásia, etc.) que tem uma grande contribuição à psicologia histórico-cultural.

    De resto, só elogios, e espero mesmo que saia mais coisas da psicologia marxista pelo LavraPalavra ✊

    Responder

Deixe um comentário