J. William Fulbright, o apagamento da memória e a fuga de cérebros

Por Fernando Alcântara

Provocado por uma nota de rodapé do ótimo livro “Há uma revolução em andamento – discursos de Malcolm X”, lançado em 2020 pela Lavra Palavra Editorial na página 50, nota 12, que faz uma breve biografia do ex-senador estadunidense James William Fulbright “foi um senador estadunidense pelo estado do Arkansas, parte da facção sulista do Partido Democrata, atuando principalmente em favor do militarismo e da segregação racial”; por curiosidade, decidi pesquisar um pouco mais sobre a figura história, objeto de crítica de Malcolm X e fiz algumas constatações interessantes:


Ao contrário do que imaginava, o primeiro resultado da pesquisa não é o verbete na Wikipedia do personagem e sim, o link para a Fulbright Brasil, uma página com domínio .org, comumente utilizado por páginas de organizações não governamentais ou sem fins lucrativos. A Fulbright Brasil se descreve como “Programa de Intercâmbio Educacional e Cultural do Governo dos Estados Unidos da América foi criado em 1946, por lei do Senador J. William Fulbright, e tem como principal objetivo ampliar o entendimento entre os EUA e outros países..” ainda “Durante toda a sua existência, este programa já concedeu mais de 370 mil bolsas de estudo, pesquisa e ensino a cidadãos norte-americanos e de outros 150 países.”. É seguido por um vídeo institucional que conta a trajetória “heróica” de um jovem que saiu da sua casa no Arkansas, viajou pelo Atlântico e estudou em Oxford, que conhecendo uma gama de diferentes pessoas, retorna aos Estados Unidos, e depois, decide ingressar na vida pública e se tornar senador pelo Estado natal. Desde então começa a trabalhar em projetos de intercâmbio internacional afim de “entendimento, amizade e relações pacíficas entre pessoas de outras nações com os Estados Unidos da América”.

Inspirador não é? – mas aí vem a lembrança da nota de rodapé e decido investigar a biografia do nobre senador internacionalista. Acontece que o verbete da figura, em português só é achado depois de seis páginas de pesquisa no Google, pois, todas as referências do nome só remetem a Fulbright Brasil e em todos os casos enunciado as bolsas de estudo ou falando bem da chamada comissão, e a Wikipedia brasileira traz uma biografia bem pobre, resumindo como:

“…um famoso senador estadunidense (1945-1975) pelo estado do Arkansas. Fulbright era parte da facção sulista do Partido Democrata e um firme defensor do militarismo, da segregação racial, mas igualmente da criação da ONU…”

Insisti na pesquisa em inglês e achei informações sobre o ex-senador que correspondem mais a sua biografia. Fulbright foi um profundo opositor do chamado Movimento pelos Direitos Civis que buscava a garantia dos direitos civis para população afro-americana depois de anos da chamada lei Jim Crown, política de segregação racial que imperava nos Estados Unidos. O na época senador pelo partido democrata era declaradamente defensor da segregação racial e com outros democratas do sul, Fulbright participou da obstrução da Lei dos Direitos Civis de 1964 e se opôs à Lei dos Direitos de Voto de 1965.

Fulbright também era crítico ferrenho da União Soviética, a nomeando como “inimiga número um dos EUA” e que “o objetivo principal dos países ocidentais era ligar contra o expansionismo soviético na Europa”. Considerado como um dos principais especialistas em política externa nos Estados Unidos, foi defensor diversas vezes que a URSS deveria ser derrotada, chegando a declarar no contexto da entrada da China na chamada Guerra da Coréia:

“Eu mesmo não pensei que nosso inimigo fosse o comunismo, mas principalmente a Rússia imperialista (sic)”

Mas como essa figura racista, defensora da segregação racial e do imperialismo estadunidense teve esse biografia pestilenta quase que apagada dos arquivos? Faz parte uma política de intercâmbio de várias mentes mais brilhantes do mundo para a  os Estados Unidos, na chamada política de “fuga de cérebros”, bem explicado no vídeo do camarada Jones Manoel – Imperialismo, dependência e fuga de cérebros. Hoje a Comissão Fulbright atua em 155 países e foca em pesquisadores de diversas áreas, professores sênior e doutorandos, oferecendo inicialmente uma bolsa de estudos e com a oportunidade de se tornar pesquisador financiado nos Estados Unidos. O programa é patrocinado pelo Bureau of Educational and Cultural Affairs do Departamento de Estado dos Estados Unidos, governos de outros países e setor privado (no Brasil com apoio do CAPES). Infelizmente, como é tudo meio obscuro encontrei pouquíssima informação dos alunos que estudaram lá através da bolsa e quais foram seus retornos aos países de origem. 

A última ironia é que faz parte do conselho diretor como presidente honorário nosso “ministro” das relações exteriores – Ernesto Araújo, um dos destruidores da educação pública e incentivo a pesquisa nacional.

Referências:

Há uma revolução em andamento – Discursos de Malcolm X, Lavra Palavra Editorial, 2020.

Comissão Fulbright Brasil – https://fulbright.org.br/comissao/

Verbete de Fulbright na Wikipedia em inglês -https://em.m.wikipedia.org/wiki/J._William_Fulbright

Texto em inglês da comissão sobre a biografia de Fulbright – https://www.cies.org/about-us/about-senator-j-william-fulbright

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